Leminski e a Linguagem:

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Rafael Las Ferreira · Belo Horizonte, MG
5/7/2008 · 159 · 4
 

Com o livro Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein se dá a virada lingüística que caracterizou a filosofia analítica do século XX. Mas, muito antes de Wittgenstein, no período da patrística, Santo Agostinho tem um interesse incomum – mostrar que a linguagem é frágil, que os mestres, professores, não ensinam, apenas incitam, e que Cristo seria uma verdade que ensina interiormente. Santo Agostinho escreve sobre a linguagem com uma base teológica, mas ele escreve em diálogos, vai incitando a cada frase questões sobre a linguagem – tema que está também nos versos de Leminski: “nome dos meus amores, nomes animais, a soma de todos os nomes, nunca vai dar uma coisa, nunca mais.†A relação entre o nome (significante) e a coisa (significado). Pois, quando falamos, é uma verborragia, para usar palavras de Santo Agostinho - Verberatio. Esta verborragia fere os ouvidos de outra pessoa e “comemoraâ€, traz a imagem da coisa, a memória - Commemoratio. Mas as palavras são frágeis, não expressam a realidade, quando se fala “grama, flores, lírios, tulipas†não surge um jardim em cima das papilas gustativas do falante. Saem apenas sons. São palavras, conceitos, nomes.

Como no primeiro verso temos que nem todos os nomes são iguais. Temos nomes que substituem os próprios nomes. Não é necessário ser dito “Agostinhoâ€, posso me referir a ele como “filósofo†ou como um pronome. Assim, nós nos afastamos ainda mais do objeto.

No terceiro verso Leminski diz que “A soma de todos os nomes, Nunca vai dar uma coisa, nunca maisâ€, a experiência de tocar, ver, sentir o objeto, não vai ser maior do que apenas ouvir o nome. Mas parece que tem coisas indizíveis: “que dói dentro o nome, que não tem nome que conte, nem coisa pra se contar?†Teríamos sinais sem significados. Como a palavra “Deusâ€, “Nadaâ€, “Se†– Como alguns sentimentos. Talvez seja o próprio limite da linguagem, que se transforma na estrutura e modo – do pensamento.

O poema:

Nome a Menos – Leminski


Nome mais nome igual a nome,
Uns nomes menos, uns nomes mais,
Menos é mais ou menos,
Nem todos os nomes são iguais.

Um coisa é a coisa, par ou impar,
Outra coisa é o nome, par e par,
Retrato da coisa quando límpida,
Coisa que as coisas deixam ao passar.

Nome de bicho, nome de mês,
Nome de estrela,
Nome dos meus amores, nomes animais,
A soma de todos os nomes,
Nunca vai dar uma coisa, nunca mais.

Cidades passam. Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
Que não tem nome que conte
Nem coisa pra se contar?

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RonaldAugusto
 

bem legal, rafael.

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 5/7/2008 12:13
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BETHA
 

Muito, muito bom!

Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 5/7/2008 13:44
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Jair Jnusi
 

Muito bom, bom mesmo! Votado e aplaudido de pé!

Jair Jnusi · Rio de Janeiro, RJ 6/7/2008 08:11
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Lu&Arte
 

Muito legal, Rafael. Juntar Wittgenstein e Leminsky foi bárbaro.

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 6/7/2008 16:34
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