Manancial de artistas anônimos

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
1/7/2006 · 116 · 5
 

“Em Parintins todo mundo é artista”. A frase não é uma maneira de dizer que há muita gente com habilidades artesanais na cidade. Isso quer dizer exatamente que, onde você for, ou com quem você converse, dificilmente esta pessoa não terá algum envolvimento direto com os bois Caprichoso e Garantido, ou algum outro grupo folclórico da cidade, ou ainda, que se dedique a materializar sua criatividade como mero passatempo.

Eu ainda não estava procurando artistas anônimos, mas já sabia que era fácil encontrar trabalhos surpreendentes pelos bairros mais humildes da cidade. O que aconteceu em termos de “coincidência” – na verdade acredito em conspirações - me convenceu a escrever esta parte inicial do texto como um relato, pois mostra exatamente o que esta frase quer dizer: “Em Parintins todo mundo é artista”.

O primeiro contato com uma destas pessoas ocorreu graças à curiosidade, foi ela quem me levou a perguntar de um senhor com o triciclo lotado de fibras e paus, para onde ele estava levando aquilo tudo. “Eu trabalho para o galpão do Caprichoso”, respondeu com um sorriso. “Chega essa época os carretos são só assim”, concluiu, referindo-se às proximidades do festival e a quantidade de carga que suas pernas estavam conduzindo.

Pedi para tirar uma foto daquela quantidade de fibra de malva, pau-de-fibra e flecha – tipo de madeira rígida e leve própria para a confecção de flechas – e perguntei se ele também ajudava na construção de alegorias para os bois. “Não, no boi faço apenas carretos, as minhas coisas eu faço em casa mesmo”, esclareceu, com o sorriso ainda inabalável embora destoante do sol infernal de duas da tarde que nos massacrava. Morador do bairro Itaúna, contou que trabalhava fazendo bonecos com movimentos utilizando a madeira chamada molongó – árvore encontrada em igapós, semelhante à cortiça e leve como isopor.

Demonstrando a inquietação de quem precisa cumprir com um compromisso e não poderia ficar conversando, ele me convidou a ir até sua casa, na manhã seguinte, onde conversaríamos com calma. Seu nome: Adelson, casa 3783 da Rua Chico Simões.

Adelson ou Adelto?

No início da manhã do dia seguinte, já estava no bairro Itaúna constatando a dificuldade em achar um endereço pela não existência de placas de identificação nas ruas. Perguntei a uma transeunte onde era a rua Chico Simões, mas no melhor estilo parintinense ela tratou de me perguntar logo quem eu procurava. Respondi que era o Adelson, que fazia artesanato. Prontamente a moça me indicou uma casa próxima. “Ah, já sei, é aquele que faz barquinho”, apontou e seguiu seu caminho.

Cheguei na casa, mas não vi o triciclo, o número era 3743, diferente do 3783 que seu Adelson me indicara. Uma mulher e dois curumins – modo como o parintinense chama o masculino de criança – vieram me atender, a senhora logo informou que seu marido tinha ido ao banco receber a aposentadoria. Comentei que já desconfiava de sua ausência por não ter visto o triciclo, quando ela me disse que ele não tinha triciclo e que seu nome não era Adelson, era Adelto e fazia barcos, não animais articulados. Depois de me impressionar com um dos barcos regionais que seu marido fazia, marquei uma entrevista para o dia seguinte e fui em busca do Adelson, dessa vez na casa certa, constatei que ele também já tinha saído e tudo ficou para o outro dia para conhecer a história de dois personagens aparentemente tão semelhantes quanto próximos. Adelson da casa 3783 e Adelto da 3743. Em que outro lugar isto seria possível?

Vontade de crescer

Na manhã seguinte, Adelson Tavares Xavier – o que trabalha no triciclo – contou considerar-se um artista escondido, termo que explicou utilizar no sentido da falta oportunidades. Tem 59 anos e é nascido e criado em Parintins. “Infelizmente tenho medo de tirar finança no banco pra colocar gente para trabalhar”, revela. Exibindo alguns pequenos animais feitos de molongó, o artista que transpira humildade, evidencia a qualidade do que faz em forma de pequenas canoas, tartarugas e tatus articulados, além da preferência por pássaros e pequenas ambientações criadas com fragmentos de árvores, tudo isso em contraste com a falta de informação que imprime em sua personalidade uma transparente inquietação diante de um empreendedorismo potencial.

O artesão fala ainda de alguns problemas de relacionamento causados pela sua atividade. “Aqui em casa eu fico muito perturbado e minha mulher reclama da bagunça que fica o quintal”, lamenta, encontrando motivação na admiração que os dois filhos mantêm pelos brinquedos montados por ele. Porém, nas proximidades do Festival, Adelson substitui o agrado às crianças pela perspectiva de lucros, aproveitando as poucas horas vagas para confeccionar produtos para vender. “Ano passado criei um gavião bem grande, coloquei na porta de casa mexendo as asas quando o vento batia, o bicho chamava a atenção e um rapaz de Santarém que passava por aqui, parou e comprou na hora”, orgulha-se, afirmando já ter faturado mil reais dos inúmeros visitantes que invadiram a cidade em um determinado ano.

Depois de permitir que seu olhar se perdesse por alguns segundos no local onde o gavião batia suas asas, Adelson pareceu pousar na realidade atual da dificuldade que encontra em conseguir matéria-prima neste ano. “Para conseguir molongó tem que viajar pelo menos um dia pra chegar no lugar que tem”, revela, afirmando que deve confeccionar brincos feitos com miçangas para não passar a época em branco. “O negócio é fazer porque no festival vende tudo”, conclui.

Um universo paralelo

Adelto Peres Fernandes, 64, nasceu em Manaus, onde casou-se com a atual companheira parintinense. Após a aposentadoria como conferente de uma empresa petrolífera, mudou-se para Parintins onde resolveu resgatar o conhecimento adquirido aos 16 anos de idade, quando trabalhava em uma fábrica de móveis, para dedicar-se à construção de réplicas de barcos regionais. “Não tinha o que fazer e fui fazendo”, justifica com uma simplicidade que não corresponde à complexidade dos seus barcos. “Tudo que um barco tem eu faço”, avisa, mostrando a réplica que construiu imitando o barco 14 de Outubro, que faz a linha Manaus – Parintins, e outros três totalmente compartimentalizados com os espaços de cozinha, camarotes, janelas, portas e escadas, inclusive imitando o padrão de pintura existente na região. “Esses são trabalhados mesmo e se botar na água até flutua”, brinca.

Ao contrário de seu quase-xará, Adelton mostra total desinteresse comercial sobre suas criações, escorando sua realização no orgulho da esposa e na alegria dos netos que ficam loucos para brincar especialmente com um (que ele exibe na foto). “Este aqui é o único barco simples que fiz, eu deixo pendurado porque senão já viu, menino estraga”, sorri, olhando com carinho para o barco que ostentava uma poeira, segundo ele, de pelo menos 5 anos que não era retirado de onde ficava à mostra.

Demonstrando um apego afetivo aos seus trabalhos somado ao carinho dos netos pelos barcos, Adelto às vezes não resiste à insistência de quem se surpreende com seu trabalho. “Se eu deixar à mostra, o pessoal se agrada e eu acabo vendendo, os meninos é que não gostam, mas aí eu faço outros”, revela, também comentando a dificuldade em conseguir material, já que trabalha com madeiras nobres e pesadas como o cedro. “É difícil conseguir nas serrarias, mas a gente acaba achando”.

Pintando cascos de tartaruga com fins decorativos e confeccionando cestos com trançado em palha e cipós, o filho mais velho de Adelto também segue no caminho do artesanato. Como um reflexo definitivo da inclinação do parintinense pela arte popular, que se renova e se perpetua em suas mais variadas manifestações. Para encontrá-las chute uma pedra na rua e bata na porta da casa onde ela parar, na receptividade dos Adeltos, Adelsons, Raimundos e Marias da ilha, a possibilidade de se surpreender é grande. Nunca é demais repetir: “Em Parintins todo mundo é artista”.

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Glês Nascimento
 

Adorei a foto...adorei o texto...parabéns!

Glês Nascimento · Palmas, TO 30/6/2006 08:48
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Hermano Vianna
 

a série de textos que o Yusseff tem publicado aqui no Overmundo sobre a cultura de Parintins merece ser lida de cabo a rabo (basta fazer uma busca por Parintins para chegar a suas várias colaborações espelhadas no Overblog e no Guia) - para contribuir humildemente com essa conversa, acabo de colocar um texto sobre a cidade e seus "arredores" aqui na fila de edição do Banco de Cultura. Continuo acreditando piamente que o o Brasil ou tem futuro amazônico, ou não tem futuro nenhum.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2006 15:28
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Natacha Maranhão
 

Já li quase todos os textos de Parintins...e só reafirmo aqui que sou fã do Yusseff! Impressionante como escreve bem.
E concordo com você, Hermano, o futuro é amazônico.
beijos

Natacha Maranhão · Teresina, PI 2/7/2006 18:51
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Mecenas
 

Parabéns!!! Que inveja desta gente humilde rica de cultura! Conhecimentos milenar que o Brasil ainda não viu!
Viva o povo da amazônia!
Mecenas
www.videolog.tv/tv_araca

Mecenas · São Mateus, ES 2/7/2006 23:35
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Hermano Vianna
 

Bem-vindo ao Overmundo, Mecenas! Esperamos muitas notícias de São Mateus por aqui. Afinal, o futuro do Brasil também é capixaba!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2006 00:52
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