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A história do Overmundo na memória de seus colaboradores O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... > leia
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Mafalda - A anti-menina dos olhos
Juva · Olinda (PE) · 20/11/2006 11:21 · 234 votos · 14 ·
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A anti-menina dos olhos
Tempos de exceção propiciam o aparecimento de arranjos sociais e criações artísticas ímpares. A década de 1960 parece ter sido a época que mais materializou essa máxima. A contracultura na América do Norte deu um salto por sobre os muros do conformismo e da tradição. Em pouco tempo vimos surgir o sexo livre, o movimento hippie, a literatura beat, o consumo de drogas para a expansão da consciência, as lutas pelos direitos civis, etc. As margens começaram a dar uma expressão artística e social para os anseios de liberdade e criatividade. Personas marcantes surgiram nessa época, como Jimi Hendrix, Allen Ginsberg, Malcom X, Martin Luther King.
Na América do Sul, grassava o espírito das ditaduras e o desejo facistoíde de engendrar povos “fortes” e livres da “ameaça” comunista. Mas a alma libertária também tinha seus espaços. O suficiente para que em 29 de setembro de 1964, surgisse na argentina uma menininha que encantaria o mundo e permaneceria até hoje como símblo de contestação e liberdade. Seu nome? Mafalda, uma garota de seis anos, que surge para colocar o mundo de ponta-cabeça. Ela aparece para desconstruir as visões conservadoras sobre a política, moral, econômica, cultural. O “pai” da menina é o quadrinista argentino Joaquín Salvador Lavado, popularmente comhecido como Quino.
Pelo fato de ser uma menina, e não um menino, Mafalda já começa subvertendo as lógicas do quadrinho e da vida, dando espaço para questões de gênero. Se antes as mulheres eram vistas como coadjuvantes, Mafalda torna explícito o contrário. Ela se transforma num vetor para as idéias que iam emergindo na turbulenta década de 1960 – o feminismo, as questões do chamado “Terceiro Mundo”, os direitos das crianças. Seus questionamentos, suas angústias, pareciam antecipar as problemáticas surgidas com o terror que seria instaurado na argentina dos militares.
Mafalda odeia a injustiça, a guerra, as armas nucleares, o racismo, as absurdas convenções dos adultos e, obviamente, a sopa, como mostram algumas de suas tiras. Seus amores também ilustram o espírito da época: os direitos humanos, a democracia e os Beatles. Ela é uma menina que recoloca questões crucias, numa linguagem radical, de tão simples e aparentemente ingênua; é uma criança que se espanta diante do mundo, não aceita as “normalidades e obviedades” da realidade cotidiana.
Seus comentários são sempre ácidos e vão de encontro aos ideais da sociedade de consumo. Quino consegue criar em suas tiras perguntas de um fôlego inédito, um frescor para o humor político e engajado. Através de seu alter-ego Mafalda, ele faz comentários entrecortados de ironia, acidez e sutileza.
A presença de espírito da pequena menina argentina foi reconhecida por ilustres acadêmicos, como o semiólogo italiano Umberto Eco, que chegou a afirmar que ela é uma “heroína iracunda que rejeita o mundo assim como ele é, reivindicando o seu direito de continuar sendo uma menina que não quer se responsabilizar por um universo adulterado pelos pais”.
O universo de Mafalda não é só atormentado por seu mundo familiar. As questões do mundo lhe dizem respeito, são tratadas diretamente. A América Latina, o problema da auto-afirmação dos povos, as crises econômicas, as questões do mercado de trabalho, tudo interessa a Mafalda, tudo lhe atinge e a confronta. Com poucas palavras, em quadros ágeis, Quino consegue falar do autoritarismo paterno e materno e dos problemas ecológicos.
Quino, diferente de outros desenhistas, sempre fez questão de dominar todo o processo de feitura de suas tiras. E foi assim durante todo o tempo em que Mafalda foi publicada. O sucesso de Mafalda foi enorme. Ela dava uma expressão bem-humorada para os problemas que assombravam o mundo. Logo foi traduzida em várias línguas, tendo grande repercussão em países como Inglaterra, Alemanha e Itália. O rosto da “pequena iracunda” se tornou um dos mais populares do universo das HQs.
A menininha “cresceu”. Mas em 25 de junho de 1973, quase nove anos após seu nascimento, Mafalda deu adeus ao mundo. A explicação de Quino para o fim da publicação das tiras foi a de que ele não queria se repetir e que o personagem já havia realizado sua missão, esgotado suas possibilidades. Dali por diante seria necessário dar lugar a outras experiências. Quino continuou produzindo obras de muita qualidade. A menininha já havia conquistado seu espaço na história do conturbado século XX, donde saiu dando língua e sacudindo a cabeça, perturbando o planeta como sempre soube fazer.
Para dar uma idéia dos malabarismos humorísticos operados por Quino e Mafalda, pode conferir algumas tiras, espalhadas ao longo dos nove anos de publicação, no site: www.mafalda.net ou nas livrarias.
tags: Olinda PE literatura mafalda quadrinhos subversao
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Gostei muito cara, adoro a Mafalda! Vou dar uma olhada no link agora mesmo.
abração.
Marcelo Perez · Boa Vista (RR) · 19/11/2006 14:15
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A Mafalda é espetacular, sem dúvida.
Belo texto!
Eduardo EGS · Porto Alegre (RS) · 21/11/2006 10:09
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Apesar de minha pouca idade, tive um sentimento de nostalgia, quando eu começava a folhear as gramáticas no início do ano escolar em busca de quadrinhos interessantes. Sorte a Mafalda sempre estar presente em toda a minha formação escolar.
Ótimo texto! Abraços!
Fernando Júnior · Aracaju (SE) · 21/11/2006 15:47
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Dá-lhe Mafalda.
A MELHOR!
Malu Xavier · Olinda (PE) · 16/12/2006 03:11
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Maravilhoso texto...
Mafalda é incrivel...
Simplesmente Milena · Rio Branco (AC) · 30/12/2006 19:31
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Sempre é bom reiterar a genialidade do Quino...
Helena Dutra · Porto Alegre (RS) · 27/4/2007 21:45
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obrigado a todos e todas. Marcelo, Eduardo, Fernando, malu, Milena, Helena. obrigado.
Juva · Olinda (PE) · 28/4/2007 14:37
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É lindo quando as artes se juntam e revelam algo extraordinário. Mafalda tem belos traços, texto inteligente e um gênio como pai. Pequenas pérolas que não se perdem no tempo.
Obrigada por relembrá-la José!
Um abraço!
gaitha · São Paulo (SP) · 10/5/2007 23:37
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obrigado, Gaitha.
todos nós relembramos malfada quando somos felizes e impertinentes e sábios e livres e espertos e humorados e etc.
Juva · Olinda (PE) · 11/5/2007 07:15
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eu sou fãzona da mafalda
rssss
Carol Rodrigues (Honey) · Rio de Janeiro (RJ) · 21/6/2007 12:40
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mafalda é demais.
obrigado, carol.
Juva · Olinda (PE) · 22/6/2007 15:03
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cresci lendo mafalda e adoro-a até hoje. mas nunca tinha lido sobre o contexto histórico no qual sua criação se deu. obrigada por proporcionar isso aqui.
thaís moraes. · Recife (PE) · 6/8/2007 22:56
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é sempre bom saber que algumas colaborações antigas ainda podem ser utéis. obrigado pelo comentário, taís.
Juva · Olinda (PE) · 6/8/2007 23:28
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Mafalda realmente é a anti menina dos olhos mas, avaliando bem sua postura em relação a vida, sua negação a determinados tipos de padrões e seu caráter, não deveria ela ser, ao pé da letra, a definição mais acertada de "menina dos olhos"? Gostei de seu texto e me faltam palavras para descrever essa menina. Ótimo
arvo · Jundiaí (SP) · 18/12/2008 16:17
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