Por Mário Bentes e Luiz Guilherme Melo
Um homem de meia idade está sentado na escadaria de um prédio comercial de uma grande cidade. Pele morena e abatida, ele pemanece em silêncio com os olhos fixos em um ponto perdido no horizonte. Apesar da agitação daquela cidade, do vai-e-vem frenético dos transeuntes pela calçada, do entra e sai do prédio atrás de si, aquele homem de expressão solitária fica assim, em silêncio, por alguns minutos, até que finalmente desperta quando uma voz repentina interrompe sua meditação urbana: “Quanto é a manga?”.
O olhar de José Wilson, então, se ilumina como se acabasse de receber a melhor das notícias. Não importa quem seja; o velho vendedor de frutas se levanta e atende seu mais novo cliente como se fosse um grande e inesquecível amigo dos tempos de infância. “As mangas estão bem fresquinhas”, garante José, sorrindo. Seu cliente, porém, não o olha nos olhos; escolhe as frutas que julga estarem melhores, paga e vai embora. José Wilson parece não se importar: ele permanece com o cativante sorriso de poucos dentes até que o desconhecido dobre a esquina e se perca na multidão.
Completando um ciclo que se repete ao longo de todo o dia, de toda as semanas e de todos os meses em mais de dez anos, José volta para o silêncio dos seus próprios pensamentos, enquanto senta novamente nas escadas encardidas do antigo edifício Antônio Simões, na avenida Sete de Setembro, Centro de Manaus. O rosto daquele homem, antes iluminado, volta a se apagar; o sorriso desaparece. E o olhar, outrora atencioso e sincero, volta a se perder num ponto distante e desconhecido.
Senhor Wilson
Essa é a rotina diária de José Wilson, que, entre outras informações da própria vida, desconhece a idade. Acredita ter mais de 40 anos. Ele também não sabe mais o nome da cidade onde nasceu, embora tenha vontade de voltar para visitar os parentes e amigos. “Não lembro mais o nome da minha cidade, mas sei que é no Maranhão”, garante. José diz que tem um filho, mas também não lembra o nome dele nem a idade. “Acho que ele mora em Macapá com a mãe”, arrisca, acreditando ser um jovem de 16 anos.
O sustento
José Wilson mora sozinho em Manaus há pelo menos dez anos – ele também não sabe precisar o tempo certo. Habita uma casa no Tancredo Neves, na zona Leste. Não sabe ler ou escrever, mas sabe contar. “Quanto você ganha por mês?”, peguntamos. José coça a cabeça e dá um sorriso maroto: “Nem sei. Mas dá pra viver”, diz, com um ligeiro sorriso que volta após uns minutos de apatia. Aposentadoria? Não, José Wilson trabalha desde a infância – já foi vendedor de garrafas de mel e servente de pedreiro –, mas não faz idéia do que é ter uma carteira assinada. Também nunca esteve em uma sala de aula.
De vez em quando, a conversa é interrompida por um ou outro cliente, que olha para as vistosas mangas rosas maduras cuidadosamente arranjadas num carrinho-de-mão forrado com uma folha de papelão. “Só um minuto”, pede José, que vai ao encontro de seu mais novo freguês com sorrisos, mesmo que ele nem o olhe nos olhos. Venda realizada, dinheiro recebido, conferido e guardado no caixa – o bolso de trás da bermuda. As mangas são ensacadas e entregues, e José senta-se novamente nos degraus das escadas.
“As vendas são boas, não?”, aproveitamos o embalo. “Tem dia que vende bem, tem dia que não”, pondera. “Mas é bom não ter chefe”, sorri mais uma vez. José conta que acorda às seis da manhã. Seu primeiro ponto de parada: feira da Panair. “Às vezes vou na Manaus Moderna ou na feira da banana”. “Para comprar as mangas?”, e damos um sorriso. “Eu tambem vendo abacaxi!”, e o sorriso se abre num momento de felicidade repentina.
Sem chefe, sem regras. Sem apoio
Ele chega ao Centro por volta das dez da manhã, quando julga ser o melhor momento para as vendas. Como não tem chefe, José escolhe a carga horária de cada jornada. “Quando o movimento está muito bom, eu fico até às seis da tarde. Às vezes até às seis e meia, no máximo”. José não tem horário certo, não tem carteira assinada, nem ajuda do governo. “Não recebo nada do governo. Nenhum tipo de ajuda”, lamenta, com mais uma vez tendo olhar perdido. “Existe alguma instituição que reprensente outros que trabalham como você? Um sindicato, uma organização?”. José apenas balança a cabeça negativamente, sem voltar o olhar.
José Wilson, idade desconhecida, terra natal desconhecida, nome desconhecido do filho, renda mensal desconhecida. Direitos desconhecidos. “Eu conheço meus vizinhos e colegas de trabalho. Gosto de conversar no caminho de volta para casa”, argumenta. “E o que faz para se divertir, senhor Wilson?”, perguntamos antes de ir. Depois de arriscar algumas respostas, José pensa melhor e dá a versão definitiva e quase inacreditável para a pergunta: “Vendo frutas”, e cai na gargalhada.
Que história triste de um não cidadão! Muito bem escrita. Fico pensando nos milhares de Josés desse mundo... será que alguma vez eles se perguntam: e agora, José?
Ilhandarilha · Vitória, ES 14/10/2008 10:06
Parece que José "quase" não existe. Bom que ainda vende as frutas. Espero que não as esqueça, também.
Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 14/10/2008 16:01
Discordos dos amigos. José existe, e faz isso com a sabedoria de quem consegue aproveitar o pequeno espaço que uma sociedade indiferente abre para pessoas como ele. José poderia estar catando frutas em um lixão, mas ele as vende e delas subsiste, sobrevive.
Valeu Mário! ótimo texto.
Mas acho que além de somente tirar uma bela história deste personagem poderíamos ir além e tentar proporcionar uma contrapartida a quem nos atende enqanto repórteres com tanta simpatia.
Coincidentemente estou em São Luís-MA, então aqui vai uma sugestão: se me enviar via e-mail uma foto do nosso senhor Wilson e sua banca, poso acrescentar no recurso das múltiplas imagens, distribuo para os jornais daqui este texto e ai vemos se de repente rola de algum jornal publicar até chegarmos na improvável sorte dele ser reconhecido por um parente aqui.
Reconheço que este tipo de assistência não é a proposta original do Overmundo, mas acho que pode ser um pequeno esforço na nossa proposta de estarmos nesse mundo e nos tornarmos cada vez mais humanos.
Yussef, sua proposta é incrível. Uma ação efetiva assim pode fazer muita diferença para o José.
abraços
Concordo com o Youssef. É cidadão sim como qualquer outro. O fato de ter ou não identidade, passado ou memória não o exclui da sociedade. Tenho certeza que o Sr. José Wilson tem muitas histórias pra contar.
luizhsantos · Florianópolis, SC 15/10/2008 22:32
Legal, bem trçado. Ah! Quantos "josés", assim existe pelo Brasil, Brasil a fora.?
muito bom mesmo,
abraço
andre.
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