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Lulu Santos é o rei do pop brasileiro!

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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
17/11/2007 · 195 · 10
 

(Eu escrevi este texto em junho de 2006 e o perdi na bagunça do computador. Hoje, achei.
Estava influenciado ainda pelo show de Lulu no Festival América do Sul, em Corumbá/MS. Lulu provou a ferro e a fogo tudo que escrevi aí embaixo.
Lendo agora percebo que é uma espécie de desabafo depois de ver Ivete Sangalo na capa da Rolling Stone. Grazi (!), Coldplay, Caetano, Faustão e outros vieram e (francamente) Lulu até agora ganhou uma entrevistinha discreta na revista dos 'manus'. A minha indigestão e este texto continuam valendo!)


Bom, uma comichão dos infernos vem me acompanhando estes dias. Mais especificamente depois que li a matéria de Vladimir Cunha (a quem eu admiro como jornalista) na revista Rolling Stone. Lá estava a Ivete Sangalo na capa com a chamada: 'Rainha do POP?'. Com interrogação mesmo. Alguns dias depois abro a revista TRIP e tem lá uma matéria com o Sidney Magal, uma foto dos tempos de Sandra Rosa Madalena, e de novo: 'Rei do POP'. Desta vez afirmando. Aí já é demais.

Afinal, o que significa música pop nestas alturas do campeonato? Eu já não to entendendo mais nada. Ser popular é ser pop? Basta arrastar multidões para ser considerada rainha pop? Ou a música também entra nesta jogada? Eu acho que entra. Para mim música pop é aquela com uma 'puta' qualidade, com letras no mínimo interessantes (que tenha uma mensagem que não seja do tipo 'na palminha da mão'), refrões chicletinhos (com mais de três palavras que tenham mais de três letras), músicos tocando bem seus instrumentos, um arranjo fodão... e tem que ser estiloso. O The Police é um exemplo. Prince outro. Madonna claro. Michael Jackson off course. E no Brasil você deve estar perguntando?

Valei-me Deus! Enquanto este cara estiver vivo, não dá para chamar mais ninguém de 'sei lá o q' da música pop. LULU SANTOS. Ele sim é REI DO POP brasileiro. É o band leader de maior qualidade de toda nata da música popular brasileira. Guitarrista superior aos melhores das bandas consagradas como Dado Vila Lobos, Tony Belotto, Edgar Scandurra (simm, simmm é melhor), Herbert Vianna, Roberto Frejat (sim sim o Lulu é mais versátil que o Herbert e Frejat)...

Superior aos das bandas não consagradas também. É preciso ser justo. Não sei. Olho no horizonte e para começar não me vem um guitarrista da 'nova geração' na cabeça. Penso no talentoso guitarrista Bruno Kayapy, do cuiabano Macaco Bong. Lulu continua na ponta, com talento para conduzir tanto um power-trio matador, o Jacaré com quem fez shows raros, como estabelecer timbres que renovaram e formataram a guitarra pop brasileira.

Ele também é um grande cantor, de não desafinar uma mísera nota em shows ao vivo e ousar, ousar bastante. Nada de cantar só a melodia padrãozinho... E como compositor, bem, quem fez mais hits de qualidade no Brasil do que o Lulu? Não são apenas meia dúzia. É uma obra inteira.

E me diga quem é que flerta melhor com a tecnologia do que o Lulu na música popular brasileira? Quem é que mais rápido incorporou a música eletrônica, dividindo um disco com um DJ (Eu e Memê & Memê e Eu/1995)? Quem é que teve a sacada (e coragem) de gravar um videoclipe naqueles aviões ex-URSS que ficam sem gravidade? Me fala também quem é que tem condições de fazer um show com 100% de eficiência no vocal, no instrumento, no repertório, na postura cênica e na condução da platéia?

Me fala quem destes figurões faz um solo com slide guitar sem errar uma nota (não é blues não!) E dinâmica? Bem esta é uma palavra que definitivamente sumiu do dicionário do rock brazuca e está muito longe (longe messssmooo) dos trios elétricos baianos. Quem consegue ter a dinâmica do Lulu Santos? Pois é!

A caminhada de Lulu rumo ao reinado pop começou em seu quinto disco (Lulu), em 1986. Quem não cantou 'eu não sei viver sem ter carinho, é a minha condição?' Em 1989 ele lança Popsambalanço (kkkkk... muito antes de A Procura da Batida Perfeita, do D2), um marco da música pop brasileira e onde o samba se fundiu ao rock de maneira mais inventiva e perfeita. As faixas Eu Não e Brumário são sambas-rock-lulusantistas de primeira... Acho que este trabalho é tão sofisticado e moderno que antecipou muita coisa e não gerou tantos hits, mas conceitualmente é muito importante. Em uma das faixas, aliás, ele autoproclama 'Eu sou o rei do iê, iê, iê | O rei do ú, ú, ú | O rei do hey, hey, hey'. E é mesmo. Eu acho que foi neste disco, o oitavo da carreira, que Lulu começa a ganhar prestígio como músico-compositor-cabeça-pensante. Em 1994 ele emplaca o hit Assim Caminha a Humanidade. No outro ano surpreende dividindo disco o com DJ Memê e reembala vários hits com a música eletrônica. Antenadissimo. Em 2000 gravou um Acústico MTV exemplar. Foram 20 discos em 23 anos, praticamente um por ano.

Mas o que sustenta Lulu e prova que ele está cada dia melhor são os shows. Na hora do 1 2 3 4 e tomeeeee roooock!

CORTA

Lulu está imóvel no palco. A luz simplesmente acabou pouco depois da metade do show. A vinda para Corumbá havia sido estressante e Lulu chegou pouco menos de duas horas do evento após percorrer uns 500 desde Campo Grande. Uma chuva rala caía sobre a platéia, que começa a ficar impaciente. É a abertura da quarta edição do Festival América do Sul e o Rio Paraguai passa bem ao fundo do local. O susto tinha sido grande. Quando descobriu-se em poucos minutos que a causa do blecaute havia sido um dos geradores por falta de combustível, a produção pensou que Lulu iria abortar o show. O cantor, ao contrário, ficou parado, de costas para o público no fundo do palco apenas concentrado. A luz se acende. Lulu tira a capa e volta com passos decididos para o meio do palco. A banda está a postos e ele empunha a guitarra. Silêncio. Lulu chega no microfone e fala 'agora só ficaram os sinceros'.

PS 1 - Em novembro a revista RS se redimiu (uma pequena parte) dos grandes equívocos que vem elegendo (para mim) para a capa!

PS 2 - Tudo bem, o último disco de Lulu não é lá esta coisa!

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Ilhandarilha
 

Rodrigo, que legal encontrar esse seu texto sobre o Lulu. Taí, um cara que eu nunca comprei um CD, mas sei praticamente todas as músicas de cor! Isso é ser pop! Ele esteve aqui em Vitória mês passado, num show na praia, free, para uma multidão. E tenho que dizer que foi uma das noites mais divertidas que tive nos últimos tempos! O cara começou o show, super tecnológico e visual, com um tremendo batidão, pode? E ai a noite rolou, em paz, milhares de pessoas em paz, cantando e pulando nas areias da Praia da Costa.
Você tem toda razão quando diz que ser pop é ser popular com qualidade. Lulu joga no time da modernidade sem cair no ralo da produção "pop" brasileira. Valeu!

Ilhandarilha · Vitória, ES 14/11/2007 10:16
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Cintia Thome
 

Pertinente colaboração no que se refere o reverso de valores. Ivete pode ser a rainha, mas da música pop? Lulu Santos é o músico, anos de estrada, luta e inteligência ímpar. Abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 16/11/2007 20:49
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Helena Aragão
 

Rodrigo, que curioso esse teu texto (me lembrou, guardadas as devidas proporções de fã, este aqui). Acho que estou querendo mais dar uma de advogada do diabo com este meu comentário do que afirmar alguma coisa, mas me espanta um pouco você conclamar um certo tradicionalismo do pop. Pop me soa como um gênero que nunca quis se ver muito preso em amarras... Mais livre que o rock neste sentido, por exemplo, você concorda? Entendo o que diz quando reclama da mídia dizer que Ivete e Magal são pops. Mas de certa forma parece pedir uma pureza num gênero que nunca foi muito puro e que é meio metamorfose ambulante... Os tempos mudam o pop ainda existe. Quem é o representante do pop da nova geração? Jota Quest, Skank? (será aliás que esses podem ser chamados de nova geração...) Não li a matéria do Vladimir, mas hoje em dia acho mesmo que a Ivete virou algo pop (no sentido de ser meio em cima do muro de estilos mesmo, cada vez mais distante do axé).
Mas entendo seu desejo de ver o Lulu Santos mais valorizado, independente de reinados e hierarquias, pelo conjunto da obra (até porque - me corrija se eu estiver errada - hoje em dia ele não parece estar fazendo grandes coisas a não ser cantar seus bons e velhos hits...) Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 17/11/2007 17:44
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Rodrigo Teixeira
 

Olá Helena! Bacana vc ter lido o texto e mais bacana ainda ter levantado estas questões. A intenção era esta mesma. Te confesso que não sei mais o que música pop? Acredito que a palavra ganhou um significado genérico, no sentido de qualquer música que faça sucesso seja pop.
Vc pergunta se o pop é mais livre que o rock e acho que não. Na verdade, o que aconteceu nos anos 80 foi exatamente domesticar o som pauleira do rock. Tudo ficou mais limpinho, com as canções mais formatadas, sem tantas viagens instrumentais. O primeiro disco do Paralamas é isso. O The Police é isso. Até mesmo a maneira de gravar os discos mudou, com a música pop padronizando o jeito 'canal por canal' com os músicos gravando separados com que todo mundo começou a fazer a partir dos anos 80. Isso é música pop.
E o grande equívoco é proclamar ídolos populares (Ivete, Magal...) em ícones pop. É diferente.
O que eu falo do Lulu é ele deveria ser mais reverenciado por isso. Por ter colocado um nível lá em cima dentro da música brasileira no gênero da música pop. Ele é a pedra fundamental diria.
E esta cobrança de que o artista tem que só fazer obra-prima durante a carreira é uma coisa bem do Brasil! Lá fora os artistas conseguem criar alguns hits e gravar bons discos e basta para ele levar uma vida digna e ser respeitado. Aqui o compositor tem que ser uma usina de hits ou gravar um disco bommmm por ano.
O que tento ressaltar é justamente que o LULU, em cima do palco, embora não consiga mais fazer grandes discos - COMO CHICO BUARQUE TAMBÉM NÃO - é imbatível.
Bjão Helena!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 17/11/2007 18:04
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Helena Aragão
 

Legal, Rodrigo! Olha, não sei onde na minha fala você possa ter interpretado que quis dizer que artista tem que ter hit a carreira inteira. Não acho isso não, assim como não acho que existam reis disso ou daquilo - talvez o que me incomode mais é a necessidade de classificar assim, apesar de entender que seja uma coisa natural para a imprensa. Achei ótimo o que você falou sobre ele ter sido a pedra fundamental. (Ou seja, no fim isso é uma discussão mais sobre linguagem do que qualquer coisa). Não acho que o artista tem que gravar um disco bom por ano (aliás, com todas as mudanças tecnológicas em curso, já dá quase para dizer que isso é coisa do passado). Só torço para que, ao conseguir levar uma vida digna e ser respeitado, ele não se acomode. (E aí não estou falando especificamente do Lulu, até porque não acompanho a carreira dele de perto, e nem de hits, pois há muita coisa boa que não chega a virar hit).
Traga mais textos musicais, Rodrigo! Adoro essa conversa!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 18/11/2007 11:57
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Karine Pegoraro
 

É Rodrigo...
Muitas vezes grandes 'caras' são esquecidos e deixados de lado, embora tenham grande papel no cenário, tanto musical quanto artístico... É mais fácil dar margem a quem está na mídia e garante lucro do que apostar no duvidoso...
Lulu Santos é o cara!

Karine Pegoraro · Campo Grande, MS 18/11/2007 12:57
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Marcos Paulo Carlito
 

Olha Rodrigo, o Lulu é fera sem dúvida.
Atitude, personalidade, talento, letra e música boa.

Mas tá numa fase ruim (me parece). Esse CD onde ele aparece com uma sbolinhas fazendo malabarismo ilustra bem o que estou falando. O cara tá sem inspiração no momento. Deve estar numa fase de novas procuras ou ausências.

Todavia, vamos respeitar, é um ícone da música Pop brasileira...

Marcos Paulo Carlito · , PR 18/11/2007 18:14
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Hermano Vianna
 

oi Rodrigo: sobre Lulu e a questão do pop escrevi este texto aqui em 1989 - ainda acredito em muita coisa que disse lá - abraço!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 18/11/2007 22:28
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Saulo Frauches
 

Realmente é curioso como o tempo acaba transfigurando um mesmo trabalho. O Lulu que era esculachado antes hoje é visto como um cara da época do 'pop bom'. Já perdi a conta de amigos meus que falam 'gosto de funk' mas com o necessário - para eles - adendo 'mas gosto do funk de antigamente, não é desse baixo nível de hoje não'. Tem os que falam que o rock brasileiro hoje está uma porcaria, para em seguida lembrar com saudosismo da geração de Renato Russo e Cazuza.

Dia desses fui numa festa que tocava hits assumidamente pop - de hoje e de antes, na maior mistureba - e, entre roquezinhos da hora e um novo hit que invadiu a tela da MTV, tocaram uma música do É o Tchan. A pista desabou de alegria. Era engraçado ver uma galera de visú meio rocker/emo dançando na maior empolgação. E concluí que seria impossível aquele mesmo perfil de público curtir a mesma música caso fosse executada anos atrás, no auge do grupo baiano.

Não que eu ache Lulu parecido com cumpadre Washington. Mas que o tempo reescreve o pop, isso tem me parecido.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2007 16:02
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AULINHA.com.br
 

Lulu Santos sempre, mas a velhice chegou e ele não tem + a santa paciência. Também, haja saco pra agüentar chuva em MS...
concordo com o texto, Xará...

AULINHA.com.br · Afeganistão , WW 21/3/2008 12:55
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