Lembranças de Mauro Duarte

Regina Zappa
Bolacha com Cristina Buarque em Moçambique (1986)
1
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
21/1/2008 · 176 · 11
 

O apelido, dado por Cyro Monteiro, era por conta da cara arredondada. Mauro “Bolacha” Duarte compôs aos montes e, mais que tudo, se divertiu na vida de sambista. Mas, por ironia, não chegou a fazer significativos registros de sua obra em bolachas – grandes como os vinis de antigamente ou pequenos como os CDs de hoje. Ao todo, foram apenas quatro discos – três deles como integrante do conjunto Os Cinco Crioulos. Talvez isso ajude a explicar, em parte, por que seu nome (com apelido ou não) nem sempre é diretamente ligado às suas composições. Ainda que muitas delas, como “Lama”, “Canto das Três Raças” e “Portela na Avenida” (as duas últimas com Paulo César Pinheiro) estejam até hoje na boca do povo.

Desde de sua morte em 1989 – próxima de completar 20 anos, portanto - Mauro vem tendo sambas gravados esporadicamente por aí. A homenagem mais recente foi do parceiro Walter Alfaiate, que gravou "Tributo a Mauro Duarte" (CPC-Umes) em 2006. Mas isso não significa que o baú de inéditas tenha esvaziado. Agora parte delas será lembrada em uma mesma bolachinha: o disco será lançado no fim de fevereiro pela Deckdisc com 30 canções, a maior parte nunca gravada, outras gravadas mas (quase) esquecidas, algumas ainda montadas como quebra-cabeça. Quem interpreta pérolas como “Jeito de cachimbo”, “Sublime primavera” e “Lenha na fogueira” é o grupo Samba de Fato, formado por Alfredo Del Penho, Pedro Miranda, Paulino Dias e Pedro Amorim, com auxílio luxuoso de Cristina Buarque, grande amiga do compositor, e participação especial de Paulo César Pinheiro, parceiro mais constante e figura fundamental para a realização do projeto. Para completar, há quatro faixas-bônus com trechos do próprio Bolacha cantando, em pequenas vinhetas.

Como a idéia é celebrar o sambista respeitadíssimo pelos compositores, mas pouco conhecido por seu próprio público, o projeto vai além do CD. O mergulho no baú rendeu a Alfredo, que coordena a empreitada, a redescoberta de fotos, fitas e anotações. Matéria-prima que o estimulou a dar mais um passo, registrando em vídeo os depoimentos dos parceiros e amigos de Mauro. O material iconográfico e audiovisual vai ser reunido num hotsite, a ser lançado junto com o disco. É tarefa de fã. “Acho o Mauro um dos melodistas mais ricos do samba. É daquele tipo de compositor que você consegue identificar ao ouvir o fraseado. Tem marca de autor. Isso torna ainda mais inusitado o fato de seu nome nem sempre ser ligado à sua obra”, explica Alfredo.

“Quem conhece a vida não se desespera
No mundo
O que tinha de ser, já era.” (Palavra)


Mauro nasceu em Matias Barbosa, distrito de Juiz de Fora (MG). Mas foi no Rio, no bairro de Botafogo, que se aproximou do samba, ainda na infância. “Ele ainda era criança quando começou a freqüentar o carnaval. Na época, em Botafogo, tinha muito bloco de sujo. Era o auge dos blocos cariocas, animados como são os de hoje, mas sem essa coisa arrumadinha, de camiseta. Então ele começou a compor por essa influência”, conta Cristina. A produção para os blocos era enorme e extrapolava o bairro. Do mesmo modo que compôs sambas-exaltação para diversas escolas, sem deixar de ser portelense convicto, criou músicas para blocos de Laranjeiras, Flamengo, Catete, sem trair de forma alguma o amor a Botafogo - o bairro e também o time.

Já adulto, tocava a vida trabalhando em banco, atuando como ourives, vendendo chapéu, mas sempre dedicando as horas vagas ao samba. Na Portela, desfilava sempre na ala dos compositores – e se não chegou a emplacar nenhum samba-enredo (apesar de ter tentado com “Fonte dos Amores”, com Alfaiate e Wilson Moreira, em 1988), mereceria todas as loas mesmo que fosse só por causa de “Portela na Avenida”, imortalizada na voz de Clara Nunes. Gostava de compor andando, batucando nas pernas. Daí a necessidade de registrar tudo no gravadorzinho ao chegar em casa. Na dele ou na dos parceiros. “O Mauro gostava de ir à praia cedinho. Logo começava a tomar umas e, como na época eu morava no Leblon, não era raro aparecer lá em casa dizendo que precisava me mostrar alguma melodia recém-criada”, lembra Paulo Pinheiro.

A aproximação da maturidade o deixou ainda mais próximo do samba. Passou a ser gravado por alguns intérpretes – sendo a mais recorrente e importante Clara Nunes, mas também Elizeth Cardoso, Alcione... – e até a se assumir timidamente como cantor. Função que exercia muito bem, segundo os amigos. A prova está nos três discos que gravou como membro do conjunto Os Cinco Crioulos (com Nelson Sargento, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho), no qual substituiu Paulinho da Viola a partir de meados da década de 60. E também no disco independente que gravou com Cristina Buarque em 1985.

“Não adianta
Estar no mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama”
(Lama)


Mas nem só como compositor e cantor ele deu sua contribuição: nos anos 80, junto com a própria Cristina, começou a realizar o Projeto Resgate, com o intuito de fazer as pérolas de sambistas antigos não se perderem.

“A gente encontrava os compositores e revirava o baú. Da memória, porque muitos deles não tinham gravador. Então a gente gravava, conversava”, lembra Cristina. “O duro foi que ninguém poderia prever que Mauro morreria logo em seguida. Ele era até organizado com sua obra, tinha um caderno com os nomes de suas composições. Mas muita coisa ficou solta.” Quem organizava o resgate, curiosamente, acabou sendo alvo de outro, duas décadas depois. Se não chegou (e nem queria) ao mais alto degrau da fama, tem uma obra que mostra consistência e perenidade e o carinho eterno de muitos cariocas. O simpático símbolo disto é uma conquista de seus amigos em 1998: seu nome passou a batizar uma pequena praça de Botafogo.

Frankenstein

No fundo do baú havia três fitas. Cassete, sem grandes explicações, que foram passadas pela família de Mauro para Cristina Buarque. Ao ouvir, ela sacou o tamanho da encrenca e pensou: “Só o Paulinho pode dar um jeito nisso!” “Isso” eram os trechos de melodias e letras que Mauro registrava assim, de bobeira, para quem sabe um dia aproveitar. Não chegava a ser total novidade para Paulo. “Fomos parceiros por muitos anos e não foi raro eu trabalhar com base nessas gravações caseiras dele. Esse que é o grande barato: conhecia os caminhos criativos dele, a gente tinha uma intimidade musical, era muito companheiro. O engraçado é que ele gravava para não esquecer, mas depois esquecia que tinha gravado, ou não tinha paciência de ir ouvir para criar em cima. Sobrou pra mim”, conta, rindo.

E foi realmente um trabalho de formiguinha para ouvir melodias soltas, sem saber exatamente onde começavam e terminavam as idéias para as mesmas músicas. “Fui separando o que me chamava atenção e complementando. Quando vi, tinha 10 músicas prontas. Elas não existiriam se eu não tivesse essa paciência de chinês”, diverte-se, lembrando que, além delas, entraram no disco outras oito parcerias antigas dos dois.

A pesquisa rendeu pelo menos outro quebra-cabeças, dessa vez envolvendo mais gente. Num dos depoimentos gravados, um entrevistado comentou sobre a existência de um samba em homenagem ao polêmico casal Garrincha e Elza Soares. Alfredo começou então a perguntar a todo mundo. “Ninguém lembrava direito. O parceiro Walter Alfaiate cantou uma parte, um amigo de Botafogo lembrou da letra inteira, mas não da melodia... Aí o salvador Paulinho resolveu a parada, lembrando tudo. Foi o maior Frankenstein!”

Como a música acabou não entrando no disco, aí vai a palinha com a letra remontada pela lembrança coletiva:

Música sem título sobre Elza Soares e Garrincha (Mauro Duarte, Walter Alfaiate)

Eu já não sei mais o que fazer desta paixão
Além de amor proibido
Somos demais conhecidos
Demais, demais, demais
Pagando o tributo da fama
Fizeram do nosso caso um drama
Com manchetes de jornais

Vizinho se manda com a vizinha
Branco adora a escurinha
E ninguém diz nada

Plebeu desposa broto do society
Madame adora o chaveiro da light
E ninguém sabe de nada

Mas bastou ser artista
Pra ter o nome na lista de repórter à procura de furo
Que pra manter a alcunha de foca
Em todo caso faz uma fofoca
Se tornando um dedo duro


Imagens à vista

Hoje em dia é raro ver um projeto deste tipo ter vez em gravadoras tradicionais. Neste caso, saiu do papel graças aos esforços pessoais dos envolvidos (como costuma acontecer em toda produção apaixonada) e alguma negociação. A gravação pelo Samba de Fato barateou os custos, pois os arranjos foram feitos de forma coletiva e não foi necessário contratar músicos extras. A produção enxuta teve como contrapartida a possibilidade de se fazer o site com o resto do material pesquisado.

Na reta final do processo, uma constatação um tantinho desanimadora se instalou: se no processo de pesquisa cada foto ou material encontrado era comemorado, agora existe uma certa frustração de não poder mostrar tudo no site. Por questões de copyright. “Encontramos fotos lindas, mas em alguns casos não sabemos quem é o fotógrafo. Acredito até que o próprio autor da foto pode não se lembrar que a tirou. Mesmo assim, não podemos colocar no site sem autorização”, conta Alfredo. Sem entrar no mérito do inusitado da coisa, resta fazer um apelo: se nos carnavais da vida você por acaso tirou uma foto de Mauro Duarte, entre em contato com esse pessoal!

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Paulo Aragão
 

oi tats, a matéria está muito boa! E o disco (que eu já ouvi)também. As músicas do Mauro Duarte têm caminhos melódicos incríveis, é de uma sutileza de craque. Em relação ao problema dos direitos autorais das fotos, não creio que vai haver problema. Imagino que colocar que "todos os esforços foram feitos para encontrar os proprietários etc" deva ser mais do que suficiente. E aí se aparecer alguém reivindicando estes direitos, entra em contato com eles e acorda o que for necessário.
Beijo!
Paulo

Paulo Aragão · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2008 17:11
sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Beleza, Helena!
O que haveria mais para se dizer?
(Se isto aqui fosse uma roda de Samba, poderia até cantar um e, só assim dizer o que deve ser dito). Beleza! Diria de novo, mesmo no samba.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/1/2008 21:11
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Valeu Spirito! Bacana, né? Esperemos o disco já em clima de carnaval!
Paulo, eu entendo, acho muito razoável o que você diz, mas tenho a impressão de que a gravadora não quer correr nenhum tipo de risco...
Abraços

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/1/2008 12:09
sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Helena,
Sobre as imagens (só agora atentei para o comentário do Paulo), como você sabe eu estou ficando craque nisto, de tanto tomar na cabeça.

É um raciocínio óbvio, o do Paulo. A questão da autorização para a publicação de fotos, só pode passar a existir no momento em que a identidade do fotógrafo ou, no mínimo, da fonte, da origem da foto é conhecida. tem casos em que, rigorosamente, ninguém sabe de quem é a foto. Não há dolo ou má fé capaz de ser atestada nestes casos.
Em casos como este, de notória utilidade pública, vale a pena o risco, ainda mais s estiver perfeitamente estabelecido que o site em questão não tem finalidades comerciais diretas. Identificados os autores, aí sim, se solicita formalmente a autorização e se insere o crédito respectivo. Uma nota explicitando isto no lugar do crédito para as imagens, pelo que me consta, garantiria a lisura da publicação, a boa fé, no caso.
Alguém podia argumentar isto com a gravadora, talvez afirmando que o site é um produto, de certo modo, diverso do CD.
Enfim..

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 21/1/2008 13:11
sua opinião: subir
Monica Ramalho
 

adoooooro esses textos no melhor estilo túnel-do-tempo, que trazem de volta, ao menos por algumas linhas, estes grandes criadores brasileiras. parabéns, helena! ao relembrar a obra de bolacha você deu aqui no overmundo mais uma pincelada de mestre! :))

Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ 21/1/2008 15:09
sua opinião: subir
Higor Assis
 

Helena,

só esta frase já traduz todo o sentido do seu texto e desta maravilhosa materia - "Gostava de compor andando, batucando nas pernas".

Não tenho nada para acrescentar, apenas agradecer por mais uma excelente referencia e um grande aprendizado. Um abraço e obrigado!

Higor Assis · São Paulo, SP 21/1/2008 18:51
sua opinião: subir
victorvapf
 

Helena, gostei muito do seu trabalho, ja tinha votado em outro computador sem comentar. Abraços

victorvapf · Belo Horizonte, MG 21/1/2008 23:32
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Oi gente, valeu pelos comentários.
Spirito, concordo com você! Entendo o cuidado deles, vamos ver se colocando tudo na balança eles concluem isso também. Abraços!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/1/2008 11:21
sua opinião: subir
Zema Ribeiro
 

helena, seu belo texto só aumentou minha curiosidade por este disco que, creio, está como sua matéria sobre ele. grande abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 19/3/2008 15:00
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Zema, valeu! O disco foi lançado, está uma beleza mesmo. Fui no show de lançamento e foi muito bonito. Só não tive notícias ainda sobre o site, acho que ainda não está no ar. Assim que souber aviso por aqui. abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2008 15:42
sua opinião: subir
Marcus Athayde
 

Muito bom!
Sempre ouço Mauro Duarte. Especialista em samba de lamento.
Parabéns pela matéria.

Marcus Athayde · Rio de Janeiro, RJ 3/3/2016 15:41
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados