Luiz Carlos da Vila - a luz de um vencedor

Arquivo Lira de Ouro
Canja na Lira de Ouro em Caxias em noite inspirada
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heraldo hb /. · Duque de Caxias, RJ
24/10/2008 · 103 · 8
 

A notícia da morte de Luiz Carlos da Vila nessa segunda-feira nublada parece que não é verdadeira, parece não fazer o menor sentido.

Logo ele, um poeta vivamente marcado na alma do povo, doce refúgio de beleza... Putz, afinal o show tem que continuar, caralho...

Justo aquele cara de tantas madrugas, de tantos versos inclassificáveis do Cacique de Ramos, sujeito que naquele momento onde os rótulos ainda não eram marcas significativas lá pelos anos 80 já dava pistas do que vinha por aí... Aquele neguinho tinha um brilho especial, isso é incontestável.

Poeta do samba era a expressão que começava a se cristalizar a respeito daquele indivíduo que tanto causava espanto e admiração. Além da Razão era um esculacho de poesia na cara de qualquer um que ainda achava aquela movimentação do fundo dos quintais algo rasteiro e passageiro. E depois foi uma pedrada após a outra, de versos rebuscados e ao mesmo tempo tão populares no melhor e mais rico sentido dessa palavra.

Depois que aqueles sambas sacudiram os alicerces da cultura urbana brasileira, a figura de Luiz Carlos se ergueu soberana. Mesmo não sendo o biotipo do "linha de frente" midiático, seu nome e sua poesia marcaram definitivamente todas as noites de quem rodava os subúrbios cariocas em busca de boas rodas de samba. E depois o resto do Brasil.

Era um mestre. Um poeta.

Isso sem falar do Kizomba... Um marco na cultura desse país.
Eu era um adolescente inquieto, cercado de amigos roqueiros, leitor de Marx e do almanaque do Fantasma, um pé na contracultura, o outro na cultura de massa que iria se cristalizar nos anos vindouros e seus playstations; iniciando aquele momento rock-acampamento-primeiras-inebriações, onde a revolução estava na Maldita FM e sua rebeldia urbana completamente sintonizada com uma angústia pós-ditadura, que queira sair de qualquer jeito, acompanhada de revanchismo, transgressão e desejo de votar pra presidente naquele país do Sarney.

Foi quando nos veio aquele carnaval da Vila de 88 e aquele samba irresistível e dilacerador daquele tal Luiz Carlos da Vila, que nem da Vila Isabel era... a Vila dele era o da Vila da Penha, local pertencente ao território sambístico do Irajá e seus mágicos arredores...

Depois, bem depois, voltei a encontrar Luiz Carlos pelas madrugadas da vida. Além das rodas de samba da Lapa, Zona Sul e Zona Norte, o sujeito estava sempre pela nossa Baixada, muitas das vezes aqui em Caxias, com Bira da Vila, Zé Antônio e amigos. Conhecia onde a coruja dorme...

Há a participação especialíssima no disco do grupo Nosso Canto, ainda com o saudoso Jorge Macarrão, cantando Existe um Lugar, de Clayton Vabo (Eu já falei pra vocês que no subúrbio existe um lugar pra se cantar / Lá o samba só finda no alvorecer / E a poesia é a doce razão que nos faz viver).

E teve as noites de Luiz Carlos na nossa Sociedade Musical e Artística Lira de Ouro, onde sua presença, assim com a de Cláudio Camunguelo, abrilhantava a existência de quem viveu esses momentos.

E ainda lembro das terças-feiras no Bar do Beto Cavaco, ali no centro de Caxias, onde a nata da poesia e da malandragem se reunia pra celebrar o ritual de samba e vadiação. Quase sempre os sambas rolavam enternecidamente, magicamente, alegrando a todos e quando se achava que era demais pra um existência só, chegava Luiz Carlos da Vila e seu brilho característico, sua língua meio presa, sei lá, aquele canto meio esquisito, os movimentos elétricos... Algo havia naquele sujeito que o destacava de todos... Acho que dá pra resumir escrevendo: era de fato um poeta.
Por fim uma lembrança pessoal quando levamos o Luiz pra uma entrevista na nossa rádio, a Quarup FM, lá pelos idos de 96. Ele estava lançando o Raças Brasil, disco ótimo que ainda trazia como golpe de misericórdia A Luz do Vencedor, parceria dele com ninguém menos do que Candeia... Lembro de tentar disfarçar aquela filha da puta de lágrima furtiva nas primeiras audições...
É isso. Axé, Luiz Carlos da Vila. Que a sua Luz venha "ajudar a erguer o pilar de um mundo bem mais feliz"!

A Luz de um Vencedor (Luiz Carlos da Vila – Candeia)
Quem não lutar
Pra conquistar o que sonhou
Fazer por merecer
Se iluminar
Com a Luz que há no Vencedor
Pode até ganhar
E Mérito não ter

Aquecer
Os seus ideais em muito amor
Com o poder nas mãos não brincar
O arvoredo do mal derrubar
E arrancá-lo bem na raiz

Sua vida no bem sublimar
Pra ajudar a erguer o pilar
De um Mundo bem mais feliz

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Helena Aragão
 

Não faz o menor sentido mesmo, hb. Lembro de tê-lo entrevistado em 2003/2004 e ele contava justamente como tinha sido a luta contra o câncer, naquele momento estabilizado... Ô doença traiçoeira... É essa luz do vencedor que fica pairando agora.

Adorei o texto e o relato de sua vivência com ele. Acho que é sempre o mais belo tipo de homenagem. Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/10/2008 14:53
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Euclides Amaral
 

Luiz Carlos da Vila foi uma grande figura... não só como compositor, um dos melhores da sua geração, mas também como pessoa, de acordo com vários amigos mais chegados a ele, tais como Dorina, Luiza Dionizio, Felício Torres, Jucemar, Rildo Hora e Cláudio Jorge, entre outros. Eu não tive o prazer de ter essa amizade tão chegada e poucas vezes o encontrei em rodas de samba, na casa do Ricardo Cravo Albin e na antiga Rádio Bicuda FM, perto das nossas casas (moro em Brás de Pina). Nas poucas vezes em que conversamos, rapidamente, por conta de trabalhos e de nossa hora, o achei muito afável às novas amizades e com colocação claras sobre vários assuntos. De forma que, todos sofremos com tal perda, mas algumas pessoas, como as citadas acima, com certeza sofrem mais por ter sido muito mais próximo a ele. Pude perceber o sofrimento estampado no rosto dessas pessoas no sepultamento, não só essas pessoas que citei, também centenas de outras que me pareceram íntimas.
Com certeza era um cara de fortes e muitas amizades! deu pra se notar no dia 21 e como fiquei sabendo, no dia anterior, no velório na quadra da Vila Isabel. Pude ver o sofrimento da família (a mãe, a prima Angélica, entre outros). Só mesmo essas pessoas têm a real dimensão do amigo que perderam. Com certeza já tá deixando saudade em mim, que dirá neles que conviveram tão de perto. Fica meu pesar!
Euclides Amaral

Euclides Amaral · Rio de Janeiro, RJ 23/10/2008 13:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Euclides Amaral
 

PS: esqueci de falar no meu depoimento acima de uma coisa linda q aconteceu no sepultamento. Pintou uma área no céu q muitos presentes, inclusive eu, nunca havia visto.

Em torno do sol surgiu um alo todo colorido (tipo um arco-íris) enorme!

vários fotógafos tiraram fotos.

Foi o Rildo (Hora) q me atinou pr'aquilo, apontando... e apontando... ficamos arrepiados... logo chamamos uns fotógrafos pra rgistrar o alo em torno do sol.

Mas o Cláudio Jorge já o havia visto antes de nós e registrou, mais tarde, em palavras em seu blog http://blogdoclaudiojorge.blogspot.com/2008/10/infelizmente-o-choro-tem-que-continuar.html

Só mesmo ele pra conseguir tal façanha!

Acho q se valeu de toda a amizade e parceira de ambos.

Leiam e sintam o q nós sentimos naquele momento.

O Cláudio foi feliz nas colocações.

Axé Luiz!

amaral

Euclides Amaral · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2008 01:37
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Helena Aragão
 

Que bonito, Euclides! Valeu por contar esse episódio do enterro, deve ter sido emocionante...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2008 15:15
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heraldo hb /.
 

Euclides, infelizmente eu não tive um laço de amizade com o Luiz, como talvez o texto deixe transparecer. mas que eu o admirava muito, isso pode ter certeza. E lembro com prazer vívido todas as vezes que pude encontrá-lo por aí.
Li o relato do Cláudio Jorge sobre o enterro e a parada do sol... rapá...

'té+

heraldo hb /. · Duque de Caxias, RJ 24/10/2008 15:33
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Gabriele
 

(:

Gabriele · Rio de Janeiro, RJ 25/10/2008 22:40
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nina araújo
 

Por Um Dia De Graça
Composição: Luiz Carlos da Vila

Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça
Poesias, brindando essa manhã feliz
Do mal cortado na raiz
Do jeito que o mestre sonhava

O não chorar
E o não sofrer se alastrando
No céu da vida, o amor brilhando
A paz reinando em santa paz

Em cada palma de mão, cada palmo de chão
Semente de felicidade
O fim de toda a opressão, o cantar com emoção
Raiou a liberdade

Chegou o áureo tempo de justiça
Ao esplendor, do preservar a natureza
Respeito a todos os artistas
A porta aberta ao irmão
De qualquer chão, de qualquer raça
O povo todo em louvação
Por esse dia de graça


Salve Luis Carlos da Vila! Que texto delicioso!!!
beijos poéticos,

nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 23/1/2009 19:55
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Jorge paquetá
 

A festa agora é no céu : Luiz Carlos da Vila e Cláudio Camunguelo . Foram parceiros na boa música . Luiz Carlos da Vila foi o herdeiro de Candeia e Camunguelo um mestre na flauta . Uma dica de bom CD : Luiz Carlos da Vila - Tributo a Candeia , a luz de um vencedor . É simplesmente o melhor disco de samba já gravado no Brasil . Que time de músicos . Camunguelo está presente , "brincando" na flauta . Ficou um enorme vazio , uma enorme saudade destes dois mestres . Mas eles agora são "LUZ" lá pertinho de Deus .

Jorge paquetá · Rio de Janeiro, RJ 29/1/2010 01:02
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Time da pesada: olha Camunguelo e Bira da Vila aí zoom
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