Joystick antinostalgia

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Que Super Mario que nada...
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
11/1/2007 · 305 · 37
 

Se você pensa que excentricidades eletrônicas são uma exclusividade da cena independente de games, melhor rever seus conceitos. Algumas produções brasileiras feitas pela indústria oficial muitas vezes se destacaram, tal como os fan-games, pelo humor – só que, neste caso, involuntário.

O mundo encantado dos seres extra-terrestres com seus olhinhos arregalados e cútis esverdeadas rendeu quase tudo quanto é tipo de produto na cena cultural americana. E inspirou um dos jogos mais canastrões feitos por aqui. Area 51 que nada! O mote é o ET mais mineiro de todos os tempos. Incidente em Varginha, jogo de 1998 feito para PC, usa como gancho a celebridade extra-terrena do sudeste para levar ao público (mais) um jogo típico de tiro em primeira pessoa.

Com fases ambientadas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, fica difícil não achar que o nome do jogo foi só uma jogada de marketing para ganhar notoriedade por aqui – o game recebeu títulos no exterior que não mencionavam a cidade mineira. Parte da aventura se passando em Varginha, contudo, livra o game de ser uma propaganda enganosa. Quase dez anos após o lançamento, os gráficos, obviamente, não tem condições de competir com jogos de ponta feitos hoje em dia, mas não deixa de ser uma curiosidade – por que não relíquia? - conhecer o primeiro shooter feito no Brasil. Foi um marco.

Até a primeira metade dos anos 90, quando a pirataria de jogos não atingiu os inacreditáveis 94% do mercado em 2004 (dados da Abragames), existiam versões brasileiras de títulos gringos lançados com freqüência.

Começou há tempos. O primeiro exemplar dessa espécie é Renato, o Aragão. Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo era a estrela de Didi na Mina Encantada, game feito para o Odyssey 2 – console dos anos 70 que pode ser resumido como um Atari fabricado pela Philips que não deu certo. Parecidíssimo com o clássico Donkey Kong, o jogo só recebeu o rótulo de Didi em terras tupiniquins – para resto do planeta, o personagem principal era o Pete. Uma localização que não ia além de uma caixa adaptada para o mercado brasileiro, com o trapalhão estampado. Como o Didi/Pete não passava de uns tracinhos beges na tela da TV, você podia até jurar que aquilo era a Hebe Camargo segurando uma marreta cravejada de diamantes da Daslu e ninguém teria como te contestar. Ah, as adaptações... Antes era mais fácil; maldita modernidade e seus gráficos-ultra-detalhistas.

Pitorescas também foram as aparições da Turma da Mônica nos videogames da Sega – Master System e Mega Drive. A Tec Toy, que distribui no país até hoje os clássicos consoles da fabricante japonesa, simplesmente pegou três games com ambientação medieval-fantasiosa e colocou a baixinha dentuça no lugar do protagonista, um carinha chamado Wonder Boy. Trocaram um personagem de armadura segurando uma espada por uma gordinha dentuça erguendo um coelho de pelúcia. Ver o coelho duro que nem uma pedra, de cabeça para baixo, como se fosse mesmo uma espada, é, no mínimo, uma maravilha kitsch. E matar dragões e monstros a coelhadas soa forçação de barra para o universo dos personagens de Maurício de Souza – por mais que substituam uma princesa de algum castelo do jogo pela figura da Magali, ou o vendedor da loja pelo Cascão.

Mas hoje em dia os jogos que melhor carregam alguma expressão de um suposto olhar brasileiro na indústria gamística são aqueles minigames mais simples, muitos deles feitos em Flash, ou cujos links podem ser enviados por e-mail aos amigos. E os risos que causam não são por acidente. O Run Ronaldo Run, por exemplo, coloca nosso craque gorducho com a camisa amarelinha a fugir de inimigos malignos, como comidas engordativas e o argentino Crespo – se chegar ao gol primeiro que o portenho, ganha. Produtos à venda por um preço módico, como Mensalão, o Jogo, deixam escrachadas as possibilidades de instrumentalizar games para se levar as mais díspares mensagens e críticas. Há ainda belas sacadas que farão marmanjos chorarem de alegria pelos cantos, como o game Bola de Gude, com gráficos 3D, multiplayer e opções de cenários e bolas. Tudo para reviver a velha infância sem sujar a roupa por estar deitado no chão.

Enfim, games legais, com orçamentos adaptados à nossa realidade e que desenvolvem bem o conceito de jogo casual. Sem contar que as dezenas de produtoras brasileiras com know-how para games em celulares e afins podem ser o embrião de uma indústria capaz de produzir games para PCs e consoles – se é que isto é uma meta a ser alcançada. Um passado pitoresco e um presente claudicante parecem dar lugar a um futuro promissor à indústria nacional de jogos. E mande o saudosismo praquele lugar...

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Clara Bóia
 

Excelente; não consegui parar de ler, Saulo.

Clara Bóia · Blumenau, SC 9/1/2007 11:30
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Demetrio Panarotto
 

Fala Saulo, legal o texto! Joguei muito Didi na Mina Encantada e se eu for mexer nas minhas coisas lá em casa acho que ainda é possível fazer o (velho) Odyssey funcionar,

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 11/1/2007 12:20
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Saulo Frauches
 

Valeu pelo incentivo, Clara!

Pô Demétrio, depois dessa quero ir pra Floripa jogar uma partida de Didi contigo!

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 11/1/2007 13:20
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Fernando Mafra
 

Ótimo relato. A situação dos games no Brasil é algo mesmo surreal, um mercado fervilhante de consumidores que não tem escolha senão apelar para a pirataria, visto os preços ultra-dimensionais praticados oficialmente graças a taxas de importação irreais. O surgimento de cursos superiores tecnólogos de desenvolvimento de games também é curiosíssimo, já que como você disse, até agora temos uma coleção de bizarrices, picaretices ou pura comédia (o que é algo bom). Quem sabe essa nova geração de desenvolvedores altamente treinados não nos trará um novo orgulho nacional?

Ouvi dizer que os jogos para Celular do Brasil são de qualidade e estão competitivos no mercado, alguém sabe se isso é verdade?

Fernando Mafra · São Paulo, SP 11/1/2007 18:34
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Demetrio Panarotto
 

Fala Saulo, o Odyssey está em Chapecó jogado às traças! Quem sabe eu traga ele a Fpolis p facilitar a tua vinda p essas bandas, lembrando que, por mim, já tá marcada a brincadeira!!

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 11/1/2007 23:17
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Guiba
 

Muito bacana seu texto, Saulo!
Parabéns!

Guiba · Belo Horizonte, MG 12/1/2007 13:36
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Reginaldo Pereira
 

Muito interessante!Que saudade!

Reginaldo Pereira · Fortaleza, CE 12/1/2007 14:46
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Carlos ETC
 

Nooossa! Tive um Odissey e já joguei esse do Didi! Na época eu achava a criatura da telinha idêntica ao astro da minha infância. Olhando hoje... vejo que minha imaginação era mais fértil.
Espetacular, seu texto, Saulo!

Carlos ETC · Salvador, BA 12/1/2007 15:15
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Sergio Rosa
 

Ô Demétrio, por que você não anuncia o seu Odissey lá nos classificados do Overmundo? Videogame parado não pode! Ainda mais uma antiguidade dessa. Eu tenho um Atari 2600 aqui funcionando, e é bacana perceber que dá para se divertir tanto com os consoles novos como com os antigos.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 12/1/2007 15:25
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Ricardo Pancho
 

he... fora os ronaldinho soccer e toda a sorte de winning eleven com clubes brasileiros q se tem notícia... pela criatividade do brasileiro, eu acho q tah demorando tempo demais pra surgir uns games de sucesso no mercado internacional...

Ricardo Pancho · Campos dos Goytacazes, RJ 12/1/2007 16:54
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verdeee
 

hahahhaahahaahhahahahahahha muito bom cara! lembro de ja ter jogado o dos trapalhoes,uma vez baixei ele pro meu simulador.esses sim eram jogos bacanas!

verdeee · João Pessoa, PB 12/1/2007 17:24
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Roberto Maxwell
 

Show. Linkei o jogo do Ronaldo e o texto no meu blog.
http://robertomaxwell.blogspot.com

Roberto Maxwell · Japão , WW 12/1/2007 18:32
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Rico
 

!RISOS! boa Saulo... é, o mercado de jogos eletrônicos no Brasil é uma complicação, a Sega tentou, a Nintendo tentou (e tenta) e a Microsoft acabou de chegar (com uma proposta até sensata). Mas ainda acho difícil bater a pirataria, isso já virou cultural.

Sobre os jogos nacionais eu adiciono à lista jogos como o do Sítio do Pica-pau Amarelo, Chapolim (Vs Drácula, hehe) e o Sapo Chulé, bizarrices que cá entre nós foram divertidíssimas.

(eu pelo menos joguei bastante o jogo da Mônica, já o do Didi não era da minha época.)

Rico · Guarulhos, SP 12/1/2007 19:53
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Fábio Fernandes
 

Fernando, eu oriento trabalhos do curso de Design de Games da Anhembi Morumbi aqui em São Paulo e um dos semestre é INTEIRAMENTE dedicado à criação dos jogos para celulares. Os trabalhos dos alunos já estão começando a percorrer feiras e congressos. O pessoal da primeira turma (que acaba de se formar) já está conseguindo emplacar um game, inclusive (este em CD-ROM, mas eles também já fizeram dois games ótimos em pixel art.)

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 13/1/2007 01:31
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Natacha Maranhão
 

Saulo, se vc resolver vir pro Piauí tem Atari aqui pra você jogar, hahahaha.
Minha filha já anda viciadinha, hahahaha
beijo, texto ótimo, as always!!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 13/1/2007 11:43
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Danilo F.
 

Maravilha!

Lembro bem do jogo da Mônica. Preciosidades raras da minha infância...

Parabéns pelo texto. Excelente.

Danilo F. · Campinas, SP 13/1/2007 15:58
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jujuba
 

Uau! E na época eu podia jurar que era os estudios do Mauricio de Sousa que tinham feito todo aquele joguinho!

Eu joguei incidente em Varginha, huahuahua! Tosco, mas legal!

Tsk... infelizmente, neste país, vimemos uma realidade em que um Play 3 chega a absurdos seis mil reais e cada jogo a trezendos reais...

jujuba · Santo André, SP 14/1/2007 01:44
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Tranquera
 

Muito legal! Hahahahaha!

Tranquera · São Paulo, SP 14/1/2007 12:18
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Demetrio Panarotto
 

Fala Sergio, boa dica, vou ver em que estado se encontra e vou anunciar no overmundo,

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 15/1/2007 01:04
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Saulo Frauches
 

Bom, queria agradecer a todos pelos comentários de apoio. Espero que vocês tenham jogado (e curtido) alguns dos games indicados - eu me diverti à beça nesta 'árdua' pesquisa heheheh

Fernando: ressaltou bem. realmente há muitas empresas brasileiras com uma produção regular de jogos para celular. Acho que vale até um relato aqui no Overmundo sobre os projetos de algumas delas.

Rico: esses jogos que você citou (ótima lembrança) seguem o mesmo esquema desse jogo da Mônica. O jogo do Chapolin é uma versão de um game (Ghost House) que chegou inclusive a ser lançado no Brasil - e só depois, fora de catálogo, voltou às prateleiras nesta 'versão nacional'. Só o jogo do Sítio foi feito inteiramente aqui, se não me engano.

Fábio: Não sabia que, além de poeta e escritor, você ainda está envolvido na indústria nacional de games. Incrível. Podia fazer um texto para o Overmundo contando sua experiência, hein? Pouco se fala da produção acadêmica ligada aos games no Brasil.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 15/1/2007 15:01
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Roberto Maxwell
 

Bem, Saulo, seu texto eh muito bacana. Brigado pela visita la no blog. Eh de textos como o seu que o Overmundo tem que viver.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/1/2007 15:13
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Sergio Rosa
 

É, Fábio. O Saulo tem razão. Seria muito legal ver algo sobre essa produção nacional de jogos para celulares. Um amigo meu está trabalhando no desenvolvimento de um MMORPG para celulares, na Dinamarca. Acho que daqui a uns tempos isso deve pegar bastante. Os celulares têm tudo para virar um suporte de jogos on-line. Todo mundo gasta um tempo danado no ônibus ou no metrô jogando sozinho, imagina um monte de gente no ônibus jogando junto.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 15/1/2007 15:23
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Simplesmente Milena
 

Fabuloso texto...


Não sabia nada sobre os games brasileiros...
Foi legal ter lido sobre...

Simplesmente Milena · Rio Branco, AC 15/1/2007 23:23
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Hermano Vianna
 

para quem gostou (como eu) do texto do Saulo: há mais textos sobre games brasileiros neste link

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 15/1/2007 23:53
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Guilherme Mattoso
 

muito boa a matéria, saulo! divertidíssima.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 25/1/2007 14:02
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Spírito Santo
 

E isso Saulo!
E viva a cultura nacional!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 27/1/2007 20:19
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*Electro_cutie
 

Olá ^^
obrigada pelo comentário ^^
vou procurar assitir o filme ! =D
belo texto - adorei...não consegui parar de ler, até chegar a última palavra ^^
tenha um ótimo dia!
bjooo

*Electro_cutie · São Vicente, SP 7/2/2007 10:45
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dj yuga
 

Muito bom este texto. Não sabia que existiram essas versões de nossos "queridos" personagens para games, bom saber disso. Fiquei curioso em ver a Mõnica com seu coelho (duro como uma espada) lutando contra um Dragão... rs, realmente "uma maravilha kitsch".

Abraços aí cabra e valeu a dica no meu texto, já coloquei no Banco de Cultura.

Yuga

dj yuga · Belo Horizonte, MG 10/2/2007 16:22
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Pereira
 

Muito interessante seu texto. Abriu uma nova janela para este assunto.

Parabéns pelo texto.

Pereira · Serra, ES 19/2/2007 10:59
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Pereira
 

Pêla segunda vez verifico que ao finalizar o comentário e clicar no item enviar, está acontecendo que o assunto é enviado e o sistema acaba abrindo uma outra janela para comentário.
Tentei fechar a janela clicando no fechar tags por varias vezes e não obtive sucesso.
O que fazer?

Pereira · Serra, ES 19/2/2007 11:12
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Hermano Vianna
 

oi Pereira:a janela fica sempre aberta para novos comentários - não é preciso fechar - abraços

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2007 11:32
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Marcelo V.
 

Também joguei muito tudo isso... O jogo do Didi/Pete era bem divertido, para o padrão "Atari" (o único que teve inclusive jogos de "sexo explícito").

Marcelo V. · São Paulo, SP 22/3/2007 14:58
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Saulo Frauches
 

Esses jogos pornográficos são umas pérolas hehehehe

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 22/3/2007 15:01
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Kamei Hyoga
 

Mas o Brasil evoluiu muito na questão de jogos. Um exemplo?

Taikodom! O primeiro MMORPG espacial brasileiro.

http://www.taikodom.com.br

Kamei Hyoga · Belford Roxo, RJ 13/6/2007 03:55
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Sergio Rosa
 

Tem o Botzin também!

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 13/6/2007 09:16
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Saulo Frauches
 

Estou ansioso com o taikodom, Kamei Hyoga. As fotos estão bem bonitas.

E o Botzin é uma ótima lembrança, Sérgio!

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 13/6/2007 14:35
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liliane ferrari
 

Putz demais isso!

liliane ferrari · São Paulo, SP 19/1/2008 15:23
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