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Mantendo antigas tradições

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Ricardo Pancho · Campos dos Goytacazes, RJ
1/12/2006 · 82 · 7
 

O que esperar de uma monótona quinta-feira? Mais precisamente dia vinte e três de novembro de 2006. Depois que eu terminei de abrir uma conta no Banco Itaú, pensei: "agora não tenho mais nada o que fazer até as seis da tarde." Eram dez horas da manhã. Como de costume, fui matar tempo no Jardim do Liceu (coisa que eu faço desde 2003). Uma praça daquelas à moda antiga, cheia de árvores centenárias, banquinhos, gramados verdejantes e o famoso coreto ao centro. O Jardim rececbe esse nome, por estar localizado em frente ao Liceu de Humanidades de Campos (LHC), instituição de ensino administrada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro. É realmente um belo lugar para estar. principalmente quando não há o que fazer.

A tradição

Depois de mais ou menos uma hora conhecendo as novidades de um camarada, que trabalha como flanelinha no entorno do jardim, encontrei um grupo de alunas do 3° ano do ensino médio, que puseram-me a par da tradição.
Todos os alunos do 3° ano, promovem anualmente uma "ovada" contra os demais colegas, das turmas de 1° e 2° anos. Caraca! E eu que pensei que o espetáculo seria lá pelas oito horas da noite, na programação de toda quinta, do Festival Internacional Imagem Jazz & Blues, oferecido pelo Sesc Rio. É a tradição dos alunos do Liceu! É igual a comer peru no natal! Os relatos a respeito dos anos anteriores, são de pancadaria generalizada, necessitando intervenção da Polícia Militar (que chegou a fazer uso de violência, além das famosas bombas de "efeito moral" e spray de pimenta). Para este ano, os alunos acrescentaram bombas de tinta ao seu arsenal. As opiniões dos formandos divergiam bastante. Enquanto uns queriam descontar o sofrimento de dois anos, outros decidiram não participar da brincadeira, por considerarem dede péssimo gosto. Decidi ficar e assistir. Não tinham mais o que fazer mesmo...

Cinzas x Brancos: fiasco histórico

É um dos últimos feitos dos alunos do 3° ano. Precisa ser feito em época de provas do 4° bimestre, para que a maior quantidade possível de "alvos" possam ser atingidos. O problema já começa por aí. O que diferencia os alunos liceístas? A camisa! Os alunos de 1° e 2° ano vestem o uniforme cinza, clássico da escola (os famosos "sacos de cimento"). Já os formandos usam uma blusa branca. Os "cinzas" são sempre maioria esmagadora.
Os "brancos", animados, divulgando o ataque para o dia seguinte, acreditando que seus inimigos de nada sabiam. Ledo engano. Se um descobre, todo o resto passa a saber em questão de minutos. Assim fica mais fácil organizar um contra-ataque. Poucos eram os desavisados, que, ao transporem os portões principais, eram alvejados. Dentre eles, um professor que acreditou estar imune à brincadeira. Alvejado na perna, foi o primeiro a chamar a polícia. Apenas mais uns três foram decentemente atingidos. Aconteceu que todos os cinzas estavam protegidos dentro dos muros da escola. Os brancos tentavam atingi-los de qualquer forma, com saraivadas de ovos à esmo. Tentavam atingir por entre as grades, porém sem sucesso. Foram dezenas de dúzias de ovos desperdiçadas com o muro e a calçada da escola.

Muito barulho por quase nada

A chegada da PM inibiu o ímpeto dos brancos. Porém, a presença de uma única viatura com apenas três soldados, inflamou um grupo de cinzas, que armados com pedras e pedaços de pau, partiram para cima dos oponentes. O contragolpe estava lançado. Os brancos nem pensaram em combate, e tentaram fugir. No meio da confusão e correria, um senhor de idade e uma mulher grávida foram jogados no chão. Uma das pedras atingiu o carro do professor Pierre (física) quebrando um dos vidros. Os brancos, outrora inimigos dos PM's, agora precisavam da proteção deles. Ai meus quinze anos! Com meia dúzia de punks (punks de verdade, desses com correntes, molotov e soco-inglês) dava para encarar quantos cinzas viessem.
Dois alunos, um de cada facção, foram detidos. O branco, por desacatar um dos policiais. O cinzaza, por agredir covardemente uma menina à pauladas. Fazia um calor dos infernos, e os dois ficaram por umas boas horas dentro da viatura. Foi então, que milagrosamente, uma viatura se transformou em (pasmem) doze, e mais um ônibus do batalhão de choque, completamente lotado. Confusão de adolescentes ou operação contra o crime organizazdo? Até o Coronel Mário Pinto (autoridade máxima da PM em Campos) estava no local. Os alunos detidos foram conduzidos ao Juizado de Menores (que por acaso fica a menos de cinquenta metros do Liceu). Há a suspeita que o branco seja maior de idade. O Juizado solicitou todos os nomes e informações dos alunos do 3° ano junto à escola. Os brancos tiveram ainda todas as provas do dia canceladas. Quando tudo parecia terminado, a aluna Franthesca (brancos) quebrou um ovo na cabeça de um antigo desafeto. Maior de idade, teve de prestar esclarecimentos na delegacia, sendo solta em poucas horas.

Os alunos do 3° ano queriam fazer a ovada mais vitoriosa da história. Queriam deixar seus nomes gravados nos anais desta inútil tradição. E conseguiram. Quem vai esquecer a incompetência da organização, da falta de um senso mínimo de estratégia? De uns 96% do total dos ovos sendo quebrados em calçadas? Taxados como idiotas por correrem, com medo de levar porrada dos cinzas. Talvez por reconhecerem o fiasco histórico, prometiam mais para o dia seguinte. Prometiam que seria pior. É a tradição liceísta. É como comer peru no natal! E os cinzas, aborrecidos com tudo, aguardam a sua vez para darem o troco quando forem promovidos a brancos.

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Marcelo Perez
 

Bacana, Ricardo! Me senti em Campos, no meio desta guerra, embora eu seja completamente contra tudo isso. Mas já tive meus tempos de ovadas no segundo grau...
Abração

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 1/12/2006 04:20
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Fernando Mafra
 

Ótima reportagem. Muito empolgante mesmo, me lembrou dos tempos de colégio em que tudo era motivo pra uma revolução e indignação. Pena que nada desse naipe aconteceu enquanto eu estudava.

Hmmmm, talvez eu deva virar professor do Liceu e me tornar general desse pequeno exército. Pena que não há fotos.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 1/12/2006 10:08
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Ricardo Pancho
 

pena mesmo... um dos cinzas estava com uma camera... mas deve ter ficado com medo de me mandar as fotos... sou capaz de dizer que algumas seriam bastante emblemáticas...

Ricardo Pancho · Campos dos Goytacazes, RJ 4/12/2006 18:00
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Saulo Frauches
 

Sensacional - e épico! Sem contar que achei engraçadíssimo você ter colocado 'ovada' como tag.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 4/12/2006 18:18
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Tatiana Freire
 

Cara, que texto legal! Adorei sua matéria. Me fez lembrar os meus tempos desta guerra ridícula. Já assisti ao "espetáculo" estando em ambos os lados. Quando cinza, me escondia atrás do muro esperando que o circo fosse desarmado. Quando fui promovida a branco (adorei isso) continuei atrás do muro. Nunca fui adepta a esse tipo de "brincadeira" (se é que posso chamar assim a "ovada liceísta", violenta como só).
Parabéns pelo texto atraente e pela escolha do assunto. Essa tradição rende livros e mais livros. Para dar início às pesquisas basta buscar os Registros de Ocorrência na Delegacia do Centro.

Tatiana Freire · Campos dos Goytacazes, RJ 11/12/2006 15:08
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Ricardo Pancho
 

valeu o comentário Tatiana... é pq tem algumas pessoas q acham q n rolou nada disso... tai uma ex-cinza e ex-branco pra não me deixar mentir...

Ricardo Pancho · Campos dos Goytacazes, RJ 11/12/2006 17:57
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Bel_Maia
 

Ricardo ... absurda é a realidade com que vc narra os fatos!!! Apesar desse texto ser de 2006, em 2009 continua tudo na mesma ... hoje mesmo vivenciei isso!! E que experiência maravilhosa, que me fez reviver meus dias de estudante!! Parabéns!!

Bel_Maia · Campos dos Goytacazes, RJ 17/11/2009 22:50
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