A exposição "Lacunas: Um Mundo entre Pontes", de Bárbara Damas, artista plástica e estudante de direito de 22 anos, lança-nos uma proposta, tanto de sensibilidade refinada como de traço e pintura lúdicos, através da leituras de nossas palafitas, brincadeiras infantis e estímulos criativos do imaginário adulto e infantil. É uma viagem através de um mundo colorido, que o evento "Aldeia SESC Povos da Floresta" nos permite embarcar. Para conferir basta visitar a galeria de arte Antonio Munhoz Lopes, no sesc Araxá. Para conseguir maiores chegamos junto na agradável expositora:
Zab - Olá Bárbara, tudo bem? Como os primeiros raios de luz começaram a te despertar para este trabalho?
Bárbara - A realidade das crianças que moram nas áreas ditas irregulares sempre me chamou a atenção. Logo, comecei a escrever sobre "a formação da identidade de crianças que moram nas áreas de ressaca". Daí, percebi certos aspectos que não dariam para descrever (...). Então, surgiu o "Lacunas: Um Mundo entre Pontes", ela faz uma alusão à lacuna presente na lei quando não alcança a realidade dessas pessoas.
Zab - A princípio, as obras de acrílica sobre tela ou colagem com aquarela lembram uma pintura infantil, mas não é bem assim, não é mesmo? Fale mais a respeito de sentimentos sobre a criação das obras.
B - Quis mostrar o que percebia na movimentação das crianças em meio àquelas pontes (...). O corpo delas vai se adaptando, vai se equilibrando e entrelaçando pelo lugar, (não lugares para muita gente). Percebi que precisava buscar o lúdico para compreender aquilo tudo. Tão lindo! Perguntava-me "como conseguem brincar de pipa, olhar para o céu em cima das pontes, muitas vezes, velhas demais".
Zab - Mas o mundo das crianças que vivem em baixadas parece um pouco descolorido, você não acha que optando por variedades de cores, você pode ser levada a nos transmitir um ambiente diferente da verdadeira situação social em que elas vivem?
B - O mundo deles é o mais colorido que já vi em Macapá, porque é mais verdadeiro.
Zab - O que você sente com relação aos expectadores que lançam seus olhares sobre as imagens que você produz?
B - Eles só dão mais sentidos à obra, porque vivenciam isso todos os dias, mas a diferença é que as áreas urbanas irregulares dificilmente são vistas como temas criativos.
Zab - Então a aceitação é boa?
B - hehe... Ninguém reclamou até agora com aquele ar de "fora de contexto"... hehe
Zab - rsrs
Zab - Pô, Bárbara, é com dor no coração que temos que te pedir pra nos fornecer as considerações finais.
B - Estas crianças colaboram na formação da identidade cultural da cidade, mesmo sendo, muitas vezes, corpos invisíveis, elas sabem quem são, como e porque vivem marginais, embora se sintam presas àquela situação. (...). A única coisa que vejo do Estado, é um tratamento aquém de sua responsabilidade, como se problema social fosse problema transcendente.
ótima a entrevista. os desenhos são lindos.
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 8/5/2007 09:21
Paulo,
Onde são as regiões de que Barbara fala?
Abraço!
São as áreas alagadas da cidade de Macapá, também chamadas de áreas de ressaca. É que existem restrições para morar lá, pois, apesar de algumas estarem próximas ao centro, sua ocupação é feita de forma irregular.
PauloZab · Macapá, AP 8/5/2007 13:34
oi Paulo: a pintura da Bárbara sempre lidou com essa temática das crianças que moram em casas de palafitas? fiquei curioso para conhecer mais sobre sua trajetória artística - abraço!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/5/2007 20:28
Olá Hermano,
A Bárbara já desenha desde criança e já lidava com a temática que você perguntou, mas só começou a trabalhar nela há três anos. Foi aí que estes trabalhos da forma que você vê começaram a ser produzidos.
Há braços!!!
Muito interessante MESMO!
Parabéns pelo trabalho, Paulo.
São colaborações como estas que enriquecem um bocado o Overmundo (e são trabalhos como este da Bárbara que enriquecem mais ainda a produção cultural do Brasil).
Abraços apertados do Verde.
Caros Egeu e Hermano
Conheço a Barbara.
Conheci quando fui tocar em Macapá- dentro do Projeto Pixinguinha.
Há muito afeto densidade e conteúdo naquilo que ela faz.
Ela conhece bem este universo. E quando lá estive depois- fomos juntos visitar estas palafitas e crianças.
Acho que tem um outro lado bacana ,que é o fato de ela fazer a Faculdade de Direito. E inserir neste universo questões como : idéias e imaginário que estas comunidades tem e poderiam ter em relação a seu acesso aos direitos - tanto de cidadania como de estrutura urbana.
A auto imagem que estas crianças e adultos desenvolvem.
Conceitos de felicidade... O bonito é que não há estereótipos. Falsas tristezas- nem alegrias. É um olhar descontaminado
E todas estas questões ficam no transito entre a arte e o direito.
Não é pouco...
E fico me perguntando- aonde é o centro?
QUero um quadro desses para mim! Muito lindos...
ainda mais se levarmos em consideração o porquê de terem sido pintados, não é?
ABS
oi Benja - que bom encontro esse seu e da Barbara! e que interessante a informação sobre a ligação com o Direito - realmente: o centro não está no "centro" - grande abraço!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 10/5/2007 23:14
Excelente colaboração, Zab.
Mas deu vontade de saber se a Bárbara, além de observar as crianças, mantém um contato mais direto. Isto é, se ela acaba se envolvendo mais com o que vê.
Abraço.
Daniel - quem bom que você gostou. :)
Hermano e Benjamim - Também tenho me perguntado onde fica o centro e descobri que pra se responder esta pergunta é preciso saber que tipo de centro estamos procurando. Ainda não obtive resposta definida, mas estou aprendendo e me convencendo cada vez mais que o centro está se afastando dos “centros”. Acredito que a tendência de muitos pólos de produção artístico-cultural de pequenas cidades de se espelhar no das grandes metrópoles está mudando, apesar da própria Bárbara ter dito que “as áreas urbanas irregulares dificilmente são vistas como temas criativos”. Podemos acrescentar a esta fala as regiões do Brasil, por exemplo. Agora parece que alguns perceberam que, mesmo afastado dos “centros”, também podem produzir boas obras, ainda que as mesmas não sejam aceitas, reconhecidas ou vistas. As diferenças culturais podem criar um ambiente em que algo com gosto e toque de autenticidade seja produzido. É algo que sempre existiu em menor escala, mas agora se percebe que o momento realmente é diferente.
Mas a única coisa que tenho certeza sobre a discussão de onde fica o centro é que o equilíbrio está no meio.
Marcos - Não sei o nível de envolvimento que a Bárbara possui com o que vê, mas ela me parece bastante envolvida. Quem sabe ela mesma não explica isso pra gente?
Há braços!!!
Opa, boa idéia! Quem sabe a própria Bárbara não se anima a escrever pra gente sobre pintura e a realidade à sua volta. A entrevista foi excelente pra apresentá-la e a prova que está boa é que todo mundo ficou querendo conhecer mais detalhes sobre a moça e sua arte. :)
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 18:21Relendo agora, acho que há uma informação legal que você podia complementar aqui, Paulo: ela vende as obras? Se sim, quem quer comprar faz como? Abs
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 18:24poxa, fiquei apaixonada por essas imagens lindas, quero uma pra mim
Luciana Maia · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 19:37
pintura com traços poéticos!
gostei mto da entrevista e mais ainda do trabalho da bárbara!
obrigada por compartilhar!
Caríssimos,
Primeiramente agradeço os belos comentários e fico mais feliz ainda pelo trabalho conseguir ir além do estético e suscitar discussões acerca da realidade social amapaense...
Vamos lá...
Cursando Artes visuais e Direito comecei a perceber o quanto a estética e a ética poderiam ter uma grande relação...
Cinco crianças de 07 a 11 anos me acordaram numa manhã de sábado pedindo permissão para apanhar mangas em frente a minha casa, daí pensei que nem deveriam estar pedindo... Me veio os limites do público, do privado... Me pediram sacolas pois iam vender aquelas frutas...começamos uma longa conversa...me disseram que moravam no final da rua: -lá na ponte tia! As convidei para, aos sábados, irem até minha casa para desenhar e fazer dinâmicas... e no outro final de semana lá estavam todas com mochila, papel e caneta, como bem foram ensinados..disciplinado na indisciplina. (a maioria estuda regularmente).
Estas crianças moram em casas sobre estacarias à três quarteirões da minha casa,(num bairro mil realidades) sem qualquer infra-estrutura, saneamento básico. Podemos dizer que são favelas sobre pontes.
Não conseguindo terra firme as áreas alagadas (chamadas pelos ecólogos como áreas de ressaca) são a única alternativa para famílias imigrantes dos interiores do Amapá de conseguirem o direito à cidade e a uma “vida melhor”, como assim acreditam. O subemprego e o trabalho infantil, também sinalizados na pesquisa, nascem em sua grande maioria também nas palafitas. Ocorre que, o modelo de habitação que funcionava no interior, na beira dos rios, não funciona na cidade. Resultado: impacto ambiental em todos os níveis. Comecei meu projeto de TCC , escolhi adivinha que tema? Identidade cultural a partir da disciplina urbana e estética ambiental.Como nem tudo é permitido na descrição acadêmica, me veio a idéia de pintar a realidade e propor novo olhar sobre as palafitas, surgiu assim o projeto lacunas: um mundo entre pontes.
Visito a comunidade regularmente, o projeto científico é interdisciplinar e objetiva sensibilização ambiental e a formação de uma cooperativa habitacional. Apesar de algumas resistências conheço bem a comunidade, fiz amigos e amiguinhos do coração.
...abraçossssss
Show de bola Zab, Barbara parabéns os trabalhos estão muito interessantes e o conceito mais ainda.
Maikon Richardson · Macapá, AP 12/5/2007 23:34
Barbará Parabens pelo trabalho! sou do grupo que quer ter uma das pinturas!Bem lindo mesmo! Acho que um segundo passo disso poderia ser experimentar a pintura com as crianças. Estimulá-las ! Tem um filme que recomendo que vejas, pode te dar inspiração. "Nascidos em Bórdeis", que falade uma moça que se insere numa periferia indiana e ensina fotografia para crinças (filhas e filhos de prostitutas). Com isso ela estimulou as crianças a revelarem através do olhar fotográfico suas pecepções do que vêem à sua volta. Alguns acabam revelando grande talento para a coisa! Acho que vais gostar muito do documentário!
Parabéns Zab! Boa pauta e boa entrevista!
Amigos,
Obrigados pelos elogios à entrevista, mas tenho que admitir que não foi nenhum sacrifício. A Bárbara realmente é muito telentosa. Agora sou um daqueles que também quer ter um quadro dela. :)
Ei, ei... tem mais um interessado... Beleza, Paulo, de entrevista, cara. Macapá tem me surpreendido ultimamente, graças a esses artistas (ainda) anônimos que pipocam por cá e
Pepê Mattos · Macapá, AP 20/5/2007 15:38Ei, ei... tem mais um interessado... Beleza, Paulo, de entrevista, cara. Macapá tem me surpreendido ultimamente, graças a esses artistas (ainda) anônimos que pipocam por cá e que estou descobrindo através da web (blogs e sites). A Bárbara realmente impressiona: pouca idade e um enorme talento, além, é claro de uma percepção fora do comum para essas coisas que olhamos mas não conseguimos ver. Ferramentas de poeta, seja lá que tipo de linguagem se utilize. Tocante também a maneira como foi a aproximação dela com as crianças das pontes de madeira. Realidade diversas, necessidades similares: o de conectar o centro (?) com a periferia objetivando aproximá-las daquilo que entendemos por cidadania. Abraços.
Pepê Mattos · Macapá, AP 20/5/2007 15:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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