Em 1968 Gilberto Gil, através da composição Procissão, afirmou: “Eu também tô do lado de Jesus, No entanto, acho que ele se esqueceu de dizer que na terra a gente tem que arranjar um jeitinho pra viver" .
Certamente ele não havia tido contato com os pensamentos e ações de centenas de religiosos cristãos (bispos, padres, freiras e leigos) que, no final da década de 60, atuavam de forma discreta para tornar possível o sonho de transformar este mundo em “festa, trabalho e pão” como disse o compositor e parceiro tropicalista Capinam.
Provavelmente, ao mergulhar nas brenhas e veredas do Brasil, a partir de 2002, Gilberto Gil como ministro, pôde perceber os frutos maduros plantados por tantos cristãos, que nem sempre precisaram romper de forma radical com as estruturas religiosas, como o Padre Nando, do romance Quarup, de Antonio Calado.
Estes resultados, em termos de ação cultural, estão materializados em milhares de artistas e iniciativas socioculturais que foram alimentados no passado e ainda um pouco nos dias de hoje, pelo compromisso com as mudanças socioestruturais por parte da igreja católica no Brasil.
Quem se der ao cuidado de pesquisar este assunto a fundo, irá se deparar com uma significativa quantidade de artistas populares e intelectuais orgânicos que iniciaram suas trajetórias na seara de tantas comunidades cristãs de base.
Dentre muitos, um dos nomes de destaque neste cenário é o do poeta, cantor, músico, missionário e arte-educador popular Zé Vicente, nascido em Orós, no sertão do Ceará. Zé cresceu ouvindo poesia de cordel, Luiz Gonzaga e outros sons da natureza, como o da água caindo no sertão como sêmen e ajudando a fecundar a terra, e o canto dos pássaros que embala os ouvidos do homem e da mulher sertaneja.
Em sua trajetória de vida, Zé Vicente teve a felicidade de participar de uma experiência muito rica de espiritualidade comprometida com a transformação pessoal e comunitária. Participou da fundação de um grupo de teatro amador, da Pastoral da Juventude, compôs uma equipe que apresentava um programa de rádio dirigido ao público jovem e, antes de se dedicar integralmente à carreira de poeta, compositor e cantor, trabalhou durante oito anos como agente de pastoral, na Diocese de Crateús.
Hoje, Zé Vicente sai pelo Brasil e pelo exterior fazendo festa em sintonia com o divino através de músicas com o ritmo, o cheiro e com o sabor das coisas nordestinas, às vezes retomando o fio da história que nos liga aos povos da bíblia, às vezes trazendo à memória os nossos ancestrais negros e índios que, com as suas festas e seu sangue formaram o que somos, às vezes lembrando a mensagem do cacique Seattle.
Nestes anos que correm também nos deparamos com uma produção artística originária de setores cristãos. Todavia, as inspirações, na maioria das vezes, é centrada exclusivamente em um modelo de conversão aos ditames das doutrinas, desencarnado da realidade cotidiana e com uma visão pouco generosa do que seja humanidade em termos de compreensão e/ou assimilação de outras cosmovisões e de elementos estéticos das culturas afro, indígena, oriental e etc.
Como o controle das concessões de rádio e televisão está a cargo de empresas comerciais, inclusive religiosas (e a maioria está muito mais preocupada com o retorno financeiro imediato), a música do Zé Vicente, como aquilo que o Brasil tem produzido de melhor em matéria de arte, têm encontrado muita dificuldade para chegar até as massas.
Como já disse Milton Nascimento: “O Brasil não é só litoral, é muito mais do que qualquer zona sul, tem muita gente boa espalhada pelo interior e periferia e que já está fazendo deste lugar um bom país.” E é muito bom poder contar com espaços como esse do Overmundo, para que mais brasileiros possam comprovar isso e se deleitar de prazer e emoção ouvindo/lendo/vendo os (en)cantos que brotam das profundezas do Brasil.
SUGESTÕES:
Uma boa dica para este natal, sem "papai-noel" e com a cesta básica cheia de cultura.
Livro de poemas Tempos Urgentes:
Este livro apresenta uma coleção de poemas escritos por Zé Vicente. Ele traz ao leitor relatos de vida no sertão, rostos e mãos marcados pela seca e histórias de amor vividas, sob a forma da mais bela linguagem da poesia nordestina. Inspirado na vida cotidiana do povo, nos seus sonhos, na sua paixão e luta, no seu grito de excluído, Zé Vicente provoca a festa e o encantamento, dá um sabor aos temas rotineiros da evangelização e cativa o seu público, que não pára de crescer.
ALI ADIANTE
Zé Vicente
Tantos caminhos andados
tantos shows realizados
tantos olhares brilhantes
tantos abraços trocados
tantos carinhos queridos
tanto passado guardado
Chegamos.
É um outro tempo,
que seja novo!
Um descanso rápido,
um momento prá deitar na varanda
e escutar o bem-te-vi,
cochilar sonhando
com o que há de vir
de belo
de bênçãos
de canções...
Desço
ao meu riacho velho,
existe aí um fio d’água na areia
e avencas singelas na s barreiras!
Acalmo a sede,
contemplo a babugem verdinha
no rastro das chuvas de janeiro.
Silencio,
para sentir o cheiro da terra,
a fala da terra
o espírito da terra!
Reconheço-me
cada vez mais nativo
e todas as vibrações
das árvores, das flores, dos pássaros...
encontram eco em meu corpo.
Quando mais ando
mais retorno para as raízes
deste chão que me gerou.
Pela janela
desta hora
antevejo as bandeiras vivas,
erguidas há séculos,
nos braços teimosos do meu povo!
Vamos lá,
subamos juntos
sigamos juntos
marcando na agenda do futuro
o nosso compromisso
fiel e firme
com a felicidade
que já provamos e sabemos,
que pode estar ali... Adiante!
E os CDs de músicas: "Encanto", "Nativo" e "Essa chama não se apaga".
Para ouvir outras músicas do Zé Vicente em MP3, clique aqui.
Muito bom Zezito! Aqui na minha casa tem um vinil do Zé Vicente!
Esse caminho que segue o Zé Vicente é importante não só para religiosidade, mas também para formação de um caráter social e cultural.
Eu acredito que a comunidade cristã aliada a esses aspectos culturais tem muito a oferecer.
Abraço!!
Esclarecedor. Aliás, credita-se a Gilberto e a todos os artistas do norteste brasileiro a perseverança, mesmo que não compreendidos em seu tempo, em lutar por causas justas e pela cultura brasileira. Longe de aqui prestar o culto a instituição ou ministério, falo do artista. Assim como o Zé Vicento, um talento que transpôs muitos obstáculos, outros tantos chegaram ao público pelo ardor de sua poética e harmonia musical. A igreja católica, através de comunidades eclesiais, bem como o candomblé, as igrejas batistas e outras denominações sempre tiveram na música sua grande forma de expressão. Sabe-se que até pouco tempo a igreja católica, até mesmo proibia as novas manifestações musicais dado o seu conservadorismo. Por isso o mérito real é e será sempre do artista, daquele que, acima das instituições, crê na expressão artística musical. Sem os poetas, os cantores, do sul e do norte, do leste e do oeste, o Brasil seria omissão e silêncio. VAi, canta, meu irmão! O Brasil te agradece.
Bruno Resende Ramos · Teixeiras, MG 21/12/2008 11:01Muito boa sua iniciativa em divulgar o trabalho desse poeta/cantador. Sem falar que seu texto é primoroso, digno do trabalho desenvolvido pelo Zé Vicente.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 21/12/2008 12:26
Zezito de Oliveira · Aracaju (SE) ·
Justiça e Beleza se abraçam na obra de Zé Vicente.
Um Trabalho Magnífico cheio de consisténcia e baleza
Cultura, Lazer e formacáo para a construcáo de um mundo melhor. Um Sstema Organizado e voltado para preparar as condicóes para mudancas e melhoras pra todos, principalmente em consciéncia da realidade das coisas e de melhor renda para todos, diminuindo as desigualdades sociais que tanto impedem o desenvolvimento e a diminuicáo da violéncia.
Parabéns.
Abracáo Amigo
Meu Professor,
eu também estou como Zé Vicente
"Quanto mais ando mais retorno para
as raízes daquele chão que me gerou"
abraço
Andre
Zezito, tudo de primeira ordem dentro dos valores cristãos. Ética, Justiça, Fraternidade. Votado.
Gostei demais. Ivette G M
São de brasilerios assim, que precisamos aos borbotões !
Bravo !
abs, votado !
Hômi, eu sou feliz porque lhe encontrei e li sobre seus passos, visse? Agora tô de olho em tu! Fica com Deus!
Beijos daqui, e Boas Festas!
Beleza o poema de Zé Vicente. Parabéns, pela divulgação, que você sempre nos traz, sobre essas expressões culturais desse nosso brazilzão de muitos artistas, ainda não reconhecidos.
Abração
Querido Zezito.
Quero lhe agradecer pela gentileza do envio de parte da obra deste que, para mim, é um grande revolucionário da geração de consciência critica tão ausente em nossos dias.
Mais uma vez, parabéns pelo bom gosto.
”É bonita de mais, É bonita de mais, a mão de quem segura a Bandeira da Paz”
Oi. Tô aqui prestigiando, apreciando tanta beleza e desejando Sucessos a Todos que acreditam n'alma do povo Brasileiro.
Grande Abraço. jbconrado.
Quando mais ando
mais retorno para as raízes
deste chão que me gerou.
Pela janela
desta hora
antevejo as bandeiras vivas,
erguidas há séculos,
nos braços teimosos do meu povo!
Vamos lá,
subamos juntos
sigamos juntos
marcando na agenda do futuro
o nosso compromisso
fiel e firme
com a felicidade
que já provamos e sabemos,
que pode estar ali... Adiante
Parabens a todos envolvidos, uma força, uma bandeira
um grito...ah se todos fossem...
Paz!
Uma beleza de iniciativa meu querido.Perdoa a demora.
Feliz natal
Zezito,
Muito obrigado mais uma vez por nos munir de belas informações. Agora com certeza olharei para a obra de Zé Vicente com outros olhos.. outro contexto...
São sementes de esperança para um mundo melhor.
Abraço e parabéns.
Excelente divulgação , querido!!!
Texto impecável!!!
Essas semente precisam ser espalhadas por toda terra!!!
Obrigada,Zezito!!!
FELIZ NATAL, DE SAÚDE E AMOR!!!
Um beijinho azul...
Blue
Parabéns pelo texto Zezito, sempre trazes questões interessantes em seus textos, como também, muitas informações da nossa ARTE POPULAR. Esse poeta popular merece sua e nossa homenagem.
Estou sumida mesmo né, tens razão mas, logo volto!!
Estou com saudades também de vc e de todos os amigos que fiz por aqui.
FELIZ NATAL, que JESUS possa estar sempre como PRIMEIRO em nossos corações!!!
Um beijo grande.
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