Não vi no UOL, nem no Terra, nem na Época, mas hoje é o aniversário de 70 anos da morte de Virgulino Ferreira, o Lampião. Figura controversa e mítica, Lampião mistura todas as qualidades e defeitos do bandido heróico, do considerado Robin Hood brasileiro pela revista Time de 1931, com uma pitada de lenda de faroeste americano. Muitos o acham um herói, outros um socialista, mas parece que a realidade não é bem assim. Lampião era bandido mesmo. Ganhava dinheiro, armas e abrigo dos "coronéis", justamente para realizar serviços contra os inimigos políticos destes. E, nessas andanças, massacrava o povão. Matava e saqueava a plebe que passou a lhe louvar.
Apesar de oficialmente afirmar que entrou para o cangaço para vingar a morte do pai, Lampião e seus irmãos já praticavam pequenos crimes antes do ocorrido. Integrou o bando de Sebastião Pereira (o Sinhô) e em pouco tempo já liderava a gangue.
Lampião era vaidoso e orgulhoso do que fazia. Usava perfume francês, tinha cartão de visita (com sua foto, inclusive) e em uma entrevista dada em Juazeiro do Norte mostrou sua verve mais, digamos, hipócrita:
- Não pretende abandonar a profissão?
(A esta pergunta Lampião respondeu com outra)
- Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este "negócio", ainda não pensei em abandoná-lo.
- Em todo o caso, espera passar a vida toda neste "negócio"?
- Não sei... talvez... preciso porém "trabalhar" ainda uns três anos. Tenho alguns "amigos" que quero visitá-los, o que ainda não fiz, esperando uma oportunidade.
- Não se comove a extorquir dinheiro e a "variar" propriedades alheias?
- Oh! mas eu nunca fiz isto. Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir "amigavelmente" a alguns camaradas.
(Fonte: site de Vera Fereira, neta de Lampião: http://iaracaju.infonet.com.br/LAMPIAO/index.htm)
Segundo site Brasil, Mitos e Lendas de Rosane Volpato (http://www.rosanevolpatto.trd.br/LENDALAMPIAO.html), o líder e seu bando vagaram por 7 estados nordestinos. Lampião era cruel o bastante para, pessoalmente, arrancar olhos ou cortar línguas e orelhas. E mais, se encontrasse moçoilas com cabelos ou vestidos muito curtos, mandava que lhe marcassem o rosto a ferro quente. Em Bonito de Santa Fé, em 1923, ele deu início ao estupro coletivo da mulher do delegado. Vinte e cinco homens participaram da violação.
O Nordeste brasileiro daquela época não era muito diferente do que é hoje, com famílias mandando em regiões inteiras, guerras territoriais, assassinos de aluguel sendo contratados, desprezo do governo federal (Getúlio só se mexeu para acabar com o cangaço depois de MUITA pressão dos políticos nordestinos) e o povo, além de viver em uma carestia tremenda, era o recheio de um sanduíche indigesto: de um lado os apertavam a polícia (os volantes) e do outro os bandidos do cangaço. Se não apanhavam de um, eram espancados pelo outro.
Não quero entrar em julgamento de valor. Acho que a figura de Lampião é importantíssima para nossa história. Ele é uma espécie de Jesse James ou Billy the Kid, versão tupiniquim. Isso porque os outros dois também eram assassinos cruéis, procurados e também considerados anti-establishment. Billy the Kid, nas palavras de seu amigo e assassino, Pat Garret, era um rapaz que "comia e sorria, transava e sorria, matava e sorria". E, mesmo assim, é louvado até hoje. É preciso porém que seja feita uma análise menos romanceada do importante nordestino. O fato de estar aliado aos coronéis já depõe contra ele. O próprio Padim Cícero era, e isso é sabido, um político matreiro e carismático. E nem por isso deixou de virar lenda, beatificado e tudo mais.
Voltando à vaca fria, há 70 anos, numa emboscada em Angico (em Sergipe), graças a uma delação, Lampião, Maria Bonita e mais 11 cangaceiros foram massacrados pelas tropas do "macacos" do Tenente João Bezerra. O líder dos bandidos foi o primeiro a tombar. Suas cabeças foram cortadas e mostradas nas escadarias da prefeitura da cidade de Piranhas em Alagoas, sendo sepultadas somente em 1969. Uma versão do ocorrido explora que, na realidade, o delator os envenenou primeiro (urubus mortos em volta dos corpos corroborariam a hipótese). Daí a facilidade da captura. Nunca ninguém vai saber da verdade.
Acontece que, se a lenda é maior que a realidade, publica-se a lenda. E se é assim, longa vida a Lampião, o rei do cangaço. Longa vida a Maria Bonita e a Corisco. Longa vida ao legítimo faroeste brasileiro.
Gostei.
Claro, objetivo,
relativiza bem a figura de Lampião,
não um herói,
mas um bandido,
porém também não muito mais cruel
do que os coronéis que o contratavam!
Talvez, a exemplo dos heróis do faroeste
a história de Lampião
merecesse ser contada
por esta ótica.
Claudio,
Belo texto, coerente e elucidativo,
Lampião nps acompanha desde a mocidade, e essa mistica que o envolve ainda esta envolta em mistério, pois consta também que serviam como instrumento politico. Apesar de tudo, o fato de terem sido decapitados, comprova que os fins não justificam os meios. Restou a lenda que merece ser contado em verso e prosa, porque não?
Bjsssssss
O Autor sempre disse que filho de cágado, tartaruguinha é....Na presente situação, neto e sobrinho de cágado.....parabéns pelo belo texto. Lilinha
Lila Su · São Paulo, SP 28/7/2008 19:29Parabéns. Abraços. Tia Lange...
Langinha · São Paulo, SP 28/7/2008 20:28
Texto excelente!!
Mostra de forma simples e clara a realidade/lenda e, como você bem disse, sem entrar no julgamento do valor deve ser passada adiante como parte de nossa história e de nossa cultura.
"Acontece que, se a lenda é maior que a realidade, publica-se a lenda" Ufa, finalmente! Estou de certa forma aliviada ao ler, pelo menos aqui, algo fiel à realidade do que foi Lampião e seu bando, até mencionando estupros que ele praticava pelos Sertões que, é um fato de menor conhecimento de todos que romantizam demais esse personagem histórico. Para quem não sabe, o cangaço do tipo "boa política" aconteceu com Jesuino Brilhante, com Lampião, não havia "nobre causa" e era ele também um "objeto" usado para acabar com a Coluna Prestes no Nordeste. Recebeu a patente de Capitão, nas forças legais do dep. federal Floro Bartolomeu, pelo próprio Padre Cícero, que também é outra figura muito polêmica. Parabéns Claudio, pelo postado com informações verídicas que você nos traz.
JACK CORREIA · Crato, CE 29/7/2008 11:14
Leiam também a série de matérias que o Pedro Rocha, jornalista de O Povo, escreveu ao longo da semana passada. Trata-se de um dos trabalhos mais ricos sobre Lampião. A série teve início no dia 20, domingo, e seqüência ao longo da semana. A datas e temas podem ser acessados aqui.
Abraços...
Espetacular! Parabéns pelo belo texto!
Poucos seguem uma linha lógica de raciocínio sem se deixar levar pela influência de nossa lendária cultura.
Parabéns, garoto. Exposição objetiva e oportuna. Que venham novos trabalhos.
Circus do Suannes · São Paulo, SP 30/7/2008 15:23Que tal escrever um próximo trabalho sobre Padim Ciço???? adorei saber a opinião dos cearenses, sempre queridos.
Lila Su · São Paulo, SP 30/7/2008 17:23
A colega Jack Correa do Ceará me disse que está escrevendo um texto sobre o "padim" Cícero. Será ótimo para também conhecermos outras facetas desta lenda obscura. Além disso também estou pesquisando sobre o citado Jesuíno Brilhante.
Abraços e grato a todos pelo apoio!
Já tinha dito antes (no lugar errado: sugestões de edição não é o lugar dos elogios!), achei o texto belíssimo e oportuno. Gostei principalmente da reflexão apoiada em informações compartilhadas com o leitor e sem a pretensão da verdade. Parabéns!
Abç, Flávia
Gostei do texto.
Demonstra que a figura de Lampião é mais de um bandido do que de um herói, como são contadas em outras versões.
Um abraço!
CARO CLAUDIO PUCCI
Antes de qualquer crítica construtiva - espero que entenda assim - quero deixar meus parabéns pela matéria oportuna. A foto mostra um pouco do povo nordestino, sofrido, perseguido e retratado de acordo com a ocasião. É história na certa... E virou estória... Lenda! Até a Rede Globo filmou e ganhou dinheiro com “Lampião e Maria Bonita”.
Sou nordestino do Sertão do Moxotó - Estado de Pernambuco. Nasci na cidade de Sertânia, próxima de Serra Talhada (150 Km) e cenário das sagas dos cangaceiros... Desde pequeno ouvi histórias e estórias... Algumas narradas por ex-policiais das famosas volantes. Outras... Por familiares “coiteiros” (que davam abrigo aos cangaceiros). As figuras controversas desses personagens foram moldadas com o tempo. Ouvi da boca do meu falecido avô (materno) que os homens de lampião e o coronel Virgulino, faziam o jogo político usando a “Lei do Sertão”. Traição era crime! Dedo-duro era condenado! Perdia a cabeça. Por outro lado, as volantes aplicavam a “Lei da Tortura”. Quem não abria a boca, pagava em suaves prestações... Parece com os tempos modernos! Não será mera coincidência? Os morros das periferias brasileiras que o digam...
Talvez uma matéria tão importante como esta mereça uma segunda parte, com direito a entrevistas, mais fotos, e até uma narração mais isenta por parte do jornalista. Mas, não estou aqui para apontar o que é melhor...
Continuo aplaudindo a iniciativa do amigo “CLAUDIO”.
O Brasil precisa abrir seus arquivos históricos.
Parabéns!
Abraços.
Lailton Araújo
correção...
"Os homens e o Coronel Virgulino (Lampião)"
Dentro da História do Brasil, já em pleno séc. XX, pleno porque foi depois da Revolução Russa, depois da I Grande Guerra, este é o Capítulo que começa a ser tratado à luz da realidade, penosa realidade, mas realidade, fora dos interesses e proibições do Estado.
Muito bom vou reler.
abraço
]andre.
Oi Claudio, louvável sua iniciativa de postar sobre o Lampião aqui, ainda mais nessa data. Só acho que seu objetivo de não incluir juízo de valor não foi muito bem atingido, né? hehe
abs
DM
Concordo com o Diego. Fez juío de valor e opiniou diretamente, deixando ao fim apenas a visão cruel e sanguinária de um assassino. Deve haver muito mais do que isso na História de Lampião.
Sinto muito mas considero bastante amador o seu trabalho, parcial, positivista, reacionário e fraco nas fontes e no referenciamento.
É a continuidade da História Oficial do Brasil, aquela que conta os fatos pela ótica dos vencedores.
Todavia, como aqui se aceita tudo (algumas vezes por complacência, outras por tolerãncia e outras por gosto mesmo) e pelo nível geral da instrução e do questionamento de nossa sociedade com relação ao seu próprio processo histórico, vai aqui um parabéns hipócrita pela iniciativa de trazer à toma o tema.
Discordo do Marcos Paulo. O que acontece é que há uma tendência por parte de alguns representantes da chamada Nova História de simplificar a tão complexa história deste país chamado Brasil. O que é que tem mostrar que Virgulino era um sanguinário? Não creio que isso seja escrever a história do ponto de vista dos vencedores, já que é bem claro que Lampião não está no rol dos vencidos, já que os nordestinos decidiram em plebiscito que ele é herói e não bandido e sua figura é explorada de forma positiva pela arte, pelos meios de comunicação e pelos políticos. Aliás, não aceitar que alguém opine diretamente sobre determinado sujeito histórico é que é uma tendência positivista, a qual renegava veementemente a subjetividade. Parabenizo o autor do texto, por trazer um novo olhar sobre a imagem do Capitão Virgulino.
Duborges · Santo Amaro, BA 31/7/2008 20:43
Deixo aqui minha opinião
Abs,
Herculano
NÓiS, OS VIRGOLINO.
Herculano Alencar
Lampião nasceu aceso,
Aluminhando o sertão,
Já com todos os adereço,
E co' a peixeira na mão,
O bofe do lado avesso,
Na bainha do facão,
Estipulou o seu preço,
Pro mode da inflação,
Anunciando o começo,
Da grande revolução.
O sertão mal dividido,
Como rezava o vigário,
Dava pro povo sofrido,
Um tiquinho do salário,
O cerumim do ouvido,
E o diploma de otário,
Pros coroné do partido,
As terra do inventário,
Todo capim produzido,
Nos dia do calendário.
Lampião julgava errado,
E agitou um reboliço,
Juntou uns gato pingado,
Foi falar com pade Ciço,
Apeou , ouviu calado,
Ao santo foi submisso,
Saiu de lá contentado,
Pronto pra dá o serviço,
Já que foi abençoado,
Sem ter de pagar por isso.
Se embrenhou no sertão,
Magote de cabra macho,
Com muita convicção,
Molejo no espinhaço,
Justiça nas oração,
A morte no seu encalço,
Jabá , farinha e feijão,
Rapadura em pedaço,
Cachaça perto da mão,
Pra quando sentir cansaço.
Uma tropa intinerante,
Desde o sertão pro agreste,
Que nem um judeu errrante,
Seguiu o cabra da peste,
Um cavaleiro elegante,
Dono da roupa que veste,
Iniciou um levante,
De norte a sul, leste, oeste,
Cada lugar, uma amante,
Cada amante, um pivete.
Patente de capitão,
Como manda a hierarquia,
Na frente do pelotão,
Pra demostrar valentia,
Lá estava lampião,
Na mira da oligarquia,
Chapéu de couro e gibão,
Que o sertanejo vestia,
E a plena convicção,
De que seu povo servia.
Um guerrilheiro valente!
Um bandido desalmado!
Opinião diferente,
Dividia os dois lado,
Pros ricos não era gente,
Pros pobres era louvado,
Pros coroné e os parente,
Seu facão era afiado,
Pro povo dito, inocente,
Farinha e capote assado.
Foi assim a vida inteira,
Como inté hoje em dia,
Tem fã clube de carteira,
E a raiva da burguesia,
No cinema, tem cadeira,
E esgota a bilheteria,
Na história brasileira,
É folclore ou fantasia,
E o sangue da peixeira
É sua biografia.
Virgulino, o lampião,
Um Lênin tupiniquin,
Não era nenhum ladrão,
Assaltante ou coisa assim,
Era um homem de ação,
Que lutou até o fim,
Embora na contra-mão,
Batendo em gente ruim,
Era de bom coração,
Porém de curto estopim.
Cangaceiro socialista,
Sem utopia e sem nada,
Guerrilheiro estrategista,
Jogava as carta marcada,
Contra os cabra vigarista,
Das mansão encastelada,
Os verdadeiro avalista,
Da pobreza enraizada,
Crescente a perder de vista,
Mesmo pra vista aguçada.
A pobreza que assola,
O Brasil da maioria,
Que vive pedindo esmola,
Que apanha quando arrelia,
Que os coroné inda enrola,
Prometendo melhoria:
Os moleque na escola,
Condução e moradia,
E muito pão na sacola,
Pra acabar com a bóia fria.
Mesma conversa fiada,
Dos tempos de lampião,
Da mesma coronelada,
Que se apossou da nação,
E que vive aquartelada,
Nas mais moderna mansão,
Ou nas igreja lotada,
Fingindo suas oração,
E comendo a marmelada,
Temperada na a eleição.
Oxente, meu companheiro,
Me dê cá a sua atenção,
Pois nós tudo é cangaceiro,
A gente querendo ou não,
Pois o Brasil brasileiro,
É o Brasil de lampião,
Do povo, que sem o dinheiro,
Trabalha na construção,
Da riqueza que o estrangeiro,
Arremata nos leilão.
Vamos vestir o chapéu,
Roupa de couro e gibão,
Pois nada cai lá do céu,
Tem que ter revolução,
Pra tomar dos coronel
A nossa devolução,
É o nosso voto de fé,
Na fé da nossa união,
Nós vamos morrer de pé
Como morreu lampião.
Marcos Paulo, não acredito que tenha optado por ver o lado dos vencedores. Porque na história oficial do Brasil, Lampião é considerado SÓ herói. Quis mostrar a outra faceta também. Sempre há 3 lados nma história. Já li muito sobre II Guerra para saber que nem todo alemão era mau e nem todo americano era bom. Concordo que a versão oficial é a dos vencedores, por isso que devemos ir atrás de outras colocações.
De qualquer maneira, também não acredito que ele não tenha importância nenhuma ou deva ser descartado ou desacreditado. É uma lenda. E todas as lendas são interessantes. Em tempo: foi um texto rápido para falar de algo que não foi mencionado aqui no sudeste, não uma tese. Abraços!
Muito legal sua construção argumentativa, Cláudio. Você compôs bem a dupla, seriedade e humor! ;) Parabéns. Muito agradável mesmo.
Martha Myrrha · Rio de Janeiro, RJ 31/7/2008 23:14
Gostei de sua humildade Claudio, você reagiu muito bem à crítica carregada que lhe fiz.
A humildade em uma pessoa é a única postura que me desarma completamente. Por essa razão acato sua resposta como coerente e deixo para quem entende melhor sobre o assunto as necessárias colocações (menos contundentes) que possam levar o tema a uma visão mais ampla e profunda do contexto, da vida e da obra de Lampião.
Abraços Guaicuru!
Caro Marcos Paulo, também admiro a sua humildade...
Abraços
Passei para dar uma conferida.
Parabéns bela notável aceitação.
Abraços
Overmundinho, recanto dos humildes. Vão pra igreja, meus filhos.
Duborges · Santo Amaro, BA 6/8/2008 14:35
Muito bom!!! Elucidativo!
Faltava falar tudo isso! Ha!
Parabéns! beijão...
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