Esta prosa lembra aquela anedota do português assaltado e preso por engano junto com os assaltantes numa cidadezinha brasileira, onde um delegado rábula surra o inocente lusitano e depois consulta o chefe de polícia do estado, através de um telegrama grávido de erros gramaticais, sobre o que fazer com os detidos. E, numa irônica resposta telegráfica, o superior autoriza soltá-los, ao tempo em que ordena ao delegado analfabeto “corrigir o português”.
Coitado do galego. O português fora vítima da ignorância do rábula e voltou a apanhar por culpa da “língua estranha” com que se grafou a mensagem. Entenda-se que “línguas estranhas”, aqui, não são fenômenos espirituais da glossolalia. Referimo-nos a imitações grosseiras da “Última Flor do Lácio”, a nossa língua “inculta e bela”, tão rica quanto complexa, que, a um só tempo, perpetua gênios da criação literária e se torna vítima de escribas e fariseus da comunicação. Estes, a exemplo do rábula supracitado, castigam-na sem a menor piedade, ignorando que estão cometendo crime contra o patrimônio nacional e penitenciando a si próprios com a má reputação.
Assim era um certo escriba. Vivia escrevendo versos, soltos e livres, chegando a arriscar-se na prosa com a mesma desenvoltura coloquial. Inventava e recriava histórias simpáticas, mas as tornava feias ao publicá-las, devido ao pouco domínio do idioma. Seu estilo era um híbrido de literomania e literofobia, copioso na fala e assassino gráfico-semântico, a ponto da própria escrita não transmitir os seus verdadeiros pensamentos.
E foi com esse modo estranho de escrever que ele se candidatou a escritor, ávido pelo sucesso do livro a ser publicado e que, na sua equivocada opinião, poderia impressionar milhares de leitores e com isso conquistar o sonhado galardão das letras. O conteúdo do calhamaço reunido pelo nosso protagonista era em boa medida interessante, porquanto é ampla e generosa a intertextualidade. Todavia, o vernáculo reclamava dos açoites com que lhe tratavam aqueles textos defeituosos e truculentos, cujos vícios e ignorâncias contaminavam desde a língua culta ao mais humilde dos falares.
Estava no prelo um verdadeiro traumatismo literário. Razoáveis tramas e confusas construções lexicais abundavam as páginas daquele livro, como a chuva que se precipita na terra abrindo sulcos e caminhos sem rumos. A vaidade e a preguiça do autor em aprender os meandros da língua fizeram-no gastar inutilmente tempo, trabalho e dinheiro, apregoando seus mal-escritos na imprensa vulgar e agora numa coletânea inócua. O mais grave é que o resultado da obra seria um verdadeiro desserviço à comunicação, à educação, ao conhecimento e, enfim, à Língua-pátria em todas as suas estâncias culturais.
Para sorte do escriba e dos leitores, o editor não aceitou publicar o alfarrábio coalhado de palavras e idéias desconexas, exceto se o material fosse submetido a uma ampla revisão, o que seria, na prática, a tradução para o Português. A casa publicadora diagnosticara poemas sem poesia, crônicas e contos com crise de prosódia, ortografia, concordância, colocação pronominal e de outras convenções da língua, mormente os deturpadores erros de pontuação. No julgamento da editora, o incauto folhoso não passava de literalice armada com “línguas estranhas”.
Ocorre que a mesma ignorância beletrista não permitia ao artífice perceber que estava defraudando o principal instrumento do seu trabalho: a língua. E que sua obra, além de depor contra a cobiçada fama, seria apenas mais um dos milhares de inimigos da boa aprendizagem, que se publicam aleatoriamente nos guetos do mercado editorial. Assim, em vez de conhecimento, magia e sonhos, essa publicação levaria engodo, tédio e pesadelos ao leitor, visto que o escravo dessas “línguas estranhas” trocava jogo de palavras por guerra de palavreado; ao invés de tecer vocábulos, emaranhava-os; e brigava com as palavras, na inábil tentativa de brincar com elas. O público, certamente, sentiria muito desgosto e não o gosto pela leitura.
O nosso “ilusófono” personagem teve o triste fim que é reservado aos escribas presunçosos: a cúspide da frustração. Tudo porque o literaço (ou a literaça) busca apenas o prazer autoral e não a satisfação do leitor. Ele (ou ela) não tem em conta que escrever é um exercício lento e prazeroso de aprendizagem; que se pode até abdicar das amarras literárias e do propósito social, mas nunca negligenciar e difamar a Língua-pátria. Os que insistem nessa ótica são vistos como débeis caçadores de notoriedade pessoal e destruidores da arte.
Como há muitas obras em “línguas estranhas”, e a população baseia sua fala e escrita no linguajar circulante, convém que todos levemos mais a sério o nosso idioma, domando-o ao invés de crucificá-lo em publicações depreciativas. E para que as dificuldades lingüísticas não inibam o nosso espírito criador, nem nos excluam da oportunidade da livre expressão, uma das medidas dignas de qualquer cidadão que deseja a saúde cultural do País é consultar manuais e “médicos” revisores. Nem sempre os que dominam a língua são bons escritores, mas a arte de escrever exige bom conhecimento dela.
As “línguas estranhas” estão se reproduzindo céleres e globalizadas como uma torre de babel: na Internet, em placas de ruas e estradas, no comércio e instituições; também em documentos, jornais, rádios, televisão, escolas e livros – não pela evolução natural dos signos, mas pelo câncer idiomático causado por vícios e erros crassos.
O presente texto não é preconceituoso, nem o mais credenciado para merecer as bênçãos da madre-língua, assim como o subscritor não se arvora algoz de apedeutas e tampouco se proclama arauto do saber. Mas é mister que todo brasileiro responsável estude e cuide para que essas “línguas estranhas” não prosperem, pois elas envergonham e descaracterizam a Língua-pátria, com mais nocividade e agressividade que a polêmica invasão do estrangeirismo.
Qualquer aprendiz, como este articulista, sabe que é usança hoje em dia falar e escrever em “línguas estranhas”, em detrimento do idioma nacional. Mas há que se ter o mínimo de senso crítico e estético para evitar fazer publicações sem o devido amparo normativo, pois é nesse drama que a fama precede a lama – onde línguas e rábulas se abodegam, com falsa e abusiva autoridade, para prender e surrar o inocente e assaltado Português.
Grande Frazão!!!!
E salve nossa língua - mãe e madrasta!!!
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