“É, Fredi, estás com um cancerzinho no pulmão”. Foi essa frase, dita por um médico sem jeito para informar o diagnóstico preciso, que o engenheiro civil, Fredi Maia, ouviu em maio de 2006, aos 82 anos de idade. É com muito bom humor que o homem que há pelo menos 30 anos, entre idas e vindas, preside o Automóvel Clube de Pernambuco, conta os percalços que enfrentou durante a vida. “Só não me pergunte nomes e datas que eu não me lembro de nada disso”, adverte.
Maia é sorridente, alegre, lúcido, íntegro e falador. Fumou até os 50 anos, quando perdeu um grande amigo para um enfizema pulmonar, adora dirigir – a 40 km/h, com um motor sofrido porque ele não passa da segunda marcha –, leva a sinceridade e honestidade ao extremo, faz e come tudo o que lhe dá prazer, a não ser quando é necessário se recuperar de algum problema de saúde.
Contabilizando a operação de fimose, uma arrumação na coluna, amígdala, algumas intervenções na próstata, apendicite supurada, a retirada de 52 pedras da vesícula, três pontes de safena, a remoção de parte do pulmão, mais recentemente, entre outros casos, Fredi já enfrentou 19 cirurgias. “Certa vez fui fazer um check-up que começou pelos exames cardíacos. O enfermeiro me deixou numa cadeira de rodas para verificar o resultado do primeiro exame e quando acordei, estava na UTI, havia sofrido um enfarte do miocárdio”, conta às gargalhadas.
Casou uma única vez, enviuvou e depois disso, segundo o próprio, “ajuntou, porque casamento só acontece uma vez”. Do primeiro casamento, a vontade de gerar uma menina rendeu-lhe quatro filhos homens, e um aborto espontâneo, da única mulher que poderia ter sido sua herdeira. Os filhos, o mais velho com 52 anos e o mais novo com 45, lhe deram oito netos, entre eles, uma garota, que se tornou o xodó da família.
Uma história curiosa que ele descreve se passou logo após a graduação no curso de Engenharia Civil. As dificuldades impostas aos recém-formados daquela época não diferiam muito das de hoje, exceto pelo fato de que os alunos não eram aceitos como aprendizes por empresa alguma. Formado, abriu uma firma e, não conseguindo aceitação por nenhum contratante, resolveu conversar com um major que administrava as licitações do Exército sobre a situação: “Eu disse que queria trabalhar, mas as pessoas não me davam chance porque não tínhamos experiência alguma. Ele gostou da sinceridade e disse que eu poderia participar da próxima tomada de preço, mas que se alguém quisesse uma 'bola' extra a cada serviço, eu deveria denunciar a ele”. Oferecendo o preço mais baixo do mercado, a empresa começou a prosperar até o dia em que um determinado oficial lhe cobrou 10% do que ele deveria receber. Prontamente, Maia se colocou frente ao major, que denunciou o tenente. Nada aconteceu. E o major seguiu acusando todos que não se posicionavam até que a história chegou ao ministro da Guerra. “Aí um dia o major vira para mim e diz: “são um bando de bandidos! Estou sendo transferido para a fronteira”, relata.
Desafeto de grandes personalidades políticas e de parte da aristocracia pernambucana de outrora, pela sua sinceridade cáustica, o engenheiro diz que ao pensar sobre a quantidade de histórias que tem para contar, sente vontade de escrever um livro de memórias. Por um instante vacila, explicando logo que várias pessoas ficariam magoadas porque “eu andei falando umas verdades”, mas após uma breve incitação, ele retoma o brilho nos olhos e o sorriso, e determina: “Mas um monte de gente já morreu mesmo, como é que eles vão ficar chateados?”.
Ex-campeão de tênis por Pernambuco e exímio jogador de bridge, atualmente ele está terminando o tratamento do câncer no pulmão. Durante a entrevista, acabava de voltar de um encontro com o médico e logo atende um telefone da companheira, apreensiva, sobre o comentário deste. Ele faz suspense e diz “vou ter que operar de novo!”, mas arremata a brincadeira com um esclarecimento: “Não se preocupe, ele disse que eu estou ótimo!”.
No hospital onde dá continuidade ao tratamento de quimioterapia e faz o acompanhamento periódico, Fredi é apontado como a baraúna, a madeira que cupim não rói, por resistir bravamente aos efeitos colaterais de todos os medicamaentos a que anda sendo submetido. Sem sofrer enjôos, diarréia ou mesmo da queda de cabelo, típica da quimioterapia, ele está comemorando os banhos de mar e camarões que poderá voltar a usufruir daqui em diante.
Bem, primeira tentativa de publicação por aqui, não sei se o perfil vai agradar, mas eu me apaixonei intensamente por Fredi Maia, é um personagem lindo.
Maíra Brandão · Olinda, PE 16/11/2006 17:53oi maíra, acrescente mais algumas tags aí.
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 16/11/2006 17:56Gostei. Não tem uma fotinha do Fredi pra gente ver não? Eu botaria o título em caixa alta e baixa!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/11/2006 18:39
Ótima estréia, Maíra :)
Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 16/11/2006 19:53Infelizmente não tenho como conseguir uma foto dele rapidamente. =/ Mas seria muito bom, de fato. Pelo menos fica a lição para a próxima. Valeu mesmo. =)
Maíra Brandão · Olinda, PE 17/11/2006 10:47aroeira, cai mas não quebra! é pau pra mais de século...parabéns maíra.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 18/11/2006 18:30Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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