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Let’s Go, Girls!

ThornMonkey http://www.flickr.com/photos/thornmonkey/433920441/
Vale por um teste de Rorschach. Eu vejo pequenos repolhos incandescentes.
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dansudansu · Rio de Janeiro, RJ
14/5/2007 · 321 · 49
 

Tropicalizando um restaurante americano

Minha mãe nunca aprovou o uniforme das meninas da seleção brasileira de voleibol. Eu me lembro que ela achava ofensivo o fato das nossas atletas terem que disputar torneios internacionais trajando um micro-shortinho que mais revelava do que ocultava parte das virtudes ou infortúnios. Como eu nunca me liguei muito em voleibol e nem achava as nossas jogadoras especialmente atraentes, salvo uma ou duas, talvez não seja a pessoa mais legitimada para tratar dessa questão. Eu não gostava do esporte porque as jogadoras não eram atraentes ou eu não achava as jogadoras atraentes porque eu não me ligava muito no esporte? De qualquer forma, sempre que perguntado sobre o assunto, eu dizia que gostava da Fernanda Venturini e da Leila. Mais lugar comum impossível.

Hoje eu fui jantar no restaurante da cadeia Hooters, em Brasília. Lembrei muito das jogadoras da seleção feminina de voleibol e, consequentemente, da minha mãe. Fazer análise não é mais uma opção.

Eu sabia que havia sido instalada no Brasil, mais especificamente em São Paulo, a primeira filial dessa cadeia de restaurantes. Soube assim como quem ouve falar que descobriram uma vacina para uma doença que você nem sabia que existia; como quem vê na televisão que a previsão do tempo para o dia seguinte em Frankfurt é de céu nublado, sujeito a pancadas de chuva no final da tarde. Como eu não vou viajar para Frankfurt no dia seguinte, essa informação não me diz muita coisa. Como eu nunca pretendi, de livre e espontânea vontade, ir ao Hooters, eu também não tive grandes motivos para comemorar o ingresso de mais essa cadeia norte-americana de restaurantes no Brasil. A propósito, se você está se perguntando, a resposta é não. Não existe uma filial do Hooters em Frankfurt. Talvez eu tenha agora um motivo para visitar a Alemanha.

O Hooters, para quem não sabe, é uma cadeia de restaurantes nascida nos Estados Unidos em 1983. Os restaurantes da cadeia são conhecidos por sua alta culinária especializada em asas de frango fritas, cebolas fritas e outras comidas gostosas, ainda que quase todas fritas. Mas, sinceramente, podemos contar nos dedos o número de pessoas que freqüentam o local pela diversidade e sabor de seus pratos. O Hooters é internacionalmente reconhecido pelas suas atendentes que andam de patins e são suuuper simpáticas com os seus clientes. É, na maior parte das vezes, essa simpatia que faz com que as pessoas freqüentem o estabelecimento.

Se eu dissesse que eu fui ao Hooters de Brasília para ver as meninas eu estaria mentindo. Se eu dissesse que lá fui para matar a fome também. Eu fui ao Hooters por total falta de opção. E ao entrar naquele aconchegante e natural ambiente percebi que não poderia dormir sem escrever alguma coisa aqui no overmundo sobre o que vi. Pensei em mandar um textinho para o “guia”, mas talvez a narração tenha se alongado demais.

O Hooters de Brasília fica nos fundos de um hotel bem bacana no setor hoteleiro norte. Das mesas você pode ver a piscina e as quadras de tênis e vôlei do hotel (talvez tenha surgido daí a minha inspiração). Eu estou em Brasília para um seminário e, ao chegar tarde da noite no hotel, um amigo que também se encontra hospedado por perto me recebeu perguntando: “Quer jantar num restaurante de comida americana?”

Eu nunca entendi bem esse conceito de comida americana, mas sei que esse tipo de restaurante tem se tornado bastante comum no Brasil. No Rio já abriram uns três ou quatro restaurantes que se dizem genuinamente americanos. Dada a completa ausência de opção, acompanhei esse meu amigo na caminhada para o restaurante. Quando cheguei e percebi para onde estava sendo levado não pude ficar mais satisfeito. Pena que eu não tinha trazido na mala a minha bermuda safári e o binóculo de explorar das savanas.

O Hooters de Brasília, como eu vim a saber depois, abriu faz pouco tempo e ainda não começou a fazer divulgação. Nem precisa, pensei eu, pois o lugar estava cheio. Mas certamente, sem desmerecer o local, boa parte da clientela era derivada do próprio hotel. Digo isso porque em algumas mesas você encontrava aquelas típicas pessoas de hotel. As pessoas de hotel são aquelas que têm um compromisso importante no dia seguinte, mas como o agora é a noite anterior ao relevante dia seguinte, a única opção remanescente é freqüentar o restaurante do hotel.

Daí surgiu o meu primeiro espanto. O Hooters é tradicionalmente freqüentado por homens. Hoje, das cinco mesas da frente do restaurante, duas estavam ocupadas por mulheres sozinhas. Elas realmente pareciam pessoas de hotel. Quando, pouco tempo depois, as garçonetes começaram a dançar de forma sugestiva e pouco coordenada a música “It’s raining man”, eu não pude deixar de prestar atenção na reação daquelas duas mulheres. Uma delas, que parecia estar um tanto quanto constrangida, saiu logo em seguida.

A chegada do Hooters em Brasília se assemelha ao impacto de um meteoro. É um corpo celestial que vem de longe e, ao se chocar com o solo, espalha pedaços por todos os cantos, destruindo a civilização, bagunçando o eco-sistema, ou seja, simplificando um bocado as coisas. Nos Estados Unidos, o Hooters é freqüentado basicamente por homens adultos e raramente por crianças. Já o estabelecimento de Brasília, conforme me relatou uma das meninas, é de uma complexidade atroz. Ele é bastante freqüentado por mulheres, que geralmente são hospedes, e – esse detalhe é simplesmente incrível – por famílias que levam as suas crianças no domingão para almoçar entre as garçonetes de micro-shortinho, decotes ousados e danças sugestivas. Na minha época não tinha isso!

A dinâmica do Hooters é basicamente a seguinte: a garçonete é instruída a buscar uma certa interação com os integrantes da mesa. Nada mais típico! Interação é o sobrenome do Brasil. Na bandeira deveria constar “Interação e Progresso”!

A atendente da nossa mesa era suuuper simpática. Uma gracinha. Eu fiz o meu pedido e fiquei vendo um jogo de futebol que passava no telão. Como já disse em outras searas, com mulher e futebol não tem erro: é sucesso na certa. O meu amigo começou a puxar uma conversa bastante reflexiva, mas sem grande êxito. Ele queria que eu mergulhasse em águas profundas, mas a minha cabeça estava brincando de baldinho na piscina rasa do clube. Aquelas mulheres passavam de patins pra lá e pra cá e o futebol comia solto no telão. Conversar com o meu amigo, na melhor das hipóteses, era a terceira opção.

Quando o nosso pedido chegou, o som ambiente, num volume fora do normal, começou a tocar a música “Man! I feel like a woman”, da Shania Twain. Eu pensei que tinha dado problema na jukebox. O volume estava muito alto, impossibilitando a conversa nas mesas. Nesse instante, logo após a musa da country-pop-music falar “Let’s go, girls!”, todas as garçonetes se posicionaram no centro do restaurante e, perfiladas, começaram a dançar uma sugestiva coreografia. Pode parecer inusitado, mas eu lá entendo um pouco de coreografia, dança e afins. É uma coisa de família.

A coreografia das meninas não era grandes coisas. Mas o fato em si de estar num restaurante em que as garçonetes estavam dançando “Man! I feel like a woman” me fez pensar. Imagine o que acontece quando oito mulheres se põem a dançar assim com fregueses um pouco mais animados. Antes de sair fiz questão de perguntar a uma das meninas se elas já tinham tido problemas com clientes que não entenderam bem a proposta saudável do local. Ela me disse que no breve espaço de tempo em que essa filial esteve operando, três clientes já tiveram que ser expulsos por indisciplina. Faço uma idéia.

Como toda rede de restaurantes, o local funciona através de um regime de franquia. O pessoal é treinado para fazer os mesmos procedimentos da matriz, a mesma marca é cedida e etc. Mas será que não dava para incorporar alguma música brasileira nos shows intermitentes que ocorrem no lugar? O Brasil tem músicas tão mais autênticas do que esses hits americanos de festa de casamento. Fiquei imaginando essas meninas interpretando clássicos do funk carioca como “Ardendo, Assopra” e “Cabô Caqui”.

O fato que mais me chamou a atenção nesse episodio todo foi acompanhar a interação das garçonetes com os demais clientes. Eu e meu amigo optamos pela tática da discrição. Nos dois falávamos com a garçonete apenas o essencial. Não éramos rudes, mas também não contávamos para ela sobre as nossas desilusões com o amor, com a flutuação da taxa de juros e com a precoce eliminação do Flamengo na Taça Libertadores da América.

Na mesa ao lado, a mesma garçonete, que parecia ser amiga íntima de alguns homens que estavam sentados num grupo de cinco, chegou até mesmo a falar no celular de um deles. Fiquei pensando: com quem será que ela esta falando? Na outra mesa de trás a garçonete parecia já fazer parte do círculo de amizade do grupo. Só a nossa mesa, e a do quarteto de executivos coreanos, parecia não estar envolvida na festa.

Por um momento eu me senti como quando você vai a um restaurante com música ao vivo e toda a lotação do local, exceto você, faz parte da família do cantor que vai se apresentar. Outro dia eu fui num restaurante em Botafogo, no Rio, e depois de me sentar, pedir um crepe e jogar alguma conversa fora, a cantora da noite, que fazia o seu show na parte interna do estabelecimento, veio ao jardim (onde estava nossa mesa) e me perguntou: “Eu conheço vocês de algum lugar?”. Respondi que não. E então percebi que havia sido a primeira platéia espontânea que aquela senhora tinha tido em toda a sua trajetória artística.

Depois de pedir a conta e conversar com algumas meninas para entender um pouco mais o sentido daquilo tudo, fiquei com a impressão de que a casa será um sucesso. Não sei por qual motivo, mas as circunstancias são muito favoráveis. Um detalhe: se nos Estados Unidos não é comum ter crianças nesse restaurante, o cardápio contempla – tanto aqui como lá – um “Kids Menu”. Agora não tem mais desculpa para você não levar o seu filho para brincar e cantar com as garçonetes de patins.

Se o Hooters é um meteoro que já colidiu com a cultura da capital federal, agora nos resta apenas esperar pela próxima colisão. Ao que tudo indica, o próximo objeto espacial que vai colidir com o planeta é o asteróide Apophis. Ele foi assim batizado, em homenagem ao deus da morte egípcio, porque o impacto do mesmo poderá representar o inicio do fim do mundo como conhecemos. As chances de impacto, previsto para 2036, são de 1 para 45.000. É mais fácil o Apophis acertar o alvo do que você e mais cem amigos ganharem num bolão da mega-sena.

Enquanto o segundo impacto não vem, vá ao Hooters. Talvez você perceba que o Apophis já colidiu e você nem foi avisado do surgimento de uma nova civilização, ou, alternativamente, que o asteróide da morte está demorando demais.

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