Mariana Carrizo nasceu entre os Valles Calchaquies, Estado de Salta no Noroeste da Argentina, é criolla com raízes Diaguita Calchaquies. Cresceu nessa região de grande concentração indígena e diferenças sociais enormes, onde o preconceito principalmente com a mulher era muito forte.
Oriunda de uma família classe média baixa sofreu muito a discriminação e até mesmo a violência dentro e fora do lar. Entre três e quatro anos de idade ajudava a pastorear cabras e ouvindo a avó e outras mulheres aprendeu a cantar. Às vezes ouvia o pai alcoolizado e solitário cantando e assim nascia o espírito musical. Sua mãe respeitava a vocação de cantora, mas não opinava porque na tradição familiar a mulher não tinha voz ativa.
O canto íntimo de Mariana buscava a liberdade e o resgate do folclore, assim ela cantava Copla. O instrumento tradicional foi a caixa e o tambor indígena. As letras surgiam de acordo com o momento e ainda criança ficou conhecida como coplera.
Foi discriminada e seu canto sofreu tanto preconceito que tentaram silencia-la ignorando suas músicas.
Os próprios indígenas sentiam vergonha em dizer que cantavam a Copla, sobretudo os jovens. Assim ela se tornou a pequenina coplera solitária.
Segundo Mariana isso acontecia, porque os indígenas eram e ainda são marginalizados no noroeste da Argentina, não se respeita a cultura e as escolas não possuem educadores com preparo suficiente para essas questões.
A influência do catolicismo também é muito forte, ela sofreu na pele essa influência quando foi mãe solteira aos 16 anos de idade. A família conservadora a discriminou e o sofrimento foi amenizado com a música.
Mariana insistiu cantando e aos poucos foi para os palcos preenchendo espaços nos intervalos dos shows, simplesmente para tapar buraco de outros artistas. Mas não desistiu, cantando tentou acabar com as diferenças sociais.
Foram décadas de insistência e cada vez mais ela se sentia liberta, a música foi o caminho de sua liberdade. Ela assegura que cantando copla, marcou o momento de mudança quanto ás questões indígenas, ao preconceito contra a mulher e ao ritmo.
Em 2004 apresentou no Festival de Folclore de Cosquín e recebeu o premio Consagração, um dos maiores atribuidos a cantores argentinos. Dai em diante o sucesso veio rápido e ela percorreu vários países levando no canto a mensagem em forma de ritual.
Comenta:
- Meu grande momento foi depois da premiação do Festival de Cosquín, tudo ficou mais fácil. Recebi convites para shows em vários países.
Considera sua vida um exemplo para a comunidade e que sua música foi a ponte que contribuiu para quebrar o preconceito com a mulher, os indígenas e a copla.
Modestamente afirma:
- O Festival de Cosquín chamou a atenção não diretamente a minha pessoa, mas para as questões indígenas.
Continua:
- O canto e o instrumento é algo muito intimo, um ritual sagrado. As vezes canto sem a caixa só com o silêncio que corresponde as batidas da caixa. O silêncio também é uma forma de transmitir a mensagem musical.
Mariana exige na contratação de shows que o palco seja só dela, nada pode interferir no momento que ela considera de intimidade com a música e o público.
Ela diz:
- Cantar foi como sentir a liberdade, o canto me fazia voar para a espiritualidade. Quanto cantava era o momento com minha intimidade. O golpe da caixa é como uma batida do coração transmitindo o que as palavras não podem expressar...
Mariana gravou em 2008 o CD COPLAS DE SANGRE; 1996 COPLAS Y BAGUALAS; 2004 LIBRE Y DUENA, além de várias participações em produções musicais. Recebeu o prêmio Consagração de Cosquin em Cordoba e Gardel em 2009.
Como cantora natural de Copla Popular ela já visitou países como Espanha, Uruguai, Bolivia, Mexico, Panamá e Brasil.
Além de cantora Mariana desenvolve projetos de resgate da cultura andina, é um trabalho voltado para crianças, jovens e adultos. Ultimamente o “Encontro de Copleros” em Salta reuniu aproximadamente 250 copleros. Ela mesma patrocina os projetos que culminam na produção de filmes, documentários e livros.
Pergunto como a família encara o sucesso e tímida ela responde:
- Confesso que ainda hoje não tive coragem de cantar para meus pais, eles não tem dimensão do que se tornou a música na minha vida.
Ela não recrimina nunca os pais, culpa todo o modelo de geração passada que só sabiam viver de acordo com os costumes rígidos dos antepassados, considera que eles também foram vitimas desse processo.
A apresentação de Mariana é um espetáculo à parte, apesar da pequena estatura ela tem voz forte e marcante intercalada pelo som da caixa. Solitária no palco ela consegue prender a atenção de uma multidão de pessoas; sua música é acima de tudo um ritual indígena, um canto íntimo entre ela e o público, uma relação direta mostrando ao mundo os anseios, as dores e a alegria do povo argentino.
www.marianacarrizo.com
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