jornalista não é policial

Ditadura militar , fotógrafo desconhecido
Tem jornalista que vai longe da sua alçada, faz papel de policial
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Jornalista81 · Brasília, DF
3/7/2009 · 2 · 2
 

Jornalista noticia, e policial, pra que serve?
Pois saiba que existe jornalista fazendo papel de polícia, julgando e criminalizando sem questionar.


Dizem que a função do policial é preservar vidas, mesmo quando faz uso de uma arma letal. É meio contraditório. Quem se contenta com policial já dá o primeiro passo torto. Como o Bukowski já definiu: "Um sujeito põe aquele uniforme e passa a fucionar como um assalariado de um sistema que quer manter a situação do jeito que está". Uma vez que você aceita essa premissa, tem que acreditar que a situação do jeito que está, o Status Quo é a situação ideal, quando não é. Agir em prol da preservação da ordem pública pode não ser saudável, se o estado que mantém esta ordem está adoentado pela corrupção, pela confusão, pelo mau funcionamento, pela morosidade, pelo mau governo.

O jornalista, por sua vez, não é um mero apontador da desordem, o jornalista deve ser um questionador, e deve fazer uso constante da sua faculdade de pensar. O policial não pensa, cumpre ordens sem questionar. Além disso, nem todo policial realmente cumpre a lei, e segundo, que lei é essa? Quem faz a lei e com que interesses?

Os policiais existem para cumprir as ordens, e as ordens muitas vezes não tem nada a ver com o seu bem estar. Tornam-se contraditórias perante o slogan preferido da corja: "servir e proteger". Se um lider impõe o toque de recolher, quem vai descer o cacetete na sua cabeça é o policial que antes supostamente te protegia. Esse homem armado, ostentando uma insígnea metálica, com um quepe engraçado e uma farda de herói é um inimigo em potencial. Pobre do jornalista que está do lado dos carcarás da lei, que assume o discusso "legal" como a última palavra, ortodoxo.

Servir e proteger é apenas um estado de operação para estas maquinas letais. O policial pode cumprir ordens pra te prender a mando de alguém, pode te extorquir, pode te bater, pode te revistar, pode te interrogar, pode te matar, e estará apenas cumprindo seu dever. Sob o comando um policial pode mudar seu estado de ação rapidamente. Os policiais não são amigos da sociedade, não são aliados, são potenciais inimigos e o poder nas mãos deles (e dos militares) já se mostrou uma péssima alternativa. Alguém se lembra da ditadura militar veementemente criticada por tantos jornalistas do passado? (daquela época em que a vida era mais real e menos virtual).



Não é difícil se encontrar uma viatura no meio da cidade ignorando placas, andando na contramão, subindo no meio fio, ligando a sirene para atravessar sinais, pular engarrafamentos, ignorando as leis que têm como trabalho preservar. Os meganhas, orgulhosos de sua elegância, passeiam nas ruas pairando acima de todos, com uma arrogância silenciosa mas loquaz, tudo por causa de uma arma e de um cacetete, assessórios indispensáveis aos que não tem respeito suficiente e fazem do medo um aliado constante. Os civis, do ponto de vista militar, são gado, uma sub classe, a ser atendida e orientada.

Vivem uma vida paralela a do cidadão comum. Estão habituados à violência, isso faz parte de seu dia a dia. O sangue, a morte, as drogas são o lado comum do seu trabalho, são homens sem alma, desumanizados pelo treinamento ostensivo, prontos para responder argumentos com porradas, gritos e tiros.

Ano passado um incompetente jornalista escreveu uma matéria sobre o fato de que os motoristas dos caminhões de água cometem o crime de transportar água para fins privados. A lei, feita para beneficiar apenas os caminhões pipa a serviço da companhia de água local, desempregou e criminalizou uma série de trabalhadores e deixou inativos caminhões pipa caríssimos. Em uma cidade como Brasília o abastecimento de água é um assunto crítico. Certas leis são instituidas sem o fim de atender a população, são decididas pelos poderosos, que vivem em seus gabinetes confortáveis, bebendo água da fonte da coca cola a dois reais o gole. As leis são instituidas sem nenhuma consulta ao povo e sem nenhum conhecimento da realidade crua. O papel do jornalista aqui é questionar a lei, consultar o povo e até mesmo o motorista criminalizado, mas em sua matéria completamente tendenciosa, o "profissional" fez o papel de policial. Julgou os trabalhadores em nome da lei e apontou: "Cometem um crime". Não ouviu nenhuma fonte que não fosse "oficial", e todos sabem que as fontes oficiais tem sempre o mesmo discusso brando, típico de assessorias de imprensa.(Instituição dotada de profissionais do jornalismo que sabem como enganar um profissional para que ele diga o que o patrão do assessor quer ouvir).

QUE LEI É ESSA? Eu pergunto. O jornalista do caso acima tem a mentalidade policial, e a mentalidade policial está impedida de pensar. Deve apenas cumprir ordens. O policial é uma maquina que trabalha a favor do estado, é um robô pronto a cumprir ordens sem questionar. Pode o jornalista dar-se ao luxo de agir sem pensar?

Certa vez em Curitiba, eu passava por um local e um moleque de rua caminhava na mesma direção. Ele comentou algo comigo, pediu dinheiro e eu não tinha. Quando eu virei a esquina um cano de revolver estava apontado diretamente pra minha cara. Tomei um susto. Por ter me visto conversando com o marginal, o policial julgou que eu estava em atitude suspeita. Comprando drogas ou coisa que o valha. Ele pediu minha identidade, que é de Brasília, e eu esperei mais de uma hora com as mãos na parede esperando que ele checasse se estava tudo bem com os meus registros. O policial fez questão de que eu ficasse naquela posição constrangedora e cansativa durante todo o tempo. Se eu me atrevesse a sair da posição, se eu questionasse a autoridade eu poderia sofrer as consequências da violência, ou até mesmo ser enquadrado em algum crime de desacato. Algo no treinamento da polícia (e dos militares em geral) os punge a um senso de humor sádico de gosto duvidoso. Eles conhecem as mais diversas maneiras de causar sofrimento, dor, de pressionar, de ameaçar e subjulgar.

Se você jornalista pensa em fazer "justiça", questione. O que é justiça? É da minha alçada fazer justiça? A que lado eu estou servindo? As fontes que escolho para a minha matéria fazem mesmo parte dos vários ângulos do assunto? Para que servem os policiais? Você não vai querer tornar-se um deles, vai?

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Viktor Chagas
 

Olá, Jornalista81,

Respeito tua posição, embora eu discorde dela. Aliás, uma boa prova de fogo para o teu argumento seria postar esta colaboração no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, onde, creio, você receberia críticas bem construtivas e mais embasadas que esta minha.

O ponto principal da minha discordância é a tua visão sobre a polícia, que me parece generalizar uma série de aspectos para o negativo. Não defendo a corporação, de jeito nenhum, mas acho que é preciso relativizar alguns aspectos antes de apontar que a polícia é corrompida e ponto.

Tirando essa generalização, e talvez justamente por causa dela, o ponto principal do teu argumento você acaba não trabalhando tão fundo - que é a questão do poder de accountability da mídia, exatamente o oposto da função policial. Isso me parece um ponto bastante interessante para ser discutido. Mas acho que você não chegou a esmiuçá-lo tão bem.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 2/7/2009 17:25
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Jornalista81
 

Já me cadastrei no forum, obrigado pela indicação, é um ótimo lugar para se publicar esse texto.

Jornalista81 · Brasília, DF 3/7/2009 10:18
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