“Toma, gostosa, lapada na rachada, você pede que eu te dou, lapada na rachada. Toma, toma, toma...â€
O trecho acima é parte integrante (e principal) da letra da música, estilo forró, da Banda Saia Rodada, gravada por outros grupos ao redor do paÃs. E a famosa lapada na rachada não só é o nome de uma popular bebida nordestina, mas, também, é uma expressão de forte apelo sexual (é o próprio ato sexual no sentido metafórico), o que caracteriza a dupla interpretação da letra musical.
Porém, lapada na rachada pode ter infinitos significados: Pode ser a porta de entrada para a perpetuação da miséria e da ignorância a que os nortistas e nordestinos pobres desse paÃs estão submetidos, caracterizada pelo uso excessivo das bebidas alcoólicas, sobretudo a cachaça e pela banalização do sexo que leva jovens recém saÃdos da infância a penetrar num mundo lascivo sem nenhuma preparação educacional ou orgânica.
Entretanto, paradoxalmente, lapada na rachada também é a libertação (por mais incrÃvel que isso possa parecer), no sentido em que torna o norte nordestino consumidor dos seus próprios produtos culturais (sem juÃzo de valor), gerando emprego e renda para milhares de pessoas que direta ou indiretamente transitam por essa indústria de massa.
Portanto, caros, a lapada na rachada nos mata e liberta, nos consome e alimenta, é veneno e antÃdoto, é Deus e o Diabo e somos, inexoravelmente, reféns nesse cÃrculo vicioso que não tangencia... Nem pra sonhar.
Mas de quem é a culpa?
Do capitalismo que seduz e coopta artistas com promessas de fortuna e fama, obrigando-os a direcionar seu repertório, atrofiar seus talentos inatos (ou encobrir a falta destes) e reproduzir sons ininteligÃveis tipo: “Pirilipompon, pirilimpomponâ€, música, estilo pagode, da banda Os Bambaz, ou “eu boto ou não boto, ai to com medoâ€, do grupo de forró Gemido. A culpa é dos próprios artistas, cansados de cantar para um público indiferente em barzinhos de beira praiana em troca de um "tira-gosto" e algumas garrafas de cerveja, e vendem seus corpos e suas utopias para o “show business†em busca de um melhor destino. Ou a culpa é do público que se deixa influenciar pelo canto desafinado de falsas sereias, embriagados pelo ambiente frÃvolo, inebriados pelos sabores “calientes†na periferia da América Esquecida?
Tenho a leve impressão de que a culpa é de todos nós, pois o principal problema dessa porta aberta para o abismo é a ausência do processo de criação profundo, de um modelo que culturalmente tenha qualidade e riqueza e, concomitantemente, seduza a massa (massa = turba e massa cinzenta) conduzindo-nos, obrigatoriamente, a conhecer, interpretar, discutir, questionar, interagir, enfim... que tire a “bunda do nosso cérebro†da rede que ele se encontra e nos transporte a outras paragens sensoriais, mais antenadas, mais abertas para o universo em todas as suas nuanças e mais especÃfica para a nossa realidade, pois, assim, talvez consigamos desenvolver uma visão sistêmica do mundo a partir das nossas peculiaridades, influenciando todos que estão à nossa volta.
Quem pode liderar esse processo de enriquecimento cultural?
Creio que qualquer mudança nesse panorama caótico, raso e sem perspectiva passa, necessariamente, pelo engajamento cultural dos ,ditos, “letrados†da nossa região, que acumulam conhecimento, mas se escondem num mundo hermético e compartimentalizado, criam ilhas com essências artificiais européias ou cariocas( ou americanas), moram em cavernas platônicas com sobrenomes suntuosos e dão as costas para a sua própria cultura, negando-lhe qualquer possibilidade de enriquecimento, permitindo que tamanho potencial de riqueza cultural morra, ainda embrionário, de profunda inanição. Uma verdadeira lapada no lombo da cultura regional do norte e nordeste, que sangra e agoniza sob o olhar impassÃvel da nossa omissão.
"Porém, Lapada na Rachada pode ter um sem número de sentidos: Pode ser a porta de entrada para a perpetuação miséria e a ignorância "
E alguns espaços a mais no uso da vÃrgula em alguns trechos do texto.
No mais, eu, particulamente, me sinto bem constrangida qdo sou obrigada a ouvir esta e tipos parecidos de músicas. Principlamente, porque elas, em sua maioria, sempre desvalorizam a mulher. E muito mais a se falar sobre esta nova cultura.
abs
Agradeço pela correção.
De uma maneira geral , creio que desvaloriza o nordestino e o nortista, mas, paralelamente,a Lapada na Rachada combate os enlatados sem qualidade que recebemos do sul e sudeste do paÃs (vide Latino, Kelly Não Sei das quantas, funk carioca, etc...). Acho que precisamos, conhecer profundamente as raÃzes dessa cultura descartável de massa para podermos propor algo novo , de melhor qualidade cultural .
Acho que faz parte da cultura ter produções deste tipo, o problema é na cultura de comportamento, oportunidades e educação (não só da cultura de produção), que não torna acessÃvel a variedade de produções (locais para nós norte/nordestinos) e não mostra ao público as outras coisas que estão sendo feitas, como se o público só gostasse de Lápada na rachada e afins. Uma prova do que o público aprova outras tipos de músicas e artes é qdo outros tipos de músicas e artes fazem parte de novelas e demais programas/mÃdias populares. Acho que o problema é o acesso, a apresentação de uma(s) outra(s) culturas para todos.
abs
Talvez, enfatizo o talvez, a inclusão digital seja a saÃda para esse novo mundo hegemonicamente de cultura rasa. Os blogs, os flogs, os fóruns de discussão nos dão um infinito de possibilidades de criação, de discussão, de interação. A internet tem o potencial de abrir as nossas antenas parabólicas mentais (como diria o mestre Gilberto Gil) para esse mundo novo que pode ser maravilhoso ou pode ser um blefe, pode nos conduzir, como partÃcipes, a uma revolução cultural e de pensamento mundial ou pode aguçar os nossos instintos mais primitivos que são externados através do racismo, da pedofilia ou do bate papo mentiroso nos chat's da vida.
A lanterna pra sair da caverna em que estamos metidos está aqui, podemos usá-la para buscar novos mundos ou simplesmente gastar toda a sua luz em inutilidades.
Parabens! Jair,
Penso em escrever alguma coisa e algumas questões você já adiantou.
Um dos aspectos que eu percebi em relação a "lapada na rachada" e outras tantas é que elas tem um ritmo gostoso para dançar e suas letras expressam o cotidiano de muitos dos alunos (as) com os quais convivo.
Há algum tempo atrás eu pegava no pé deles por causa dessas músicas, mas de uns tempos para cá procurei entender porque eles gostam tanto das músicas estilo "forró safado".
Quando o texto estiver pronto e publicado aqui no Overmundo eu lhe avisarei.
No mais, que tal os estudantes de graduação e pós-graduação fazerem estudos sobre os motivos da preferência dessas músicas por parte de uma grande parcela da população?
E se algum overmano ou overmina tiver produzido alguma coisa nesse sentido, que tal disponibilizar o conteúdo aqui no site. Outra possibilidade é manter contato comigo para conversarmos mais.
Caro Zezito, realmente, como vc afirmou, não podemos negar a nossa realidade cultural nos fechando para o mundo, temos que entendê-la, precisamos conhecer profundamente o "inimigo", seus pontos fortes e fracos, seus pontos de atração, pra poder mudar a realidade. Que tal pensarmos num site, sem cunho econômico, que possa divulgar todo o tipo de manifestação artÃstica do norte nordeste que contribua efetivamente na formação dos nossos jovens? contribuintnocultura
jair · Manaus, AM 14/5/2007 09:37independetemente de espaços e vÃrgulas esse texto é bom demais! gostaria de publicá-lo em outros sitios. nilsonsotero@hotmail.com - da capital da ParaÃba
Nilson Sótero · João Pessoa, PB 23/9/2007 14:13
Acho essa música extramamente grosseira. Mas a vulgraridade vende. É o poder do capital associado à pouca informação, baixa auto-estima, sexualidade deturpada... enfim, essa música só contribui para as futilidades de um mercado musical muito deprimente.
Apesar de ser intransigente defensor das coisas democráticas, creio que esse tipo de produção deveria ser impedido de veicular-se publicamente nas rádios. Não se trata de censura, mas devem haver limites. Crianças e dolescentes são os principais prejudicados nesse contexto de pouca educação e muita futilidade.
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