Kino Enguaguaçú

c.sidoti
Porto de Santos
1
Cristiano Sidoti · Guarujá, SP
24/12/2007 · 187 · 2
 

Evoé Brasyl ! A voz que chega agora é a da nossa Enguaguaçu, guaruya - Itapema - Baixada Santista SP - em nova conexão "OVERMUNDO". Vou tentar linhas abaixo descrever um pouco da cena cultural que está rolando em Santos e região, aqui tomada de vez pelo audiovisual (cinema e vídeo); os novos diretores, o importante papel do festival de curtas-metragens "Curta Santos" e o sucesso do projeto "Oficinas Querô".

Não é de hoje que Santos e região são berços de grandes poetas, escritores e artistas - lugar de trabalho também para outros tantos viajantes do começo do século XX. Mas esse status de cidade cultural declinou depois de um certo período de decadência e degeneração do centro da cidade, em especial nas décadas de 70, 80, 90. Atualmente sobrou apenas o cine Roxy, restando pela cidade o império dos Fast-shops-blockbusters. O Festival Santista de Teatro Amador, no entanto, sobreviveu firme e forte. E algo parece querer pegar impulso: restauros e iniciativas turísticas pontuais. Porém, a questão da moradia e dos cortiços foi excluída do debate e permanece, até agora, como embate não resolvido.

É nesse caldeirão que o cineasta Carlos Cortez filma em 2005 o longa-metragem "Querô", baseado na obra do dramaturgo santista Plínio Marcos. Para o elenco promove uma pretensiosa seleção e oficina de atores desenvolvida com jovens da comunidade nos moldes de "Cidade de Deus", onde foram lapidados talentos que, até então, não haviam tido nenhuma oportunidade parecida. Muitos agarraram a idéia de seguir como artistas e produtores. As oficinas continuaram após o filme e se fortaleceram institucionalmente em parcerias. Este tipo de iniciativa é preciosa, pois faz surgir revelações como Maxwell Nascimento; garoto que ganhou a seleção para o papel do protagonista "Querô". Com o seu talento, ele acabou arrematando vários prêmios, representando o filme como melhor ator em importantes festivais e desbancando atores de peso, realizados e globais.

Com o reconhecimento obtido, Maxwell se mantém firme na profissão de ator trabalhando agora no elenco de Malhação, da TV Globo. As oficinas estão a todo vapor, com turmas básicas e avançadas na produção audiovisual em vídeo. Anualmente, eles produzem diversos curtas que são exibidos no Festival Santista. Alguns filmes alcançam eventos nacionais apontando diretores talentosos como Samuel de Castro ("Torto" - 2006), prêmio formação do olhar no 17° festival Internacional de Curtas de SP. A dupla Eduardo Bezerra e Victor Luiz também se destacou com "Maria Capacete" (2006), vencedor do festival de jovens realizadores do Mercosul, melhor curta no 5° Curta Santos, melhor vídeo Curta Mogi. Esta rapaziada já está se virando e trabalhando para a produtora Gullane Filmes, TVs e outras mídias, além de estar se organizando para abrir a sua própria produtora. Fica claro que o maior e digno papel das oficinas é dar um forte sentido de cidadania, formação de caráter e auto-estima para aqueles jovens que a elas se identificam.

Mas todo este material gerado pelas oficinas não teria tamanha visibilidade se não fosse a existência do Festival nascido da lição de vida e dedicação ao cinema deixada por Maurice Legeard, cineclubista de Santos e agitador cultural: sua história desencadeou a criação do Curta Santos, Festival que começou tímido em suas primeiras edições e foi corajosamente levado à frente por Toninho Dantas, mantendo-se apenas com a mostra competitiva regional a tradicional mostra Caiçara. Nos anos seguintes, o Curta Santos levou também a mostra estadual, que premiava filmes paulistas. Na última edição, o Festival entrou definitivamente para o Circuito Nacional, com filmes e vídeos de todo o país, diretores presentes com todas as mordomias de um bom festival, muita integração e descontração entre todos os cineastas que compareceram. Passaram por lá o festivo Alê Camargo "Calango" e o simpático Luís Carlos "Bigode" Lacerda, então júri.

Depois da projeção das melhores produções brasileiras antes da mostra Caiçara, fica evidente como é fundamental a experiência aberta para os artistas e produtores regionais. Eles têm ótima oportunidade de ver filmes consistentes e, como contrapartida, podem mostrar seus vídeos para um cinema lotado e possuído por público caloroso. Isto é de fato real; este ano participei do festival com o documentário "Emoções em Paquetá", que trata justamente da questão dos cortiços, moradia no centro de Santos e cidadania representada por uma líder comunitária, a Sra. Samara Faustino. Para a minha felicidade e de outros que vibram com o cinema-verdade, o pessoal do Paquetá foi em peso ao Cine Roxy e delirou ao se ver na tela grande. Assim que surgiu o título foi como um grito de vitória: estamos aqui!

Depois da sessão, recebi os comentários do genial cineasta Beto Brant: "Que heroína é aquela mulher! Que onda aquela molecada ao delírio ao se ver na tela. Gostei demais da manifestação, mesmo contra os "psius" caretas de alguns "malas"; depois da sessão fiquei lá fora olhando prá mulher guerreira, o filme é demais, o jeito de filmar e revelar a batalha daquela mulher. Oxalá o filme corra o mundo..." E o Beto tinha razão, depois surpreendendo até a mim o vídeo foi selecionado para a mostra competitiva do tradicional Festival Nacional de Vitória Cine-Vídeo, em sua 14° edição. Não só o "Emoções" mexeu com a platéia e freqüentou outros Festivais mas muitos outros trabalhos da mostra Caiçara também; antigos diretores como Dino Menezes e Vinícius Giacomini (do vídeo "Lovi Stori") trouxeram novamente um roteiro interessante. Apesar de eu sentir falta de planos mais "cinematográficos" (mesmo com o esforço do empenhado ator Danilo Nunes), outro que surpreendeu pela consistência e montagem foi "Paralelo", de Rubens Nobre. Houve, ainda, algumas tentativas um tanto televisivas feitas por produções independentes ou estudantes de comunicação.

O curta vencedor foi "Maria capacete", que se sobressaiu pela sua espontaneidade e roteiro, apesar do uso de uma linguagem formal. O diretor destaque foi merecidamente, pelo segundo ano consecutivo, o criativo Lucas Iannuzzi, de "Circular" (2006) e "Eu acredito em qualquer coisa/você acredita em qualquer coisa" (2007). Ele trabalha em uma linha de ficção totalmente autoral e intimista, com recursos de produção mínimos ou quase toscos e com enquadramentos ousados. Suas narrativas quase sempre focam a rotina estafante e o estilo de vida alienado e de consumo; com poucas palavras ou quase nenhuma, Lucas ganhou os louros da crítica e chega forte junto aos grandes curta-metragistas brasileiros. Com o vídeo "Circular", participou este ano do prestigiado "Curta Cinema", Festival Internacional de Curtas do Rio. O diretor ainda promete um terceiro trabalho a ser produzido no próximo ano, que completará, segundo ele, uma "trilogia".

Nessa procura da integração dos novos talentos, o que vale é a soma de todo o processo de construção do meio audiovisual acompanhando os valores sociais de nosso meio. Oxalá pessoas e instrumentos de formação de opinião figurem como um importante elo do cinema nacional e não apenas como símbolos de status do meio! Somando-se as forças poderemos levantar maiores vôos...

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alcanu
 

Aí, mano, nasci aí em 1961 e endosso em gênero, número e grau tudo isso que você falou !
Forte abraço !
Feliz Natal, Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 23/12/2007 23:06
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Capi
 

Itapema!
Conheci em 1996 uma banda ótima no Itapema/Vicente de Carvalho/Guarujá. Chamava Santa Hare, tinha a ver com Novos Baianos, Mammas and Papas, gente muito jovem, um astral altíssimo. Dani e Keila nos vocais, Digo (acho que era esse o nome) fazia percussão e violão também, mais um outro guitarrista e compositor muito bom. Alguém sabe deles?

Capi · Santos, SP 14/5/2008 00:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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