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Kizomba: A dança dos Orixás

Cláudio Marconcine.
O grupo Kizomba e a Dança dos Orixás.
1
Marconcine · São Luís, MA
31/8/2007 · 110 · 3
 

Tendo como objetivos montar e apresentar um espetáculo com coreografias baseadas nos Orixás mais tradicionais do Candomblé, bem como acrescentar ao repertório mais uma dança popular da região, o Grupo Kizomba realiza o projeto “A Dança dos Orixás”.

A cidade de Imperatriz, localizada no interior do Maranhão, com uma população de 230.450, é marcada pela diversidade cultural, pois grande parte dela é oriunda de todas as regiões do Brasil e de outros países. Por anos seguidos esta diversidade foi motivo de determinar a “identidade cultural” como uma falta. Porém, nos últimos anos, enfim, a comunidade imperatrizense assume a diversidade cultural como característica inerente à sua cultura.

Mesmo diante das eternas dificuldades que o movimento cultural artístico da cidade tem enfrentado, é possível perceber que grupos, entidades e, até mesmo, artistas nas suas práticas individuais têm resistido. Um exemplo é o Grupo Kizomba

O Grupo de Dança Popular Kizomba surgiu em agosto de 1997, a partir da idéia de apresentar, em uma Feira de Ciências na Escola Jonas Ribeiro, um espetáculo cultural diferente. A proposta, encabeçada pela Professora Maria do Amparo, era o de fazer um trabalho no qual resgatasse as tradições culturais da região, principalmente ligadas às raízes africanas. No mesmo período, a Fundação Cultural de Imperatriz promoveu e desenvolveu o Projeto de Oficinas de Danças Típicas, o que contribuiu de maneira decisiva para a formação e aprendizado dos alunos/brincantes. A culminância do trabalho se deu com a apresentação da “Dança do Cacuriá”, dança marcada pela sensualidade contida no bailado e nas letras das suas músicas; dança genuinamente maranhense, tem sua origem na Festa do Divino. Devido ao sucesso da apresentação, o grupo passou a se apresentar nas atividades festivas da comunidade e a partir daí passou a estudar e ensaiar novas danças, inserindo no seu repertório a “Dança do Lili”, o “Maculelê”, a “Ciranda” e o “Divino”.

No ano de 2004, através de oficinas musicais, o grupo deixou de se apresentar com som mecânico para, enfim, fazer apresentações ao vivo e criar suas próprias composições. Hoje, o grupo é composto de 25 pares de brincantes, 07 músicos e 02 vocais, a maioria de ex-alunos e alunos da região da Grande Vila Lobão.

Nesse caminhar de formação, aprendizado e resgate permanente das danças populares, o Grupo Kizomba encaminhou no ano de 2006, um projeto para o BNB-Cultural, e foi aprovado.

Como contrapartida, serão 28 (vinte e oito) apresentações da dança para a comunidade imperatrizense.

O grupo ainda está em processo de ensaios, e paralelamente, agenda locais para as apresentações, como escolas e praças públicas. E é nesse momento, que o grupo esbarra no preconceito de credo religioso.

A bem da verdade, os obstáculos iniciaram mais cedo. Primeiro, foi convencer um pai-de-santo e os próprios brincantes que não era um culto às entidades, mas sim uma leitura estético-artística de uma manifestação rica em canto, ritmo, dança. Depois de R$ 50,00 reais desembolsados para o pretenso pai-de-santo, e algumas reuniões junto aos brincantes e suas famílias, o obstáculo seguinte foi o local para os ensaios: o Colégio Jonas Ribeiro tentar amenizar o desconforto de ensaiar em conjunto com a Igreja Assembléia de Deus, no mesmo prédio, ouvindo desconfortáveis comentários sobre o som dos atabaques.

Voltando aos locais de apresentação, as portas das escolas (locais originalmente determinados no projeto aprovado) estão se fechando quando perguntados sobre o que se trata, e a professora Amparo diz ser uma dança de orixás e ouve, de forma deselegante, que se trata de macumba.

Essa resposta tem se repetido, sobremodo, por onde Amparo passa: “Como as pessoas são bobas; como está sendo difícil elaborar o calendário. E eu que pensava que o mais complicado seria conseguir dinheiro para isso”, diz a professora Amparo, ainda abismada. Para os alunos e ex-alunos, a dificuldade estava em convencer os pais sobre a dança, um pensar estético sobre os rituais do Candomblé: “Minha mãe teve que vir aqui assistir aos ensaios alguns dias, para ter a certeza de que não era macumba”, diz Patrícia.

Os ensaios continuam com professores/facilitadores de São Luís, Marcelo, Nêgo e Neto durante todo o mês de setembro, devendo estrear em outubro de 2007, no Teatro Ferreira Gullar, para convidados.

Depois, se as portas das escolas continuarem fechadas, o grupo irá se apresentar em praças públicas na cidade de Imperatriz, cumprindo assim, não só com sua contrapartida, como também, e principalmente, com o orgulho de ser brasileiro e artista em uma cidade tão árida e provinciana no interior do Maranhão.

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Roberta Tum
 

Parabéns pela iniciativa, e força ao Grupo Kizomba , na resistência em se fazer aquilo que se ama e acredita!

Roberta Tum · Palmas, TO 28/8/2007 16:11
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Andre Pessego
 

Muito bom o texto e feliz a iniciativa. Não só pelos que conhecem se identificam, gostam.... Ma para os que não
conhecem e eles são muitos mesmo aqui no Over,

um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 31/8/2007 07:24
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Rodrigo Gerolineto Fonseca
 

Trabalho lindo. Infelizmente, para além de todas as dificuldades enfrentadas na área cultural, ainda exite a macumba, a pior delas, "macumba das braba", que é o preconceito.
Força ao Grupo Kizomba, pois o preconceito sai quando entram talento e luz.

Rodrigo Gerolineto Fonseca · Picos, PI 31/8/2007 11:11
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