João Petra de Barros - doce voz esquecida do rádio

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Nísio Teixeira · Belo Horizonte, MG
27/6/2010 · 5 · 3
 

Por Nísio Teixeira*

Se estivesse vivo, o cantor João Petra de Barros completaria 86 anos em 23 de junho de 2010. Petra interpretou marchinhas, sambas-canções, foxtrotes e baladas em um total de 48 discos, com 94 canções ao todo, segundo o verbete do site do instituto Cravo Albim (ICCA) – número que aumento para 105 músicas, pois incluo aqui alguns duetos não considerados com Aurora Miranda (16 no total) na contagem do importante instituto – como a belíssima Se a lua contasse, de Custódio Mesquita. Além de Mesquita e Noel Rosa, compositores como Mário Lago, Orestes Barbosa, Valfrido Silva, João de Barro (o Braguinha), Ary Barroso, Ismael Silva, Peterpan e até mesmo o jovem Vinicius de Moraes e uma de suas primeiras canções – Dor de uma saudade – foram gravadas por Petra.

Sua carreira começa com um dos pioneiros do rádio brasileiro, o programa de Ademar Casé (avô da atriz Regina Casé), na Rádio Philips, onde torna-se colega de trabalho (e de copo) de Noel Rosa. Mas sua primeira oportunidade de gravação surge a partir de um entrevero entre Noel e Francisco Alves, que retornavam de uma turnê pelo sul do país no primeiro semestre de 1932, em meio à qual Noel se apaixonou e compôs a letra de Até amanhã após deixar a namorada. Francisco Alves leu e animou-se a gravar. Cansado de ter Chico Viola como parceiro em composições que ele, Ismael Silva ou o finado Nilton Bastos sempre faziam, Noel pega a letra de Chico e diz: “essa vai para o João Petra”, como contam João Máximo e Carlos Didier em Noel Rosa – uma biografia. (Brasília: UnB, 1990).

Até amanhã foi assim a estréia de João Petra, que grava a canção no dia 19 de outubro de 1932, no álbum 10950 da Odeon. O disco será lançado em janeiro do ano seguinte e traz ainda o samba Quero falar com você (Gradim e Noel Rosa). Virão outras importantes gravações como Seja breve e Linda Pequena. A primeira, de Noel, é um dueto entre Luiz Barbosa e João Petra de Barros. A segunda, interpretada somente por Petra de Barros, é conhecida composição de Noel e Braguinha: As Pastorinhas. A marcha-rancho, embora tivesse sido levemente alterada e relançada pelo Braguinha em 1937 na voz de Sílvio Caldas, na versão que hoje conhecemos, fora cantada dois anos antes por Petra de Barros, que aliás se tornou intérprete de várias músicas de Noel, incluindo aí a primeira versão de Feitiço da Vila (de Noel e Vadico).
A carreira de Petra, com a boemia e o programa do Casé, integra-se efetivamente nesta primeira geração do rádio. O curioso é que a trajetória de Petra tem dois momentos bem definidos que coincidem com períodos importantes do rádio brasileiro na década de 1930 e 1940. No primeiro deles, entre 1932 e 1939, o rádio brasileiro dá os primeiros passos rumo à profissionalização a partir do decreto 21.111, de 1º de março de 1932, que regulamenta a propaganda comercial, entre outros pontos. Poucas estações funcionam, os cachês, quando existentes, são modestos, bem como os equipamentos. Contudo, a partir de 1936, o número de emissoras no país ganha a casa dos dois dígitos, o alcance começa a ficar maior e, além disso, até mesmo revistas como Fon Fon e Carioca abrem páginas específicas para o rádio.
O segundo momento começa em 1939, quando o ano torna-se um marco pela consolidação do modelo de propaganda getulista com a implantação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que deriva de 1934, cristaliza-se com o Estado Novo (1937) e em 1940 estatiza e potencializa a rádio Nacional (PRE-8) como elemento de unidade do getulismo no país. Nesse período aumentam o circuito industrial e comercial do rádio, que atinge níveis elevados de comércio, intercâmbio internacional e programação. Por tudo isso o rádio sofrerá um abalo com a saída de Vargas e com o decreto-lei 9215, de 30 de abril de 1946, já no governo Eurico Gaspar Dutra, que proíbe no país o funcionamento de cassinos (onde muitas estrelas do rádio cantavam).
João Petra acompanha esses dois momentos: com boa parte de sua carreira construída entre 1933 e 1937, um interregno entre 1937 e 1939 e memorável retorno entre 1939 e 1946. Entre outubro de 1933 e janeiro de 1937, salvo por um período de dois meses na Victor (agosto e setembro de 1933, quando grava seis canções), a principal gravadora de Petra foi a Odeon, onde grava mais da metade de toda sua obra (62 canções), incluindo todos os principais duetos da carreira: com Noel Rosa, Joaquim Medina, Luís Barbosa, o irmão Mário Petra e, principalmente, Aurora Miranda. No primeiro semestre de 1934, o cantor excursiona com as irmãs Carmen e Aurora Miranda, o humorista Jorge Murad e outro importante compositor e amigo, Custódio Mesquita, com apresentações memoráveis no Rio (Cine Glória) e em São Paulo (Teatro Santana e, em 1935, na Rádio Record).
Há um hiato de informações acerca de Petra entre os anos 1937 e 1939. Até aqui, a pesquisa dá conta que Petra está para se casar e, desempregado, vai tentar a sorte no Rio Grande do Sul. Mas convém observar que é precisamente em maio de 1937 que morre um dos principais amigos, Noel Rosa (há informações de que Petra participou do enterro e das homenagens) enquanto, meses depois, nasce o Estado Novo. O cantor, em 1938, irá perder outro parceiro (Luís Barbosa, no dia 8 de outubro, aos 28 anos. Como Noel, vítima da tuberculose). Só irá reaparecer em 12 de janeiro de 1939 e em grande estilo: durante um programa especial da rádio Record de São Paulo (PRB-9), para a inauguração dos novos estúdios da emissora. Aí reencontra as irmãs Miranda, Orquestra Nicolini, Sílvio Caldas, Almirante, Bando da Lua e Jayme Britto. A rádio Tupi (PRG-3) aproveita a presença dos artistas cariocas em SP e também promove uma série de shows no teatro Santana, entre 9 e 12 de janeiro.
Assim, nesta segunda fase, o artista ressurge em 1939 e tenta retomar o seu lugar ao sol em uma indústria cultural radiofônica mais complexa e profissional, impulsionada por maiores ações da iniciativa privada, marketing junto às publicações e, no campo do governo, pela ascensão da Rádio Nacional, em meio à expansão das demais emissoras – todas sob os olhos atentos do DIP. Em 1940, após disputa com o intérprete Roberto Paiva, célebre cantor do primeiro registro da música Oh Minas Gerais!, Petra consegue um contrato de exclusividade, como outros artistas, junto à gravadora Victor (ver anúncio nesta página), onde grava 32 canções entre janeiro de 1940 e fevereiro de 1944. Sua carreira na indústria fonográfica termina com o registro de apenas quatro fonogramas pela Continental, então coordenada pelo Braguinha, lançados entre fevereiro de 1945 e setembro de 1946.
Vale ressaltar, ainda, que o hiato 1937-1939 na carreira de Petra marca também uma mudança dos compositores do intérprete. Antes de 1937, os principais eram Custódio Mesquita (de quem gravou 13 canções), Noel Rosa (8), Orestes Barbosa, André Filho, Valfrido Silva e Alberto Ribeiro (5 cada um), Ismael Silva (4), Kid Pepe (3), Paulo Roberto, Ary Barroso, Haroldo Lobo e Braguinha, dentre outros (2 cada). Após 1939, passam a ser Peterpan (5), Afonso Teixeira, Marino Pinto, Milton de Oliveira e Nilton Teixeira (3 cada) e Paulo Rodrigues/Paulo Coelho, Pedro Caetano/Geraldo Gomes e Ciro de Souza (2). Dos compositores da fase anterior, só o amigo Mesquita (que vai morrer em março de 1945, aos 35 anos, na véspera de assumir a diretoria da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT), Haroldo Lobo e Braguinha reaparecem, cada um, com uma composição para Petra, além de Valfrido, que vem com duas composições. Não entraram em nenhuma das listas os compositores que contribuíram com apenas uma música, mas há exemplos memoráveis como a anteriormente citada canção de Vinicius, além de outras como Beijo mascarado (Gadé e Almanir Grego, 1935); Mal agradecida (Ataulfo Alves e Jardel Noronha, 1941); Rosa de veludo (Mário Castelar e José Maria de Abreu, 1941); Mais um minuto apenas (Mário Lago - com Nilton Teixeira - 1942); Louquinho por ela (Léa de Souza, 1942) e Quem é o tal? (sátira a Hitler por Ubirajara Nesdan – com Afonso Teixeira – 1942).

No rádio, após o reencontro, em 1939, com irmãs Miranda e outros em São Paulo, Petra volta para o Rio, onde só vai conseguir contrato em julho, na Rádio Transmissora (PRE-3), junto com Marília Batista e a dupla Joel e Gaúcho. Petra fica na PRE-3 até dezembro, quando a Transmissora, por problemas financeiros, cancela o contrato. Mas, naquele mesmo mês, Petra participa de novo programa na rádio Ipanema (PRH-8) e em janeiro de 1940 é convidado para duas noites especiais do programa Museu de Cera, de Heber Bôscoli, na rádio Cruzeiro do Sul (PRD-2), sobre Noel Rosa e Luiz Barbosa, saudosos amigos.

Em março de 1940 passa a integrar a Rádio Mayrink Veiga (PRA-9) contratado por César Ladeira, o qual, notório por sua obsessão em dar alcunhas para os artistas, criou ali o bordão “a voz de 18 quilates” atribuída a João Petra. O cantor reencontra o sucesso com as músicas de Peterpan (como Última inspiração) e várias baladas, marchas e sambas (como Quem será?, Ai, ai, ai e Santo Antônio amigo), em especial as que foram produzidas para o carnaval de 1941. Nesse ano, em outubro, Petra torna-se exclusivo da Rádio Ipanema (PRH-8), ao ocupar lugar de Manoel Reis. Cerca de quatro anos depois, em janeiro de 1945, retorna à ex-rádio Transmissora (PRE-3), então já rebatizada pelo novo proprietário, Roberto Marinho, como rádio Globo, onde permanece até a ocasião de seu trágico e fatídico acidente em 1946.

Naquele ano, no dia 22 de julho, por volta das 18h30, enquanto viajava no estribo de um bonde pela rua da Assembléia com destino à Praça 15, no Rio, João Petra de Barros é vitimado por uma caminhonete da Escola de Aeronáutica. O veículo se choca com o bonde, fraturando o terço médio da perna direita de Petra de Barros. O cantor recebe atendimento no Hospital de Pronto Socorro, mas tem a perna amputada. Petra retira-se da cena artística, apesar do apoio de amigos, como, por exemplo, Carmen Miranda, que o teria convidado para se tratar nos Estados Unidos. Inconsolável, o cantor tenta se matar por duas vezes, até conseguir alcançar o suicídio em 11 de janeiro de 1948. Três dias depois, a coluna Rádio, de Alziro Zarur, publicada no jornal A Noite, assim também se despede de Petra: “Morreu o cantor da voz de 18 quilates, como lhes chamou César Ladeira, nos tempos áureos da PRA-9. Depois de rudes sofrimentos, que o amigo leitor está longe de imaginar, João Petra de Barros cerrou para sempre aqueles olhos bons, que eram bem o fiel espelho de sua alma de escol.” Que essa doce voz do rádio possa descansar em paz.
__________
* Jornalista e professor, segue reunindo informações sobre João Petra de Barros. Contatos ou dicas pelo e-mail nisiotei@gmail.com. Boa parte das músicas aqui citadas de Petra pode ser ouvida através do campo “Busca no Acervo” do seminal e importantíssimo trabalho de música digitalizada de discos 76 e 78 RPM disponível pelo site do Instituto Moreira Salles: www.ims.com.br. A primeira versão deste texto foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas de 19 de junho de 2010, caderno Pensar.


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gteixeira
 

Nisio.
Parabéns pelo trabalho de pesquisa e apanha, nós ñ temos esse hábito saudavel de preservar nossa memória cultural, e isso é muito bom.
Valeu.
Aproveito a deixa e peço p/ver alguns das nossas postagens.
- A ponte
- Cotidiano
- Entre os muros do convento, e outras.
Abraços
Gteixeira
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Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 27/6/2010 23:22
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Nísio Teixeira
 

Obrigado GTeixeira pelas palavras!! Aproveito a deixa para lembrar aqui também do excelente trabalho de recuperação feito pela Collector's Studio desses fonogramas em 78 RPM. Abraços!!

Nísio Teixeira · Belo Horizonte, MG 1/7/2010 22:13
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Nísio Teixeira
 

RETIFICAÇÃO IMPORTANTE: a versão interpretada por Paiva, de Oh, Minas Gerais não foi a primeira. Cerca de três anos antes, em 1942, a canção começara sua carreira como espécie de hino não-oficial do estado com uma bela versão, pela Odeon, de José Duduca Moraes com Manezinho Araújo e Antenógenes Silva. Duduca, por sua vez, construiu sua letra a partir de uma outra canção, feita por Eduardo das Neves em 1910 em homenagem - não diretamente - ao estado, mas ao encouraçado Minas Geraes, que marcava, na ocasião, o inicio de uma importante renovação na frota marinha brasileira.
Das Neves escreveu a letra do Minas Geraes sobre outra música, a tradicional canção napolitana Vieni sul mar, provavelmente difundida no Brasil através das companhias italianas que atuaram aqui na virada do século XIX para o XX ou mesmo pelo famoso cantor italiano Enrico Caruso, que gravou a canção.

Nísio Teixeira · Belo Horizonte, MG 29/7/2010 02:21
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