Maria Bethânia, maturidade e ousadia

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Flávio Herculano · Palmas, TO
19/6/2007 · 105 · 3
 

Intérprete chega aos 61 anos com raízes no passado musical, mas antenada com a nova geração

Figura ímpar da música brasileira, pela alta carga de dramaticidade que imprime a cada canção, a cantora baiana Maria Bethânia chega aos 61 anos, nesta segunda-feira, 18 de junho, ostentando o título de única diva em atividade da MPB. Isto porque é a única de sua geração que está no auge da carreira. Ao mesmo tempo em que se permite cantar os clássicos de autores do passado, ela também se mostra uma das melhores intérpretes dos grandes compositores de sua geração, destacando o irmão Caetano Veloso e Chico Buarque de Hollanda. Bethânia ainda consegue coerência quando abriga a nova geração sob seu canto. Ana Carolina, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Chico César, Vanessa da Mata e Lenine estão entre os que lhe deram o passaporte para a contemporaneidade, ao compor enxergando sua interpretação.

Além de colegas de ofício, muitos são os que se rendem à sua majestade. Em terras brasileiras, Bethânia se tornou a primeira mulher a superar a marca de 1 milhão de cópias vendidas de um álbum (Álibi, de 1978). Ainda hoje, detém o título de segunda artista feminina que mais vendeu discos na história do Brasil, com 24 milhões de cópias. O primeiro lugar foi cedido pelo público infantil à apresentadora Xuxa, que alcançou 30 milhões de cópias. No site de relacionamento Orkut, são mais de 180 comunidades dedicadas à cantora, algumas nada modestas, como “Bethânia – entidade de luz”.

O reconhecimento internacional ao seu talento pode ser expresso na comparação, feita pelo jornal americanoThe New Times, em 1998, entre ela, Billie Holiday e Edith Piaf, sendo estas últimas duas das maiores intérpretes da música mundial.

Tudo isso pode ser apontado como resultado da coesão de seus 44 anos de carreira. Ao reverenciar compositores atuais ou do passado, Maria Bethânia torna uniforme um repertório que, a princípio, poderia ser considerado desconexo. Com seu timbre firme e a interpretação dramática, ela praticamente se torna co-autora das canções que entoa. Para os fãs, essas características lhe tornam a última cantora de uma linhagem descendente das “rainhas do rádio”. Os que não gostam do estilo já lhe deram a chancela de “cantora de churrascaria”.

Em sua trajetória, Bethânia nunca se rendeu a movimentos musicais e só cantou o que quis. Por isso, brigou com executivos de diversas gravadoras até chegar à independente Biscoito Fino, em 2002, onde aproveita da liberdade para realizar projetos conceituais e corajosos, como Brasileirinho (em que revê a trajetória de formação ultural da nossa gente) e Mar de Sophia e Pirata, estes lançados simultaneamente em 2007, tendo a água do salgada e a água doce como mote criativo.

"Só canto o que quero, com quem quero, como e quando quero. Nunca entendi nenhum movimento, porque não tenho paciência. Não posso jamais ser uma cantora de bossa nova, uma cantora de protesto, uma cantora tropicalista. Como cada dia eu quero cantar uma coisa, prefiro não me ligar à nada e a ninguém, para poder cantar o que o meu coração mandar", disse, certa vez. Ao mesmo tempo em que mantêm uma identidade durante toda a carreira, Maria Bethânia é plural. Saravá.

O QUE SE DISSE SOBRE MARIA BETHÂNIA

Mas Bethânia, abelha rainha, canta basicamente com todo o fluxo de sangue que corre pelas veias de seu corpo, fonte de energia de cor de Iansã. São rios sanguíneos de paixão e ira, romance e revolta, doçura e dureza, nascidos da melhor tradição do Brasil profundo, um Brasil gentil e barroco, cheio de violência e espírito, que ainda não aprendemos a compreender.
Cacá Diegues - cineasta

Maria Bethânia se tornou uma estrela da noite para o dia no Rio de janeiro, no início de 1965. Tudo nela era diferente de todas as outras, muito diferente: voz, figura, gestos, sexualidade, sotaque baiano. Atitude.
Nelson Mota – compositor e crítico musical

Por que, afinal, Bethânia sobe ao palco de pés descalços? A palavra "raiz" responde a tudo. A cabeleira de Maria, copa generosa, balança-se ao vento e à voz de uma grande artista.
Washington Oliveto - publicitário

Bastou os primeiros versos de Carcará e todos sentiram que estavam diante de uma deusa cheirando a cangaço, cuja voz rascante parecia nascer de fontes ressecadas pelo sol. Bethânia é divina.
Carlos Heitor Cony – escritor

Ela, com o seu jeito quieto, faz coisas grandiosas através do seu trabalho. Bethânia está na minha vida. Anos atrás, foi ela quem me ensinou a cantar no palco. Minha postura, a maneira como entendo o palco, devo a ela. Tudo o que sei emana dela. Somos artistas quentes.
Gilberto Gil – Ministro da Cultura, cantor e compositor

Maria Bethânia tem o dom de transformar canções aparentemente sem importância em verdadeiros clássicos. Ela tem a capacidade de tocar no profundo, porque entrega-se totalmente, coloca-se à disposição da canção.
O fato de ela estar cantando músicas minhas, de Brown e Arnaldo Antunes, é muito importante para a nossa geração, é como se ela dissesse: Eu acredito em vocês!"
Chico César - cantor e compositor

Maria Bethânia é um perigo para quem está despreparado emocionalmente, destrói qualquer monstro de terno e gravata que não sabe dizer eu te amo a uma mulher.
Bethânia é uma condutora de palavras, é quem melhor pronuncia o português ao lado de Roberto Carlos.
Carlinhos Brown - cantor e compositor

Maria Bethânia ajuda a construir nosso país com a sua voz tão pessoal e com a verdade e a beleza do seu trabalho. Essas características de sua arte fazem dela, de fato, uma intérprete da alma e da vida brasileira.
Ferreira Gullar – poeta

Maria Bethânia quebra todos os estereótipos, seu jeito e estilo são únicos.
Marta Suplicy – Ministra do Turismo

Na sua voz se encontra a solidão áspera da seca e a generosidade volumosa da chuva. A voz de Bethânia não escolhe - escorre.
Bethânia é amiga do vento e ele, por sua vez, se incumbe de mixá-la nos canaviais. A voz de Bethânia nasce no sertão.
Orlando Moraes - cantor e compositor

Maria Bethânia é a minha cantora predileta. Maria é a primeira cantora do Brasil, tendo sempre mantido uma postura de total lealdade perante as raízes em nossa música popular.
Bibi Ferreira - atriz

Algumas atitudes (ou realidades) de Maria Bethânia, como a ausência de medo no palco, o humor, a entrega, o gosto pelo risco e a liberdade, tornaram-se metas que persigo com disciplina. Alguns rigores de Maria Bethânia, como o de fazer tudo o que faz muito bonito para que as pessoas pensem sobre a beleza, me interessam cada dia mais.
Adriana Calcahotto – cantora e compositora

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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Flávio:
Achei o seu trabalho extremamente correto e informativo. Votei nele, é claro. Inclusibe porque adoro a Bethania. Pensei que fossemos, eu e ela, da mesma idade, mas vc me informa que ela é um ano e pouco mais velha (completo 60 em novembro). Conheci-a no bem no início da carreira, quando substituiu a Nara no show Opinião (que veio para São Paulo já com a Bethania).
Tem uma coisa, no entanto, no seu texto, que não é exatamente que me desagrade, mas me estranha: esta postura impessoal de se comunicar, isto de nunca falar na primeira pessoa do singular. A impressão que me dá é que não se trata de uma opinião, o que você diz, mas da "verdade". Tem um outro texto circulando no overmundo "Monsueto mora na Filosofia", em que o autor, Spirito Santo fala do cantor e compositor Monsueto de uma forma muito mais pessoal e afetiva. Não estou querendo dizer que você não gosta da Bethania, mas tenho para mim que, com sua maneira de escrever "impessoal" você não demonstra nem um quinto de sua emoção ao falar dela.
Como eu disse, não sei se isto é bom ou ruim. Não é um juízo de valor, mas, sinceramento, me estranha.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/6/2007 15:40
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Flávio Herculano
 

Muito bom, seu comentário, Andarilho. Você tem razão quanto ao meu texto ser impessoal. Eh um vicio jornalístico. Como profissionais, somos obrigados a relatar fatos, com o mínimo envolvimento. No que escrevo descompromissadamente, talvez não tenha me libertado dessa norma.
Que bom que compartilhamos a admiração pela diva e sorte a sua de tela conhecida ainda naquele distante 1965. Eu sou devoto, mas somente há pouco mais de uma década.

Flávio Herculano · Palmas, TO 19/6/2007 16:29
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Roberta Tum
 

Flavinho,
adorei a matéria. Bethânia é mesmo tudo isso e algo mais.

Roberta Tum · Palmas, TO 8/8/2007 15:56
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