Liberdade online passa por inclusão digital

fonte: http://www.clubeivia.com.br
Projeto de Inclusão Digital do Clube IVIA (Fortaleza-CE)
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Julia Wiltgen · Rio de Janeiro, RJ
31/3/2007 · 137 · 3
 

Durante a Aula Inaugural da Escola de Comunicação da UFRJ, intitulada “Democracia online e novas mídias”, uma garota levanta a mão para fazer uma pergunta ao palestrante Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Para introduzir a questão, ela conta que o seriado “Lost”, fenômeno de audiência também no Brasil, é transmitido pela televisão norte-americana às quartas-feiras e, menos de 24 horas após a exibição, já está disponível para ser baixado na Internet, com legenda em português. Por fim, ela pergunta a seguinte pérola:

- Você acha que isso, e também o fato de muitas pessoas hoje em dia estarem baixando programas de TV na Internet, aponta para o fim da televisão?

Aproveitando a ocasião de estarmos na Semana da Inclusão Digital (de 26 a 31 de março), seria bom lembrar a pessoas como essa moça algumas informações alarmantes de nosso país que, provavelmente, responderão àquela pergunta.

Já são de conhecimento público os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2005), divulgados pelo IBGE, de que 79% da população brasileira acima de 10 anos não é usuária de Internet, o que equivale a cerca de 120 milhões de pessoas. Ainda, segundo o Comitê Gestor da Internet, 67% da população brasileira nunca utilizou a Internet, e 54%, nem o computador. Esses dados colocam o Brasil na 62a posição no ranking de nível de acesso no mundo, e em 4o lugar na América Latina, atrás de Costa Rica, Guiana Francesa e Uruguai.

Tudo bem, chega de estatísticas. Mas elas são pelo menos ilustrativas de que o “fenômeno da Internet”, a “democratização da informação” não está acontecendo bem assim como se acredita. Principalmente se prestarmos atenção em outros dados da pesquisa do Pnad, definindo o perfil do usuário brasileiro: jovens entre 15 e 17 anos (33,9%), com uma média de 10 anos de estudo (contra 5 de quem não usa), habitantes da região Sudeste (26,3%) ou Sul (25,6%), com um rendimento domiciliar per capita médio de mil reais. Ou seja, pessoas que já têm acesso à cultura e à informação normalmente – e que tinham mesmo antes da Internet.

Esse perfil também traz uma complementação do assunto da semana passada, a produção de conteúdo online pela própria população. Por um lado, iniciativas como o Overmundo ou o Ohmynews - jornal online com matérias produzidas por qualquer pessoa no mundo - ou mesmo outros sites de produção coletiva de conteúdo podem chegar a ser ferramentas midiáticas revolucionárias; por outro, seus usuários e produtores são as mesmas pessoas que não só já têm acesso à informação via outras mídias, como também as controlam. Isso mesmo: quem são os detentores e produtores de conteúdo na TV, no rádio, nos jornais e revistas impressos? As mesmas pessoas que têm mais de 10 anos de estudo, moram no Centro-Sul brasileiro e pertencem às classes A e B; as mesmas que acessam à Internet e baixam “Lost” e “American Idol”; as mesmas que estão lendo essa matéria agora; nós.


E qual seria a solução?

Depois de todas essas graves constatações, resta perguntar: e os outros 120 milhões de brasileiros, onde ficam? Eles não estão fazendo parte dessa “festa da democracia online”. Estão excluídos do controle de qualquer tipo de ferramenta de geração de informação. Eles apontam como principais motivos para essa marginalização, segundo o Pnad, a falta de acesso ao computador, e mesmo a falta de interesse e o fato de não saberem utilizar a Internet, ou seja, falta de conhecimento mesmo. Sem esquecer que mais de 30% das famílias brasileiras não tem a menor condição de comprar e manter um computador com Internet.

Então, o que deveria ser feito para que essas pessoas também fossem incluídas digitalmente? Bem, o governo e outras entidades, como empresas e ONGs, já estão mexendo alguns pauzinhos no sentido de levar o acesso às populações desconectadas. Há as iniciativas do Comitê para a Democratização da Informática (CDI), ONG que organiza a Semana da Inclusão Digital, e que possui projetos em andamento como as Escolas de Informática e Cidadania e a reciclagem de peças de informática usadas; da Fundação Oi Futuro, da Oi (projetos Tonomundo e Kabum!, que promovem o acesso à Internet a jovens carentes); e do Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), programa que visa levar a inclusão digital a populações carentes. Há ainda projetos do Ministério das Comunicações não saídos do papel com a aplicação das verbas do atravancado Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust).

Mas não basta só levar computadores e Internet àqueles que não têm acesso, pois de nada adiantaria para o objetivo maior da inclusão digital, que é tornar os internautas participantes, e não meros usuários da Internet. Esse processo tem de vir acompanhado de medidas educativas, que não só aproximem a rede da realidade das pessoas como as incentive a ser, também, atuantes nessa nova mídia. Cabe aqui citar a fala de Rodrigo Baggio, diretor executivo do CDI, quando ele diz:

- Inclusão digital é mais que computador. É formação de produtores de conteúdo, é fazer com que a tecnologia seja usada como ferramenta cidadã. Por isso, nosso slogan da semana da inclusão digital este ano é “Mais do que computador. Conhecimento que transforma.”

Só assim, os Overmundos e Ohmynews da vida poderão cumprir seu verdadeiro papel.


E a pergunta?

Bem, respondendo à pergunta do início, acho que já está claro o ponto aqui: como falar em fim da televisão numa sociedade em que mais da metade das pessoas não pode baixar “Lost”, ou qualquer outro programa, mas em que a televisão está presente em mais de 90% dos domicílios? E isso, porque estamos falando de Brasil. Ronaldo Lemos ainda tentou responder dizendo que o fato de as pessoas hoje baixarem programas de TV na Internet aponta sim para um fim da televisão como a conhecemos (entende-se que ela terá de se modificar e receber novos atributos para não tornar-se ultrapassada), mas em um longo prazo.

Longo mesmo. Para a infelicidade daqueles que vêem a televisão como um instrumento vil de manipulação e emburrecimento das massas, parece que ela ainda vai nos acompanhar por muito tempo.


Para conferir a programação da Semana da Inclusão Digital acesse: www.cdi.org.br

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biobildung
 

Gostei do slogan: “Mais do que computador. Conhecimento que transforma".
Boa sorte a todos os que incluem.
abs

biobildung · Rio de Janeiro, RJ 30/3/2007 18:29
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Luciano Carôso
 

Bela abordagem Julia.

Parabéns.

Luciano Carôso · Salvador, BA 31/3/2007 12:06
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Zezito de Oliveira
 

Sou professor de História e Sociedade e Cultura, em uma escola pública, e estou iniciando a abordagem do assunto em sala de aula.

Posteriormente escreverei mais detalhes sobre a proposta. Para você ficar por dentro do que faço e do contexto, vale a pena dar uma lida no artigo: "Um jardim de talentos"
Parabens!!! O texto está bem escrito e a discussão é bastante pertinente.

Abraços,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 31/3/2007 15:01
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