Legião Urbana em Brasília: 18 anos depois

Acervo pessoal
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Daniel Cariello · Brasília, DF
16/6/2006 · 122 · 7
 

Nem parece, mas já faz dezoito anos que Brasília viveu seu dia de Altamont.

Para quem não conhece a história, o Festival de Altamont reuniu, em 1969, bandas seminais como Jefferson Airplane, The Flying Burrito Brothers e os Rolling Stones. E foi no show do grupo de Mick Jagger que a confusão rolou: durante uma briga, os motoqueiros Hell’s Angels, que cuidavam da segurança, espancaram um fã até a morte.

Em Brasília, em 1988, o tumulto não chegou a esse extremo. Mas também não ficou muito longe. E as conseqüências foram semelhantes.

O cenário era a Capital Federal, estádio Mané Garrincha. E a banda era a Legião Urbana, comandada pelo redentor Renato Russo e seus três apóstolos. Juntos, lideravam uma turba de 50 mil pessoas. 50 mil fanáticos. 50 mil dispostos a dar o sangue pelo salvador. E foi o que acabou acontecendo.

Analisada em perspectiva histórica, dá pra dizer que essa noite mudou a trajetória do mais famoso grupo de rock brasileiro em todos os tempos. E eu estava lá.

Faroeste Caboclo

Tinha 14 anos. Era o primeiro show de rock que assistia na vida. A Legião Urbana era amada na cidade mais ou menos como os Beatles em Liverpool. Todo mundo foi ao Mané Garrincha. Todo mundo mesmo. Os 50 mil presentes compraram ingressos, ou não, e lotavam o gramado, as cadeiras e as arquibancadas do estádio.

Foi uma noite tensa. A polícia montada avançava com os cavalos sobre as transamazônicas filas que se formavam do lado de fora. A cidade estava extasiada. Ninguém queria perder a volta do ídolo, um ano e meio depois. O caos era tão grande que tiveram a brilhante idéia de liberar as roletas. Quem tinha ingresso entrava. Quem não tinha entrava também.

A aparição da banda no palco pareceu a volta do messias. E, de certa forma, era mesmo. A multidão gritava enlouquecidamente, e o show começou, triunfal, com Que País é Esse?, música de mesmo nome do recém-lançado disco, que até então já tinha vendido mais de 400 mil cópias.

O que aconteceu naquela noite muita gente ainda se lembra: bombinhas explodiram no palco, um louco agarrou Renato Russo no meio de Conexão Amazônica, brigas por toda parte, o cantor xingou a platéia, a platéia xingou o cantor. Um clima de quase guerra civil.

A banda saiu do palco depois de 50 minutos de apresentação. O público, indignado, iniciou um quebra-quebra. Eu estava nas arquibancadas. E dava para ver a multidão correndo de um lado para o outro no gramado do estádio. A polícia, claro, não conseguiu controlar a catarse coletiva.

No dia seguinte, prometi pra mim mesmo que ficaria 10 anos sem ouvir as músicas deles. Fiquei uma semana. E a Legião nunca mais tocou em Brasília.

Geração Coca-Cola

Antes da Legião Urbana, nenhuma banda da cidade tinha conseguido projeção nacional. Outras vieram depois. Mas a diferença é que o quarteto tinha Renato Russo, um professor de inglês que gostava de Bob Dylan, Beatles, Stones e Sex Pistols.

Naqueles anos, ninguém mais estava a fim de ouvir Absyntho, Metrô, Sempre Livre e outros grupos que, felizmente, apareceram e desapareceram na década de oitenta. Era hora de escutar músicas que contavam o que acontecia no dia-a-dia da gente.

Renato sabia o que dizia. E sabia o que o seu público queria que ele dissesse. Suas letras iam da desilusão amorosa entoada em Ainda é Cedo à revolta em ver a pátria sem rumo, gritada em Que País É Este?.

Ele tinha a poesia dos trovadores. Foi o maior letrista do rock brasileiro em todos os tempos, mas com alma punk. Quando parava pra falar, todos ouviam. Por isso mesmo falava o que queria. Uma mistura explosiva do poeta francês Baudelaire com Sid Vicious, o polêmico baixista dos Pistols.

Será?

Naquela noite de 18 de junho de 1988, isso tudo veio à tona. A idolatria pela Legião e especialmente pelo vocalista estavam no auge. A expectativa era muito grande, tanto do público quanto do grupo. A banda prometia revolta e energia em suas músicas e foi isso que levou 50 mil pessoas ao estádio. Quando as coisas começaram a dar errado, ficou impossível controlar os ânimos.

Assim como a tragédia de Altamont marcou a transição dos sonhadores anos 60 para a barra pesada dos anos 70, o show do Mané Garrincha foi também um divisor de águas na carreira do grupo e na história da cidade.

A partir daquele momento, o quarteto passou a evitar longas turnês e deixou de lado o discurso político. As letras tornaram-se mais introspectivas. Brasília nunca mais juntou tanta gente em uma apresentação de uma só banda e a segurança da platéia passou a ser levada mais a sério nos shows (ou você acha que 700 policiais e seguranças dariam conta da multidão?).

Renato Russo também deixou de lado o discurso messiânico. Não queria mais mudar o mundo. Passou a querer apenas cantar suas próprias aflições e angústias.

Naquela noite Brasília perdeu um punk. E muito da inocência também.

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Dramarc
 

Danile, primeiramente valeu pelo texto. Sempre quis saber uma versão que se preze de alguém da platéia, não apenas de olhares midiáticos. Achei pertinente a análise de aquele momento foi um divisor de águas na "banda", tanto é que o próximo disco (O Quatro Estações) é bem menos furioso, pelo contrário, recheado de amor e coisa tal com baladas espiritualistas..

Dramarc · Fortaleza, CE 17/6/2006 06:30
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Daniel Cariello
 

Foi marcante mesmo. Tenho até hoje uma pasta com dezenas de recortes de jornais da época. De antes e de depois do show. Depois disso começou uma onda anti-legião em Brasília que até hoje atinge o pessoal de 30, 40 anos, que não escuta muito a banda.

Daniel Cariello · Brasília, DF 17/6/2006 12:30
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Marcos Carvalho Lopes
 

Existem várias formas de falar de política. Na época a Legião cantava um repertório que tinha por base as primeiras composições de Russo, onde o questionamento punk era mais forte...a Legião não mudou seu discurso por conta daquele show somente: o país aprendeu muito com o fracasso do Plano Cruzado e nas entrevistas de lançamento de Que País é Este já estava claro era necessário deixar o discurso negativo para trás e buscar algum tipo de transformação...o pessoal também é político!

Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 18/6/2006 12:11
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Daniel Cariello
 

Claro que não foi só isso. Assim como não foi somente Altamont que marcou a transição 60/70. Teve o assassinato da Sharon Tate pelo maluco Charles Manson, teve o fim dos Beatles, as mortes de Janis/Jim/Jimi e vários outros fatos. Mas certamente o show do Mané Garrincha foi um divisor de águas.

Com o corte dos laços com a cidade-natal, a banda também cortou um pouco da ligação com a política que Brasília abriga.

Daniel Cariello · Brasília, DF 18/6/2006 12:18
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Daniel Duende
 

Matéria muito boa, xará! :)

Eu não estava lá. Já gostava muito de legião (e ouvia sem parar os bolachões emprestados pelo meu irmão), mas era muito tímido para ir para shows. Soube na época, de tudo que a televisão quis me contar a respeito. Foi pouco e não fazia sentido.

Sempre sentí, contudo, que este malfadado show foi um divisor de águas para a banda e, talvez, para a vida cultural de Brasília. Não foi apenas a temática das músicas que mudou, mas também algo se modificou na raiz da criação legionária. De alguma forma a essência brasiliense da música do legião começou a abrir espaço para algo meio fluminense, meio outra-coisa. Ficou "tudo assim tão diferente"... quase como se fossem duas bandas, ligadas uma à outra por um outro rapaz tímido que se transformava sobre o palco, e se transformou em um messias que decidiu que queria apenas falar das próprias dores. Mas suas dores eram as dores do mundo, e mesmo falando de si mesmo, ele falava de todos nós. Naquele dia, contudo, Renato deixou de ser o que era. O que se ganhou e o que se perdeu, cada fâ de legião poderá dizer.... ou não.

Daniel Duende · Brasília, DF 17/8/2006 13:41
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ALANNA MOURA
 

galera de brasilia, qero saber se tem caravana pru show de rammstein q saia daqui do df!! qem souber me add no orkut: morph_ina@hotmail.com ou no tel 61 82280537

ALANNA MOURA · Brasília, DF 4/10/2010 11:51
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Eduardo Lopes Melo
 

Olá amigos,
Para mim Legião Urbana foi a melhor banda de rock do brasil, simplismente passagem uma mensagem muito boa através das suas musicas.
Eu escuto até hoje, acho que o Renato Russo era um poeta da musica.

Abraços!

Eduardo Lopes Melo · Campinas, SP 21/5/2011 01:41
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