Esse pequeno texto foi postado na coluna "Biblioteca Básica", da Folha de São Paulo. Trata-se de um comentário de Carlos Rennó a um livro de Augusto de Campos; transcrevo e faço um comentário em seguida:
São Paulo, domingo, 07 de agosto de 2005
Biblioteca básica
"Mais Provençais"
CARLOS RENNÓ
ESPECIAL PARA A FOLHA
"Sou um leitor sobretudo de livros de ou sobre poesia. Além disso, escrevo letras de música, ofício que conjuga as artes das palavras e dos sons. Por isso, a obra do maior poeta brasileiro vivo, e o mais músico de nossos poetas, Augusto de Campos, teve um papel exponencial na minha formação. Por isso, um de seus livros de tradução, "Mais Provençais", destacando as 18 canções do trovador Arnaut Daniel, tem um lugar especial para mim.
"Ainda hoje me emociona a primeira publicação, artesanal, da obra, em folhas soltas, feita por um pequeno editor catarinense (Cleber Teixeira). Que poesia! Uma poesia libertária e transgressora, que colocava a mulher lá no alto, quando a regra era rebaixá-la. E que tradução! Tão brilhante que nos faz pensar que, para traduzir grande poesia, talvez só mesmo grandes poetas.
"Grandes poetas escreveram a maioria dos livros mais importantes da minha vida: Pessoa ("Mensagem"), Drummond ("Reunião"), Cabral ("Obra Completa"), Haroldo ("Galáxias"), o próprio Augusto ("Poesia"), entre outros. Aqui eu destaco "Mais Provençais" por apresentar peças modelares de uma arte que combinou poesia e música de modo sublime, indelével. Arte de autores que, como sugeriu Augusto, acabaram tendo nos Porters, Dylans, Caetanos, Chicos e Princes os seus legítimos sucessores no tempo."
Carlos Rennó é letrista, produtor, organizador de "Gilberto Gil - Todas as Letras" (Cia. das Letras) e autor de "Cole Porter - Canções, Versões" (Paulicéia). A obra"Mais Provençais", de Augusto de Campos, 160 págs., Companhia das Letras (esgotado).
O texto é simples, breve, e fala de uma tradição medieval de união entre palavra e música, que no Brasil parece ter atingido seu ápice e talvez seu limite. O lançamento do CD "Carioca", de Chico Buarque, pode servir como mote para uma pequena reflexão.
É cada vez mais normal que um disco novo de Chico não desperte grande euforia, a despeito da divulgação maciça e sincronizada em jornais do Brasil inteiro. Como ele mesmo afirmou, o público não se interessa tanto pelo que ele tem feito recentemente, preferem as canções antigas e as caixas com a "obra completa". Trata-se, por um lado, de uma confirmação de algumas conclusões de uma linhagem de estudos adornianos que acreditam numa progressiva regressão da capacidade auditiva do gosto do público, mas, ao mesmo tempo, é também uma negação do pensamento estético-musical de Adorno.
Não há como imaginar Adorno diferenciando música popular e música popular ligeira. Essa separação é bem brasileira. Villa-Lobos e Cartola, Pixinguinha e Tom Jobim fazem parte de uma história única onde o erudito e o popular não possuem contornos nítidos. Isso não é novidade. Mas, quando pensamos em música popular, então é preciso situar a canção brasileira como uma alta expressão da cultura e os produtos musicais pensados para imediata venda e esquecimento previsto em contrato como o outro lado de uma música que não é uniforme em todas as suas expressões. Não é muito fácil distingui-los e o risco de cairmos em uma divisão maniqueísta entre bom e ruim é sempre iminente.
Chico é um representante vivo daquela herança medieval que liga poesia e música. Poucos negam que sua obra atingiu um acabamento formal que beira a perfeição, ainda que possa existir nele um traço conservador natural, de certo modo responsável por esse acabamento e unidade. Isso é debate inútil. Temos então essa outra música, cuja função é bem diferente de uma busca de acabamento, de refinamento; nem toda música quer ou deve ser feita com a intenção de atingir o estatuto de poesia cantada, ou mesmo de MPB no sentido já ultrapassado de estilo musical.
Situar esse estatuto da canção é difícil, mas talvez o próprio Chico tenha feito sua genealogia, na letra de "Paratodos":
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro.
Bem notado, a lista - incompletíssima - contém esse Brasil musical invocado aqui. Claro que Chico deve ter padecido pra compor a canção incluindo e excluindo tanta gente, mas o nordeste de Gonzaga e Caymmi já são por si dois universos, que juntos são fonte de pelo menos algumas centenas de criadores, que vão de João Gilberto e Caetano, a Lenine e Marcelo Camelo.
Quando escrevo aqui no blog tensionando a respeito da música comercial atual, não se trata nunca de confrontar a síntese contida em "Paratodos" com essa música popular ligeira, hoje quase hegemônica nas rádios e TVs país afora - e que logo será esquecida -, na verdade, essas duas vertentes são parentes que não se vêem há muito tempo, e que mal se reconhecem.
Para acabar, vamos lembrar da polêmica e já famosa frase de Chico sobre o possível fim da canção e imaginar possível cercá-lo com as suas próprias armas; afinal mestre Buarque, "Evoé, jovens à vista" não tem nada de pessimista, antes pelo contrário, parece conter seu próprio desejo de ver os novos compositores que, afinal, vão levar adiante o ímpeto de sua obra e que fazem da canção, como você fez e faz, uma via de acesso insubstituível ao sentimento do povo do Brasil.
Olá Henry, você tem razão, a estética adorniana não dá conta da peculiaridade e da complexidade do universo da canção brasileira. Talvez só os trovadores provençais tenham chegado a um tal grau de engenhosidade e sofisticação no entrelaçamento entre poesia e música como o que alcançamos aqui. E não acredito que estejamos num momento de declínio, como querem alguns. Prova inconteste é a produção do próprio Rennó e seus parceiros de geração, como Bráulio Tavares, Sérgio Natureza, Alice Ruiz, o próprio Arnaldo Antunes, entre tantos outros poetas-letristas que surgiram após os Chicos & Caetanos e não deixaram a peteca cair. A propósito, e não por acaso, dois dos principais pensadores sobre essa questão das relações entre a palavra e a música são também compositores, e dos bons: Zé Miguel Wisnik e Luís Tatit. Abraços
Makely Ka · Belo Horizonte, MG 21/5/2006 15:34Valeu o comentário, dê uma passada lá pelo blog (http://henryburnett.blogspot.com), tenho postado muita coisa sobre esse assunto. Abraço.
Henry Burnett · São José dos Campos, SP 24/5/2006 20:18Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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