Manuel de Oliveira, PALAVRA E UTOPIA: Uma ausência

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Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ
5/4/2015 · 1 · 1
 

O que dizer do grande cineasta Manoel de Oliveira (1908-2015), que com a simplicidade e sabedoria de um gênio, deixou-nos tão rico legado. Levou uma vida produtiva e plena. Se tornou eterno.

Recortei, entre tantas produções, o PALAVRA E UTOPIA, filme repleto de significados já a partir do título. Assisti-lo, exige do expectador um esvaziamento de conceitos pré-constituídos e deve ser saboreado aos poucos!
Em uma época marcada por filmes repletos de efeitos especiais de última geração, na contramão dessa tida como evolução tecnológica, recebemos esta preciosidade, quase contemplativa, que nos conduz a uma verdadeira viagem, a começar pela cena de abertura enquanto roda a ficha técnica, ao som da linda música, nos conduzindo – expectadores – ao adentramento a uma floresta. Grande simbolismo!

Os efeitos especiais, visuais ou sonoros, típicos dos momentos de grande dinamismo, de luta e de ação, não entram em cena - talvez até esperados, pelo condicionamento do público às grandes produções que valorizam o movimento, o suspense, o ruído que dizem muito mais do que qualquer forma de expressão no cenário do filme.

Mas aqui, tudo se cala. As ações de extrema tensão: as guerras, invasões, o domínio da terra, as tramas e seus resultados se insinuam, para dar lugar à Palavra – personagem principal. Rica, profunda, é a que dá o sentido, a direção, o movimento, o suspense, delineia os momentos de tensão: ora explícita, ora se insinua; ora direta, ora se apresenta como uma espada ao ferir ideologias vigentes, provocando os arranjos do poder.

Em algumas passagens, merece o retorno por inúmeras vezes como se de posse de um controle remoto para contemplar, mergulhar e meditar no significado de certas palavras e expressões, dizeres e não apenas constatar suas rápidas passagens no tempo do filme, ou ficar apenas em suas superfícies.

Viajei com Vieira, como se a cadeira do teatro fosse a nau. Com ele todos nós atravessamos oceanos, cujo mar – também com status de personagem, tornou-se um elemento de união entre as longínquas terras, como também distanciamento na medida em que tinha a função de exílio, de demonstração de hierarquia e de jogo de poder, de reorganização de múltiplos interesses. E Vieira, utilizando como instrumento a Palavra, tentava em um esforço sobrecomum, costurar estas partes rotas do mundo de então para restaurar a grande colcha dos direitos humanos constituída por vidas que também têm o direito de viver! Utopia? Foi fiel ao voto feito com a alma e o coração – dedicar-se aos negros e aos índios - inaudível diante dos que orquestram os juramentos instituídos, repetidos mecanicamente como prova do ‘vestir a camisa’ do sistema e dados por aprovados se proferidos em alto e bom som. Juramentos! Juramentos!...

Hoje se fala muito nos institutos de Direitos Humanos – temos em Vieira seu defensor, ao preço de sua rejeição pelas Forças do Poder. Empenhou-se em combater a desumanidade “na confusão deste mundo”, seu eco repercute através dos séculos, tornando suas palavras bem atuais.

Vale à pena ouvir, contemplar de novo os jogos paradoxais: a harpa e a funda, a alma e a pedra, o riso e o choro, e tantos outros sutis e situados nas entrelinhas do discurso. A máxima do ‘buscar o pão’ o que resume as ações humanas; a figura do Polvo, com seus múltiplos significados, o grande vilão: desumanidade na mercancia de homens... e as justificativas para manter o status quo – também atual.

Melhor parar para não estragar a obra que não se explica, mas diz por si própria, naquele tempo e hoje muito mais.
Manuel de Oliveira resgatou com o zelo de um arqueólogo tão grande preciosidade, esse tesouro real, escondido, camuflado entre tantas obras de todos os séculos. Trouxe à luz a palavra perdida no universo literário. Vieira utilizou todos os recursos da sua época, esgotando-os no intuito de transmitir a palavra. Manuel de Oliveira dá esta continuidade, utilizando o recurso cinematográfico - a Sétima Arte, que com certeza Vieira usaria, se aqui estivesse. E como precisa, na “confusão deste mundo”.

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Edna Queiroz
 

Tive a feliz oportunidade de assistir ao filme "Palavra e Utopia", de Manoel de Oliveira, em evento no teatro da UERJ - Rio de Janeiro. Presente do Prof. Aniello Avella - Università degli Studi di Roma Tor Vergata. Saí do evento em estado de graça, com uma santa inveja dos estudantes, e com um saudosismo dos meus tempos de estudante. Naquele tempo, Veira ficou na superfície como mais um grande escritor no seu estilo de época de onde se elencavam as características. E agora, quanta preciosidade vem à tona. Vale à pena se aprofundar neste mar de possibilidades.

Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2015 12:45
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