Lô Borges lança em breve pela Som Livre, o primeiro DVD de sua carreira. Das músicas que vão estar presentes no projeto, Intimidade, metade são do repertório dos seus mais recentes trabalhos - Feira Moderna, Um dia e Meio e BHanda - e a outra é recheada de clássicos do início de sua carreira. Vários artistas foram convidados pela Som Livre a participarem do projeto com a proposta de fazer um trabalho que resuma uma carreira. Se for olhar no caso específico de Lô Borges, é muita história para contar e diversos clássicos para saborear. Lô escreveu sozinho ou em parceria canções fundamentais (sendo o mais freqüente o irmão Márcio Borges) para quem quiser saber do que é feita a música brasileira. E estamos falando aqui de Para Lennon e McCartney, O Trem Azul, Paisagem na Janela, Tudo Que Você Podia Ser e mais dezenas de outras fantásticas. São poesias que dizem o seguinte: “porque se chamavam homens/ também se chamavam sonhos/ e sonhos não envelhecem/ em meio de tantos gases lacrimogêneos/ ficam calmos, calmos, calmos...”, de Clube da Esquina n°2.
O DVD foi gravado em quatro dias e para Lô foi uma “pauleira” só. “Foi um processo industrial e nunca tinha feito nada parecido. Normalmente trabalho bastante e faço muitos shows. Mas teve um dia nas gravações que precisei cantar 40 músicas. Eu me senti num trio elétrico fazendo shows seguidos. E realmente foi assim, porque num dia a gente fez um show a tarde sem público e outro a noite com público. E tive de gravar making of também. Então essa foi a dinâmica e pra mim foi uma maratona”. Lô ainda disse que outra problemática da gravação é que os músicos da banda que o acompanha desde a turnê do disco Um Dia e Meio trabalham em outras áreas e os ensaios ficam comprometidos. Essa foi uma das razões da única participação especial no DVD ser de Samuel Rosa. “O baterista e o tecladista são publicitários, o guitarrista é professor universitário de Direito Constitucional, o contrabaixista tem uma clínica veterinária. Para você ver que a banda não tem muito tempo para ensaios. A Som Livre inclusive sugeriu outras participações e eu falei que o Samuel Rosa para mim era o suficiente”.
Lô Borges classificou a presença de Samuel Rosa como “muito importante” e não esconde a admiração que tem pelo amigo. E o integrante do Skank tem mesmo moral e história que justifique ser a única participação especial no DVD. Samuel é fã declarado de Lô e de toda geração que integrou o movimento informal Clube da Esquina em Belo Horizonte nos anos 70. Também é um grande conhecedor da música da época, e já escreveu, inclusive, artigo sobre o assunto em revistas. Samuel faz show em parceria com Lô Borges desde 1999, e a parceria dos dois rendeu o hit Dois Rios (também com Nando Reis), sucesso com o Skank, além da canção A Última Guerra. “O Samuel é um cara que tem admiração por mim desde garoto e eu aprendi a gostar das músicas dele. No DVD ele canta Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, mas eu acho emblemático mesmo é vê-lo cantando Clube da Esquina n°2. É uma música muito importante ao longo da minha carreira e que se transformou numa espécie de hino. E o Samuel Rosa se adequou de uma forma tão intensa a essa música, que ela passa a ser uma síntese para o pessoal entender a importância da participação dele”.
Confira agora o restante da entrevista de Lô Borges cedida ao zine Elefante Bu.
Elefante Bu - Com tantos anos de estrada, por que só agora você vai lançar um DVD?
Lô Borges - Acho legal ter esse DVD, ainda mais saindo pela Som Livre, que é uma gravadora que tem uma distribuição bacana e forte. E o pessoal ficava perguntando cadê o meu DVD e na verdade eu já tinha feito um especial da Directv que era mais que um DVD de tão bem produzido. Na verdade era até para ser um, mas ele está até disponível no Youtube para todo mundo. E lá nesse site é legal porque eu posso pegar um momento da minha carreira tocando com uma banda paulistana em São Paulo quando morei lá nos anos 80 e que nem lembrava desse fato. Lá tem tudo! Se você quiser ver o Lô Borges ao vivo é só entrar lá. É por isso que nunca tive muita preocupação em ter um DVD formal.
Elebu - O que você acha dessa última geração mineira dos anos 90 e que teve repercussão nacional, como o Pato Fu, Jota Quest e o próprio Skank - só para citar os três maiores?
Lô - É, o pessoal de Minas de uma boa circulada na cena brasileira e conseguiu mesmo um bom destaque. Eu, como artista mineiro que começou nos anos 70 com o Clube da Esquina com toda essa história bacana, fico muito feliz em ver o pessoal fazer hoje uma coisa de maneira nacional e com muita rapidez. Realmente eles mostram a boa produção que Minas tem.
Elebu - Como é a sua relação com todo esse pessoal?
Lô - Totalmente excelente. Teve uma vez que fui até São Paulo participar de um projeto numa casa de shows para cantar com o Wilson Sideral. Ele me convidou e a gente ensaiou por telefone. Depois fui lá cantar, para você ver como é a facilidade de relacionamento. Com Samuel Rosa, a gente se encontrou em 99 e fizemos um show com 25 músicas. E a banda que acompanhava a gente não era nem o Skank e nem a minha, era uma terceira coisa. O único músico que pertencia a minha banda era o baterista Mário Carpela. O Samuel Rosa era um fã dele há muitos anos e o conhecia da noite, quando era considerado o melhor baterista de levada. Inclusive quando ele faleceu, a gente deu uma parada em nossos shows. Ele era o cara que fazia o ele entre o Lô e o Samuel.
Elebu - Falando um pouco do Clube da Esquina, na época que o pessoal se reunia na sua casa. Existe essa analogia que a casa dos Borges foi o apartamento da Nara Leão para a música mineira. A coisa era mesmo por aí?
Lô - Teve um momento que foi assim mesmo. A casa dos Borges vivia cheia. O meu irmão mais velho tocava numa banda e ia ensaiar por lá porque a minha casa era a única que tinha piano. Não era toda que tinha um e nem era algo tão fácil. Era novo na época, mas lembro muito bem dessas coisas, dos vários encontros musicais que tinha na minha casa. Depois o Bituca (Milton Nascimento) foi chegando e também o Wagner Tiso, Fernando Brant, Naná Vasconcelos, Ronaldo Bastos, foi chegando um pessoal do Rio e de BH também. Nesse momento, a minha casa foi o apartamento da Nara Leão. Eu lembro que o Milton ficava num quarto fazendo uma música, e eu no piano fazendo outra. Era uma oficina maluca de construção musical com todo mundo etilicamente bem temperado. Você sabe que mineiro gosta bastante de bebida e naquela época todo mundo tinha idade que permitia essas coisas. Hoje, nenhum de nós gostamos mais, mas naquela época a gente aproveitou bastante.
Elebu - E como é essa história que a sua maior contribuição no Clube da Esquina foi ter apresentado a palheta para os músicos que acompanhavam o Milton Nascimento?
Lô - Ah, essa história tem haver com o Samuel também. Começou com um jornalista que fez essa pergunta e eu respondi isso daí. O Samuel falou que eu era muito modesto. Mas é porque, naquela época, da turma que tocava com o Milton eu realmente era o único cara que usava palheta no violão. O Milton, o Toninho Horta, todos tocavam se palheta, assim como vários guitarristas... o Chico Braga também tocava sem. E como eu era um cara que curtia a beatlemania, gostava de tocar com a palheta. Na verdade tocava misturado até porque isso faz parte da minha origem. Comecei tocando bossa-nova, que é cheio de acordes dissonantes. Tive uma banda com meus irmãos e o Beto Guedes quando tinha uns 12 anos chamada The Beavers. Mas o único que tocava violão era o Beto porque estava mais acostumado com a pestana. Depois dessa fase da bossa-nova, parti direto para a palheta. Mas acho que o forte dessa história veio mesmo quando fiz Para Lennon e McCartney. Essa foi a primeira música mais forte que fiz e que realmente levou a palheta para o clube da esquina. Ela diz o seguinte: "eu sou da América do Sul/ eu sei vocês não vão saber/ mas agora sou cowboy/ sou do ouro, eu sou vocês/ sou do mundo, sou Minas Gerais". Essa é a segunda música mais lembrada pelos mineiros segunda uma pesquisa da TV Globo. Só perde para "Oh! Minas Gerais". Você pode reparar como a gravação do Milton é forte. É completamente diferente das coisas que ele tinha feito até então. Deu um sotaque rock. Nunca tinha colocado as coisas dessa maneira antes, mas acho que a contribuição da palheta foi justamente aí: no sotaque rock. E depois, tocar rock só serve se for com palheta.
Esta matéria foi originalmente publicada no fanzine Elefante Bu.
muito bom elefante bu...
tudo o que nos remete ao clube da esquina é sempre muito delicioso.
é interessante como o relato sobre o lançamento do primeiro dvd de lô borges, em pleno 2008, nos faz viajar aos primórdios do clube. eis a força inesquecível deste movimento na história da música brasileira.
abraços,
eu adoro o Lô! Bom demais um DVD com ele!
Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 10/6/2008 11:52
Opa, ouvir Lo Borges e maravilhoso! Ve-lo eh um prazer.
O primeiro DVD, autografado vai ser meu, ( que petulancia, heim!)
abracs a todos
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