Todos os dias à s 8h os auxiliares de biblioteca João Eustáquio Gomes Cosso e José Fernandes da Silva saem em um caminhão recheado de livros e seguem com destino a bairros da periferia de Belo Horizonte para levar conhecimento e diversão através da leitura para a população carente moradora desses bairros. Ao contrário do que pensam muitos, essas pessoas possuÃam o hábito de leitura antes do atendimento do caminhão mesmo sem contar com uma biblioteca comunitária em suas regiões.
O caminhão, ou “carro-bibliotecaâ€, como assim é chamada a pequena biblioteca móvel, pertence à Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa e visita os bairros - Tupi, São Marcos, Jaqueline, Rio Branco e Vale do Jatobá. Cada um deles é visitado em um dia da semana. Um grande número dos moradores desses bairros já gostavam de ler e devido à ausência de uma biblioteca e a dificuldade de acesso à sede da BPELB, situada na Praça da Liberdade, solicitaram, junto a essa, a visita semanal do carro.
O carro-biblioteca que foi criado no ano de 1959, um ano após a construção da Biblioteca Estadual, surgiu a partir da necessidade de facilitar o acesso ao empréstimo de livros à população de bairros da periferia que não tinham bibliotecas. Além disso, foi uma maneira encontrada para estimular-lhes o hábito de leitura a fim mobilizar os moradores a pressionar a Prefeitura de Belo Horizonte para a criação de uma biblioteca.
Anteriormente, o carro visitava dez bairros, um a cada 15 dias, porém, segundo Márcia Caldas de Melo, diretora de Extensão e Ação Regionalizada e responsável pelo projeto desde julho de 2004, visando atender mais intensivamente cada bairro e para evitar a perda de material devido ao tempo prolongado que cada pessoa ficava com o livro, optou-se por apenas cinco. Nessa época, cada bairro era visitado em um intervalo de quinze dias.
De acordo com Márcia, esse atendimento é feito por dois a três anos em cada bairro, “tempo que julgamos necessário para que a população se mobilize e crie sua bibliotecaâ€, diz. Os cinco atuais bairros começaram a receber a visita em outubro de 2005 e já colhem seus frutos. Exemplo disso é o bairro Rio Branco, situado na zona norte e próximo à Venda Nova que com auxÃlio da Paróquia São Geraldo, responsável pela solicitação de visita do carro, já planeja a construção de uma biblioteca no local.
O exemplo que dá certo
O Bairro Rio Branco, situado na região de Venda Nova, que conta com 75 pessoas cadastradas ao empréstimo de livro junto ao carro serve como exemplo para mostrar que este apenas facilitou o acesso aos livros. Muito antes de receber o atendimento, os seus moradores gostavam de ler e se disponibilizavam a dirigir ao centro da cidade ou à biblioteca do Serviço Social do Comércio (SESC), para alugar livros.
Durante a manhã de uma terça-feira, dia em que o bairro recebe o caminhão, 17 pessoas, entre elas crianças, jovens, adultos e idosos, visitaram o carro, e, indagadas sobre o hábito de leitura, responderam sem qualquer dúvida que além de gostarem de ler, já mantinham o hábito antes de receberem o “carro-bibliotecaâ€. “Adoro ler, faz parte da minha vida, sempre tive hábito de leitura†diz convicto o morador Elton Antônio de Oliveira, que lê em média 40 livros por ano. Ainda segundo ele, “o carro só serviu para influenciar ainda mais e facilitar muito o acessoâ€. Maria Geralda Sales, serviçal da paróquia São Geraldo concorda com ele. Além de gostar de ler bastante, já tinha o hábito. “O carro só facilitou, está perto de casa.â€
Além da facilidade de acesso e gosto pela leitura, os moradores concordaram em que o acervo existente corresponde à necessidade. “Sempre quando não tem um livro que quero, na outra semana eles trazemâ€, diz Renata Antônia Silva Carvalho. Para Elenice Pereira da Silva, o carro atende em todos os sentidos, informação, diversão, facilidade de acesso. Porém, todos eles reclamam da freqüência das visitas, acham pouco: “Tinha que vir duas vezes por semanaâ€, diz Eliana Almeida Souza.
A procura é tamanha que Fábio Rogério de Morais, assistente administrativo da Diocese de Belo Horizonte e responsável pela divulgação do carro na paróquia São Geraldo, diz que já há um estudo para a implantação de uma biblioteca comunitária nas dependências da igreja. A paróquia tem um papel fundamental na vida do carro neste bairro, supondo pela sua importância geográfica: “A população massiva é católicaâ€, afirma ele.
“Julgando que a leitura é parte da cultura, é interessante que a igreja, através do “Projeto de Ação Socialâ€, traga e ajude na divulgação do carro-biblioteca no bairroâ€, afirma Fábio. Ainda segundo ele, a parceria é bem sucedida, pois havia uma demanda grande por livros que não eram emprestados, uma vez que as bibliotecas existentes no bairro pertenciam a escolas e não eram abertas ao público.
Assim, o carro-biblioteca abrange um maior público, além de honrar com a frase escrita nos dois lados de sua carroceria: “Ler: um sonho a maisâ€.
Tomara mesmo que a passagem do carro por três anos estimule a população se mobilizar para fazer uma biblioteca. Porque seria tão cruel, né, que o serviço terminasse depois desse perÃodo e as pessoas fossem perdendo o hábito por não ter onde pegar livros... Deveria haver alguma ajuda para essa construção de bibliotecas, senão pode ficar parecendo um paliativo, não?
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/12/2006 17:42
Quando as comunidades sentem necessidade de uma biblioteca "fÃsica", elas procuram ajuda junto à prefeitura de BH. O serviço não acaba enquanto essas comunidades não estiverem aptas a criar sua própria biblioteca.
O triste é que já foi cogitada, pela superintendência de bibliotecas públicas, a hipótese de acabar com este serviço.
Criado em 1959? Já estava na hora de outros estados abraçarem esta idéia, não é?
Uma idéia louvável!
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