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Língua e Liberdade - Resenha do livro de LUFT

Disponívle em www.olhares.com
Gritos ao Vento
1
Joana Eleutério · Brasília, DF
17/10/2007 · 77 · 4
 

LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. São Paulo: Ática. 6ª edição. 1998.
CELSO PEDRO LUFT (1921-1995), professor de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi também autor de gramáticas e manuais de ortografia e dicionarista. Dentre suas obras, poderíamos citar: Moderna Gramática Brasileira, Dicionário Prático de Regência Verbal e Decifrando a crase.
Luft, já na apresentação de seu Língua e Liberdade, reconhece que poderia parecer estranho que um estudioso da gramática seja contra o ensino de Gramática na sala de aula. Ele esclarece, no entanto, que o que chamamos "gramáticas" não passa de uma tentativa de sistematização de alguns aspectos daquilo que a GRAMÁTICA verdadeira – um conjunto de regras que sustentam o sistema de qualquer língua – contém. O estudo da língua, portanto, não se limita unicamente ao estudo dos livros de Gramática. A língua é um meio de comunicação, é viva e atual e muda sempre para adaptar-se à realidade de seus usuários, que está em constante mudança. Luft deixa claro que a sua preocupação é com a maneira de ensinar a língua materna – as falsas noções de língua e gramática, a obsessão gramaticalista e a visão destorcida de todo esse processo.
O livro está dividido em seis capítulos e tem um estilo que privilegia uma linguagem simples e extremamente acessível. Luft nos apresenta sua visão, muito esclarecedora, sobre a dicotomia língua versus linguagem. Assunto que, como todos sabemos, é motivo de grande polêmica e é o principal foco da antiga e ainda atual disputa entre gramáticos e lingüistas.
O Capítulo 1 - Subversão Lingüística ? - é basicamente sobre gramática e comunicação. A partir da crônica “O gigolô das Palavras” de Luís Fernando Veríssimo, Luft faz uma reflexão sobre a linguagem como meio de comunicação. Percebe-se uma crítica rigorosa feita por Luft à escola tradicional, na sua prática equivocada do ensino de línguas. De acordo com o autor, um ensino gramaticalista poda os talentos naturais, desenvolve a insegurança na linguagem, gerando aversão ao estudo do idioma e o horror à expressão livre e autêntica dos alunos. A conclusão do Capítulo 1 é de que a verdadeira gramática é algo vivo e natural, portanto independe de ensino, aceita variações lingüísticas e pressupõe a evolução e a mudança das línguas. Nesta visão, teríamos o ensino da língua materna que iria formar falantes, leitores e escritores muito mais competentes. O autor defende o ensino natural da Gramática na escola, como uma imitação do processo de aquisição da língua que ocorre com as crianças aprendendo a falar.
No Capítulo 2 - A Teoria da Linguagem - o autor fala sobre a dicotomia fundamental entre competência / desempenho, de Chomsky. Competência em linguagem é a capacidade das pessoas de se comunicarem por meio de sistemas de sinais vocais, e desempenho é o comportamento lingüístico, os usos que se faz da língua. Para Luft, a verdadeira gramática da língua é o sistema de regras interiorizadas pelos falantes desde a infância – é ela a gramática legítima e autêntica. O autor também comenta as conseqüências maléficas do ensino gramaticalista, que impõe uma sobrecarga de inutilidades ao estudante. Em vista disso, podemos nos perguntar: quantos jovens terminam o segundo grau e conseguem achar uma utilidade para todas essas regras que lhes foram ensinadas e que eles, muitas vezes, apenas decoravam sem entender? Mais uma vez, o autor explicita que é necessário repensar o ensino da língua materna para acabar com esse ensino que inibe os alunos, deixando-os inseguros e com a sensação de “não saber a língua.”
Capítulo 3 - Nascemos Programados Para Falar – Luft inicia este capítulo falando que o professor de língua precisa ter noções corretas sobre linguagem, língua e fala e delas fazer a base de suas atividades. O autor aborda a tese do inatismo de Chomsky, lembrando que ninguém nasce com a gramática de uma língua específica, todavia nasce com uma estrutura lingüística genérica - a base para a apreensão das estruturas específicas de qualquer língua. Precocemente, diz Luft, as crianças nos surpreendem se expressando usando estruturas e um vocabulário que superam muito as frases e até mesmo o léxico que ouviu dos adultos. Elas não reproduzem simplesmente o que lhes foi dito, mas criam inúmeras frases com bases nas regras depreendidas daquilo que ouviram e fazem isso sem a ajuda dos gramáticos ou de seus livros. Aprendem naturalmente a língua e a respectiva gramática a que são expostas.
Capítulo 4 - Teoria Gramatical: Implícita e Explícita - Falando que a tradição escolar, distante da realidade e que sempre privilegiou o teórico e não o prático, o normativo e não o descritivo, Luft aponta para a complexidade da teoria da língua que a criança constrói em sua mente: com aspectos da semântica, morfologia, sintaxe, fonologia e fonética. Mesmo crianças de meios sociais mais pobres e menos estimuladas, conseguem apreender e interiorizar a teoria subjacente a sua língua materna (gramática implícita). O autor, partindo dos pressupostos da Lingüística Gerativa de Chomsky, nos diz que a gramática implícita é a predisposição inata da criança para criar uma teoria para organizar as informações (dados da fala) que lhe são apresentados pelo meio onde vive. Neste capítulo, o autor faz uma clara distinção entre a teoria gramatical implícita e explícita. Finalizando-o, Luft faz um adendo para discutir a questão da gramaticalidade e da comunicabilidade por considerar um tema imprescindível. Para ele, a gramática plena, verdadeira é a que está na mente dos falantes. Segundo ele, os livros de gramática mutilam a língua natural e apresentam enormes falhas e lacunas.
No Capítulo 5 – Sobre a Inutilidade e Nocividade da Teoria Gramatical no Ensino da Língua Materna – “A verdadeira gramática é um pré-requisito da fala”, diz Luft ao iniciá-lo. O autor analisa os prejuízos do ensino gramaticalista, fazendo a seguinte pergunta: “Não seria mais racional usar esse saber prévio para exercitar e aperfeiçoar a capacidade comunicativa?” Na opinião de Luft, a verdadeira teoria gramatical começa e acaba nos fatos da língua, a criança não tem consciência do que ocorre quando aprende a comer, a nadar e a andar. Para executar estas atividades, não é necessário que a mãe incentive a criança ou lhes dê informações de como os músculos funcionam ou como ocorre a digestão. A aquisição da língua e a competência lingüística ocorrem de maneira semelhante. Para Luft, portanto, a teoria gramatical é nociva nesta fase inicial dos estudos sistemáticos da língua/linguagem. Na conclusão do capítulo, Luft questiona se há salvação para a Gramática Tradicional e lamenta ter de dizer que a sua resposta é negativa. Nenhuma crise de ensino pode ser superada apenas pela troca de uma teoria por outra. Citando Georges Mounin (1979), o autor termina o capítulo, dizendo que o professor é quem precisa saber Lingüística e Gramática para fazer bem o seu trabalho e não o aluno, menos ainda a criança.
Capítulo 6 - Língua e Liberdade – Neste último capítulo, o ensino e a educação ideais, voltados para a liberdade é o assunto que encerra essa importante reflexão de Luft. O aluno não precisa “aprender” a língua das regrinhas da Gramática, ele necessita sim de um reforço para o seu saber, para a sua gramática implícita, expandindo assim o seu conhecimento ao incorporar elementos do padrão culto e aprendendo a escrever bem. Precisa da oportunidade de ler bons textos e descobrir os recursos expressionais de sua língua e o poder da boa e expressiva comunicação, tal como prega Maurício Gnerre, em seu livro Linguagem e Poder, já que a linguagem sempre foi usada como instrumento de dominação e poder.
Apreciação: - Passados tantos anos desde a primeira edição desse livro de Luft, ele ainda é uma referência indispensável quando se discute a questão do ensino da língua materna e mesmo de línguas estrangeiras. Sem dúvida, Língua & Liberdade é uma excelente reflexão para os professores e estudantes dos cursos de Letras e de Pedagogia. Aliás, para mim, é fundamental uma parceria entre os pedagogos e os professores de língua, que precisam aprender e usar a mesma linguagem quando tratam desse assunto. Muitas vezes, no cotidiano das escolas, observamos estes dois profissionais em uma verdadeira guerra de egos e teorias, o que tem causado um enorme prejuízo aos estudantes. Aliás, o momento atual tem nos mostrado o quanto o trabalho multidisciplinar e interdisciplinar elimina os vácuos teóricos das disciplinas e possibilita uma prática mais coerente com a nossa realidade.
A leitura do livro é bastante agradável e muito provocadora. Ninguém consegue terminá-la sem se incomodar, sem mudar ou reforçar seus pontos de vista sobre o tema: “um ensino com o mínimo de Gramática e o máximo de prática, um ensino libertador”, que liberte o cidadão através do melhor domínio e de maior segurança no uso da sua palavra, finalmente liberta.

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José
 

Palavra é contrato
Gramática é uma
bobagem...
Minha escrita
uma neurose.
Beijo agradecido

José · Criciúma, SC 13/10/2007 21:43
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Joana Eleutério
 

Bom dia, Amigo José!
Obrigada por passar por aqui, pelo olhar carinhoso e o comentário poético sobre meu texto. Tenha um domingo bem gostoso. Bjs.

Joana Eleutério · Brasília, DF 14/10/2007 09:52
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victorvapf
 

Beleza de trabalho e que fotografia!!! parabens victorvapf

victorvapf · Belo Horizonte, MG 15/10/2007 16:25
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Joana Eleutério
 

Oi, Victor!
Que bom receber sua visita e seu comentério. Muito obrigada e um beijo bem grandão.

Joana Eleutério · Brasília, DF 15/10/2007 18:57
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