Ah... Dia de ir à biblioteca! Devolver os livros e, principalmente, pegar outros...
Não posso dizer que não usufruo nada do estado. Usufruo-lhe, como posso, a Biblioteca Estadual Celso Kelly - Av. Presidente Vargas, 1.261, Centro, Rio de Janeiro.
Não é nada, não é nada, lá existe uma edição completa das Memórias de Giácomo Casanova, em 10 alentados volumes, em bom estado. Há também alguns livros desgarrados de uma coleção das obras de Camilo Castelo Branco, edição recente, portuguesa, em excelente encadernação.
Em meio a alguns milhares de livros que jamais deveriam ter sido escritos - e muito menos publicados -, pode-se encontrar várias obras adoráveis, como por exemplo, os relatos completos de Spix e Martius - que são pura aventura, escritos em linguagem altíssima, mas, ainda assim, acessível -, vários livros dos melhores autores russos, além de uma quantidade bastante razoável de boas biografias.
Entra-se, quando está em funcionamento, por um funil que há na portaria e onde foram cravadas duas roletas de ônibus mesmo: uma para entrada e outra para saída. Não há sinalização e ambas giram em ambos os sentidos. Se você ao chegar escolher a da direita, não haverá o menor problema: estará já dentro. Se escolher a da esquerda, idem. Mas se o guarda, por acaso, estiver em seu posto e você houver "entrado errado", ele te pedirá para sair e depois entrar novamente, pela roleta certa. Entra-se pela roleta da direita e sai-se pela da esquerda, anotem aí. Repito: não há sinalização alguma.
Escreveu não leu, não abre. São "pontos-facultativos" surreais, dias feriados estranhíssimos e, principalmente, ele, o fantástico Sistema. Vamos abrir um parágrafo para o Sistema, porque ele merece!
O Sistema são cinco PC velhos - três para utilização dos funcionários no registro de empréstimos, cadastros e devoluções - e dois outros para consulta do acervo, pelo público. Os três primeiros, quando têm lá as suas indisposições, paralizam completamente o empréstimo de livros. Nessas ocasiões, não raras, o leitor é recebido por uma quase exultante servidora pública, postada no limiar da porta de vidro que dá acesso aos desejados livros. Não se pode sequer entrar no reduto - e ela avisa: "Só devolução, assine aqui e coloque o livro neste caixote!" Se o infeliz usuário do serviço de empréstimos pergunta a data de normalização do Sistema recebe, invariavelmente, a resposta: "Semana que vem deve voltar..."
O Sistema é tão fantástico que até já está merecendo outro parágrafo. E olha que merece mesmo! Nele, existe um pequeno menu, à esquerda da tela do PC, e dois campos (box) para a inserção do título ou autor a ser pesquisado, à direita. Antes de tascar lá, por exemplo, "Gabriel Garcia Marques", é fundamental fazer a escolha correta no menu: filme, slides, monografia, mapas... (tudo coisa que não existe ali!) e... onde estará a opção "livro"? Vai-se então ao balcão, fazer a pergunta à funcionária - que nunca é a mesma... Estou certo que vem gente de Saneamento Básico, Sinalização e Trânsito e sabe-se lá de mais que outras repartições públicas... Mas, para honra da casa, há, geralmente presente, lá no fundo, uma senhora idosa - que parece conhecer melhor o serviço. Foi dessa senhora que eu ouvi a voz, quase indignada: "Livro é material não projetável, claro!"
Não posso dizer que odeie o Sistema. Pelo contrário, já estive a ponto de dar um beijo e um abraço no PC das consultas. E olhe que eu falo mesmo com objetos, como bebedouros que não vertem água e outros seres aparentemente inanimados... Eu havia feito a seguinte pesquisa: "Miguel Torga". Resultado: zero Vagando pelos escuríssimos corredores de estantes, com minha indispensável lanterna de quatro pilhas, encontrei nada menos que nove livros de Miguel Torga, organizados e colocados no local correto, justiça seja feita! Na saída eu disse para o Sistema: "Grande piadista! Sempre me proporcionando as mais agradáveis surpresas... Malandrão!!" Que felicidade! Mas isto não foi hoje. Já faz tempo. Agora eu somente cumprimento, de longe, o velho e chalaceiro PC, o pândego terminal do Sistema.
O local é um pouco perigoso e já vou dizer porque. Mas, onde encontrar alguns livros maravilhosos, fora de catálogo, sem esperanças de reedição, senão num lugar onde quase ninguém os lê e estão tão bem guardados, relegados? Há goteiras em profusão quando chove. Mas, como Deus é literato, elas geralmente caem sobre os best-sellers e corredores vazios. Problemas mais sérios são os furtos.
Parece - é o que dizem os guardas, quando perguntados - que alguns dos estudantes da rede pública, talvez os mesmos que assustam e mantêm sob intimidação permanente seus professores, cometem ali o furto de livros. Muitos livros. Para vender. Também há a proximidade da Central do Brasil, um antro. Então há um sistema de segurança tosco.
Há escaninhos onde devem ser deixadas bolsas, sacolas e qualquer tipo objeto onde possa ser ocultado um livro. Deixa-se então, sob a guarda de um desconhecido, que varia de semana a semana, sendo, às vezes, um soldado do Corpo de Bombeiros, tudo o que não seja o livro a ser devolvido - e recebe-se um retângulo de papelão numerado para resgate dos pertences pessoais na saída.
Há sazões, ciclos, mas são eles aleatórios - dependendo da maré de rapinagem. Antes, era um fortão que examinava o livro e a papeleta de empréstimo. Este "um fortão" também muda amiúde. Somente o que não muda é o fato de que esse policiamento, quando feito, é centrado mais nos humores do vigilante que na confrontação entre recibo de empréstimo e exame do livro portado pelo suspeito. Fica óbvio que custa a esses homens fazerem as duas leituras: título do livro e título constante na ficha de saída! Então, um dia veio o "Fazeno favô, levante a camisa..." Ora, papagaios, se levantei!
Hoje estive lá. Quinta-feira, 9 de agosto de 2007. Levei a lanterna com as pilhas recarregáveis na carga máxima. Eu tinha um propósito; sempre duvido de mim mesmo, sempre! Não é nada seguro confiar em si o tempo inteiro...
Examinei, pela enésima vez, os escuros mas bem sortidos corredores onde dormem os livros de autores brasileiros. Livro a livro, a maioria meus velhos e decepcionantes conhecidos. Quase todas as lombadas e muitas orelhas examinadas... Nada! Sem novidades promissoras. O que há de novo é frustrante. Mas não foi de todo inútil a minha busca...
Descobri ali, nessa garimpagem, um erro meu. Numa resposta aos comentários sobre um texto de minha pobre caneta "A Estupidez Letrada", atribuí a escrita de "Os Tambores de São Luis" a Antonio Callado, quando, justiça seja feita, de novo, quem fez enrubescer de vergonha um negro retinto africano foi Josué Montello, neste que é considerado o seu "melhor romance". Vai aqui o mea-culpa de um imbecil, eu, que faço confusões entre gêmeos e também com os siameses, sempre!
Celso Kelly, que dá nome à biblioteca, foi diretor geral do Departamento Nacional de Ensino do Ministéiro da Educação, no alvorecer dos Anos de Chumbo. Foi ele o responsável pela criação da primeira "grade-curricular" do curso de Comunicação Social, após presidir a Associação Brasileira de Imprensa (cuja carteira de jornalista, categoria sócio-militante, número 3287, a minha, eu rasguei em quatro no começo dos anos 90). Celso Kelly esteve na ABI, muito antes de mim, é claro, e não cheguei a conhecê-lo. Morreu quando eu ainda era uma criança de 10 anos de idade. Mas, vejamos algumas sutis ligações...
Josué Montello viveu uma vida chapa-branca longuíssima: diretor vitalício da Biblioteca Nacional (não confundir com presidente!) e idem, idem, do Serviço Nacional de Teatro. Amigo de Juscelino e de todos aqueles que o sucederam, sem exceções, até sua morte, em 2006. Compadre, vizinho, conterrâneo, cupincha e colega de ABL de Callado, quem lê um já tem o outro lido! Por sua vez, Ana Arruda Callado, esposa de Antonio, chegou ao patamar de Diretora "professora doutora" do Departamento de Comunicação Social da UERJ, de onde, ao que me conste, jamais saiu um jornalista sequer que prestasse! E assim vai caminhando a Cultura e a Literatura no Brasil, um pequenino grupo de compadres, que não larga o osso e, por outro lado, não produz nada significativo, além de causar malefícios incalculáveis às letras pátrias, já que abiscoitam sinecuras, vantagens, honras indevidas - pouco se lixando aos verdadeiros talentos que florescem e fenescem nas sarjetas do desconhecimento e do desamparo cultural.
Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, familiarmente, marido e mulher, abiscoitaram também não poucas benesses dentro deste pequeno círculo de apaniguados. Não são poucos os casos. E, por tudo isto, pela tentativa de uma arte-funcionária, de um pequeno grupo de artistas consagrados pelos amigos, deu no que deu a nossa pobre literatura.
O maior autor brasileiro de todos os tempos, na minha opinião pessoal, Graciliano Ramos, sempre procurou contribuir com a Cultura e com melhoramentos gerais em nosso país - mas, um após outro, foi abdicando de cargos públicos, mesmo aquele em que foi eleito pelo povo - prefeito de Palmeira dos Índios - AL - por discordar do que via, querer fazer mudanças - e não haver como... Destino final: cadeia!
E, para que não se diga que não falei de nenhuma flor, Elio Gaspari, o maior nome das letras brasileiras atuais, mesmo não sendo um autor de ficção, nem mesmo nasceu no Brasil, mas sim em Nápoles, infelizmente... Escreveu a sua obra notabilíssima com o apoio conseguido fora do do Brasil, uma bolsa fornecida pelo Wilson Center for International Scholars.
O chapabranquismo, torno a repetir, destrói, avilta, empobrece a obra de qualquer artista. A condição estável, sossegada, de servidor público é uma ofensa a quem lhes paga o salário, através de impostos recolhidos compulsoriamente.
Rio de Janeiro, 9 de agosto de 2007.
Baduh
Salve!Sseria interessante dar um espaço entre os parágrafos, para facilitar a leitura e não torná-la maçante.
Abraço!
Que relato bacana. Inventivo, fluente, uma beleza. O Cícero tem razão Baduh, dá um espaçozinho aí que melhora na diagramação. Ah, de repente umas fotografias ficariam muito boas, no mais, gostei muito de acompanhar você nessa visita à Biblioteca. Devo dizer que me familiarizei de montão com algumas condições que essa biblioteca dispõe. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/8/2007 10:31Puxa, dois leitores, e num mesmo dia! E... leram! Muito obrigado, queridos! A sugestão é ótima. Vou agorinha mesmo fazer o que recomendaram. Muito obrigado!
baduh · Rio de Janeiro, RJ 10/8/2007 10:37
Você deve ter tido seus motivos para dar esse título provocativo, mas confesso que ia passando direto pelo texto, de cara não me interessou muito pelo título... Nada contra ele (o título), mas seu texto trata de tantas coisas importantes que não dizem respeito exatamente a você que me parece que chamaria mais atenção se tivesse um título diferente. Sei lá, só opinião, apesar de tb não ter nenhuma sugestão específica.
Só uma correçãozinha: Elio Gaspari. Abraço
Opa! Muito obrigado pela correção do erro, Helena! O título é provocativo. Nunca o vi por aí... Foi colocado por causa da confusão que fiz entre dois autores, quase absolutamente idênticos em sua inexpressividade... Isto eu não vou mudar, porque é um achado...
Muito obrigado por ter lido e corrigido o meu lapso, abraços!
Maravilha, Baduh!!!
Salve, Rio de Janeiro!!!!
Biblioteca Estadual Celso Kelly
Av. Presidente Vargas, 1.261,
Centro, Rio de Janeiro.
hahahahahahaahaha é assim que são tratados os nossos livros, os nossos jovens autores... a nossa esperança de renovação! Que pena!
Vamos lutar!
Grande abraçõ, Rangel! Muito obrigado.
Para Helena Aragão:
Você tinha razão e eu troquei o título original "Eu, Idiota.", em nome de um alerta e de um clamor, no intuito de que os jovens, os que estão chegando, sejam enxergados. E que os "funcionários públicos" da literatura brasileira, que já estão direitinho onde deveriam estar - na lixeira do esquecimento - desocupem o caminho para o talento sem padrinhos.
De novo, obrigado pela colaboração Helena!
Eu já ia passando sem ler. Você poderia ter posto um título menos advocatício...
A verdade, porém, é que há muito, muito tempo mesmo, não tenho encontrado um artigo escrito com um talento tão borbulhante - saindo do coração indignado e flutuando à flor da pele. Me emocionou e me indignou!
São denúncias, perplexidades, sobre coisas que todos nós estamos cansador de ver - e de calar!
A tua voz, Baduh, falou por muitos. Muitos, como eu, que estou me dedicando ao mestrado em Literatura, por amor, mas sem grandes esperanças de ser lido um dia...
Bravíssimo. Meus parabéns!
Geraldo O. Gomes - Teresópolis - RJ
Desvanecido com o teu comentário, Geraldo. Não creio merecê-lo. De qualquer maneira, é uma felicidade saber que outras pessoas também estão enxergando essas coisas que nos mortificam!
Obrigado e tudo de bom para você, jovem amigo!
Baduh (Fernando)
Uma verdadeira viagem! Quem conhece a fundo os autores citados, sabe mesmo que formam uma panelinha e não passam de chatíssimos escritores, uma sensaboria só.
Denúncia corajosa e escrita de forma deliciosa! Muito bem!
Que vá para os jornais!
Valeu!
Agradecidíssimo, Soterio! Que bom que você gostou.
Eu, de mim para mim mesmo, preferiria não ter de escrever sobre essas coisas, essas aberrações de um grupo de pessoas cujas vaidades os impedem de enxergar a própria mediocridade.
Eles engolem tudo. Todos os espaços! Até mesmo os prêmios já estão destinados a eles, antes mesmo de qualquer concurso literário começar... E os jovens talentos ficam, muitas vezes, inéditos, enquanto os príncipes do funcionalismo público, os papeleiros da literatura, editam, um após outros, suas garatujas lastimáveis, com edições e críticas favoráveis - além do espaço garantido na grande mídia! É preciso denunciar.
Um grande abraço e obrigado!
Baduh
Ainda bem que, formado em Comunicação Social na Uerj, optei pela habilitação Relações Públicas - que, claro, não exerço. Se não, eu que tenho mania de perseguição, pensaria que a citação ("Departamento de Comunicação Social da UERJ, de onde, ao que me conste, jamais saiu um jornalista sequer que prestasse") teria a ver comigo.
:-)
abraços
O que é do estado está aí para ser usufruido por nós, contribuintes.
As bilbiotecas, quando existem, não são bem equipadas.
Livros são pessimamente conservados. Etc etc etc
Mas o que mais me atraiu no texto, bem escrito por sinal,
foi sobre os "medalhões" da Literatura Nacional.
Alguns até que escrevem algo de prestável, mas outros, nem tanto.
Isso me parece igualzinho ao famoso Jabá das gravadoras, só que aqui o jabá passa pela academia e pelos "puxasaquimos" literários.
Rasgação de seda mútua, entre os já tão bem conhecidos da panelinha.
Quato ao título, tem algo do Émile Zola
quando escreveu num jornal denunciando a mentira no caso Dreifus,
certo?
Belo texto, Baduh
Abraço!
Texto divertido de ler Baduh.
Informativo sobre o estado da arte.
Cáustico como poucos.
O Gaspari que citas, assim meio que elogiando, é o que esteve na Revista Veja naquele tempinho bom pra poucos?
Sim, concordo que é bem informado e escreve bem.
Melhor dos atuais já é ponto de vista que é só vista desde um ponto.
Ronaldo:
No ambiente original em que este artigo foi publicado, na semana passada, http://baduh.multiply.com/journal/item/6/Eu_Idiota
sob o título "Eu, Idiota", eu digo que a FACHA, onde me formei em 1982, e que é considerada "uma das melhores do Brasil", também não produziu absolutamente nenhum jornalista que prestasse, inclusive este que vos fala...ahahahahah Isto é verdade. Jornalistas não se mandam fazer... Impossível! E a "faculdade de escritor", que andaram querendo criar, Ronaldo? A UERJ é fantástica! Mas, torno a dizer: jornalistas não se mandam fazer!
Humberto:
J'accuse é tão absolutamente manjado e universal que, seu eu pretendesse usar tal expressãocomo minha, como algo original -e não como uma paródia - estaria sendo tão absurdo quanto se tentasse vender o Pão de Açúcar a alguém... ahahahahaha
Prezadíssimo Bauer:
O passado de Gaspari é negro! É nigérrimo, porque esteve entre os lobos, décadas, usando lá a sua pele de ovelha... Mas... se eu fosse confundir obra e vida... não amaria tanto Camilo Castelo Branco, que fez uma ou duas coisas que eu considero, pessoalmente, imperdoáveis, em sua vida... E, no entanto, é o meu mais amado, o meu amadíssimo autor.... ahahahahahahaahah
Egeu Laus: Muito obrigado, nego. Ando lendo você e adorando a tua produção!
Eu abraço a cada um de vocês, fortemente, e agradeço os comentários.
Baduh
Saiu tudo em negrito por absoluta inabilidade minha, por mero acidente! Eu peço que me perdoem.
baduh · Rio de Janeiro, RJ 14/8/2007 03:40
Bauer, um esqucimento meu:
A série de livros do Gaspari, sobre os Anos de Chumbo, que li completa, que li embevecido, novíssima, recém-lançada (se podemos dizer assim), foi o que me fez mencioná-lo de maneira tão elogiosa.
Mas... verve é verve, meu amigo... Melhor, maior... tudo isso é conversa fiada... E, quem sou eu para também não ter lá as minhas "conversas fiadas"?... ahahahahhaahah
Grande abraço,
Baduh
Torno o pedir perdão pelo acidente com o negrito. Não encontrei como desfazer isto! Se alguém souber, me ensine, por favor!
Viu aí Baduh?, muito mais que apenas dois leitores... Vou já já ler a seu "microconto"...Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 14/8/2007 08:29
Não te fiz apenas uma pergunta de jornalista que pretende já saber a resposta quando a faz, Baduh, tanto que o disse em relação ao Gaspari: é bem informado e escreve bem.
Quando ao passado e a teu negrito, duas considerações: Hélder Câmara Jovem e Velho; Larcerda, Moço e velho.
Pessoas absolutamente distintas de si mesmas, conforme a idade e as circunstâncias.
Leio Gaspari, quando em vez, e sei que a edição mais recente da obra dele teve inclusive algumas parcerias que gostaríamos todos de tê-la, pela fundação Perseu Abramo.
Não te micha, guri, segue em frente que estaremos juntos se não fores correndo, porque ainda sou fumante, essa desnecessidade, e de fôlego físico curto.
Ah! quanto ao negrito...
Bem, negro é lindo, me diz Ângela Davis.
Muito obrigado, meus novos e já queridos amigos.
A solidão intelectual é dolorosa.
Me parece, já não estou tão sozinho.
Grande abraço, overmanos!
Baduh
Baduh,
novamente me delicio com um texto seu, o que espero vire rotina. Mas, sinceramente, não sou tão radical no meu julgamento de alguns autores por você citados. Até mentiria se negasse que gosto da Marina Colassanti e de alguma coisa do Affonso Romano de Sant'Anna. Creio mesmo, amigo, que o problema é menos dos escritores - alguns de fato medíocres - que do mercado editorial, que prefere garantir o certo que apostar no duvidoso, o consagrado que o novo: é o que lhes recomenda o senso e a sensiblidade de "empresários da cultura".
Mesmo assim, a internet tem conseguido driblar impecilhos e "impor" às editoras alguns novos autores maravilhosos - pelo que aqui também discordo de seu rigor com os novos -, entre os quais destaco com louvor a maravilhosa autora de Um Defeito de Cor, Ana Maria Gonçalves, que conheci num site literário (acho que no Cronópios, não tenho certeza) e cujo livro foi publicado no ano passado pela Record e, em menos de uma ano, já abiscoitou o Prêmio Casa de Las América, em Cuba.
O livro é um calhamaço de umas 1.000 páginas, tem uns 400 e tantos personagens, aborda 80 anos de história do Brasil-África-Atlântico-negro e é narrado por uma voz que alinhava tudo: Kehinde, possivelmente Luiza Mahin, talvez a mãe do poeta negro Luiz Gama. A saga de Kehinde atravessa oito décadas, mais ou menos o mesmo tempo que o negro Damião vive no romance de Josué Montello, ouvindo Os Tambores de São Luís, romance citado por você e hoje merecidamente um clássico.
Por isso tudo, não compartilho de todo desse seu pessimismo, embora devo dizer que seu texto me levou a refletir sobre o atual momento literário que, de fato, não é dos mais fecundos. Mas - repito - talvez mais por culpa do mercado do que propriamente dos autores. E o seu talento mesmo é uma prova disso. Espero que não entenda minha condescendência como cumplicidade ou subserviência à mediocridade e à pasmaceira que você citou, mas antes como uma tentativa de reflexão madura e um pouco mais generosa com os autores. O que aliás não tem nada a ver - faço questão de ressaltar novamente - com a qualidade do seu texto, que está maravilhosamente bem escrito e recheado de informação, humor e - como bem disse o Adroaldo - sarcasmo.
Desculpe-me se me alonguei no comentário e receba um grande abraço deste seu fã.
Pelamor de Deus, perdoe-me o imperdoável "impecilho". Evidentemente eu quis dizer empecilho. Obrigado.
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 14/8/2007 11:48
Meu querido e respeitado Nivaldo.
Quando, ontem, estive lendo o seu blog pessoal, não pude deixar de me lembrar do meus queridos Euclides da Cunha e Graciliano Ramos, tamanho é o cuidado gentil que você tem ao lavrar um texto. Não se surpreenda... Quantos Ramos e Cunhas convivem conosco, contemporâneos nossos, em semi-obscuridade ou mesmo em obscuridade total?
Aqui vai uma confissão: Nivaldo, eu tenho a alma dos polemistas portugueses, correndo dentro de minha alma. Sou um provocador, um agitador. Mas, graças a Deus, um sujeito bastante maleável e transigente. Longe de mim querer ser dono de qualquer verdade! Além disso, estou extremamente desatualizado sobre o que vai de melhor, neste momento, nas nossas lindas letras.
Não se esqueça que eu sou um pândego da crítica. Tenho mesmo algumas grandes restrições sobre os "príncipes da cultura". Príncipes sem trono, sem livro bom. Mas... que ótimo saber que há uma Ana Maria Gonçalves. Vou tratar de lê-la, de capa a capa, imediatamente!
E, para finalizar, quanta simpatia, quanta camaradagem na tua forma de discordar de mim! Que coisa mais enriquecedora! És um grande sujeito, Nivaldo. A nossa amizade há de ir longe!
Um grande abraço do amigo e admirador.
Baduh (Fernando)
P.S.: Erros de digitação e mesmo enganos pavorosos são a minha especialidade, distraidíssimo que sou! ahahahahahaahhaahah
Baduh, ótima denúncia...
o serviço público está cada vez pior e isso já caiu na normalidade, quando temos momentos de observação como essa sua que nos damos conta de o quanto as coisa estão verdadeiramente sendo empurradas.
Tudo de bom!
Muito obrigado, querida Lila.
Aproveito para esclarecer que sou usuário contumaz, assíduo, da biblioteca mencionada no texto. Infelizmente é tudo verdade. Mesmo tendo escrito com a minha molecagem inata, trata-se da mais límpida e absoluta realidade. Que pena!
Abraço grando à overmina Lila!
Baduh
Só para te estimular ainda mais e dar um retoque de informação a quem ainda não sabe, a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo já tem os romances finalistas e entre eles está a dica fecunda de Nivaldo, Baduh e um do Saramago, a lhe fazer companhia à altura:
Corpo Estranho - Adriana Lunardi Rocco
Um defeito de cor - Ana Maria Gonçalves
Pelo fundo da agulha - Antonio Torres
Mãos de Cavalo - Daniel Galera
A confissão - Flávio Carneiro Rocco
Sem Nome - Helder Macedo
As Intermitências da Morte - José Saramago
Vista parcial da noite - Luiz Ruffato
O vôo da guará vermelha - Maria Valéria Rezende
O outro pé da sereia - Mia Couto
Cinzas do Norte - Milton Hatoum
Para mais informações sobre Literatura, capital Passo Fundo, clique no linque.
Muito obrigado, Bauer!
A obra de Ana Maria Gonçalves tem um tema pelo qual eu sou fascinado. Essa eu vou correndo adquirir, hoje mesmo. Gostaria também de vê-la, em profusão, pelas bibliotecas públicas do Brasil, em lugar de tantos exemplares sobre a vidinha do Dr. Roberto Marinho com a Dona Lili de Carvalho, só para dar um exemplo.
As bibliotecas públicas, as bibliotecas escolares também, têm de gastar a verba da Cultura com Cultura - e não com mamatas!
Aproveito aqui para, mais uma vez esclarecer que, diferentemente de uma crítica irresponsável, uma "provocação" do tipo da que eu fiz em meu pobre texto, me rendeu - a mim e a tantos outros! - informações preciosas sobre o momento atual da Literatura Brasileira.
Andei longos anos fora do Brasil. Andei também muito isolado, por não existir uma Internet eficiente até alguns anos atrás. Agradeço, de coração, aquilo que estou aprendendo com vocês!
Grande abraço, Adroaldo e demais overmanos e overminas!
Baduh
Adroaldo,
como sempre atento e enriquecedor em seus comentários, mas se me permite acrescentaria a essa lista sem nenhum favor o seu ótimo O Dia do Descanso de Deus, que aqui ainda me resta comentar com mais vagar. E para não ficar apenas em você como estreante, também incluiria Uzodinma Iweala, um norte-americano de 23 anos, filho de nigerianos, que me surpreendeu com seu genial Feras de Lugar Nenhum, publicado em novembro de 2005 pela Nova Fronteira, que li estupefato numa tarde-noite.
O romance, que já ganhou os prêmios Young Lions Fiction e o Discover Great New Writers, narra o embrutecimento de um menino em meio a violentas disputas entre facções rivais num país não-identificado, provavelmente da África, mas podia ser tranqüilamente o Brasil.
Um resumo:
O personagem central, o menino Agu, de uma hora para outra tem sua vida virada de cabeça para baixo: a paz da aldeia em que vive com seus pais e sua irmã é rompida com a chegada de uma milícia liderada por um homem louco e cruel. Sozinho, afastado de sua família, Agu é obrigado a matar para não morrer ao ser recrutado como o mais novo soldado do grupo, presenciando os horrores de um conflito que não compreende. E se tornando parte deles.
Quem não leu não pode perder.
Um abraço.
Obrigado, Nivaldo, que, além de me recomendar Ana Maria Golçalves, vem agora também me esclarecer que Adoaldo é autor publicado. Vejam o tamanho de meu estado de desatualização e de isolamento recente! Eufemismos para ignorância...
Saio enriquecido deste meu pobre rabisco e entro com o pé direito no Overmundo. Não por ter sido lido por pessoas de tão elevado quilate, mas, jutamente ao contrário, por tê-los lido em seus esclarecimentos.
O meu sincero desejo é prosseguir nossa promissora amizade e troca de idéias. Muito obrigado a todos vocês. Tratarei também de ler Adroaldo Bauer em seu "O Dia do Descanso de Deus".
Baduh
Muito bom, Baduh.
É a segunda vez que o leio e não me decepcionei com a forma tampouco com o conteúdo. São pontos polêmicos que vc aborda num estilo misto de artigo e crônica, com muito humor e às vezes sarcasmo (aliás um estilo imorredouro - este as traças do tempo jamais destroem), mas que mais divertem do que chocam principalmente porque a literatura brasileira anda tão por baixo e os bons autores, que estão mais por baixo ainda, se sentem impotentes para reverter a situação. Estão, digamos assim, dando o jogo por perdido já aos primeiros minutos do primeiro tempo. Imaginam que a casta que se assenhora de tudo, mais pelo tráfico que pela competência, imortais não pelo direito senão pelo vício e a usurpação, nunca será suplantada.
O seu inconformismo é alento para que todos aqui saibamos que só crê na eternidade quem acredita viver para sempre(não é o meu caso).
Esse assunto já foi um pouco abordado aqui e quanto mais o for não será redundância, mas conscientização. Eu mesmo, explorando uma outra questão já fiz críticas neste linque e acho que muitos outros deveriam igualmente fazê-lo.
Cada qual ao seu estilo, mas sempre com vigor.
Um grande abraço.
Muito obrigado JJ! Tenho lido tudo o que você publica e acho maravilhoso o teu trabalho. Quanto mais que você vai in loco, fotografa e depois reporta, de maneira clara, bem-escrita e demonstra excelentes conhecimentos históricos!
Uma honra receber um comentário teu!
Abraço!
Baduh
Veja só para que sítio me trouxe o Google! Que surpresa agradável o teu texto, embora já tivesse passado meu mouse pelo Overblog em busca de alguma notícia sobre a cultura, fiquei presa nos melindres talentosos da tua crítica. Fica muito sofismático se eu confessar que também fiz muito uso de lanternas portáteis em bibliotecas? Pois agora é tarde, já fiz e digo que já perdi uma na Biblioteca Municipal de Novo Hamburgo que fica no interior do Rio Grande do Sul. Hoje espero anciosa a abertura da Biblioteca Nacional em Brasília, o prédio foi inaugurado ano passado apesar de estar no projeto original de Oscar Niemeyer desde a década de 50. Uma estrutura belíssima como todas as outras do arquiteto, que promete ser um dos maiores acervos do país e abrigar nos seus 14 mil metros quadrados de área em torno de 300 mil volumes. E aqui fica a pergunta: O que teremos nas estantes da literatura nacional que represente nossa geração? Bom, eu não sou tão arrojada quanto tu para tentar responder essa pergunta. O máximo que pude arriscar foi uma reflexão sobre a casualidade que cerca a produção de cultura da humanidade, que publiquei no meu blog há uns meses atrás. Ah, sim! Faltou dizer que a biblioteca ganhou o nome Leonel de Moura Brizola, um conterrâneo meu e ex-governador do Rio de Janeiro. Não desaprovo e nem aprovo, só o que posso dizer, isentando-me de julgamentos critico-partidários, é que trata-se de alguém que investiu na educação e acreditou na necessidade de investimento nela mais que tudo. Coisa que faz falta na administração pública de todas as esferas governamentais, não é?
Um abraço!
Lisa
Prezada Lisa.
A Biblioteca Estadual Celso Kelly foi construída por Leonel de Moura Brizola, quando governador do Estado do Rio de Janeiro e é um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer.
Hoje, não há mais troca de lâmpadas e a chuva inunda os corredores, quando cai forte. Uma pena!
Esta troca de idéias levou-me a tomar conhecimento da nova geração de talentos brasileiros da literatura - e eu faço aqui o "mea-culpa" -, porque andei tão desiludido e por tantos anos, que parei de acompanhar a nossa produção literária nativa.
Um grande abraço e obrigado pelo comentário.
Baduh
Baduh, Salve!
Texto soberbo, irmão. Parabeniza-se aqui, a coragem de expôr as mazelas de nossos governantes.
Mas realmente, amigo. Na maioria das vezes, as nossas locais de cultura funcionam, assin, como você descreve acima. Todas as Bibliotecas precisam de revitalização, de reorganização, tanto na qualidade do atendimento, quanto na forma de administrá-las. O desprezo para com os amantes da boa leitura, é coisa de dá dó. Uma pena... Porque que há Ministério de Cultura (eu chamo isso de coisa sem cabeça!) e sequer seus capitães atentam para essas coisas, que, para alguns:
é cultura sem sentido. Dai, Baduh, eu, você e tantos, nos condoermos de tristeza, tal o motivo da Literatura estar em agonia. Eu, também acuso!
Abçs. Benny Franklin
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