17 de setembro de 2006 – Aconteceu a festa de lançamento do cd Gerações que reuniu a mistura de artistas guaicurus de diversas idades e com diversas surpresas inusitadas para o cenário musical guaicuru de Mato Grosso do Sul.
O local
A concha acústica Helena Meirelles, situada dentro do Parque das Nações Indígenas em Campo Grande, foi pequena para o público que compareceu no local. As arquibancadas da concha não foram o suficiente, e o público ‘esparramou’ pelas proximidades – no Museu de Artes Contemporâneas, no bosque do parque, e às cercas da concha.
A produção
Artista regional não está acostumado a grandes produções. E a festa de lançamento do cd Gerações fez questão de tratar com respeito a nossa cultura musical. Os telões posicionados nas laterais do palco, exibiram trechos de diversos momentos (registrados em vídeo) da cultura guaicuru – de Mato Grosso do Sul, e o público era brindado nos intervalos de uma música e outra, com imagens do Prata da casa (antigo evento que caracterizou a geração de 80 guaicuru), clipe do Lírio Selvagem, de Almir Sater, do Grupo Therra, e entrevistas com a Professora Glorinha Sá Rosa (produtora do Prata da casa) e Geraldo Roca. Muitas dessas imagens exibidas, ajudava na memória e no suscetível controle dos sentimentos do público. Funcionou perfeitamente, pois a figuração e iluminação do palco criaram a ‘magia’ que todos ali presentes esperavam.
Enfim, a música – a cozinha e seus temperos
Toninho Porto, (baixo/violão acústico) Alex Cavalheri (teclados, escaleta e programações), Sandro Moreno (bateria) e Gabriel Bassos (baixo) foram a base de apoio para muitos artistas que ali se apresentaram. Seguraram muitíssimo bem. Toninho foi o maestro do palco com percepção para qualquer defeito sonoro que aparecesse. Alex mostrou sua diversidade e intimidade com os ritmos regionais, inclusive empunhando uma escaleta. Gabriel é da nova geração que desponta, e nesse dia recebe seu ‘batizado’ com a responsabilidade de acompanhar artistas com anos de estrada. E Sandro, [...] bem, há que conter os palavrões para falar desse homem que está na sua melhor forma, e nos presenteou com uma performance perfeita em técnica + sentimento. Arrepiante.
A musicalidade - os semi-deuses, titãs, anjos caídos e ETs...
A massa do público ali presente assuntou muita gente que subiu no palco. Afinal, todo ‘esse público’ estava ali somente para assisti-los. Porém, o ‘susto’ não influenciou em nada nas apresentações. A magia estava circulando no ambiente. E esse fantasma não tava com nada pra assustar.
Jerry Espíndola e Karina Marques – Jerry já foi punk (nos Incontroláveis), já foi pop-pantanal nas incontáveis noites campo-grandenses, e atualmente ajuda a difundir a polca-rock. Karina tem a simpatia do público que freqüenta a noite atrás de música ao vivo, e tem seu primeiro cd bem executado nas rádios, e é uma artista sadia. Casamento perfeito. Com uma roupagem alegre na canção de Geraldo Roca – Polka outra vez, ao vivo ficou mais gostosa ainda de dançar, eles conseguiram animar de cara a grande multidão presente abrindo um festival de emoções... [ foto ]
Guilherme Rondon e Gílson Espíndola – Aqui temos um encontro de titãs. Coisa pesada. Guilherme é do Prata da casa, músico apurado e conceituado. Gílson é ex-Bem Virá, tem discos solos e anos de estrada que o deixou muito bem expressivo no palco. Guilherme tava meio apreensivo, esqueceu a letra, mas nem precisava cantar, pois esse homem tem uma mão direita ótima pra tocar rasqueado. Gilson fez o que tinha que ser feito, deu o pinote no cavalo, segurou a boiada e descontraiu o clima na apresentação, e ambos nos mostraram o quão humano somos diante tal sentimento que pairava naquele dia. [ foto ]
João Fígar e Amambay e Amambaí – Haja coração! Recuerdos de Ypacarai. João Fígar é também Prata da casa, experiente músico que já trabalhou e gravou os melhores nomes da música regional. Amambay e Amambaí é parte da tradição sertaneja mais pura desse nosso Estado. A união desses fatores, deu-se nesse momento a descida do ‘espírito santo’, e os sentimentos fluíram melhores. Uma interpretação banhada no rio Jordão. [ foto ] - [ clip ]
Paulo Simões e Melissa Azevedo – Os sentimentos já estavam todos ali, era só se servir. A canção Conversas e promessas dá continuidade ao banquete de energias. Paulo Simões, autor de grandes sucessos como Vida bela vida e Trem do Pantanal, ao lado de Melissa que tem uma interpretação marítima, deu -nos o vinho que faltava para servir nessa festa guaicuru. Melissa já havia trabalhado com Simões em diversas ocasiões como nos seus discos solo e com o Chalana de Prata, então o afinamento entre os dois no palco estava bem natural, parecia pai e filha (no bom sentido). [ foto ]
Filho dos Livres e Carlos Colman – Se os Jedis existissem, aqui teríamos um exemplo vivo. Temos o mestre Colman com os aprendizes Jedis: Guilherme e Guga. A figuração do palco contribuiu um pouco com a ‘fantasia’, ora que os cones iluminados de azul pareciam com sabres-de-luz usados pelos Jedis. É nesse momento que a beira de palco vira um conglomerado de fãs que querem registrar a todo custo um pedacinho daquele momento. É isso que esses Jedis provocaram – furor, com uma apresentação quente e iluminada. E a força esteve com eles... [ foto ]
Marcelo Loureiro e Elinho do Bandoneon – Acalmemos os ânimos para dar espaço ao fronteiriço, ao cheiro de mato molhado, aos traços fortes ameríndios, ao que conhecemos e convivemos diariamente aqui – hipnóticamente, como a apresentação de Loureiro, mais técnica e menos exibicionista. Elinho, sentado num banquinho, estava tão à vontade que parecia estar na varanda de sua casa. Com a percussão de Sandro Moreno, parecia com o galopar dos cavalos e quando Elinho tocava sua gaita, eram como os passarinhos aos silvos. [ foto ]
Clarice Maciel e Antonio Porto – Antonio, ou Toninho, já tava aquecido. Toninho é músico genial, e para acompanha-lo precisava de uma cantora lírica como a Clarice. Toninho sabe lidar com mantras musicais que ativam nossos chacras, além de fazer da sua música uma oração, e acompanhado de Clarice, é tudo o que Deus queria, já que Clarice é devota, adora o gospel. Ecumênico. [ foto ]
Beth e Betinha, com Maria Cláudia e Maria Alice – Momento sacode a poeira. Eita tren-bão-sô! Esplendida. Espetacular apresentação. [ foto ]
Geraldo Roca e Márcio De Camillo – Geraldo é o nosso poeta cosmopolita e um autêntico roqueiro – postura, visual e hábitos. Infelizmente (ou não), ele se apresenta muito pouco nos palcos guaicurus, afinal sendo cosmopolita vive na lua. Dessa forma, Roca tomou para si as atenções, ora ele de volta ao palco é para celebrar e aproveitar cada minuto. Márcio que no decorrer do evento tocou violão de aço e gaita-de-boca na apresentação de outros artistas, já estava embalado na energia que circulava; cumpriu seu papel humildemente na responsabilidade de acompanhar Roca. E que responsabilidade. House of rising sun. [ foto ] - [ clip ]
Lenilde Ramos e O Bando do Velho Jack – Resgate histórico. Lenilde já havia trabalhado com Bosco (baterista do Bando), com a Banda do Pasto (que também tinha Celito na sua formação nos anos 70). Infelizmente, a apresentação foi prejudicada por defeitos do som da mesa que chegava para o público, talvez pelo fato de que o Bando toca ‘alto’, mas o brilhantismo da apresentação nada interferiu. Lenilde foi vestida a caráter, parecia uma autêntica hippie, tocando sua sanfoninha (safada), que junto com solos e guitarras voadoras, o público se sentiu em velocidade ‘moderada’ pela estrada afora... [ foto ]
Jucy Ibanez e Bêbados Habilidosos – “Volta aqui neguinho!”. Divertida apresentação de Jucy e Bêbados que são praticamente da mesma geração. Ambos têm anos de estrada e são debochados. E o que vimos ali foi essa experiência somada ao humor e a fusão de estilos diferentes: Jucy (mpb) + Bêbados (blues). Fórmula resultou numa substância etílica um tanto diferente. Tequila. Jucy não teve pudor nenhum em ‘agarrar’ Renato Fernandes (vocal do Bêbados). Renato apontava, encarava, paquerava, provocava, e Jucy dava corda. A apresentação foi de tamanho sucesso que foi a única que o público levantou para aplaudir. [ foto ]
Rodrigo Teixeira – Rodrigo é um dos difusores da polca-rock, que na gravação do disco aparece com Alzira Espíndola, a mãe da polca-rock. Infelizmente, por forças maiores, Alzira não pode comparecer no show. E o que vimos do Rodrigo na sua apresentação foi uma parede sonora. Rock n’ roll é alto por natureza (e que se virem os técnicos de som...). A sonzera que Rodrigo (voz e guitarra) fez ali com apenas quatro músicos acompanhando (Alex, Toninho, Sandro e Anderson Rocha) foi de cruzar as pernas e cair no chão depois de doses de vinho, whisky e tequila servidas anteriormente. A fudê! [ foto ]
Celito Espíndola e Olho de Gato – Celito é Prata da casa e ex-Lirio Selvagem. Em carreira solo participou de uma geração mais ‘teatral’ no palco musical. Ou seja, ao vivo ele é o cara. Olho de Gato é percussor do pop-regional, toca bem nas rádios, e ao longo dos anos já passou por diversas formações. Curiosamente em tempos de internet, a apresentação do Olho no show Gerações era muito esperada por um certo público ali presente, pois traria uma nova formação na banda com Marcelo Oliveira (voz e guitarra). Reformulação essa que se deu após o lançamento do cd Gerações que ainda traz Daniel Freitas no vocal. Marcelo é músico do meio underground dos anos 90 e muito conhecido pelos músicos da região; guitarrista técnico e vocalista de posição grunge/classic metal. A apresentação do Olho de Gato e Celito Espíndola foi de uma energia explosiva. Coisa do tipo: um meteoro caindo na terra. [ foto ]
Trem do Pantanal (todos os artistas ao mesmo tempo no palco) – Sinceramente, o show poderia ter terminado sem isso. Esse tipo de apresentação com muitos músicos no palco já tá ultrapassado os limites. Ainda bem que o palco era ‘blocado em concreto’, senão caía de tanta gente que tinha sob ele. Ficou constrangedor, não havia microfones o suficientes pra todos (nem haveria), e a confraternização parecia-se mais com um We are the world. [ foto ]
Mas valeu, e como. Ponto para a cultura guaicuru. Ponto para a equipe de produção (em especial ao Márcio De Camillo), pro pessoal da iluminação, ao pessoal da equipe de som que se acostuma a cada dia que passa ao som alto do rock n’ roll.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Ouça também:
> Solidão (João Fígar): Carlos Colman e Filho dos Livres
§
Leia também:
> GerAções reativa correnta da música de MS por Rodrigo Teixeira
§
Nossa esse evento foi um dos melhores que já fui!!ARREPIANTE DO COMEÇO AO FIM!!!Simplesmente sensacional..Meus sinceros parabéns aos organizadores e aos ótimos e maravilhosos artistas regionais!!!!
Sylve · Campo Grande, MS 21/9/2006 09:45
Assumm... sem combinar acabamos escrevendo sobre o show e postando aqui. O mais legal q as duas matérias se completam. Seja bem-vindo ao Overmundo e continue escrevendo. Valeuw!
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 21/9/2006 19:22
fui ao show e amei,pois gosto de musica regional,e claro de qualidade.tenho o vinil "prata da casa" e ouço sempre q posso é muito bom.
parabéns a todos os artistas q contribuiram p/ q isso pudesse acontecer,foi um presente p/a cultura de campo grande e de toda região inclusive do brasil.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!