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Jongo, Nongo, Jinongo

Extraído de www.mwangole.com
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Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
17/4/2008 · 222 · 27
 

Desamarrando os nós do Caxambu


Você já ouviu, pelo menos por alto, falar em Jongo, certo? Pois este será o longo papo do enredo #02 da série ‘Crioulo doido revisitado’.

A nos motivar o fato de, a começar pelo nome, Jongo ser um tema controverso, misterioso, sobre o qual pairam algumas sombras, um prato cheio, portanto, para os fazedores de mitos, diligentes construtores de engodos e mistificações.

Se você não sabe tudo sobre o assunto vamos ver se eu acerto, pelo menos, o que você, já sabe . Depois a gente vai em frente.

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Conceito e Charada
Abrindo a roda do Jongo

Jongo é uma dança de negros, correto?

Certo, mas convenhamos, saber disso não é lá saber muita coisa. Afinal, contam-se às dezenas, talvez centenas, os tipos de dança de ‘negros’ neste país. Jongos, Catupés, Ticumbis, Congadas, Samba de roda, Samba disso, Samba daquilo, Afoxé, Baião, Maculelê, Lundu, Capoeira, mais todos os eteceteras possíveis e imagináveis, para ficar só naquelas danças mais antigas, manjadas.

Isto sem falar que este papo de dança de negros não é lá muito politicamente correto. Danças Afro-brasileiras cairiam bem? Danças ‘afro-descendentes’? Talvez fosse até melhor. Não sabe? Muito menos eu.

(Enigmas são sempre tabus cabeludos. Difícil ser politicamente correto nestas horas).

Ademais, Jongo não é só uma dança. É muito mais...O que?...Ah, claro, claro, você se lembrou agora que sabe um pouco mais sobre Jongo.

Oh, que legal! Quer dizer que, aqui mesmo neste site, você aprendeu que o Jongo não só é uma dança de negros como é praticada no sudeste do Brasil, e cuja principal característica é ser uma dança de umbigada, ou seja, as pessoas, enquanto dançam, chamam umas às outras, para a contradança, com um toque de corpo, geralmente encostando uma a barriga na outra?

Boa esta descrição, mas, ela satisfaz ao que você sabe sobre o assunto? Não? Sabe mais um pouquinho ainda? ...Ah, sim! Você até já assistiu a uma apresentação deste tal de Jongo, num palco.

Caraca! Jongo num palco?! É mesmo? Esta eu preciso ver. Descreva você mesmo então. Como? Se quero que conte...‘antropologicamente’? Não... pode ser do seu jeito mesmo:

_ Um grupo racialmente misto, de jovens; as mulheres, invariavelmente, com saiões estampados e homens também jovens, com calças brancas, ‘pelas canelas’ (‘calças de escravos’ como se diz), saracoteando e dando estas umbigadas, ao som de cantigas muito curtas e características, acompanhadas por dois ou três tambores, semelhantes aos de ‘macumba’.

Como um admirador do gênero, você reparou que havia uma estranha diferença, além dos tambores, no ritmo, no modo de dançar e nas roupas dos grupos mais humildes (aqueles mais da roça, que tinham maior número de pessoas velhas e muita gente pobre e preta) e os demais grupos (aqueles nos quais rodopiavam faceiras, as tais meninas de saião e os rapazes de calças ‘pescando siri’).

Com este reparo aliás (longe está você de criticar qualquer coisa), a sua impressão sobre este aspecto do evento, foi até bastante positiva.

Aposto, contudo, que você ficou intrigado com o fato de as jovens moçoilas usarem sempre – que diabo! - aquele mesmo saião estampado, exatamente o mesmo que usam outras jovens moçoilas nos novos grupos de Maracatu, Caixeras do Divino, Boi Bumbá e tantas outras danças tradicionais ‘urbanizadas’ que pululam hoje em dia nas grandes cidades do Brasil. Não ficou intrigado ?

Mas notou, com certeza, que no grupo dos ‘véios’ não tinha nada disto não. Deve até ter se perguntado, ingenuamente, porque não se usa no Jongo (como acontece com os indefectíveis saiões) aquelas impressionantes alfaias ‘tradicionais’ usadas em todos os outros gêneros deste ‘neo-folklore’. Quer saber o que quer dizer ‘Alfaia’? Tá, eu explico: Se for para ser tradicional mesmo, alfaia não teria mesmo nada a ver com Jongo. Alfaia é de Maracatu, menino. É tambor nordestino, ibérico, árabe, e só nestas ‘praias’ lá ‘de riba’ poderia ser considerado ‘tradicional’.

- Tradicional! Tradicional!Pufff!


Não gosta deste papo de tradicional? Pois quer saber? Honestamente? Nem eu. É por isto que eu fico batendo nesta tecla.

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Jongo fashion night
Brincando com o fogo


Uma coisa no entanto, é certa (se é que você ainda está ligado no assunto). Já observou que o MinC atual tem dado muita atenção a esta manifestação (o Jongo) e existe até um movimento junto ao IPHAN no sentido de transformar a dança em patrimônio imaterial da humanidade. Até mesmo eu já comentei sobre este assunto aqui neste sítio.

Está claro e sabido para você que, sendo uma dança hoje assim, tão reconhecidamente ligada às nossas raízes africanas (e, providencialmente, agora tão prestigiada por nossos órgãos de defesa e fomento da cultura nacional), o Jongo tende a ser objeto de muitos projetos de preservação e divulgação, tendência esta que, também se pode deduzir facilmente, pode ser o que estimula a existência hoje de tantos grupos de Jongo, organizados até, num enorme coletivo de ‘Jongueiros’ que se reúne todos os anos, num concorrido encontro financiado pela Petrobrás.

Bem, como não poderia deixar de ser, você chegou a notar também que já há uma curiosa ‘mistura social’ vislumbrada na, digamos assim, composição social destes grupos ‘neo-tradicionais’, certo? As tais moças e os tais moços muito jovens, aparentemente são de extrato social bem diverso daquele do qual são oriundas as ‘véias’ e os ‘véios’ jongueiros da roça, negros em sua esmagadora maioria, tipos bem característicos dos grupos de Jongo antigos, jongueiros ‘autênticos’, como dizíamos antes deste boom do Jongo ‘contemporâneo’ dar as suas caras. Seria resultado dos bons ventos da democratização do país?

Se você se enquadra no perfil do meu imaginário interlocutor, prepare-se para se surpreender com o que saberá a seguir. Se souber um pouco mais que eu, não se avexe não, contribua com a evolução da brasilidade latente de nossa galera e não nos esconda nada.

Por enquanto, sobre Jongo (como diria o Caetano Veloso, enquanto era vaiado naquele festival dos anos 60) vamos fingir que...:

__ Vocês não sabem de nada!

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O Jongo e o mito na Wikipédia
Na Wikipédia? Oh God! Mon Dieu!

Conheço, não exatamente por acaso, o autor do verbete da Wikipédia para ‘Jongo’ (que poucas alterações recebeu até hoje, quando lá fui para reler e conferir ).

Como ainda não é crime revelar o autor de uma colaboração voluntária em uma enciclopédia da internet (além de ser tachado de cabotino, é claro) confesso: Fui mesmo o autor da maior parte do verbete, ora vigente na Wikipédia sobre “Jongo”. Porque confesso? É que acabo de descobrir, algo indignado, que o tema de nossa conversa desta série de posts - Mitos e mistificações no estudo da Cultura negra do Brasil - está sendo perpetrado, imaginem só, agora mesmo lá, naquela internacional, glamourizada e globalizada ‘enciclopédia’ on line, bem nas nossas barbas.

(Havia um outro verbete sobre Jongo lá, antes do meu, mas achei ele tão equivocado e desprovido de consistência e, aparentemente, tão atrelado aos interesses de um certo grupo de neo-jongueiros, que, me animei em ir lá escrever o que escrevi.)

Dureza. Missão quase impossível.

Saibam que a maioria dos administradores ‘especialistas’ da Wikipédia lusófona (gente boa, que aceita debater francamente), aparentemente, se encaixa no seguinte perfil: Jovens de Lisboa (desconfio que acadêmicos, recém graduados em Coimbra ou no Porto) com pouco ou nenhum conhecimento sobre cultura brasileira (o que é natural), porém, em relação a nós, brasileiros, cada um se achando mais saramago que o outro.

O problema poderia ser facilmente solucionado, pelo menos em parte, com o apoio dos poucos coordenadores ‘especialistas’ brasileiros que por lá existem (eu sei, não seria lá estas coisas, mas, vá lá que seja), havia, no caso do verbete do Jongo, contudo, um problema bem mais especializado e complicado: Além de se tratar de cultura negra (um problema para intelectuais tupiniquins em geral, como se está concluindo aqui) tratava-se de - oh deus! - cultura angolana no Brasil.

Ora, Angola, além do trauma da escravidão, é um problema quase psicopatológico para lusitanos mais nacionalistas. Para eles Angola é uma terra de perdas de dimensões marítimas, camonianas, diante da qual, por razões compreensíveis até, os portugueses têm ressentimentos profundos, por conta de graves seqüelas sentimentais deixadas pela derrota do exército dos ‘Putos’, dos ‘Tugas’ naquela sangrenta guerra colonial terminada na recente década de 1970.

Como já dizia o bardo deles: ‘Navegar – e esquecer – é, cada vez mais, preciso’.

Acossado portanto por este tipo de ‘especialista’ ressentido, arrogante e presunçoso, tive que duelar semanas à fio (em embates intelectuais homéricos, às vezes) para conseguir implantar, ás custas de muita verve, argumentos ‘irrefutáveis’ e caudalosas referências bibliográficas, os meus modestos verbetes de negão (um dos quais – este sobre o Jongo – é o objeto deste nosso post)

Nestes casos, sobra, naturalmente, a alternativa de voltar a encarar as turras homéricas com os ‘especialistas’ luso-brasileiros e corrigir o verbete, mas, isto, convenhamos, é coisa de quem não o tem mais que fazer. Parei com eles por causa disso.

Vamos fazer então aqui e agora a autópsia do verbete enxovalhado. Teórico de conspirações que, assumidamente, sou, me arrisco a supor que o conteúdo do verbete foi adulterado para atender a interesses ligados a desqualificação do fator tradicionalidade da manifestação (do Jongo, no caso) aqueles elementos e evidências que, se constassem do laudo do IPHAN, desautorizariam certos grupos ‘neo-tradicionais’ de se auto-intitularem representantes legítimos do Jongo... tradicional.

(Tradição sendo, neste caso, igual a requisito para o tombamento de um bem cultural da humanidade classificado como imaterial. Bem tombado sendo igual à habilitação para reivindicar recursos de patrocínio público e privado. Sacaram a malandragem?)

Vejam vocês – e deduzam por si mesmos - as entranhas de uma mistificação sendo urdida agora mesmo. E que Nzambi, Alá, Jeovah e os outros deuses todos me lancem no limbo mais escuro se eu não tiver razão.

(Os conceitos contidos no verbete, servirão para embasar o nosso debate, exceto as tais intervenções marotas que algum misterioso colaborador inseriu ali, com as intenções que apenas insinuo aqui, as quais, obviamente, estarão abaixo, devidamente, assinaladas em negrito):

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Jongo (in Wikipédia)
O contexto


(atenção para as armadilhas conceituais em negrito que, por pura ‘maldade’, inseri no texto do verbete originalmente publicado)

“Jongo é uma manifestação cultural essencialmente rural diretamente associada à cultura africana no Brasil e que influiu poderosamente na formação do Samba carioca, em especial, e da cultura popular brasileira como um todo.

Inserindo-se no âmbito das chamadas 'danças de umbigada' (sendo portanto aparentada com o 'Semba' ou 'Masemba' de Angola), o Jongo foi trazido para o Brasil por negros bantu, seqüestrados nos antigos reinos de Angola e do Congo, na região compreendida hoje por boa parte do território da República de Angola.

...” Dançado e cantado outrora com o acompanhamento de urucungo (arco musical bantu, que originou o atual berimbau), viola e pandeiro, além de três tambores consagrados, utilizados até os nossos dias, chamados de Tambu ou 'Caxambu', o maior - que dá nome a manifestação em algumas regiões - 'Candongueiro', o menor e o tambor de fricção 'Ngoma-puíta' (uma espécie de cuíca muito grande), o Jongo é ainda hoje bastante praticado em diversas cidades de sua região original: o Vale do Paraíba na Região Sudeste do Brasil, ao sul do estado do Rio de Janeiro e ao norte do estado de São Paulo”....


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Jongo (in Wikipédia)
O Conceito

...”Composto por música e dança características, animadas por poetas (inserção de algum colaborador misterioso e mais’ lúdico ’(menos lúcido, talvez) do que eu que, no original, havia grafado ‘cantadores’) que se desafiam por meio da improvisação, ali, no momento, com cantigas ou pontos enigmáticos ('amarrados') , o Jongo tem, provavelmente, como uma de suas origens mais remotas (pelo menos no que diz respeito á estrutura dos pontos cantados) o tradicional jogo de adivinhas angolano, denominado Jinongonongo

...”Este fator relaciona-se a normas éticas e sociais bastante comuns em diversas outras sociedades tradicionais - como as indígenas americanas - baseadas no respeito e obediência a um conselho de indivíduos 'mais velhos' e no 'culto aos ancestrais'.

Pesquisas históricas indicam que o Jongo possui, na sua origem, relações com o hábito recorrente das culturas africanas de expressão bantu, durante o período colonial, de criar diversas comunidades, semelhantes a sociedades secretas e seitas político-religiosas especializadas, dentre as quais podemos citar até mesmo irmandades católicas, como a Congada. Estas fraternidades tiveram importante papel na resistência à escravidão, como modo de comunicação e organização, e até mesmo comprando e alforriando escravos”...


(Esta tese do Jinongonongo, que eu tirei de Ladislau Batalha, aguarda debatedores para ser ou não legitimada. Veja mais abaixo parte da minha argumentação: )

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Jongo (in Wikipédia)
O Conceito fraudado

Aqui, no seguimento do verbete logo abaixo - muita atenção leitores! - no longo trecho em negrito, há uma curiosa inserção, proposta – e aceita pela Wikipédia - por algum misterioso colaborador que, ao que parece distorce, intencionalmente, um conceito fundamental da manifestação (Jongo) que é o caráter seletivo dos participantes logo abaixo, pela minha proposta, explicitado.

Se liguem nos detalhes (as inserções espúrias), em negrito portanto:

” Uma característica essencial da linguagem do Jongo é a utilização de símbolos que, além de manter o sentido cifrado, possuem função supostamente (sic) mágica, provocando, supostamente (sic), fenômenos paranormais. Dentre os mais evidentes pode-se citar o fogo (?), com o qual são afinados os instrumentos; os tambores, que são consagrados e considerados como ancestrais da comunidade (?); a dança em círculos com um casal ao centro, que remete à fertilidade(?); sem esquecer, é claro, as ricas metáforas utilizadas pelos jongueiros para compor seus "pontos" e cujo sentido é inacessível para os não-iniciados..(!)”.

...”Hoje em dia podem participar do Jongo homens e mulheres mas esta participação, em sua forma original era rigorosamente restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade...”


(Um primor de incongruência esta oposição criada pelos adulteradores do verbete entre ‘homens e mulheres’ e ‘iniciados/‘mais experientes’, querendo significar é claro, embora canhestramente, que hoje já não seria mais necessário ser ‘iniciado’ ou ‘mais experiente’ para participar do Jongo, abolindo um aspecto crucial à tradicionalidade da manifestação: a condição de participante dos grupos efetivamente tradicionais.

Vejam no original:

...” Da manifestação do Jongo podem participar homens e mulheres, mas esta participação, em sua forma original, sempre esteve, rigorosamente, restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade...”

Ao que tudo indica, desprovidas de fundamento que são, as distorções, claramente, visam autorizar a inclusão de certos grupos ‘neo-tradicionais’ dentro do conceito de ‘tradicionalidade’ que antes, no verbete original era afirmado como sendo restrito e determinado, ou seja:

Do Jongo tradicional, não deveriam participar indivíduos não iniciados. Jongo seria uma manifestação de ‘mais-velhos’ (um conceito ainda usado em Angola e no Brasil).

Estariam aptos a ser objeto de tombamento, apenas grupos, efetivamente, tradicionais (segundo os critérios de tradicionalidade – Conceito e Contexto - determinados) que, são, exatamente, aqueles grupos descritos como sendo ‘da roça’, integrados pelos ‘véios’ e véias’ (as que não usam aqueles saiões estampados).

São inseridos também no verbete, aleatoriamente, uma lista de símbolos substitutos daqueles, originalmente, descritos no verbete original, símbolos estes, que possuem relação com antecedentes angolanos, entre os quais os mais conhecidos são a bananeira e a fogueira (e não exatamente o fogo) além de outras práticas ancestrais, que remontam ao passado africano da manifestação, plenamente identificáveis por observadores mais especializados no assunto aqui e na África)

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Jongo (ainda in Wikipédia)
O Jongo se urbaniza (e agoniza) numa boa


A seguir, o verbete original (em sua parte preservada), relata o surgimento de recriações de Jongo, posteriormente, realizadas, por descendentes de escravos do Vale do Paraíba do Sul, que migraram para o Rio de Janeiro após a abolição, frisando de modo enfático, o surgimento desta linha que seria o final de um caminho evolutivo que, do modo como foi descrita a manifestação no contexto de suas finalidades históricas e sociais mais importantes, representaria o ponto de extinção (naquele novo contexto) daquela vertente.

...”A cidade do Rio de Janeiro, na região compreendida pelos bairros de Madureira e Oswaldo Cruz, já nos anos imediatamente posteriores à abolição da escravatura, centralizou durante muito tempo a prática desta manifestação na zona rural da antiga Corte Imperial, atraindo um grande número de migrantes ex-escravos, oriundos das fazendas de café.

Entre os precursores da implantação do Jongo nesta área se destacaram a ex-escrava Maria Teresa dos Santos muitos de seus parentes ou aparentados além de diversos vizinhos da comunidade, entre os quais Mano Elói (Eloy Anthero Dias), Sebastião Mulequinho e Tia Eulália, todos eles intimamente ligados a fundação da Escola de Samba Império Serrano"...

...”A partir de meados da década 70, no mesmo Morro da Serrinha, o músico percussionista Darcy Monteiro 'do Império' (mais tarde conhecido como Mestre Darcy), a partir dos conhecimentos assimilados com sua mãe, a rezadeira Maria Joana Monteiro (discípula de Vó Teresa), passou a se dedicar á difusão e a recriação da dança em palcos, centros culturais e universidades estimulando por meio de oficinas e workshops, a formação de grupos de admiradores do Jongo que, embora praticando apenas aqueles aspectos mais superficiais da dança, deslocando-a de seu âmbito social e seu contexto tradicional original, dão hoje a ela alguma projeção nacional”...


Pois é, exatamente, desta ‘vertente final’, surgida da mística criada em torno do nome do Morro da Serrinha, que surgem as distorções enumeradas acima.

E o que são estas novas manifestações jongueiras? Jongo requentado, para ‘inglês ‘ver ou Jongo evoluído, modernizado, adaptado ao século 21?

E o tal do Jongo das ‘véias’ e ‘véios’, vivíssimo ainda na Roça, aquele Jongo efetivamente tradicional, que não se adaptando aos ‘novos’ tempos, será atropelado pelos ambígüos laudos do IPHAN, o que será dele? Agüentará o tranco?

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Jongo à vera
Fechando a roda por hora


Além do que já se disse, o que viria a ser o Jongo afinal?

A palavra ‘Nongo’ em Kimbundo significa, exatamente, enigma, adivinhação, (Ji-nongonongo = jogo de adivinhas, de charadas) segundo o etnolingüista suíço Hèli Chatelain que escreveu em Angola, ali por volta de 1887, sobre a língua e os costumes angolanos, compatíveis com a época da vinda de escravos desta região para as fazendas de café do vale do Paraíba do Sul (citadas no verbete).

“Nongo (no plural = ji- nongo), nongo-nongo (plural=ji-nongonongo).
Jogo de adivinhas, de caráter talvez sócio-educativo, praticado pelos ‘mais velhos’ (sociedades secretas) de uma comunidade, com finalidades outras, de caráter ainda indefinido, porém, talvez insinuado nos elementos sobreviventes no Jongo do interior (Jongo tradicional).

Ji-Nongo= J’nongo =J’ongo, como dedução lógica.

Logo, sendo Jongo uma manifestação muito antiga, de caráter transnacional, bem mais complexa do que imaginávamos, podemos concluir também que a dança devia ter importância apenas acessória nos eventos (talvez até, meramente eventual) no âmbito de um atividade social, francamente, africana, muito ocorrente no Vale do Rio Paraíba do Sul, de meados do século 19 até hoje.

Muita coisa ainda para se descobrir e estudar sobre o assunto, portanto.

(Esta dança - chamada de Jongo, por extensão ao nome da manifestação - , caracterizadamente uma dança de umbigada – um tipo de ‘ma-Semba’ - é um caso a parte que pretendemos abordar no post seguinte.)

Dizem que o Jongo, tendo uma suposta ligação com o Semba angolano, teria sido uma espécie de ancestral direto de nossa dança preferência nacional: o Samba velho de guerra.

Ancestral direto? Seria este um conceito válido em Cultura, esta coisa tão dinâmica?

Semba e Samba. Algo a ver? Sei não.

Fique amarrado nesta história.

Spirito Santo

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Spírito Santo

Links úteis para a galera:

1- O verbete como está agora na Wikipédia.
2- Heli Chatelain
3- Ache o IPHAN
4- Conheça o padre Giovani Cavazzi
Boa leitura

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2008 16:29
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dudavalle

Dança do LeLê :-)))
"vem meninha vem pra dançar o Caxambu" que a Vila não quer abafar ninguém soh quer mostrar que faz samba também...

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2008 18:18
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Spírito Santo

"Ô Lelê, ô lalá
pega no ganzê,
pega no ganzá..."

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2008 19:03
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Spírito Santo

Toda a argumentação acerca desta história de tomabar o Jongo (seja lá em que sentido for) eu já havia desenvolvido neste post. Talvez seja muito elucidativo você ir até lá.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 15/4/2008 09:39
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Spírito Santo

A respeito do conteúdo esdrúxulo do laudo do Iphan 'justificando' o pleito de se eleger o Jongo como 'patrimônio imaterial da humanidade', leiam este surpreendente e - segundo suponho - oportunista (para alguns interessados) trecho:

...”As crianças, por exemplo, que durante muito tempo não podiam freqüentar as rodas de jongo, hoje são estimuladas a aprender o canto e a dança de seus ancestrais. E em muitas comunidades, hoje em dia, não é mais necessário ser filho de jongueiro para ser considerado jongueiro. A aproximação de pesquisadores e estudiosos, bem como, mais recentemente, de jovens das camadas médias urbanas, fez com que a participação em uma roda de jongo não seja mais limitada aos membros das comunidades jongueiras. Além disso, algumas comunidades passaram a fazer apresentações artísticas, nas quais as rodas de jongo acontecem sob a forma de espetáculo.”
Jongo tradicional é isto? Fala sério!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 15/4/2008 09:51
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Natália Amorim

Vou imprimir e ler com calma. É um texto para ler com calma, ao menos parece. Conhecimentos tradicionais me interessam. Grata! Retornei ao pc e a publicação com O Império de São Benedito, dá uma olhada. Abs!
http://www.overmundo.com.br/agenda/o-imperio-de-sao-benedito

Natália Amorim · São Gonçalo, RJ 17/4/2008 17:04
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RAPAZ... isso é uma "lavada" ou "lambada" pra modernista nenhum botar defeito. Esse "avanço" do folclore, em quase todos os Estados é apoiado e rncentivado por bu(r)rocratas nas/das SECULTs, interessados em apoiar com verbas amigos pessoas ou gente "importante" que pouco ou NADA entende de... Capoeira, de Jongo, de BOI-BUMBÁ (princialmente esse), QUADRILHA JUNINA E TANTOS OUTROS mais em que A IDADE, a experiência (ou velhice) como queiram é que dá as cartas, INDICA a posição e O ESPAÇO de cada um na atividade folclórica.

HOJE EM DIA (?!) teríamos/ou já temos folclores em que cavalos são "substituídos" por motos e velas (nos de cunho religioso) por lanternas movidas a pilha. E vai por aí "o amor" dessa juventude oportunista e desalmada com o folclore que diz admirar.
Em Belém o "Boizinho" mais famoso -- e o mais aquinhoado com verbas e espaço na Mídia -- usa elementos dos mais diversos lugares e atividades populares para "encher seu Boi" e em breve teremos saltadores olímpicos "desfilando" em suas fileiras.
'"Proquê lavá ropa cum meu nome, oiá...? / meu nome num é sabão, sinhá!" (Mestre DARCY, da Serrinha)

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 17/4/2008 18:19
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Spírito Santo

Nato,

"Na fazenda do Roçado
tem carneiro, tem boiada
tem cabrito, tem pocada...
aribu tá comendo fôia"


(Jongo TRADICIONAL, interior de São Paulo)

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2008 20:36
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Spírito Santo

..."tem PORCADA..."

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2008 20:37
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Andre Pessego

Rapaz, estes dias tá um drama. Já ia "drumi", mas vim arquivar
pra reler amanhã e outrs vezes com mais calma
um abraço, obrigado por este presente,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 17/4/2008 23:28
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Felipe Obrer

Oi Spírito. Li ontem à noite o teu texto. Gostei bastante da maneira como vais desdobrando o assunto, com uma abordagem discursiva que convida o leitor à interação. Além do mais, tem muita informação desconhecida pra mim até agora.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 18/4/2008 10:57
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Spírito Santo

Felipe,

Bacana você ter lido. Quanto as informações novas, saiba que elas também eram novas surpreendentes para mim,
(aliás, este é exatamente, o tema central do debate que eu proponho: Afinal, porque informações, aparentemente, tão comezinhas (cultura popular brasileira) ficam tanto tempo desconhecidas, até que quem, como eu e você, está ligado no assunto. Será que isto só ocorre com certo tipo de cultura popular brasileira? Será que o mesmo não estará ocorrendo, por exemplo, com as tradições gaúchas, com as tradições indígenas, num momento em que se criam reservas de proporções amazônicas e se promovem doação de terras promoviads a supostos 'quilombos remanescentes' com interesses os mais estranhos?
Etnocentrismo e oportunismo elitista. Onde é que estas duas doenças de nossa sociedade estariam se confundindo?

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2008 11:21
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Higor Assis

Parabéns nobre pesquisador. Demorei, li e reli com o melhor entendimento possível da ação.

Higor Assis · São Paulo, SP 18/4/2008 21:25
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Spírito Santo

É isto aí, Higor.
Obrigado pelo título de nobreza, mas, sabe como é...ser plebeu, como sou, dói bem menos.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2008 07:42
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Spírito Santo

UM ADENDO IMPORTANTE:
(Recebi por vias transversas um comentário, desagravando o grande Darcy do Jongo, supostamente 'desqualificado' por mim no tal verbete da Wikipédia. Vai aqui então um complemento ao verbete)
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Conheci bem, pessoalmente, o Darcy 'do Império' (famoso depois como 'Darcy do Jongo') e sei muito bem do que falo sobre o assunto:

Em primeiro lugar, é bom se dizer que a corrente de Jongo a qual o Darcy pertenceu (criada por ele mesmo) é muito recente e é apenas uma derivação do jongo tradicional. A vertente de Darcy tinha pretensões comerciais e artísticas, sem querer enganar ninguém. É que o sonho dele era transformar o Jongo numa dança urbana de sucesso (como foi a 'Lambada' há uns anos atrás). Sonho, perfeitamente legítimo, por sinal.

Ele chamava a sua onda de 'Jongo Basam' ('basam' de Samba ao contrário) e não se intitulava ''Jongo tradicional' pois era, assumidamente, uma RECRIAÇÃO (inclusive com a adoção de violino, Violão, guitarra, baixo acústico e flautas e um certo viés pop-erudito que muito agradava a Darcy, na época, aí pela década de 1970).

A mãe dele, Vovó Maria Joana, era rezadeira de Candomblé, ramo da cultura negra que não tem, rigorosamente, nada a ver com Jongo (aliás, segundo algumas fontes, ela era na verdade, natural da Bahia e oriunda do Morro da Mangueira). O jongueiro 'real'' da família teria sido o marido dela, se não me engano chamado Antero, que era quem a levava para as rodas de Madureira (ela ainda com cerca de 26 anos). Foi assim que Joana, mãe de Darcy aprendeu com Vovó Maria Teresa (a verdadeira matriarca local) sobre a dança do Jongo.

O terreiro de Maria Joana 'Tenda de Xangô', foi muito famoso no meio artístico musical do Rio de Janeiro, ali por volta da década de 1970. Alcione, Clara Nunes e muitas outras figuras, muito famosas na época, tomavam passes e faziam consultas espirituais na Tenda de Vovó Maria Joana.

É preciso contudo separar esta prática dela do que era Jongo real de seus vizinhos. Jongo é uma prática recreativa mágico-propiciatória (não é um rito religioso, de forma alguma).

O fato é que este acesso á mídia foi muito bem aproveitado por Darcy, abrindo caminho para alguns discos que ele gravou, inclusive este da Clara Nunes.

É bom que se saiba que os fatos relacionados ao Jongo tradicional em Madureira remontam a, no mínimo 1910 (tenho registro documental de jongo na roça do Vale do Paraíba do Sul em 1859), antes mesmo de existir inclusive, as Escolas de Samba.

Com a morte dos jongueiros tradicionais dos Morros da Serrinha e da Congonha (descendentes de ex-escravos vindos do Vale do Rio Paraíba do Sul), a casa de Maria Joana passou a congregar, ao mesmo tempo, a sua prática religiosa afro-bahiana e as experiências artístico-culturais de seu filho Darcy. Para os pesquisadores mais apressados, as duas coisas passaram a se misturar aí, iniciando uma certa confusão entre uma prática religiosa pessoal (o candomblé de Joana) e a outra, típica de boa parte dos habitantes do morro (o Jongo) trazida da roça do Estado do Rio, das antigas fazendas de café.

O processo de desvirtuação e apropriação indébita do Jongo da Serrinha, contudo (a fase da má fé), só se inicia perto da morte de Darcy com a manipulação que, algumas pessoas ainda não exatamente identificadas, fizeram do sonho de Darcy, provavelmente, instigadas pelas oficinas que ele próprio passou a ministrar na Lapa e na zona sul do Rio de Janeiro, principalmente em universidades como a UniRio, por exemplo. O conceito RECRIAÇÃO de Jongo, honestamente, assumido por Darcy, foi então modificado (com interesses estranhos) para Jongo neo-TRADICIONAL, arregimentando algumas pessoas da serrinha, talvez para dar alguma credibilidade a idéia e instituíndo-se uma ONG, com vistas talvez a auferir algum tipo de vantagem pecuniária (habilitando-se para o tombamento, de onde viriam recursos do MinC via IPHAN). Uma esperta armação, diga-se, de passagem.

Talvez não seja um acaso a omissão de certos vestígios e antecedentes da manifestação antes do Darcy e de sua mãe alçada (involuntariamente talvez) a condição de matriarca em detrimento das figuras originais.

Se estas pessoas que se afirmam, enganosamente, jongueiras divulgarem por aí que o que fazem é apenas uma recriação e que o Jongo tradicional e verdadeiro é o que está vivo lá na Roça, assumindo que, para lá é que devem ser carreados os recursos do IPHAN, eu passo a bater palmas para elas. Estariam prestando um serviço à cultura brasileira.

É preciso lembrar também que Darcy do Império, grande artista, morreu na miséria, enquanto morava sozinho num barraco de papelão lá no alto do Morro.

Não existe mais Jongo tradicional no Morro da Serrinha, há muito tempo. Está extinto há, pelo menos, 30 anos o Jongo tradicional dali. Os grupos que no momento se apresentam por aí, são cópias 'fake' do Darcy (que já era, ele mesmo, como eu já disse, uma rec

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/4/2008 20:27
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Spírito Santo

...Uma RECRIAÇÃO.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/4/2008 20:31
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Higor Assis

Você sabia deste artigo aqui.

Um abraço e, logo mando o que prometi para saber mais do tema.

Higor Assis · São Paulo, SP 23/4/2008 11:30
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Spírito Santo

Higor,
Achei brilhante o artigo que você recomendou, principalmente pelo corte original que o autor escolheu para fazer a sua crítica ao pensamento de Nina Rodrigues: 'cientificismo trágico', tudo a ver.

A linha de raciocínio que ele desenvolve pode ser utilizado para reler a obra de vários ‘monstros sagrados’ de nossos estudos sobre o negro, inclusive o Gilberto Freyre, para mim o supra sumo da sutileza literária...‘cientificista’.

Vou colocar o link lá no post 'Crioulo Doido revisitado-Enredo #01', que fala deste mesmo caráter da obra do Nina, preparando terreno para este post do Jongo (aliás, você já foi lá ? Senão vá)

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2008 13:25
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Spírito Santo

Pra quem está interessado no tema, são imperdíveis os filmes contidos neste link sobre o Jongo aqui do Estado do Rio. Principalmente agora que podemos refletir a partir de um contexto mais amplo e claro. Vale a pena conferir, a luz do que lemos acima, os vários detalhes que aparecem cifrados nas falas dos entrevistados.
Para mim, foi interessante poder, de novo, repensar a efervescente evolução do gênero nestes novos tempos de franca exposição ao assédio de vários tipos de interesses (inclusive os dos próprios jongueiros ao se auto intitularem 'quilombolas').
Fiquei achando, mais do que já achava que o Jongo, tal qual expus no meu post, integralmente, está mesmo em vias de franca extinção (o que é, perfeitamente natural, diga-se de passagem).
É perceptível nos depoimentos contidos no vídeo, a extrema fragilidade dos vínculos que ligam os personagens entrevistados aos aspectos mais substanciais e orgânicos da manifestação original (a sua memória ancestral). A lembrança que eles demonstram ter do Jongo de seus antepassados, a que aparece no vídeo, é como um livro que desintegrou, uma memória totalmente, fragmentada e desconexa, inteiramente vulnerável e indefesa, portanto, diante dos novos apelos, do que está sendo proposto pelos visitantes, pesquisadores e demais interessados na 'preservação' (tombamento) da manifestação.
Sobreviverá talvez, tomando destino que ninguém pode saber ainda qual será (e se será) apenas a dança (que não deveria se chamar Jongo, exatamente, mas Masemba, talvez)
A se lamentar já que, como vimos, do ponto de vista cultural, a dança é o aspecto menos importante da manifestação. Fazer o quê?
Seria interessantíssimo, antropologicamente falando (sem oportunismos e intelectualismos vãos), documentar este eletrizante processo de decadência de uma manifestação desta importancia para a formação da cultura brasileira como u todo.

Dêem uma olhada lá e concluam por si mesmos.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 30/4/2008 16:20
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Spírito Santo

Renato Alcântara (leitor, comentando esta mesma matéria em spiritosanto.wordpress.com)

"...Estou pesquisando o tema para o Mestrado e confesso que fico bastante desesperado com o material bibliográfico. O fato de o verbete ter sido modificado não me assusta, pois quem acompanhou com olhos críticos os 3 últimos encontros de jongueiros viu muita diferença… No último havia mais de 500 jongueiros. Com tanta gente e movimentação e recursos e patrocínios e visibilidade midiática claro que rolam vaidades e 'interesses não republicanos' (só para lembrar o diálogo Zé Dirceu-Roberto Jefferson).Ouvi da boca de um pesquisador seriíssimo o fato de tomar cuidado para não se ter o grupo especial do jongo..."

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 18/7/2008 10:03
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Fifo Ribeiro

muito bom, spirito, obrigado

a gente olha o jongo, o carnaval, o boi-bumbá, os maracatús, espia o candombe e tenta achar no meio dessa maizena toda de discursos e de photoshop (olha o "resgate" cultural aí gente!) alguma coisa bela e mais... espontânea

mas imagina, onde entram os recursos e o patrocínio e os entusiastas bonachões, - daí já se fundam essas tradições-bebê em cima do que seriam essas manifestações que agonizam, mano.

abraço!

Fifo Ribeiro · Porto Alegre, RS 2/1/2009 13:24
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Spírito Santo

E vejam só isto:
Ao que parece, estamos assistindo a legitimação de um conceito para Jongo. O texto a seguir (veja original neste blog), é uma tradução para o inglês do tal verbete que o anônimo que vos fala inseriu na Wikipédia, para domínio público.
“The Jongo as a traditional play has one of most remote origins (at least what concerns structure of the sung points) of Angolan adivinhas, so-called Jinongonongo. An essential characteristic of the language of the Jongo is the use of symbols that, besides maintaining the encoded sense, have a role supposedly magic, on purpose to evocate paranormal phenomena. Among them, the most obvious it is possible to quote the fire, used to tune the instruments. The drums, which are consecrated and been considered as ancestors of the community, the dance in circles with a couple in the center, which refers to the fertility. We cannot forget the rich metaphors used by the jongueiros to compose their “points”, which sense is inaccessible for the non-initiates.”
O post do referido blog não faz nenhuma menção a fonte da qual ele retirou a citação (a Wikipédia, como sabemos). Tentei alertar isto para o autor (Isais Malta) mas o link de comentários do blog não abre.
Eu sei que alguns vão me achar cabotino (ou coruja). Claro que eu me orgulho de ter insistido nesta hipótese para a origem do Jongo (que já havia sido feita antes, pela Maria de lourdes Borges Ribeiro, só que ninguém deu muita bola), mas, abrir mão da 'parceria' do conceito eu abro, na boa. Ele é agora (sempre foi) de domínio público, mas, com esta falta de citação das fontes, eu fico pensando: Será que não vai aparecer um ‘outro’ autor para esta história? E se aparecer, chamamos o bispo?
A morte do direito autoral, se vier mesmo, será confusa...

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 09:53
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Spírito Santo

Injustiça. O link de comentários do blog do Isaías abriu sim. Deixei para ele a seguinte mensagem:

Oi Isaias,

Meu inglês não é nem macarrônico, mas na matéria 'Jongo for piano' você faz uma descrição de Jongo que me pareceu ter sido extraída do verbete da wikipédia.
Sei que você vai entender na boa, mas, gostaria de sugerir que você inserisse a citação da fonte original(se for a wikipédia ou mesmo outra.

É que participei da maior parte formulação do conceito que estrutura o verbete para Jongo(que é de domínio público agora) e tenho observado que ele está se tornando uma unanimidade para especialistas de diversas áreas (como é o seu caso) o que faz com que a legitimação e a citação da fonte seja um aspecto relevante, nesta época de tanta indefinição sobre a questão direitos de autor e propriedade intelectual na Internet.
Agradeço a você, antecipadamente, de qualquer modo.

Grande abraço

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 10:12
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Spírito Santo

Ha ha ha ha ha!

Eu incréu confesso agora duvido menos: Deus existe (pelo menos na Internet)
Bem, ficou claro que o tema secundário deste post é a wikipédia, a confiabiliadde e o processo de implantação de um verbete nela, certo?
Pois bem, acabo de ler na Folha de São Paulo de hoje (Bruno Romani, escrevendo de Berkeley) que acabam de lançar na rede o WikiDashboard site que esmiuça a criação de um verbete na Wikipédia, mais ou menos como tentei fazer aqui com o verbete sobre Jongo. leiam Bruno diz na Folha:
" Apesar de ser a enciclopédia on-line mais acessada do mundo, a Wikipédia sempre vem acompanhada de um ressalva quanto à confiabilidade de seus artigos. Afinal, quem são seus editores? E quais são seus interesses?...A ferramenta mostra todas as interações que ocorreram na construção dos artigos da versão em inglês da enciclopédia... " Um usuário com alta porcentagem de edições em determinado artigo pode indicar que o discurso do verbete está sendo guiado (ôpa!)...Ed Chi um dos cientistas do instituto (Palo Alto Research Center) diz que ficou 'surpreso' ao perceber como muitas discussões entre os usuários sobre as edições dos artigos, ganha pelo tempo o lado 'mais persistente'.
O artigo insinua que é possível analisar verbetes do Brasil (desde que constantes na versão inglesa).
A minha risadinha procede porque nada mais revoltante do que perceber, como eu percebi no caso do Jongo, que 'alguém' está manipulando um meio de divulgação de conhecimento público para adequá-lo aos seus interesses. Agora quero ver o que farão quando souberem que 'o gato está escondido com o rabo de fora'.

Wikipédia, agora com pardal eletrônico...Ha, ha, ha!

Abs (com o perdão do chiste)

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 14:34
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Spírito Santo

Fui lá ver e pasmem! Os usuários mapeados por lá são os que 'fizeram' o artigo em ingês (na verdade uma tradução resumida do original descrito por mim acima) ou seja, omitem do mapa os usuários de contributos oriundos do Brasil. Há também pistas de que 'aqueles' os usuários, digamos, muy interessados em puxar a brasa para certa sardinha, estiveram metendo o bedelho na versão inglesa também. Pena estarem sob pseudônimo
(e aí a risadinha diminuiu, mas só um pouco)
Coisa de doido isto, mas cedo ou tarde a versão em português do site chega por aí.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 14:49
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Spírito Santo

Acabei de receber este vídeo do Darcy do Jongo da rede 'Cultura e Humanismo'.O Darcy - já disse aqui em algum lugar- eu conheci muito bem. Ele é o personagem (ou o pivô, sei lá) mais emblemático de toda esta controversa história do jongo cair na moda e ser tombado como patrimônio imaterial do Brasil.
Figuraça, parecidíssimo com vários outros ícones da transposição da cultura negra do gueto e da roça para o amplo espaço da cultura de massa (o que, pelo menos por enquanto, não ocorreu ainda com o Jongo...quase) como foi o caso dos blueseiros do Mississipe, do gordo Bo Didle com a sua guitarra elétrica quadrada, do Paulo da Portela, do Jackson do Pandeiro e tantos outros que fizeram esta ponte sem ganhar quase nada em troca.
Espero que a memória dele não seja distorcida por aproveitadores e nem que ele caia no ostracismo para algum aventureiro lançar mão do que ele fez.
Vendo o excelente vídeo com atenção dá pra conhecer a alma boa da pessoa, o seu sonho de não vender o peixe errado, esta conversa de um falso Jongo tradiconal que se vendeu por aí.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 13/6/2009 19:48
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Spírito Santo

Um aviso aos leitores:
Acabo de indisponibilizar o link da entrevista com a ex-escrava Maria Teresa Bento da Silva por uma razão bem revoltante: Um importante site de antropologia de uma universidade federal do Rio, dirigido por eméritos historiadores ligados diretamente á questão Jongo, publicou parte da entrevista, alterando intencionalmente as falas da entrevistada e, o que é pior, omitindo a origem (este site), o crédito pesquisadores autores da coleta (entre eles este que vos fala), numa espécie de sutil apropriação do trabalho alheio. A entrevista - um documento raríssimo - foi disponibilizada na internet para se tornar uma fonte pública (mas não anônima).
Ao que parece a ética predominante em certos meios acadêmicos não é recomendável o que vai exigir que se faça uma doação mais convencional, ancorada em documentos que garantam os devidos créditos dos pesquisadores envolvidos e a preservação do conteúdo sem distorções.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/9/2009 08:44
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