LUIZ GONZAGA: "a morte do vaqueiro" e uma parceria

Diário de Pernambuco
Edelzuíta Rabello abraçada ao amor da sua vida...
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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
2/8/2012 · 6 · 4
 

Quando foi dada a notícia da morte de Luiz Gonzaga, há exatos 23 anos, muita gente não acreditou. Ela se espalhou por todos os telejornais e jornais impressos do país. Chegou até a Paris, através de um telefonema dado por João Gilberto para a jornalista e escritora Dominique Dreyfus. E houve muitos que, como eu, mesmo olhando uma foto de jornal como esta aí acima, hoje já estragada pelo tempo, se recusava acreditar. Depois, aos poucos, nas pequenas cidades do interior do Nordeste, nos sítios, nas fazendas, nas feiras de gado, nas reuniões de poetas, de vaqueiros, de amantes da boa música nordestina, não se falava em outra coisa: estava morto o grande cantor de alma sertaneja, o vaqueiro cantador.

Quem lê sobre a vida de Luiz Gonzaga sabe que um dos fatos que mais o marcaram foi a morte do vaqueiro Raimundo Jacó, seu primo, em julho de 1954, assassinado enquanto descansava sob a sombra de uma árvore no sertão pernambucano. E que a morte daquele vaqueiro foi a motivação para que se desse início a um dos mais significativos eventos do calendário turístico de Pernambuco: A Missa do Vaqueiro, idealizada pelo falecido padre João Câncio e realizada anualmente em Serrita-PE.

Muitos sabem também que existe uma música chamada “A Morte do Vaqueiro”, um baião-toada, incluída num LP de Luiz Gonzaga chamado “Pisa no Pilão (Festa do Milho)”, de 1963, um dos discos mais brilhantes da sua carreira.

Poucos sabem, no entanto, como foi a história dessa música, já que “parceria musical” é um assunto muito palpitante, sobretudo para quem gosta de cutucar o Rei do Baião e o Rei do Ritmo com vara curta. Falo de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Vocês devem saber a quem estou me referindo! Os que falam mal de Luiz Gonzaga são dois paraibanos. Quem fala mal de Jackson do Pandeiro é um pernambucano.

Antes de falar sobre essa parceria, eu gostaria de dizer, como fã, que essa é a música de que mais gosto de todo o repertório de Luiz Gonzaga. Não é de Zé Dantas, Humberto Teixeira, Zé Marcolino, Onildo Almeida, João Silva, Rosil Cavalcanti, nenhum desses. A música é de Luiz Gonzaga (melodia) e Nelson Barbalho (letra). Já disse anteriormente nesta coluna que Luiz Gonzaga não gostava de fazer letra de música por não se sentir poeta. Quem conheceu realmente a alma de Luiz Gonzaga sabe que ele foi simplesmente um vaqueiro que cantava tão bem quanto aboiava. E nunca quis ser mais do que isso. “A Morte do Vaqueiro” para mim é sua obra-prima, como compositor e intérprete. Ora, quem já ouviu uma melodia tão triste e tocante no sentimento da gente igual a esta?

Seria altamente positivo para a história da música popular brasileira, se todo compositor, que fez música em parceria, fizesse algo assim: após a morte do outro autor, suspeito de empurrar seu nome nos inúmeros discos que gravou, quando ninguém soubesse a história de uma determinada música, desse um depoimento espontâneo tão importante e honesto como o que abaixo transcrevo, do escritor, historiador, poeta e compositor Nelson Barbalho, natural de Caruaru/PE e também já falecido.

O depoimento foi dado a Dominique Dreyfus, francesa, biógrafa de Luiz Gonzaga, e autora do livro “Vida do Viajante – A Saga de Luiz Gonzaga”, aquele que na contracapa contém estas palavras de Gilberto Gil:

“Dentre aqueles gêneros diretamente criados a partir da matriz folclórica, está o Baião e toda a sua família. E da família do baião Luiz Gonzaga foi o pai.

Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira, como aquele que, graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraídas do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, e, sobretudo, da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar um gênero musical.

Eu, como discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe, associo-me às eternas homenagens que a História continuadamente prestará ao nosso Rei do Baião”.

E vamos ao depoimento de Nelson Barbalho:

“A Morte do Vaqueiro foi composta na rua Vidal de Negreiros, nº 11, em Caruaru. Nós almoçamos juntos e depois fomos para a sala. Tinha um relogiozinho feito de coco, daqueles que balançam e Luiz ficou olhando o relógio e, daqui a pouco, falou: - “Eu sempre tive vontade de prestar uma homenagem a um primo meu, que era vaqueiro e foi assassinado lá no Sertão”. E ele contou a história de Raimundo Jacó que foi assassinado na caatinga, e nunca ninguém soube quem era o culpado. Eu disse que isso podia fazer um baião danado de bom, e na mesma hora ele pegou na sanfona e fez: “Lá lari lari lara” e eu fiz “Numa tarde bem tristonha”; e ele: “Larará lará lará” e eu: “Gado muge sem parar/ relembrando seu vaqueiro/ que não vem mais aboiar” e, no final da tarde, a música estava pronta”.

Ali estava um Luiz Gonzaga consciente juntamente com um poeta inspirado, fazendo uma música de protesto, denunciando um crime sem culpado e exigindo satisfação a uma Justiça que faz muito tempo não é justa com os menos favorecidos. E aquele “lengo-tengo” colocado por Gonzaga e Nelson ainda hoje parece mexer com os sentimentos da gente como se aquela música fosse feita ontem.

Há outro depoimento mais completo, este da filha de Nelson Barbalho, Valéria Barbalho, publicado sobre a forma de artigo no Jornal Vanguarda, de Caruaru/PE, de 10/04/2009, que abaixo transcrevo:

“Desde que se conheceram, em 1957, ano do centenário de Caruaru, meu pai, Nelson Barbalho, e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, tornaram-se amigos. Eles sempre se correspondiam e todas as vezes que Gonzaga ia à Capital do Agreste, arranjava um tempinho para nos visitar. Em uma dessas visitas, ele disse que estava com uma música nova e pediu para meu pai fazer a letra. Queria homenagear seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó, que tinha sido assassinado. E contou como tudo aconteceu. Ciente da história e como já estava na hora do almoço, meu pai disse: ‘Vamos logo comer e depois você toca a música para eu ver se encaixo a letra. Se eu conseguir, ótimo! Senão, nem adianta tentar mais tarde. Só sei fazer letra na hora’.

Depois do almoço, o Rei do Baião pegou a sua sanfona, sentou-se na beirada da cadeira e puxou o fole... Juntou gente em frente à nossa casa para vê-lo. Meu pai, ouvindo a melodia, foi ‘encaixando’ a letra: ‘Numa tarde bem tristonha...’ e assim continuou até o final. Deu-lhe o título: A Morte do Vaqueiro. Seu Luiz adorou. Foi embora, à tardinha, depois que decorou a letra e ajustou o tom. Saiu feliz da vida, dizendo que ia mostrá-la ao padre João Câncio e encomendar uma missa para Jacó. Pediu autorização do meu pai para cantá-la durante a cerimônia. Como planejado, a missa aconteceu.
O padre realizou um ritual belíssimo. Na igreja lotada de parentes, amigos e vaqueiros da região, Gonzaga cantou pela primeira vez a canção feita para o primo. Nos anos seguintes, eles repetiram o evento que ficou conhecido como a Missa do Vaqueiro. Com o tempo, outras pessoas começaram a participar da cerimônia, que foi modificada, e ‘A Morte do Vaqueiro’ foi substituída. Mas, durante os 18 anos que o Rei do Baião dela participou, ele sempre cantou a canção original. A música já era um sucesso, mas nada de ser gravada.

Anos depois, meu pai ao encontrar com seu Luiz lhe perguntou por que não a tinha gravado. Ele respondeu que tinha tentado várias vezes, mas sempre chorava e não conseguia cantar. Meu pai replicou: ‘Tu não tem vergonha, não? Um babaquara velho desse deixando de gravar uma música só porque chora! Grava logo isso homem!’. Finalmente ele gravou. Das músicas do meu pai, é a mais famosa. Tenho 16 gravações dela com diferentes intérpretes. Para consegui-las, fui ao camarim de teatro falar com artistas, invadi gerência de supermercado, de restaurante e de magazines (até no exterior) para saber quem estava cantando a versão ouvida naqueles ambientes, pesquisei na internet, corri atrás de carro de som e garimpei CD's em lojas especializadas.

Por conta dela, já vivi momentos inesquecíveis. Chorei ouvindo o cantor caruaruense Israel Filho interpretá-la, com o coração, acompanhado pelo povo que lotava o Pátio do Forró, durante o São João de Caruaru de 2008, que homenageava meu pai. Também me comovi ao assistir, no Recife, no hospital onde trabalho, a apresentação do violonista Cláudio Almeida, voluntário do programa Tom Suave.

Quando ele dedilhou a canção do meu pai e de Gonzaga, pacientes internados nas diversas clínicas, alguns com muletas, na maca ou na cadeira de rodas, apesar das suas dores, formaram, espontaneamente, um maravilhoso coral e cantaram a música inteira. Foi emocionante! Já sorri, ao gravar para o documentário que estou realizando, o depoimento de Mestre Dila, o Papa da Xilogravura, quando perguntei se lembrava de Nelson Barbalho e ele respondeu: ‘Lembro sim, não foi o autor da morte do vaqueiro?’ Logo, corrigindo: ‘Autor da morte não, que ele não era assassino, autor da letra...’ E cantou um pedacinho.

Ainda fazendo filmagens em Caruaru, ao encontrar outro grande mestre, João do Pife, que se apresentava no Pátio da Estação e pedir para filmá-lo tocando ‘A Morte do Vaqueiro’, me frustrei quando ele respondeu: ‘Desculpe moça, mas essa música eu não conheço, não!’ No entanto, logo me alegrei. Vendo minha tristeza, para me consolar, ele disse: ‘Mas cante um tiquinho pra vê se eu me lembro!’ Cantarolei desafinada. Imediatamente fui interrompida por ele: ‘Oxente, é a música do lengo-tengo! Essa eu sei de cor!’ E tocou bem afinado. Foi animadíssimo! Todos os presentes participaram. Na hora do refrão, um lindo coro: lengo-tengo-lengo... Filmei tudinho.

No final, agradeci a seu João e lhe expliquei que o ‘lengo-tengo’, como a música também é conhecida, representava para o meu pai o som dos chocalhos dos bois andando, de um lado para o outro, mugindo sem parar, lamentando o seu vaqueiro que não vem mais aboiar.

Lengo-tengo-lengo-tengo ...” (Valéria Barbalho é pediatra e produtora do documentário sobre Nelson Barbalho).

Para finalizar, faço minhas as palavras de Thereza Oldam sobre Luiz Gonzaga, escritas em 20/02/1968, por ocasião das comemorações do centenário do povoado do Araripe: “O Araripe pede a Deus para seu filho a eternidade da arte que o persegue”.

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Jorge Macedo
 

Meu caro Mestre e Pesquisador Abílio Neto: A sua homenagem ao nosso Rei Luiz Gonzaga foi emocionante. Os depoimentos acrescentados ao seu brilhante trabalho enriqueceram histórica e sentimentalmente o assunto abordado. Confesso, sem nenhum constrangimento que não contive as lágrimas!
Parabéns! NOTA 10 !!!

Jorge Macedo · Recife, PE 2/8/2012 11:47
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Quincas Macedo
 

Abílio, só seria da tua pena a mais clara, bonita e contundente homenagem ao rei do baião. Gonzagão saiu dessas terras de mandacaru, mas o seu legado é eterno!!!!

Joaquim

Quincas Macedo · São Paulo, SP 2/8/2012 12:57
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Eldo Meira
 

Caro Abílio. O que poderia eu dizer, diante desse trabalho digno de quem conhece a fundo a biografia do Rei do Baião. Só posso afirmar que Luiz Gonzada se imortalizou com seu canto, sua sanfona e na pena desse escritor. Parabéns.

Eldo Meira · Carazinho, RS 2/8/2012 13:13
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Abílio Neto
 

Obrigado a vocês, caros Jorge Macedo, Quincas Macedo e Eldo Meira. Abraços!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 2/8/2012 20:52
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