"Little Joy" e "Sou"

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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
16/1/2009 · 91 · 4
 

Foi mais ou menos em 1992, 1993 que o patriotismo cultural se tornou algo pop no Brasil. Depois de uma década de 80 marcada pela importação de referências e passado o pavor do plano Collor, ser brasileiro voltava a ser cool. E daí, foi aquilo né… cada cidade tinha que redescobrir suas raízes culturais, resgatá-las e tentar “modernizar o passado”. A moda pegou.

Logo depois, a paridade do real com o dólar, o sonho das viagens internacionais e da geléia importada na mesa da classe média, simultâneas ao primeiro boom da internet por aqui, começou a plantar a semente da projeção internacional e a vontade que a diluição de fronteiras virtuais pudesse também ser incorporada à cultura real. Na música, especificamente, o primeiro passo parece ter sido fazer os artistas brasileiros se espalharem por aí sob o viés esquisito da “world music”. Dali por diante, a progressão foi lenta, gradual e segura. Até que veio o Cansei de Ser Sexy.

Paralelo a isso, a política cultural do país, se não serviu para criar indústrias culturais autossustentáveis, funcionou para despertar o instinto da preservação da memória. O aumento do número de tombamentos, de projetos de recuperação de acervos e até de construção de novos museus, começou a causar efeito. A existência de um Museu do Futebol como o que foi criado em São Paulo é um sintoma disso. A proliferação dos Pontos de Cultura pelo país afora também entraram nessa conta da preservação cultural somada a modernização do olhar. Simultâneo a tudo isso, viu-se nesses últimos 15 anos – sem entrar em questões partidárias - o aumento da expectativa de vida, as melhoras (ainda pequenas) nos índices de escolaridade da população e o fortalecimento das estruturas democráticas e os primeiros sinais de um país em amadurecimento.

Uma frase anterior à minha existência, já anunciava que o brasileiro não respeita sua memória e não sabe preservá-la. Ousaria dizer que isso parece estar mudando a reboque desse processo todo. Essa nossa “criança” de 508 anos de idade parece começar a se entender um pouco mais junto com esse processo de amadurecimento. As pretensões que o país começa a apontar pra si e que lhe inseririam na alta cúpula das decisões globais são um sinal disso. É apenas o começo do fim do tal “complexo de vira-lata” rodriguiano.

Se nos anos 60 a urgência da situação também exigia uma arte urgente e imediata, que desse vazão aos pensamentos de uma geração e ainda, ao mesmo tempo, fosse estopim de uma série de contra-pensamentos, nesses tempos de agora, ela se comporta de outra forma. Menos coletiva, mais individualizada, tal qual as playlists dos mp3 players. Se nesses tempos a arte não dita (tanto) o rumo da humanidade, ela não deixou de ser espelho dela. Nem mesmo a música. Nem mesmo a música brasileira. Pode ser de modo inconsciente, mas ninguém escapa o peso de viver assim.

Os trabalhos solos dos hermanos Marcelo Camelo e de Rodrigo (Little Joy) Amarante reafirmaram o posto deles a frente da sua geração musical. O que se especulava na época do lançamento do “Ventura” (chegou-se a ler que a dupla era como se Chico Buarque e Caetano estivessem numa mesma banda em 1968), começa a se confirmar, guardada as devidas proporções. Numa época em que poucos novos nomes nos permitem imaginar uma carreira longeva na música brasileira, os dois não têm dificuldades para se tornarem faróis de seus contemporâneos. O que os une artisticamente - mais do que a família Los Hermanos – é, em primeiro lugar, a convicção na força da canção em seu formato clássico. Em segundo, o fato de serem brasileiros filhos desses tempos aí.

Camelo e Amarante fizeram discos que simbolizam muito bem essas duas vertentes, não só da música, mas da cultura brasileira contemporânea como um todo.

De um lado, o Brasil que mergulha em si, que ergue museus, recupera acervos, reescreve a própria memória. O Brasil que reafirma a canção praieira de Caymmi, recupera artistas “esquecidos” como a pianista Guiomar Novaes. O carioca que usa o violão de nylon para nos reconectar ao som harmônico primordial de nossos ouvidos. Do outro, um Brasil que não é brasileiro, que não é estrangeiro, que é de lugar nenhum, que é de nenhum-lugar, que se permite ser o que quiser, como se a nacionalidade fosse apenas um elemento circunstancial relativizado pelo interesse artístico momentâneo, sem contudo negá-la em instante algum. Um Brasil que olha o mundo e não se contenta com um papel terceiro-mundista, até porque já é um novo Brasil que cresceu conversando e trocando cultura via p2p, sem fronteiras. Um pedaço de futuro, talvez. Tomara.

E então, se é assim, qual o problema de fazer uma banda pop com um astro do rock internacional (nascido no Brasil, mas criado em NY) e, nela, ser o band leader cantando em inglês, ir morar na Califórnia e sair excursionando por Oklahoma, Sheffield, Colônia e Porto Alegre? E ainda por cima, fazer um disco foda que torna toda a dissertação antropológica banal. No fim, o que resta é a força da canção.

Camelo e Amarante provaram o quanto foi benéfico o recesso do Los Hermanos. Talvez só a partir dele é que eles poderiam seguir assim, tão próximos (ainda que aparentemente distantes) e complementares. No disco “Quatro”, presos sobre o mesmo teto, eles pareciam mais longe um do outro, incomodados e frios.

O álbum de Camelo é lindo, sobretudo quando acha as canções. Em outros momentos, há uma boa tentativa de dissociar a métrica harmônica da melódica. Nessas horas, ele tenta uma conversa com João Gilberto. Se o resultado não é lá tão genial quanto o do interlocutor, pelo menos a tentativa e o esforço já são um mérito. Por se valer de mais silêncios e ruídos, não é um álbum tão fácil de se ouvir direto, sem pular músicas, como o do Little Joy. “Janta”, a música pré-namoro, é um dos pontos altos do grande letrista que ele sempre mostrou ser. A parte em inglês é tão… tão… tão Mallu Magalhães, que te dá a certeza que se trata de uma composição em parceria. Mas não é. Foi escrita só por ele, como que se estivesse lendo a persona da menina que, até então ele pouco conhecia, mas já admirava. “Doce Solidão” é o release de seus ideais em carreira solo. Voar pra encontrar quem eventualmente se perca no caminho.

Nas participações do Hurtmold, a banda paulistana se coloca num ponto curioso em que mantém sua assinatura, mas também cai em alguns momentos (poucos, é verdade) nos clichês da sonoridade que os Hermanos criaram. A sensação que a presença do grupo causa é parecida com a que o disco sugere de uma forma geral, a de ser algo totalemente temporal, não-definitivo. Como a gravação das vozes captadas em um dia de praia, no fim de “Vida doce”. Em “Sou”, tudo é apenas momento. Tanto que os arranjos que se ouve nos shows já não são mais os mesmos dos que foram gravados. Tudo passa, diz uma outra canção do álbum e é de se imaginar que o Hurtmold também vai passar. Não parece que eles serão sempre a banda que acompanha Camelo. São apenas ótimos parceiros para esse trabalho. Camelo aponta para a ocasionalidade dos encontros e é por isso que aos paulistanos Hurtmold e Mallu Magalhães soma-se as mãos do pernambucano Dominguinhos e o piano suíço-brasileiro da paulistana Clara Sverner.

Quando, na faixa que abre o disco do Little Joy “The next time aroud”, a vocalista Binky Shapiro canta os versos “e aonde a sorte há de te levar/ saiba que o caminho é o fim, mais que chegar”, em um português difícil de entender, ela mostra que Amarante e Camelo seguem se complementando, de uma forma muito positiva para a cultura brasileira. Dois lados de um lado só. E dali, Camelo também lembra que “é de se entregar a sorte/ e todo mundo vai saber que o vai-e-vem pode ser eterno”.

Dois dos principais discos de 2008 e que retratam bem um momento (apenas) do caminho cultural brasileiro. Uma hora em que a pretensão de não ter restrições de assuntos, línguas e nacionalidade, se mistura com a própria conscientização e reafirmação de identidade. E se, para ser um só é preciso dividir-se em dois, que seja passageiro.

Acho que é.

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Texto originalmente publicado em www.sobremusica.com.br

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Jorge Daher
 

Votado!

Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 16/1/2009 14:38
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Dayvson Fabiano
 

Votadíssimo.Abraços!!!

Dayvson Fabiano "Imorrível" · Recife, PE 16/1/2009 16:37
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DiogoFC
 

Histeria adolescente dos loser manos vista como sinal de amadurecimento. já fomos melhores...

DiogoFC · Criciúma, SC 16/1/2009 19:01
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Andressa.Frós
 

Melhores? é cada um...
Little Joy ficou muito bacana!

Andressa.Frós · São José, SC 8/4/2009 17:25
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