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Lázaro Carneiro, o caipira que leu Nietzsche

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Ricardo Fela · Sorocaba, SP
6/3/2006 · 117 · 6
 

Ele nasceu em 1950, no distrito de Guaianás, em Pederneiras. Viveu e trabalhou na roça até os 17 anos, quando se mudou para a vizinha Bauru. Tinha estudado apenas o primeiro grau numa escolinha rural. Foi trabalhar na CPFL e teve um chefe que ajudou a mudar sua vida. Não pelo emprego, apenas, mas pela consciência política que despertou.

Hoje, aos 55 anos, Lázaro Carneiro, pai de três filhos, virou poeta a ponto de receber homenagens em faculdades e escolas e ser até referência para bandas da cidade. Escreveu em 2003 "O Caipira Que Leu Nietzsche" (124 páginas), livro que editou com o dinheiro da própria aposentadoria, e traz poesias que retratam o universo caipira com uma visão raramente cantada pelas duplas sertanejas. "Aprendi a fazer poesia com as rimas pobres de Tonico e Tinoco, mas essas duplas sempre cantaram a favor do capital".

O discurso politizado, porém, não o fez esquecer o que tem de caipira. "Outro dia me homenagearam numa escola e me compararam a Castro Alves. Fiquei pensando 'o que estou fazendo aqui'? Isso é coisa de caipira", se diverte. Leia a seguir, trechos da entrevista que o poeta concedeu ao Overmundo.

O senhor é mesmo um caipira que leu Nietzsche?

Não li a toda obra dele, mas ele tinha um pensamento de crítica ao cristianismo com o qual me identifiquei. Sempre tentei tirar as pessoas próximas de mim desse obscurantismo de achar que Deus existe e que a vida é desse jeito porque Ele quer. Mas não podia chegar dizendo isso senão essas pessoas cairiam fora. Então, comecei a fazer poesias caipiras com pitadas críticas. Assim, consegui entrar no universo deles porque usei a palavra "caipira" no título do livro e eles quiseram saber quem foi Nietzsche.

Mas o senhor sempre teve esse pensamento?

Não. Até os 17 anos, eu vivi na roça. Minha família foi vítima do êxodo rural e fui trabalhar na CPFL, em 1967, onde o presidente da empresa fez um trabalho de conscientização política entre os funcionários. Ali, comecei a ver o quanto tinha sido explorado na roça e descobri o que era luta de classes. Comecei a militar em sindicatos e fazer trabalhos com amigos e familiares, mas sempre informalmente.

Como era essa trabalho?

Fazíamos bailes caipiras, noites de poesia e, ? s vezes, conversávamos sobre política, mas havia aquele pensamento de que "política e religião não se discute". Então, o pessoal fugia desses assuntos.

E essa veia poética surgiu como?

Eu aprendi ouvindo as duplas caipiras, com aquelas suas rimas pobres de "paixão com macarrão" etc. (risos) e fui terminar o primário em Bauru. Só que depois virei crítico das duplas, apesar de ainda gostar, de ser romântico. Esses cantores, como Tonico e Tinoco, Liu e Léo, Tião Carreiro e Pardinho fizeram papel de pelego na sociedade. Sempre cantaram as histórias do caipira explorado, mas contente com a aquela situação. Eles não têm uma letra consciente. E não é ingenuidade, não. São mal-intencionadas mesmo. O que tem de preconceito de cor na música sertaneja é brincadeira! E não estou falando no início do século não, estou falando de agora também, nos anos 90.

Suas poesias falam do quê?

Falo desse universo caipira, do Cerrado onde vivemos, do interior, mas sempre com uma visão mais crítica disso tudo. Contando as do livro, tenho uma 150 escritas.

E o que o senhor ainda tem de caipira?

Eu fiz uma dicotomia em minha vida. Até os 17 anos, acreditava em Deus e não sabia que tinha de ir para a escola para aprender e poder mudar. Era um caipira padrão! Depois, identifiquei meus agressores e até poderia ter optado por ser um pequeno burguês, mas preferi ser um trabalhador consciente. Mas outro dia recebi uma homenagem aqui em Bauru e me compararam a Castro Alves no meio de um monte de estudantes. Fiquei pensando: "O que estou fazendo aqui?" Isso é coisa de caipira. (risos) Gosto do sucesso, mas prefiro ficar no meu canto. Hoje, tenho o mundo na cabeça e, dez vez em quando, cai um Muro de Berlim em cima da gente. Mas não quero jamais voltar para a alienação.

Contatos: lazaro.carneiro@pop.com.br ou pelo telefone (14) 3232-2710

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Balbino

Gostei muito dessa matéria, só achei que faltou pelo menos uns dois poemas do Lázaro, e a galera da viola continua pelegando Brasil afora Lázaro, salvo algumas reações. Valeu.

Balbino · Cuiabá, MT 27/3/2006 10:14
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Kaf

ótimo! mas cade a poesia?

Kaf · São Paulo, SP 4/4/2006 22:20
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Michelm

Pois é, sem a poesia, isso ficou parecendo a propaganda do PC do B.

Michelm · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2006 11:18
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
lazaro carneiro

como entrar em contato com o caipira lazaro carneiro? pois gostei muito do seu comentario.

lazaro carneiro · Bauru, SP 23/5/2007 08:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ricardo Fela

Oi, gente! Desculpem a falha, mas achei que tivesse postado a poesia já. Vou resolver isso. Já entrei em contato com ele e ele vai enviar uma delas para mim. Sobre o contato, no final da matéria tem lá o telefone e e-mail dele, ok?

Ricardo Fela · Sorocaba, SP 11/6/2007 22:11
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Regina de Araújo

Adorei a estratégia para levar Nietzsche ao povo. rsrsr
Isso eu entendo como um trabalho contra a ignorância. Parabéns.

Regina de Araújo · São José dos Campos, SP 25/4/2008 23:53
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