Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Leve Desespero

1
Pablo Capistrano · Natal, RN
23/11/2006 · 149 · 20
 

A história trágica da modelo que morreu aos 21 com 40 quilos é sintomática desses anos. Um dos conceitos mais caros ao estoicismo de Sêneca é o de que, na maioria das vezes, somos pegos na ilusão de que podemos mudar os fatos do mundo quando na verdade temos controle apenas sobre a nossa própria reação diante desses fatos. A riqueza da virtude, numa visão estóica, reside justamente nisso. Só ela é completamente nossa. Só ela é permanente. Num universo no qual tudo passa, no qual todas as coisas que surgem não duram muito tempo, a única estabilidade que se pode encontrar é o do nosso próprio caráter. Só ele não me pode ser tirado. Só ele será meu quando a fortuna, com sua inconstância e sua ironia sarcástica, vier para arrancar de mim tudo que tenho.

A beleza é uma dos elementos da vida que facilmente é arrastado pela fortuna (uma deusa romana antiga que carregava numa mão, um leme e, na outra, uma cornucópia). Na verdade, a beleza é uma angulação. Ela não está no corpo, que é, aparentemente, seu objeto. A ilusão que anda matando essas meninas é a de que a beleza é algo que pode se reter. Mas esse é o erro de juízo fundamental. Não há nada que se possa fazer, no corpo, para reter a beleza. Nenhuma cirurgia plástica, nenhuma dieta mágica, nenhum programa miraculoso de torneamento mecânico dos músculos. Isso porque a beleza é um momento, é um direcionamento do olhar em determinadas circunstâncias. Greta Garbo sabia disso. Ela adorava manipular com a luz. Os fotógrafos de cinema costumavam a dizer que ela era linda porque sabia encontrar o caminho da luz e posicionar o próprio rosto para roubar, da luz, toda a beleza que necessitava.Garbo era genial porque entendia que a beleza não estava contida em seu rosto, mas no ambiente que o envolvia. Ela compreendia que a beleza era uma construção mental e não uma arquitetura especifica de um amontoado de músculos e ossos. Ela era tão consciente dessa construção que desapareceu dos holofotes da mídia na hora certa e não agonizou em praça pública, tentando reter aquilo que não se contém.

Nosso corpo não nos pertence. Ele faz parte da massa natural que nos compõe e nos rodeia. Ele é um estranho e flácido casulo de carne no qual nossa mente se mantém aprisionada por certa quantidade qualquer de anos. A história da evolução e decadência de nosso próprio corpo é uma narrativa que todos vamos ter que vivenciar mais cedo ou mais tarde. O grande sintoma da doença dessa geração de saradinhos e saradinhas é que essa narrativa está a cada dia virando um conto de horror. O corpo deixou de ser um espaço de prazer e passou a ser nosso mais instigante objeto de tortura. Nossa mais agonizante e miserável fonte de angustia e ódio. Quando penso nessas modelos morrendo de fome penso no self-hate dos suicidas (desculpe Ariano Suassuna, mas não há palavra em português que possa sintetizar melhor esse estado). Morrer de fome, destruir o próprio corpo, esquartejar a beleza que te escraviza, arrasar o objeto do seu desejo, pode até mesmo ter suas fundamentações bioquímicas, mas também guarda em si um significado profundo.

Odiamos nosso corpo justamente porque ele não nos pertence, porque ele vai passar, porque ele não nos obedece, porque ele não se encaixa no modelo mental que construímos para nós mesmos, porque ele, atrevido, miserável, rebelde, não quer reter a beleza. Ele não quer fazer com que a beleza que aparece uma vez ou outra, no espelho, fique para sempre. Mas uma vez nos lembramos de Sêneca e de seu Praemeditatio (seu remédio para as nossas ilusões mentais de eternidade): “Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer”. Minha princesa... aprenda a não confiar na beleza. Aprenda a não depender dela para viver. Deixe que ela seja uma luz, uma angulação, um brilho que nasce e morre num segundo no canto do teu olho. Porque a beleza é uma dama vagabunda. Foge de quem tenta retê-la e gruda em quem a despreza.

pablo capistrano
www.pablocapistrano.com.br

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Alê Barreto
 

Gostei muito do conteúdo. Um ensaio sobre a beleza, não vista como o olhar do mercado, mas sob o ângulo da história e da cultura.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 12:32
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Tereza Ratts
 

PABLO: dois trechos me chamaram a atenção. Por identificação: "A riqueza da virtude, numa visão estóica, reside justamente nisso. Só ela é completamente nossa. Só ela é permanente. Num universo no qual tudo passa, no qual todas as coisas que surgem não duram muito tempo, a única estabilidade que se pode encontrar é o do nosso próprio caráter. Só ele não me pode ser tirado. Só ele será meu quando a fortuna, com sua inconstância e sua ironia sarcástica, vier para arrancar de mim tudo que tenho."
"“Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer”. Minha princesa... aprenda a não confiar na beleza. Aprenda a não depender dela para viver. Deixe que ela seja uma luz, uma angulação, um brilho que nasce e morre num segundo no canto do teu olho. Porque a beleza é uma dama vagabunda. Foge de quem tenta retê-la e gruda em quem a despreza."
- Bem analítico. Como eu gosto. Parabéns e obrigada pelo texto.
Beijos, escriba!

Tereza Ratts · Natal, RN 23/11/2006 11:17
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Alessandra Leão.
 

Pablo, seu texto deveria ser lido por todos os que pensam no corpo e na beleza dele como algo eterno e imutável. Esse é um grande desafio para a nossa geração, compreender e aceitar a beleza de cada momento. Lembrando sempre que nossos valores morais são o que nos tornam belos "eternamente".
Vou divulgando!!!
Parabéns!

Alessandra Leão. · Recife, PE 23/11/2006 13:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Kaliníssima
 

Por trás do "leve desespero", vejo beleza e morte na cabeça dos saradinhos e saradinhas como uma peleja terrível! Parece que ainda não atentaram que uma é a face da mesma moeda em que a outra está. Acredito eu que a falta de controle sobre a velhice e morte é o ponto! Mas, esperarei você escrever sobre a morte... Ela, a senhora implacável que nos ri a cada segundo.
Super beijo. Amei o texto.

Kaliníssima · Natal, RN 23/11/2006 18:33
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Walter Medeiros Filho
 

Sua visão sobre o tema é realmente impactante, correta!! Abre olhos leitores...parabéns!

Walter Medeiros Filho · Natal, RN 23/11/2006 21:55
sua opinião: subir
Nercy Luiza
 

Pablo, que visão ampla e exata você tem sobre a brevidade da vida e, principalmente, sobre a beleza sempre fugidia. Como bem disse, não somos proprietários da beleza, ela somente nos usa por um certo tempo, e como tal tempo e todo tempo é incerto, ela se vai, nós nos vamos. E fim.

Adorei o texto!

Nercy Luiza · Rio Branco, AC 24/11/2006 02:12
sua opinião: subir
apple
 

Gostei do texto, embora pense que não tenha mirado na resolução do problema.

apple · Juiz de Fora, MG 24/11/2006 22:31
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
apple
 

Comentei sobre um livro que aborda dietas. Segue o link...

http://www.overmundo.com.br/overblog/as-mulheres-francesas-nao-engordam

apple · Juiz de Fora, MG 24/11/2006 22:34
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

Que bonito, Pablo! Essa ditadura da beleza, ou melhor, de uma determinada beleza, está fazendo muita gente pirar e perder o rumo da vida. Nós mulheres, principalmente, estamos tão à mercê dela, que mesmo sem querer, sentimos uma certa culpa quando as celulites se tornam parte indissociada do nosso corpo e as rugas marcam nosso rosto. Lembrei do texto da Gabriela sobre o processo de criação dela dos "sabonetes embarbeizadores", uma reflexão legal e bem humorada sobre essa procura de uma beleza inatingível e eterna.

Ilhandarilha · Vitória, ES 25/11/2006 00:34
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Pablo Capistrano
 

Oi gente, obrigado pelos comentários.
Um amigo me disse ontem que havia lido em algum lugar uma análise interessante sobre esses distúrbios alimentares como anorexia ou bulimia. ele disse que no século XX o pecado estava no sexo.
Hoje, ele passou para a mesa.
dai o sentimento de culpa.
FORÇA SEMPRE!

Pablo Capistrano · Natal, RN 25/11/2006 09:27
sua opinião: subir
cris gonzalez
 

Esse texto precisava se transformar num workshop ou ser vendido em ampolas...por que há os que só absorvem VERDADES ENDOVENOSAS! Parabéns.

cris gonzalez · Rio de Janeiro, RJ 27/11/2006 15:25
sua opinião: subir
ich_bien_ein_elmo
 

aquela bela moça,probrezinha
queria pouco,mas nada conseguiu!
se a morte pode ser cosiderada como nada.....ou tudo q nos tira o bem e o precioso?

ah

a morte é assim

vem sempre em hora marcada:na hora em que menos se espera!

ich_bien_ein_elmo · Coqueiro Seco, AL 17/12/2006 00:20
sua opinião: subir
ich_bien_ein_elmo
 

lembra se da epoca de sodoma e gomorra?
sabe pq aquela cidade foi destruida?
por crassa imoralidade e tantos outros atos de cunduta desenfrada.

e sera q isso acabou naquela época?nao,nao!
pois piorou,e a cada dia q passa só tenho visto as pessoas irem dem mal a pior.

pecado,na realidade,segundo a biblia é tudo q vai de encontro com as normas justas de Deus.será q comer em excesso é pecado?sim
e deixar de comer?

ah,ai fica a seu criterio

mas ,isso mais me parece um suicidio em parcelas.ahahah

como foi o caso da moça.

ich_bien_ein_elmo · Coqueiro Seco, AL 17/12/2006 00:26
sua opinião: subir
analuizadapenha
 

admiradora de seus textos, seus escritos com direito a livro autografado e tudo mais e não satisfeita fui ao encontro dos jovens escribas na Ribeira... e é neste cruzamento que a morte se edifica como uma redenção na estória de vida da garota, tão precocemente iniciada no mundo das passarelas, tão invadida por cenários que criou o seu próprio e desesperador... abraços

analuizadapenha · Natal, RN 20/12/2006 00:30
sua opinião: subir
analuizadapenha
 

admiradora de seus textos, seus escritos com direito a livro autografado e tudo mais e não satisfeita fui ao encontro dos jovens escribas na Ribeira... e é neste cruzamento que a morte se edifica como uma redenção na estória de vida da garota, tão precocemente iniciada no mundo das passarelas, tão invadida por cenários que criou o seu próprio e desesperador... abraços

analuizadapenha · Natal, RN 20/12/2006 00:30
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
apple
 

Estou na metade do livro "Ditadura da Beleza". Lá fala que os motivos principais de insatisfação com o próprio corpo são os padrões inatingíveis de beleza da atualidade e a monotonia de se ver sempre igual...

apple · Juiz de Fora, MG 20/12/2006 06:08
sua opinião: subir
apple
 

Não... o título certo é "Ditadura da beleza e a revolução das mulheres" do Augusto Cury. Já li inúmeros livros dele... e estou com 2 iniciados.

A revolução fica, em parte, por conta dos profissionais da moda que se voltam contra o sistema da moda, tentando modificá-lo.

apple · Juiz de Fora, MG 20/12/2006 06:14
sua opinião: subir
apple
 

O outro livro do Augusto Cury é um que fala sobre os discípulos de Jesus.

apple · Juiz de Fora, MG 20/12/2006 06:16
sua opinião: subir
tita blister
 

ótimo texto mesmo.

tita blister · Curitiba, PR 21/12/2006 15:00
sua opinião: subir
Rakel de Castro
 

BELO.

Rakel de Castro · Natal, RN 27/4/2007 23:27
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados