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João Filho volta ao balcão

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Patrick Brock · Salvador, BA
9/3/2006 · 124 · 2
 

João Filho agora tem celular. E está mais perto de conseguir o seu objetivo de viver de livros - ainda não são os seus, mas os do sebo Berinjela. Diz que a sina de balconista não acabou ainda (escreveu Encarniçado, seu primeiro livro, praticamente no balcão do comércio). Agora de casa nova, no Engenho Velho da Federação, terminou um livro de poesias, História do corpo. Apesar do título, são poemas metafísicos. Quando fui buscá-lo no posto de gasolina da Avenida Cardeal, me falou que está lendo As seis doenças do espírito contemporâneo, de Constantin Noica, romeno. Um resumo das doenças do espírito humano, coisa típica dos romenos de mesclar absurdo e lugar-comum, explicou.

Esse é o speed em que você vai encontrar João por esses dias. O cara tá lendo de tudo mesmo. Conversando, na ida para casa, pensei que o home tinha incorporado um Glauber Rocha erudito & católico & caótico. Disse pra eu escrever um romance de ficção científica. Botei ele do meu lado e sentei no computador. Meu prazo estava acabando. Tentei escrever de um impulso, fazendo perguntas rápidas para ele, mas desisti de vez quando acendemos uns negócios. Liguei o gravador.

- Tenho a fraqueza do poema-livro - ri, acendemos uns cigarros. Estou com uma tosse da porra, de febre, tendo alucinações. Ele já tem quatro livros na gaveta. Pergunto do Açougue-Sol, o que está mais próximo da publicação.

- Começa com uma novela que é quase a continuação de Encarniçado, mas nos outros contos busquei nova construção de ritmo e forma, com temática diferente, tendendo para a metafísica.

João lembra com tranqüilidade, até um pouco de enfado, da saraivada de entrevistas que deu em 2005, após a FLIP (Festa Literária de Parati). A mídia ajudou a ficar conhecido como escritor, mas não garantiu sua vida para sempre. O sucesso é uma ilusão. E este cara já viu fome demais por aí pra se impressionar com isso. A notoriedade coincidiu com uma longa de fase de desemprego.

- Eu sei que cada livro será uma batalha, como todo o autor brasileiro, mas não me deixei deslumbrar, encarei de maneira natural. Nunca dei tantas entrevistas como naquela época, mas não é isso que vai facilitar a vida econômica. O lado prático é outra história. Realizar literatura não é fácil, você pode ter a bagagem do mundo, mas se não fizer a letrinha funcionar ali, no papel, não funciona. Não que a bagagem não seja necessária, é o que chamo de livro-vivência. Sem bagagem, o cara não escreve.

Tou mesmo no limite, puxando o corpo por várias horas sem sono. Meu olho tá verde. Mas João tá tranqüilo. Bebe água. Disse que minha mãe é bonita, analisando uma fotografia velha. Pergunta da minha família - estamos nós num 15x20 esmaecido, na estante. Cavo mais.

- João, explica o Encarniçado pros viventes.

- Sempre pensei o seguinte, na idéia do Encarniçado, eu trabalho na sintaxe, e para mim sempre valeu a coisa de que se é pra fazer a mudança da forma, que seja não só na estrutura, mas também na própria estrutura da sintaxe. Como Sérgio Sant?anna (escritor) falou que o sexo se faz verbo, quando comentou a linguagem do livro. Agora, a virulência da temática e da forma de fazer isso falar, tudo é gritante, tudo é anguloso, era a fase que eu estava passando, morava em Bom Jesus da Lapa e queria enxugar toda aquela vivência nos contos do Encarniçado.

A essa altura, já percebi a multiplicidade das palavras. Uma variedade de secos e molhados, do balcão da venda. Foi a vida mundana mesmo, João, mas com figuras de outro lado, com vivências riquíssimas. Dedicou seu primeiro livro, o primeiro de prosa do poeta, a todas as personas ali praticadas. E Beethoven? Você toca Violino? Não pra ganhar dinheiro, mas pela religião. Aprendeu a tocar na igreja Congregação Cristã do Brasil, fé protestante de toda a sua família e que começou a freqüentar com seis anos de idade.

- Sou um religioso sem rito e sem instituições. Mas a infância, adolescência e juventude no culto me tiraram todo o sabor da igreja - a música era sacra, mas por fora ele tocava samba e também ouviu muito rock'n'roll, especialmente na fase mais porra-louca, dos 16 aos 24.

- Fase etílica braba, de beber de segunda a segunda, de manhã já tinha três copos de vodka na cabeça, já dormi em cima do vômito com cachorro lambendo a boca de manhã.

Por isso não bebe mais. Aliás, a escolha musical reflete a estabilidade deste dias: João é fã de choro e pesquisa a história de seus pioneiros. Ele já tentou vestibular pra direito e letras, em Recife e Salvador, não passou e hoje em dia dá graças a Deus, porque estuda sozinho no seu próprio ritmo. No final, faz poucas perguntas. Ouve a minha explicação da saga dos paranormais. Aí chegamos no Engenho Velho. Tem um pagodão rolando na rua, ele vai seguindo para a casa com a luz acesa, no beco, lhe entrego a revista Etcétera com sua foto na venda em Bom Jesus da Lapa e o texto Satisfeito como um velho nazi. Ele me aconselha a viver sem ansiedade. O futuro é agora.

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Vânia Medeiros
 

Pois é...

então quando eu estou comendo meu calzone de cenoura com milho na Berinjela e vejo João Filho lá, de olhos passeando de uma para outra pessoa que entra e sai, entre livros, pode ser que ele esteja pensando nas revoluções da sintaxe encarniçada em meio a todo aquele burburinho...

Bom João de volta ao balcão e por aqui.

Vânia Medeiros · Salvador, BA 11/3/2006 23:22
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Tutúia Sagaz
 

Minha amada, conheço bem o indigitado escritor. Por isso posso dizer que ao passear na Berinjela, lugar de frequências feminís abundantes, a revolução da sintaxe é uma das últimas coisas que se passa na mente do menino.

Tutúia Sagaz · Salvador, BA 7/4/2006 09:51
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