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José Mojica Marins e a Maçã do Genesis

Divulgação
Novo filme de José Mojica Marins
1
bacamarte · Santos, SP
19/11/2008 · 161 · 4
 

A violência pura é repulsiva, acho que posso dizer isso com um alto grau de certeza. Por exemplo, nos filmes de guerra é a dificuldade, o desafio e a busca implícita de heroísmo e glória que nos fascina. Ou outro exemplo: não nos empolgamos com os fossos repletos de cadáveres nos campos de concentração nazistas — somos entristecidos por eles — e não assistiríamos ao assassinato ao vivo de qualquer Isabella, mesmo tendo acompanhado sem descanso cada minuto de cobertura repetitiva dos jornais. No entanto, podemos nos divertir, ter prazer, rir do sofrimento encenado em espetáculos da violência e da tortura em filmes como Jogos Mortais, O Albergue e — o foco deste texto — o mais novo de José Mojica Marins, A Encarnação do Demônio. Por que? A diferença, creio, está na dimensão erótica — sim, erótica — desses filmes.

Nos casos reais, é principalmente a ficção em torno dos crimes que nos atrai. O mistério era o catalisador do fascínio pelo caso Isabella, como já foi dito aqui. Na nossa mais recente tragédia preferida, o caso Eloá, era a tensão pelo seqüestro prolongado e a incerteza sobre como terminaria que nos movimentava. Às mortes desprovidas de histórias interessantes é resguardado um espaço minúsculo, notinhas de jornal, nem um pouco do carinho que, pelo que disse a revoada que assistiu ao último enterro midiático, os levou até lá. Nos filmes de terror, a história importa pouco; a elaboração das cenas de sangue, os requintes cruéis são os atrativos. Essas cenas são, para nós, psicologicamente, catarse. Nos causam alívio. Nos libertam temporariamente de certa ideologia religiosa fundamentalista, de certo puritanismo e de certa negação da sensualidade.

A Encarnação do Demônio completa a trilogia do Zé do Caixão, que inclui outros dois filmes. Comparado a outras produções do gênero (gore, terror), é um filme competente. Ele causa nojo e choque, provavelmente em níveis intensos nas pessoas menos acostumadas. Tem duas características formais interessantes: uma, de vez em vez, tem flashbacks dos filmes anteriores, em preto e branco, do personagem. Contextualiza a apresenta a obra aos espectadores mais novos; duas, em certa seqüência em que se mostra um território de morte que pode ser o purgatório, podemos ver cenas que levam a alguns extremos as imagens do inferno de Dante, em A Divina Comédia.

Se em Dante há o círculo da avareza, em que se chocam em batalha os gastadores e os econômicos; e o círculo da ira, onde só existe fúria e os punidos se esmurram e arrancam a pele uns dos outros — Mojica dá sua versão dantesca com bastante eloqüência. Dezenas de corpos ensangüentados se espalham em uma paisagem desértica. A morte é uma mulher de feições geométricas, vestida de negro, que, impassível, assiste a tudo. O que ela vê é uma mulher que destroça os testículos e o pênis de um homem com os dentes; grupos de pessoas que devoram outros no chão; uma garota que acaricia o corpo, os seios, a vagina de uma outra mulher, estática, no chão. Libido e violência. Apenas por via de comparação, é uma representação do inferno muito diferente da absoluta solidão que narra Neil Gaiman (clique e saiba mais). Naquela, há aprendizado; na do Zé do Caixão e de Dante, só há desesperança e repetição.

Esse inferno é tributário de uma concepção de religião em que a sexualidade é errada. A sensualidade não deve existir; relações sexuais são para o provimento de filhos. Logo nessa primeira cena que eu conto, sobre o inferno de Mojica, se vê a mesma determinação. Essas pessoas não estão recebendo prazer com o sexo. Estão sendo punidas com ele. O padre que persegue Zé do Caixão do filme continua a mesma negação do corpo: ele se autotortura (de forma pior do que aquele outro padre, de O Código da Vinci), a dor, a resistência a ela — um impulso primário do corpo — é o que o aproxima de seu deus. Outros serial killers vão ter a mesma ideologia subliminar: Jason assassina todos os casais que transam; Freddy foi fruto do estupro de sua mãe por um grupo de rapazes; nos Massacre da Serra Elétrica, jovens que falam de drogas e sexo são as vítimas...

Zé do Caixão tem uma ideologia bem delineada pelo terceiro filme: quer a “perpetuação pelo sangue”, ou seja, um filho — sua maior e quem sabe única obsessão. Defenda que uma mulher que não procria “não merece qualquer cuidado”. Mutila e tortura as mulheres que devem lhe servir de, digamos, hospedeiras. Nenhuma das que se entregam a ele quer outra coisa além da gravidez. Acredito que a extremização, e, de certo modo, a ridicularização de conceitos de castidade e de restrições a respeito do sexo, além da união dessas idéias num só personagem que pode ser captado de uma vez e completamente negado, são os fatores que acabam por nos fazer rir, ter prazer, nos divertir com o sofrimento ficcional.

Leio que a “semente de todos os filmes sobre serial killers” foi Psicose. A cena famosa, percebam é de um assassinato no momento do banho, negando qualquer sensualidade do corpo da mulher, que passa a ser só carne e só vítima. Este filme é da década de 60, outros citados vêm da década de 70, períodos próximos à revolução sexual do ocidente: o conflito com aqueles mesmo ideais religiosos fundamentalistas que citei. Claro que essa análise não será bastante para abranger todos os filmes de terror, horror e gore; e nem é assim tão nova quanto eu fiz parecer. Mas serve para entender um sem número de filmes. Jogos Mortais? O corpo não importa, o que importa é a sobrevivência. O Albergue? O sexo é só uma isca para a morte e a dor. O Chamado? Samara vem depois de tentativas frustradas de gravidez e ela própria não chega a ser criada como filha.

E em O Exorcista — O Início, o demônio não cavalga sobre o padre por acaso; e no primeiro da série, a menina não se masturba com um crucifixo à toa. E até fora do horror: em O Advogado do Diabo, a mulher sofre por não ter um filho, seus ovários são arrancados por uma criança que brinca; as assistentes de Lúcifer têm beleza que se desfaz em faces deformadas; e, no fim, o filho do demônio é convidado a transar com a própria irmã, para que haja um herdeiro dos impérios infernais. E assim indefinidamente, leitor.

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publicado originalmente em http://obacamarte.blogspot.com

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Yusseff Abrahim
 

Olá, Bacamarte!
Não sei se você concorda comigo, mas lendo tuas reflexões, creio que estamos diante de um novo marco no cinema de massa que tenta juntar estas duas sensações.

O filme espanhol REC, na medida em que simula a gravação de um testemunho em tempo real durante uma cobertura jornalística, traz ao espectador uma dose de sensação de realidade em que se mistura ao prazer proporcionado pelo terror da temática superexplorada dos zumbis, ainda que a primeira se consolide parcialmente, pois sabemos que estamos em um cinema.

Gostei do filme do José Mojica, e enfim pude realizar o sonho de vê-lo na telona aqui em Manaus.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 16/11/2008 20:54
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Sergio Rosa
 

Apesar de entender o ponto de vista, acho que muitos filmes de terror nos fascinam sem haver necessariamente uma ligação erótica. O fascínio que O Exorcista nos causa, por exemplo, vai muito além das questões eróticas, apesar de ela estar presente no filme.

A cultura dos filmes de terror parece ter se ligado fortemente a cultura do sexo (revistas, bandas de metal). Acho que talvez (sou totalmente leigo no assunto) entre questões religiosas x pagãs. Entidades pagãs que foram transformadas em demônios pela "igreja" (que depois renderam roteiros de filmes) tratavam a sexualidade de uma forma bem diferente com a qual a sociedade ocidental acabou se acostumando.

Sobre o REC (que eu gostei muito!) o Yusseff falou bem. O filme todo é mostrado por uma única câmera e em primeira pessoa (Bruxa de Blair também, né?). Sem dúvida essa escolha gera uma participação da platéia (ou uma impossibilidade de se afastar) muito maior.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 19/11/2008 13:48
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bacamarte
 

Sergio, não tentei explicar todo o fascínio causados pelos filmes de terror, mas especificamente o fascínio pela violência que há neles. A teoria é que sublimamos todo o sofrimento dos personagens porque nesses filmes há esse aspecto psicológico subliminar. E, veja bem, as outras sociedades podem tratar a sexualidade de uma forma diferente, de fato, mas nos vamos reagir ao que quer que seja mostrado com base nos nossos próprios conceitos, forjados nessa sociedade em que estamos. Quando falamos de outros ritos, podemos estar usando esses ritos apenas para contrapo-los aos nossos, para, novamente, sublimá-los e pensá-los novamente.
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Yussef, não sei se é um "novo marco", como o Sergio disse, houve Bruxa de Blair antes. Mas pode ser que haja um tendência, como você diz, Cloverfield (filme de monstro) me parece que também era filmado como se pelos personagens. Será que esse tipo de idéia pode render bons filmes?

bacamarte · Santos, SP 19/11/2008 19:54
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Sergio Rosa
 

Bem lembrado.

Assim como REC e Bruxa de Blair, em Cloverfield, o espectador acompanha tudo apenas por um ângulo, apenas uma câmera. Nos três a idéia é dar o mínimo de informação possível sobre o que acontece na história. Em alguns, como REC, na minha opinião, a imersão funciona mais.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 19/11/2008 20:23
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