LUIZ GONZAGA É CEM: HOMENAGEM DE JESSIER QUIRINO

Arquivo do pesquisador, compositor e poeta Paulo Carvalho
Jessier Quirino: "um sonhador maginando". Foto de Paulo Carvalho
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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
13/1/2012 · 12 · 2
 

O dicionário da MPB de Ricardo Cravo Albin ignora Jessier Quirino. O famoso site Clique Music (que diz “a música brasileira está aqui”) dele não toma conhecimento. O site Discos do Brasil (financiado pela Petrobrás) o omite como intérprete e compositor. Assim, para saber mais um pouco sobre a vida desse paraibano famoso, tive que recorrer à Wikipédia e à Musicaria Brasil. Agora descobrir o dia e mês de nascimento de Jessier é mais difícil do que ver caçola de freira.

Escrevo abaixo os dados que colhi da Musicaria Brasil que tem como editor o jovem pesquisador Bruno Negromonte:

Arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção. Essa é a autodefinição do paraibano de Campina Grande Jessier Quirino, filho adotivo de Itabaiana onde reside há dezessete anos. Autor dos livros: Paisagem de Interior (poesia), Agruras da Lata D'água (poesia), O Chapéu Mau e o Lobinho Vermelho (infantil), Prosa Morena - acompanhado de CD com declamações de alguns poemas, musicas e causos, Política de Pé de Muro, A Folha de Boldo Notícias de Cachaceiros - em parceria com Joselito Nunes, além de causos, músicas, cordéis e outros escritos. Todos publicados pelas Edições Bagaço - Recife/PE. Preenchendo uma lacuna deixada pelos grandes menestréis do pensamento popular nordestino, o poeta Jessier Quirino tem chamado a atenção do público e da crítica, principalmente pela presença de palco, por uma memória extraordinária e pelo varejo das histórias, que vão desde a poesia matuta, impregnada de humor, neologismos, sarcasmo, amor e ódio, até causos, cocos, cantorias músicas, piadas e textos de nordestinidade apurada. Dono de um estilo próprio "domador de palavras" - até discutido em sala de aula - de uma verve apurada e de um extremo preciosismo no manejo da métrica e da rima, o poeta, ao contrário dos repentistas que se apresentam em duplas, mostra-se sozinho feito boi de arado e sabe como prender a atenção do distinto público. Apesar de muitos considerá-lo um humorista, opta pela denominação de poeta popular e escritor, onde procura mostrar o bom humor e a esperteza do matuto sertanejo, sem, no entanto, fugir ao lirismo poético. Talvez prevendo uma profunda transformação no mundo rural, em virtude da força homogeneizadora dos meios de comunicação e das novas tecnologias, Jessier Quirino, desde seu primeiro livro, vem fazendo uma espécie de etnografia poética dos valores, hábitos, utensílios e linguagem do agreste e do sertão nordestinos. Segundo críticos, ensaístas, promotores culturas e professores que tecem-lhe conceituações filosóficas, sua obra, além do valor estético cada dia mais comprovado, vai futuramente servir como documento e testemunho de um mundo já então engolido pela voragem tecnológica. Depois da publicação do primeiro livro em 1996, pelas Edições Bagaço do Recife, o poeta vem defendendo sua poesia a golpes de declamações em tons solenes e brincativos, fato que já lhe rendeu fama e respeitabilidade no meio artístico e literário. Atualmente concilia sua condição de arquiteto autônomo com uma agenda artística de vôos cada vez maiores espalhando nordestinidade Brasil a fora.

A Wikipédia colocou o que transcrevo:

“Jessier Quirino, arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção. Apareceu na folhinha no ano de 1954 na cidade de Campina Grande, Paraíba e é filho adotivo de Itabaiana também na Paraíba, onde reside desde 1983.

Filho de Antonio Quirino de Melo e Maria Pompéia de Araújo Melo e irmão mais novo de Lamarck Quirino, Leonam Quirino, Quirinus Quirino, e irmão mais velho de Vitória Regina Quirino.

Estudou em Campina Grande até o ginásio no Instituto Domingos Sávio e Colégio Pio XI. Fez o curso científico em Recife no Esuda e fez faculdade de Arquitetura na UFPB – João Pessoa, concluindo curso em 1982. Apesar da agenda artística literária sempre requisitada, ainda atua na arquitetura, tendo obras espalhadas por todo o Nordeste, principalmente na área de concessionárias de automóveis. Na área artística, é autodidata como instrumentista (violão) e fez cursos de desenho artístico e desenho arquitetônico. Na área de literatura, não fez nenhum curso e trabalha a prosa, a métrica e a rima como um mero domador de palavras.

Preenchendo uma lacuna deixada pelos grandes menestréis do pensamento popular nordestino, o poeta Jessier Quirino tem chamado a atenção do público e da crítica, principalmente pela presença de palco, por uma memória extraordinária e pelo varejo das histórias, que vão desde a poesia matuta, impregnada de humor, neologismos, sarcasmo, amor e ódio, até causos, côcos, cantorias músicas, piadas e textos de nordestinidade apurada.

Dono de um estilo próprio "domador de palavras" - até discutido em sala de aula - de uma verve apurada e de um extremo preciosismo no manejo da métrica e da rima, o poeta, ao contrário dos repentistas que se apresentam em duplas, mostra-se sozinho feito boi de arado e sabe como prender a atenção do distinto público.

Nos espetáculos com fundo musical, apresenta-se acompanhado de músicos de primeira grandeza, entre os quais, dois filhos, que dão um tom majestoso e solene ao recital. São eles: Vitor Quirino (violão clássico), e Matheus Quirino (percussão). Os músicos Letinho (violão) e China (percussão) atuam nos espetáculos mais elaborados. Apesar de muitos considerá-lo um humorista, opta pela denominação de poeta, onde procura mostrar o bom humor e a esperteza do matuto sertanejo, sem, no entanto fugir ao lirismo poético e literário.”

Acho eu que, na essência, é isto mesmo que interessa, embora reconheça que ainda é muito pouco para um homem que já fez tanto pela arte publicando diversos livros de poesias, “causos” e produzindo cinco CDs.

Mas não é bem das faltas ou lacunas dos grandes sítios de música que desejo falar, mas daquilo que sobra em Jessier Quirino. E algumas sobras comprovadas do seu talento se resumem assim: um compositor da pesada que nem aquelas carretas trucadas que afundam o asfalto falsificado das rodovias brasileiras porque já nasce corroído pela corrupção dos impunes. Além disso, também canta afinado feito um guriatã de coqueiro. Lamento muito que o Brasil conheça pouco desta outra arte que ele faz com tanta competência. Há alguns meses eu publiquei aqui o Bolero de Isabel, ele com Maciel Melo, que é como se fosse um drible de Garrincha e gol de Pelé. Alguns aplaudiram, mas a jogada merece muito mais aplausos.

Em setembro de 2009, eu tomei ciência através do Jornal da Besta Fubana (um jornal eletrônico que mistura cultura regional com futricagem política) da sua música chamada “Um Sonhador Maginando” que faz parte do CD que acompanha o livro Berro Novo. Dei logo nela repeteco de umas dez vezes para ver se gravava a bichinha na cachola do pensamento, e... nada. Memória tem o Jessier! Atualmente é um dos maiores gravadores humanos que tem o Nordeste. Mas os grandes destaques desta música são primeiro, sua melodia, e depois sua letra. Elas formam uma obra primorosa, daquelas que eu coloco na primeira linha do que há de melhor na música brasileira. Sei que alguns enjoados poderão dizer que é folclórica, mas Villa Lobos tinha um pé no folclore. Deixou de ser grande por isso?

Quando a essa música se juntaram no disco os excelentes arranjos, os instrumentos musicais e as vozes de Jessier e Dominguinhos, a vestimenta sertaneja final ficou pronta para um show de bola numa tarde de domingo no Maracanã no tempo do “Galinho de Quintino”! Saudades do passado? Não sei. O que sei é que seu Luiz Gonzaga deve ter ficado muito satisfeito com a homenagem feita por Jessier com o auxílio luxuoso do iluminado Dominguinhos, desconstruindo seu xote e de Zé Dantas intitulado Riacho do Navio, que vocês podem ouvir direto do Memorial Luiz Gonzaga, mantido pela Prefeitura do Recife.

Desconstrução é uma coisa que se fala muito na música popular brasileira. Já li que fulano desconstruiu a música de beltrano e que beltrana fez o mesmo com a música de sicrano. Confesso que às vezes quando escuto essas desconstruções falo com meus botões (e só com eles): assassinou a música.

Não é o caso de Jessier, até porque é um arquiteto formado na teoria e na prática. Ele desconstruiu uma belezura e construiu uma lindeza! Faz tempo que eu não ouvia algo tão bem erguido no sentido poético no imaginário edifício musical brasileiro. A música foi gravada em 2009, ano em que foi muito lamentado o 20º aniversário da morte do Rei do Baião.

O Rei morreu, o Brasil chorou, porém ele deixou os seus súditos de primeira grandeza. Jessier é um deles. Mesmo o seu forte sendo a poesia matuta e a prosa, quando parte para fazer música ele vai com os dois pés e as duas mãos que nem tirador de coco. O resultado não é como um tiro de bacamarte, no São João de Caruaru, que fere nossos ouvidos, mas algo tão doce quanto a melodia de Juazeiro, de Luiz Gonzaga, que recebeu letra de Humberto Teixeira em agosto de 1945.

Gostaria imensamente que existissem muitas músicas do nível de “Um Sonhador Maginando” neste ano do centenário de Luiz Gonzaga para que eu pudesse apresentá-las para vocês aqui no Overmundo.

Assim sendo, e sem mais arrodeios, confiram a pérola musical (pela simplicidade e leveza) de Jessier Quirino, esse paraibano arretado, clicando aqui!

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Jorge Macedo
 

Parabéns Abílio Neto pela excelente pesquisa, extensivo ao Bruno Negromonte do site: www.musicariabrasil.blogspot.com
Abraços!

Jorge Macedo · Recife, PE 13/1/2012 13:27
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Abílio Neto
 

Caríssimo Jorge Macedo, o seu incentivo e de outros amigos são muito importantes para que eu não desista desta batalha de apresentar aqui aquilo que, no meu entender, tem forte alicerce na cultura popular brasileira. Obrigado e abraços!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 13/1/2012 14:23
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