Livro em Decomposição

Catzacs
Cupim modificado geneticamente
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Makely Ka · Belo Horizonte, MG
16/1/2008 · 144 · 12
 

Há algum tempo venho desenvolvendo o projeto de um livro em decomposição. É um livro com um formato e aparência comuns mas com prazo de validade. Isso significa que a capa, as páginas e a costura vai se decompondo dentro de um período de tempo mais ou menos determinado. Esse tempo vai variar de acordo com as condições de armazenamento e manuseio e, principalmente, em função do tratamento prévio do papel com a aplicação controlada de bactérias, fungos e reagentes químicos num processo que venho chamando de 'anti-conservação'. Afinal, qual o tempo de vida de um livro? E mais: o livro pode ser um objeto de arte ou é apenas o suporte preferencial de um conteúdo artístico, literário? Mas então qual o tempo de vida de uma obra de arte? Talvez séculos no caso de uma escultura e alguns minutos no caso de uma performance. E o tempo de vida torna a obra menos ou mais artística? Além disso tem a questão de cunho sócio-econômico que permeia a produção editorial como um todo: porque, num país com altos índices de analfabetismo, o livro custa tão caro?

O livro, sem dúvida, desde a idade média pelo menos, ou mesmo antes, ocupa um lugar de destaque no imaginário humano como um símbolo de poder e conhecimento, ou seja, como um objeto que atesta e comprova o status social daquele que o possui. Mas o advento da tecnologia vem colocando em cheque diversos valores de nossa cultura e modificando hábitos centenários. O livro, durante séculos, manteve-se como objeto sagrado de acúmulo e transmissão de conhecimento, indispensável no entrecurso de uma civilização que se estruturou de forma basicamente escrita. Tem sido assim pelo menos desde Guttemberg. Com o surgimento do chip em meados do século 20, a impressão em papel passa competir com o silício no armazenamento e transmissão do conhecimento. Mas, antes de representar a derrocada do livro, talvez o chip tenha transformado o livro em uma espécie de objeto de fetiche. A rigor ele não é mais tão necessário, tão imprescindível, e no entanto nos apegamos a ele de tal forma que continuamos a considerá-lo mais prático para leitura, temos a necessidade tátil de manuseá-lo, muitas vezes identificamos até seu cheiro.

Apesar de podermos armazenar todo o conteúdo de uma biblioteca dentro de um simples disco rígido, apesar de termos hoje acesso gratuito e irrestrito a alguns dos principais acervos literários da humanidade e às principais obras ao alcance de um simples download, apesar da economia e praticidade prometida pelos novos modelos de e-books, continuamos adquirindo livros, ocupando um espaço significativo em nossas estantes, lutando contra traças e fungos e relutando em emprestá-los até para os amigos mais próximos.

Pensando nessas questões iniciei minhas pesquisas com reagentes químicos (que me valeram algumas queimaduras e irritações na pele), fiz um curso de conservação de livros (que me causaram certo constrangimento com o professor, depois de explicados meus propósitos) e comecei minha colônia particular de cupins, fungos e bactérias ( que me custaram parte da mobília e a corrosão de um relacionamento sólido). Mas enfim, tudo pela arte!

Resolvi publicar aqui no Overmundo trechos desse work in progress - antes que todo o papel se acabe! - provisoriamente intitulado Livro em Decomposição: http://www.overmundo.com.br/banco/livro-em-decomposicao

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Hermano Vianna
 

oi Makely Ka: a idéia é muito interessante: me pergunto também o tempo todo: mas pra quê comprar mais livro? não adianta: é um vício: e os livros parecem se reproduzir aqui em casa como cupins! hehehehe - sempre admirei os japoneses, para quem a arquitetura também tem prazo de validade - quem falava bem sobre isso na arquitetura ocidental era o Cedric Price, meu ídolo - escrevi sobre ele neste texto disponível aqui no Overmundo - abraços e cuidado aí com suas colônias!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 14/1/2008 21:35
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Paulo Esdras
 

"porque, num país com altos índices de analfabetismo, o livro custa tão caro?"
Talvez pela demanda ser tão baixa.

A questão do texto é interessante (faz refletir sobre a questão da duração de uma obra de arte) e engraçada (pesquisar para decompor uma obra de arte enquanto a maioria pesquisa o contrário...).

Talvez seja ago interessante para patentear e vender às editoras: Assim muita gente terá que comprar mais livros em vez de pegar emprestado ou ir as bibliotecas, que deixarão de existir.

Paulo Esdras · Brumado, BA 15/1/2008 18:35
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Makely Ka
 

Hermano, no fim das contas talvez os livros sejam mesmo uma praga! Ótimo o artigo sobre o Cedric e a arquitetura da indeterminação. Esses holandeses me lembraram aquele grupo inglês que publicava a revista Archigram. Acho fantástico mas também tenho dúvidas se moraria numa cidade idealizada por eles...

Paulo, não pensei em patentear e vender às editoras mas desconfio que elas não se interessariam. Você conhece alguma que toparia?

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 16/1/2008 00:28
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Higor Assis
 

Makely Ka

Muito bom o texto.

Higor Assis · São Paulo, SP 16/1/2008 10:17
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Paulo Esdras
 

Não conheço nenhuma. Mas juro que vou procurar pra você.

Paulo Esdras · Brumado, BA 16/1/2008 10:34
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Lu&Arte
 

Achei muito interessante a tua idéia. Fui lá ler também a segunda parte. O livro como suporte privilegiado de leitura ainda vai resistir muito e nossas estantes vão continuar abarrotadas. Talvez o que esteja em decomposição seja o tempo para dar conta de tanta informação...
Um abraço

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 16/1/2008 21:03
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Makely Ka
 

Valeu Higor!

Paulo, acho que não vale o esforço. Mas fique à vontade.

Lu, as minhas estantes, apesar de tudo, continuam abarrotadas.

Abraços

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 17/1/2008 10:19
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Téo Ruiz
 

Pois é Makely, acho que essas pesquisas genéticas estão dentro do nosso contexto atual da sociedade! rs...
Nossas estantes aqui também continuam abarrotadas e, confesso, que sou meio romântico com relação a essa questão. Estendo essa discussão também ao CD. Quantos CDs vocês compram por mês? Eu, pelo menos, faz tempo que não compro CD. Mas mesmo assim, mesmo tendo consciência da tecnologia que deve condenar o CD a artigo de colecionador, gosto de ter CDs. Vá entender! Mas acho, ainda, que deverá existir um mercado (bem mais restrito do que hoje, claro!) de CDs para aqueles ouvintes mais exigentes. E, acredito, esse mercado será maior do que o mercado dos LPs, que esses sim foram substituídos pelos CDs. Com livros, talvez aconteça algo parecido. A diferença, porém, creio que esteja na leitura do texto. Ainda não existe (pelo menos que eu conheça) uma maneira de leitura do texto no computador igual a do livro em papel. Muitas pessoas não conseguem ler um artigo inteiro no computador, quem dirá um livro. Essa talvez seja a "vantagem" do livro sobre o CD pois, de maneira geral, o MP3 consegue reproduzir uma música exatamente igual a do CD, sem levar em conta os detalhes sonoros que poucas pessoas percebem a diferença.

Téo Ruiz · Curitiba, PR 19/1/2008 12:14
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Makely Ka
 

Pois é Téo, até textos aqui do Overmundo às vezes eu prefiro imprimir pra ler no conforto do meu sofá, imagina um livro inteiro! Quanto aos CDs, um amigo meu que mora em Tokyo costuma dizer que lá, apesar de toda a tecnologia de ipods de última geração à disposição por uma bagatela, existem umas lojas de CDs com pilhas e pilhas a perder de vista. A impressão é que todos os CDs do mundo estão lá! E se eles não abrem mão da caixinha de acrílico, porque nós haveríamos de abrir?

Abraços

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 23/1/2008 17:58
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milu leite
 

Oi, Makely. Uma reflexão e tanto. Dá pra começar por aí e não parar mais.
abs

milu leite · Florianópolis, SC 3/5/2008 19:00
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Rodrigo Almeida
 

Engraçado. Eu concordo que os livros mantém uma relação com leitor, em relação ao texto da internet, muito mais particular que a diferença que se institui entre o dvd e o filme baixado (copiado) e o CD e o MP3. Mas ao mesmo tempo já não tenho mais pudor: leio muito pela internet, artigo, jornal, revista e mesmo livro. Não sei porque, mas tenho a impressão que esse fetiche do livro em muito se relaciona com a própria questão da materialidade que vc fala (do cheiro, do toque...), mas também por costume. Nunca tive impressora e nunca tive dinheiro pra imprimir R$ 0,50 a página, de modo que que acostumei a ficar diante da tela lendo. É uma experiência diferente, mas acho que hierarquizá-la como sendo menor que a do livro nas mãos é balela romântica.

Gostei do seu texto e acho que ele merece comentários para além do 'muito bom' ou dos costumeiros 'parabéns' que são elogios que não trazem debate algum. Acho que a pessoalidade que vc impõe através das palavras me fisgou desde o início. Aqui, os livros continuam aumentando, mas pretendo diminuir o crescimento. Não compro CD fazem uns 3 anos - e não pretendo voltar a compra-los - e compro DVD raras vezes por 9,90. O livro ainda continua, porque a cópia exata dele ainda não existe. É possível ter acesso ao conteúdo, mas de fato há algo aí que se perde, seja na internet, seja numa xerox. Ainda nao me considero totalmente acostumado, mas no caminho. abraço

Rodrigo Almeida · Recife, PE 19/7/2008 00:49
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Bruno Resende Ramos
 

Concordo com a mensagem supracitada. Excelente texto. Uma crônica sobre o efeito "cronos" sobre o livro, entidade volátil em que cabem vários olhares, olhares múltiplos, inúmeros pontos de vista. Sobe uma ótica ou método analítico metafísico, uma unidade de conhecimento permanente capaz de permanecer além da vida e das gerações como os antigos pergaminhos sagrados, numa outra ótica, mais dialética, dentro da proposta do autor, um elemento vinculado a todos os processos dinâmicos da vida. Poderíamos ouvir Hengel agora "tudo que é, justamente por ser como tal, não continuará sendo o mesmo"; assim o livro deixa de ser como tudo que há no cosmo. Porque, então, amigo abreviar o tempo desse nosso ser objeto tão útil. Escreveremos no futuro um livro feito de areia e vento e poderemos imaginar quem primeiro o escreverá? Depois, se feito, quem o lerá?
Abraços

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 28/12/2008 15:06
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