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Mãe Dulce e o dia dos Cultos Afros

Mãe Dulce cantando - Carol Assis
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Carol Assis · São Paulo, SP
14/5/2006 · 121 · 3
 

No dia 8 de maio, os afrodescedentes do Amapá comemoraram pela primeira vez o dia estadual dos cultos afro-religiosos. A lei que estabeleceu a data comemorativa é de autoria do deputado Randolfe Rodrigues e foi aprovada no ano passado. O dia foi escolhido por ser a data em que dona Dulce Costa Moreira, a Mãe Dulce, tocou pela primeira vez Tambor de Mina no Amapá, isso aconteceu em 1962, na sua casa, onde também funciona o terreiro de Santa Bárbara, de Mina Nangô.

Mãe Dulce conta que começou a desenvolver o dom desde os 13 anos, aos 27 começou na umbanda. Antes dela outros já praticavam a umbanda na cidade, como Maria Martins Ferreira, José Malcher e dona Doninha Luiza Picanço, entre outros, mas foi ela e seu marido, João Batista Moreira, mais conhecido por “Piloto”, que trouxeram para o Amapá a hierarquia de São Sebastião, originada da Encantaria do Rei Sebastião da Praia do Lençol, no Maranhão.

Dona Dulce fala que várias pessoas tiveram reações que causaram grande estranheza em quem assistia ao ritual do Tambor de Mina. "Muita gente 'caiu' (incorporou) naquele dia e começaram a dizer que eu tinha jogado feitiço pra que aquilo acontecesse e que o feitiço que causou as reações neles, vinha da fumaça da minha defumação. Eu expliquei pra eles que eu não fazia nada, que não era a defumação e que aquilo acontecia porque aquelas pessoas tinham a predisposição, a sensibilidade e que isso se manifestava naturalmente. Mesmo assim, durante muito tempo, meus filhos tiveram que aturar ser chamados de ‘filho da macumbeira’ pelos colegas da escola. Mas eu não deixava isso me atingir e continuo trabalhando até hoje".

No Tambor de Mina prestam-se homenagens às entidades, pretos velhos e caboclos. Até hoje, tradicionalmente, Mãe Dulce bate o tambor no dia 8 de maio, sempre em homenagem à cabocla Mariana. Só que dessa vez ela fez a homenagem em dois dias. Primeiro, no dia 8, na rua, em frente à sua casa. Foi um ritual mais voltado para a confraternização e toda a vizinhança da rua passava por ali, nem que fosse só pra dar uma olhadinha curiosa e disfarçada, mas depois de algumas olhadinhas o pessoal acabava ficando pra ver mais. Também os mais populares pais e mães de santo de outros terreiros, e seus pretos velhos, caboclos e caboclas, estiveram presentes na casa de Mãe Dulce, inclusive, Mãe Dilma, que vem sempre do Maranhão, onde mora, pra visitar o terreiro da anfitriã.

Mas foi no dia seguinte que deu pra entender melhor a dinâmica do ritual, é que o Tambor de Mina foi batido dentro do terreiro de Santa Bárbara. Quando cheguei, o bailado e os cânticos já estavam com todo gás. Tinha bem menos curiosos do que no dia anterior, mesmo assim a casa estava cheia e acabei esperando de pé ali do lado de fora mesmo, até porque não parecia muito prudente entrar ali sem ser convidada. Depois de um tempo em pé, um senhor que usava um chapéu preto, vestido com uma blusa brilhosa azul bem longa, com colares de diferentes cores, também bem longos, me chamou discretamente pra entrar, arrumou um lugar e mandou que eu sentasse. Depois ele voltou a falar comigo, pra dizer que eu não devia cruzar nem as pernas e nem os braços.

No terreiro as pessoas bailavam dentro de um quadrado que, como alguns outros símbolos, como setas e estrelas, estavam marcados no chão. Tinha sempre alguém que puxava os cantos que são como orações em louvor a alguma entidade da religião, as vozes eram sempre bem fortes e, ao contrário da outra noite, não tinha microfone: era tudo no gogó, como se diz por aqui.

Depois de algum tempo de dança e canto as entidades, caboclos e pretos velhos começaram a surgir, numa espécie de transe. Por exemplo, tinha uma moça girando muito rápido, bem no meio do quadrado, com uma saia bem cheia e longa, de cor amarela. De repente foi como se ela perdesse o controle. Começou a tremer, principalmente nos ombros e quadris, e tinha espasmos. Essa moça agora dançava com uma fisionomia diferente, um equilíbrio diferente, mas não era algo pra se ter medo. Eu na verdade estava morrendo de curiosidade.

Em um outro momento, lembro de ter percebido uma seqüência de "quedas", parecia que a mesma energia estava tentando incorporar nos homens que estavam na entrada do tal quadrado, um à um, entrando em transe. Quando essas manifestações aconteciam, dava pra notar os tambores e todos os outros presentes mais agitados. Até quem tava sentado, como eu, sentia a coisa esquentar. Nessas horas eu confesso que pensava “Caramba amigo, agora o bicho vai pegar!”. Deu um medinho de leve, mas lembrei da dona Dulce dizendo que ela sempre procurou explicar que as religiões de origem africana não são um bicho de sete cabeças e que nada de ruim pode acontecer a quem as usa com amor e com o pensamento voltado para coisas boas. E eu fui nessa!

Aos 81 anos, Mãe Dulce tem 15 filhos amapaenses e continua trabalhando em prol do Tambor de Mina e da Umbanda. A Umbanda é uma religião criada em Niteroi no final do século XIX, que tem sincretismo com o cristianismo e o espiritismo kardecista, segundo o umbandista Pai Marcos, existem 23 templos (casas ou terreiros) em todo o Amapá. Para ele o dia dos Cultos Afros significa uma oportunidade para que a população seja convidada a refletir sobre a intolerância que oprimiu durante muito tempo as religiões afrodescendentes.

Na Umbanda são realizados os "trabalhos", geralmente para pedir ajuda às entidades em algum problema. Mãe Dulce diz que os trabalhos mais procurados são os de sucesso e amor.
"Sempre que eu abro o terreiro, eu faço pensando em Deus". Com mais de 50 anos nos cultos afro-religiosos ela adora cantar e dançar, e disse que não tem mais a agilidade e cadência de outros tempos, mas que sua fé é fortalecida a cada dia. Ela considera uma importante vitória para os praticantes de cultos afros o decreto que determina o dia estadual da causa. "Fui muito perseguida, principalmente pelo povo e por padres que não aceitavam nossa religião e cultura, depois da lei sabemos que temos tanta liberdade quanto os evangélicos ou católicos de nos manifestarmos".
Para as novas gerações de umbandistas a anciã manda um recado: "É preciso trabalhar com respeito e muita fé".

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PauloZab
 

O conteúdo da matéria ficou muito bom, mas tu sabes que é muito importante colocar uma foto, né? E nas partes da fala dela ficaria melhor se, além das aspas, colocasses o trecho em itálico.

Há braços!!!

PauloZab · Macapá, AP 11/5/2006 11:46
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Edson Brito
 

É muito legal que a cultura do Amapá esteja circulando em esfera mundial. A web proporciona essas coisas.
Os moradores do estado estão de parabéns, especialmente os praticantes dos cultos afros.
Valeu, Carol.

Edson Brito · Macapá, AP 14/5/2006 17:44
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Carol Assis
 

Edson valeu você, agora que nós temos a nossa cultura (que não é nossa, mais brasileira) por aqui na rede, falta compartilhar essa rede com mais gente ainda. abração!!!

Carol Assis · São Paulo, SP 18/5/2006 08:59
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