Mariano: multiplicador de bugres da Conceição

Rodrigo Teixeira
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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
17/1/2007 · 299 · 9
 

Mariano Neto é o sucessor. Se não fosse ele, a peça de artesanato mais importante de Mato Grosso do Sul teria acabado. Mariano é neto de Conceição Freitas da Silva, criadora dos bugrinhos no final dos anos 60. Em 1987, quando faleceu, a avó de Mariano já era conhecida como Conceição dos Bugres. A escultura nasceu em uma cepa de mandioca. Assim como a avó, Mariano vende principalmente para turistas, o que fez com que o bugrinho se espalhasse pela Europa, Estados Unidos e Japão. Encontrar um original de Conceição para adquirir é coisa rara, apesar dela ter produzido milhares. No ateliê do artesão, localizado em um bairro popular de Campo Grande, entre os quase 50 bugres de diversos tamanhos fabricados por Mariano, havia um de Conceição. Enquanto o maior de Mariano custa R$ 250, o pequeno de sua avó sai a bagatela de R$ 6 mil.

Cada bugre da artista Conceição tem uma fisionomia, são rústicos e esculpidos a machadadas. Únicos. Já os bugrinhos de Mariano são mais bem acabados. A madeira guiava Conceição. O neto segue um padrão e trabalha com eucalipto. Ele é capaz de fazer por dia de 10 a 15 bugrinhos. Admite que sua avó era mística e repete a história que já virou lenda. A inspiração para fazer o bugrinho veio para Conceição em um sonho. Ao acordar, foi até o quintal, sentou embaixo de uma árvore e percebeu uma rama de mandioca.

Quando olhou a raiz viu a mesma figura que tinha enxergado no sonho. Teve a idéia então de talhar a feição na própria cepa e o resultado foi a nascensa do bugre, o artefato que já virou sinônimo de Mato Grosso do Sul.

A imagem do bugrinho se tornou tão famosa que é usada excessivamente em propagandas, papéis timbrados, estampas, revistas e publicidades. Cada vez mais as pessoas recriam o bugrinho, fazendo suas versões e estabelecendo uma espécie de domínio público sobre a obra de Conceição e Mariano. O que deixa ingenuamente preocupado o artesão em relação a direito autoral. Ele reclama que qualquer um pode fazer o bugrinho e não há como a família de Conceição ser recompensada por isso. Jura que está tentando tirar a patente junto ao Sebrae, mas não só no Brasil, como em outros países, a constituição em torno do direito autoral é restrita e está em mutação com a explosão do acesso a obras de arte através da internet.

No dia da entrevista era aniversário de sua mãe Sotera, também artesã e criadora dos totens, nome que deu às suas belas peças de artesanato (dá para ver no canto da foto lá no alto). Ela serviu durante o bate-papo refrigerante e alguns pastéis. Embora a fama dos bugrinhos tenha chegado a outros países, o neto Mariano e a mãe Sotera, casada com Wilson, filho de Conceição já falecido, vivem de forma bem simples. O ateliê de Mariano é franciscano. Tem um pôster em preto e branco de sua avó na parede. Alguns bancos de madeira. Fico pensando o que aconteceu com o dinheiro que os bugrinhos renderam a Conceição? Mas isso é outra história...

Mariano está tentando atrair o sobrinho Fernando, de 16 anos, filho do artista plástico Ilton, o outro filho de Conceição. Mariano quer conscientizá-lo de que alguém mais novo na família precisa aprender a fazer o bugrinho para ocupar o seu lugar um dia. Os descendentes de Conceição continuarem a multiplicação dos bugrinhos da avó é fundamental para a perpetuação do raro ícone antropomórfico proveniente dos povos nativos da região do alto do Paraguai. Os bonecos de madeira, como foi constatado por Guido Boggiani, é tradição artesanal entre os índios das famílias Mbayá-guaicuru que habitavam a região de MS e o Chaco Paraguaio e que foi intenrrompida no início do século XX. Com os bugrinhos, Conceição retomou inconscientemente a confecção destes bonecos e inventou um artefato emblemático de Mato Grosso do Sul.

Confira abaixo a entrevista com Mariano Neto:

Overmuno – Como você começou a aprender a fazer as peças com a sua avó?
Mariano Neto – Gostei de ver ela fazer os bugrinhos e comecei a ajudar. Desde os sete anos já cortava as madeiras. De vez em quando, por ser pequeno, cortava a mão. E fui ajudando ela. Fui melhorando cada vez mais.

A sua avó fazia com que material?
Ela começou com ramo de mandioca, que ela sabia que apodrecia. Depois que foi vendo que tinha que fazer com madeira. Faço com eucalipto, por exemplo. Mas ela pegava qualquer madeira no mato e fazia. Podia ser capitão, arueira, faveiro, cerejeira...

E a cêra de abelha ela começou a usar por quê?
Ela usava vela e parafina. Depois que ela foi ver que a cêra para cobrir ficava mais bonito. Dá aquela presença.

Quando você sentiu que seria o sucessor de sua avó?
Ela faleceu em 1987, eu tinha uns 18 anos. Estava internado por causa de um tumor e estava para operar no hospital militar. Foi um desespero. Não pude sair de lá. Meu avô Abílio continuou fazendo por mais 10 anos. Quando ele faleceu aí sim senti que teria de continuar o trabalho. Fiquei emocionado e tive responsabilidade. Era o único da família que podia fazer o bugrinho da avó.

Conceição tinha um lado místico na criação dos bugrinhos?
Sim. Porque ela nunca tinha feito esta escultura. Só quando veio para Campo Grande. Igual a minha mãe, ela também sonhou com estas esculturas que faz. Eu já fui aprendendo vendo os outros. Meu avô não fazia escultura, fazia mesinha de três pernas e banquinhos redondos sem encosto. Da família só eu e minha mãe estamos fazendo artesanato agora.

Qual a diferença dos bugrinhos do Abílio para os da Conceição?
O meu é mais parecido ao da minha avó, mas o do meu avô não. Ele não fazia aquela parte para rebaixar o cabelo. Deixa reto. O olho é um triangulo. Mas o pessoal gosta também.

Atualmente qual é o material que você utiliza para fazer o bugrinho?
Já utilizei outras madeiras, mas achei melhor o eucalipto reciclado. A madeira é bruta e vou esculpindo. Uso cêra de abelha. Uma barra custa uns 15 reais e dá para encerar uns 10 bugrinhos dos pequenos. Já o grandão leva umas três barras. Uso também tinta esmalte sintética, que é cara, da lata de três litros. Lixa só um pouquinho para tirar as rebarbas. E as ferramentas, formão, facão, serrote... Uso marreta, mas a minha avó usava machadinha. Ficava com medo dela se machucar. Ela tinha idade e eu era novinho. Falava para ela tomar cuidado, mas ela ficava braba daí.

Você lembra dela falando sobre os bugrinhos?
Que eles eram a vida dela. E que não ia desistir e parar porque era muita encomenda que chegava.

Quem vai dar continuidade aos bugrinhos quando você parar?
É que não apareceu ainda. Minha mãe acha que tenho que arranjar uma mulher e ter filhos. Mas não é assim também. Eu estou ensinando os meus quatro sobrinhos. O mais velho tem 16 anos e a sobrinha menor 12. O mais velho, Fernando, se interessou mais. Explico para ele que alguém tem que continuar. Isso é uma coisa que me preocupa.

Quantos bugrinhos você acha que a sua avó fez?
Ela fez muitos. Milhares. No mundo inteiro tem bugre dela. Estados Unidos, Europa, Japão... Inclusive os japoneses fizeram algo terrível comigo. Em 1989 vieram oito japoneses e nós aqui querendo tratar bem. Eles levaram uma sereia, dois bugrinhos, da minha mãe umas seis esculturas. Deram o cano em nós. A minha mãe ligou em São Paulo, mas babau. Levamos um prejuizo de uns dois mil. Nunca mais.

O que representa o bugrinho para você?
É uma coisa que apareceu de aprender fazer isso. É muito sagrado para mim. Quando faço sinto a presença de minha avó.

Quem foram as pessoas que ajudaram a Conceição?
Os únicos foram Humberto Espíndola e Aline Figueiredo. Eles ajudaram a encaminhar a minha avó, divulgar o trabalho e comercializar os bugrinhos. O Candido Fonseca fez o filme, mas não reverteu em dinheiro não, apesar de ter mostrado em vários países.

O registro dele é uma das raras imagens da Conceição.
É sim.

Você acha que o bugrinho representa a cultura de Mato Grosso do Sul?
Sim. Muito. A turma fala que este bugrinho está em primeiro lugar de todas as esculturas. Então, se eu parar, acabou.

Quantos você faz por dia?
Quando estou com o pensamento bem legal faço uns 10, 15 por dia. Um bugre deste grande se pegar firme mesmo levo uns dois dias para cortar e fazer o formato. Mais um dia para encerar.

E vende?
Vende. O pequeno é o que vende mais. Mas agora está meio parado. Faço para locais fixos aqui em Campo Grande, como a Casa do Artesão, Barroarte e atendo pedidos de outras cidades do Brasil e exterior. Mas é dificil. Recebo do Sebrae bastante pedidos de outras cidades. Mas não está tendo encomenda assim e nem aqui na cidade. Mas é a crise mesmo. Não é só o meu serviço.

Mas você não sente falta de um esquema mais organizado para comercializar o bugrinho?
Vender 3 ou 4 não resolve. Mas se vender dois destes grandes já quebra um galho. Vivo disso. Tem hora que penso em fazer outros serviços que este aqui não está fácil. Não tô passando fome, mas não está bom. Minha mãe também não vende. Em 2003 e 2004 vendi bem. Mas em 2006 nem os turistas estão comprando muito.

Você possui o direito autoral em cima da imagem do bugrinho?
Tenho que fazer. Se uma pessoa começar a fazer não posso falar nada. Tenho que patentear o bugrinho, mas para isso estou em contato com o Sebrae. Eles estão vendo para mim. Tenho que fazer logo, tô com medo. Por isso, quero fazer o Instituto Conceição dos Bugres.

......................

Lendo agora a entrevista de alguns meses, sinto mais forte ainda a presença da imagem do Bugre da Conceição pelos ambientes e ruas de Campo Grande. Uma empresa de ônibus municipal está usando como estampa de seus veículos. Não tinha percebido até pouco tempo. Quando fui ao Festival de Bonito, em agosto de 2006, assisti pela primeira vez ao documentário que o cineasta Cândido Alberto da Fonseca fez de Conceição dos Bugres. Em sua famosa chácara nos arredores de Campo Grande, onde aconteceu de fato a criação. Pode-se ver as famosas e ‘arriscadas’ machadadas que Conceição mandava ver nos pedaços de lenha, a gaúcha com cara de índia conversando, os movimentos, as roupas... O doc de Cândido ganhou o prêmio da Embrafilme em concurso promovido pela Funarte em 1980. É realmente uma pérola, até porque é o único registro em filme de Conceição. E a verdade é que o filme está se perdendo. Segundo o próprio cineasta, o original está com problemas sérios e precisa de manutenção. O filme é o mais visto do Museu da Imagem e Som de MS (MIS).

Ao entrevistar o compositor Geraldo Espíndola, também escutei algumas histórias dos bugrinhos. Por exemplo. Geraldo conta que uma vez foi a chácara de Conceição com a sua esposa Dalila. Depois da prosa e tal, chegou a hora da despedida. Conceição apareceu com um bugrinho preto e deu para o casal dizendo que 'aquele bugrinho ela só dava para quem gostava'. Ao receber o bugre negro Geraldo teve a mesma surpresa que a minha, quando vi a peça na casa do compositor. Enfim, Conceição dos Bugres é uma personalidade ímpar no cenário artístico brasileiro. E Mariano luta, dentro de suas possibilidades, para dar prosseguimento. Descobri que Sotera, a mãe de Mariano e sogra de Conceição, paraguaia típica, é uma grande artista também. Seus totens são incríveis e únicos, assim como os bugres de Conceição.

Instituto Conceição dos Bugres urgente!

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Assum Preto
 

Quando os restauradores vão mexer numa casa antiga (usando com exemplo), é imprecindível a utilização do mesmo material (igual). Vejo com sendo importante sim os sobrinhos da Conceição aprender a técnica, mas também dominar o material original que ela utilizava, inclusive a "machadinha" para esculpir... Todavia, vejo com muito mais importância a regulamentação dos direitos de imagem dos bugrinhos da Conceição. Ora pois, só aqui no Mato Grosso do Sul, a imagem é demasiadamente usada. E pouco se divulga o trabalho de Conceição... Hipocrizia daqueles que usufruem da imagem como publicidade; Hipocrizia do Governo que nunca ajudou (somente na época em que Humberto Espíndola foi secretário de cultura), e agora usufrui da imagem. E ainda em tempo: domínio público é só depois de 50 anos da morte do autor(a)... ou seja, falta muito tempo para a imagem dos bugrinhos serem domínio público...

Assum Preto · Campo Grande, MS 16/1/2007 22:25
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Rodrigo Teixeira
 

Olá Manu Assum.
Concordo com você a questão do material. Mas acho que só o fato do Mariano ter continuado a fazer os bugrinhos, a sua maneira, já foi um milagre. Até porque ninguém tem obrigação de continuar a obra dos pais. Neste caso, o que o Humberto me disse uma vez me abriu (mais uma vez) a mente: 'o Mariano é artesão. Faz todos os bugrinhos iguais. A Conceição era uma artista plástica. Cada bugrinho era único' E acho que a Conceição tinha jeito de fazer único. É que nem tocar como o Chuck Berry. Vc pode imitar, mas daquele jeito só ele.

Quanto ao direito autoral acho que é complicado no caso do bugrinho. Acho que falta é um bom advogado envolvido com a causa. Porque não precisa patentear nada. O direito é da família, dos herdeiros da Conceição. Por favor, não sou especialista, posso estar falando besteira, mas acho que não.

Talvez uma boa para o bugrinho seria liberar em Creative Commons. Desta maneira poderia até ajudar para quando usassem a imagem do bugre com uso comercial por empresas privadas ou mesmo governamentais. E com certeza geraria uma maior divulgação do bugrinho, o q poderia aumentar os pedidos para Mariano ou mesmo uma procura pelos bugres originais de Conceição, que dizem, são poucos que restam que estão a venda. Diga lá professor Ronaldo e conhecedores, de que maneira o CC poderia ajudar o bugrinho de Mariano?
salve Assum

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 17/1/2007 01:28
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Rodrigo Teixeira
 

Aliás, o Assum tem uma polca-rock que homenageia Conceição! Ouça AQUI!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 17/1/2007 01:31
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arlindo fernandez
 

Maravilha!
Gostei da matéria. E até tenho um bugrinho original.
Salve Rodrigo!

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 17/1/2007 16:27
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Bia Marques
 

Meninos, de Conceição tive o privilégio de, adolescente (faz tempo, minha nossa senhora das antas!), vê-la em ação. De direitos autorais, tô com Assum (pena que a grande maioria do povo brasileiro pense que lei é coisa de "adevogado" e político. Das gerações Rod Tex tá certo (enquanto não corre o tempo do domínio público. os direitos são dos herdeiros). No mais, da nossa identidade cultural (a exemplo das mais antigas às mais recentes, sempre em construção), os Bugres de Conceição e descedndentes são ícones.

Bia Marques · Campo Grande, MS 18/1/2007 22:30
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Fernando Mafra
 

Bela matéria, bem o tipo de coisa que gosto de me deparar no overmundo; uma parte da cultura nacional que nunca ouvi falar e que merece seguir em frente. Seria legal o futuro instituto esquematizar um sistema de aprendizes para continuar levando isso pra frente.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 21/1/2007 16:08
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Débora Medeiros
 

Tomara que o Mariano consiga patentear as criações que herdou da avó e que os bugrinhos continuem! Estava lendo esses dias uma entrevista com Gilmar de Carvalho, estudioso importantíssimo da cultura do Ceará, e ele expressava uma preocução parecida em relação às manifestações típicas daqui: depois que os mestresdnestas artes morrem, como elas prosseguem? É importante trabalhar para salvar o máximo de nossas tradições!

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 24/2/2007 01:01
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rosi matos
 

Gsotei muito posso usar afoto no meu power point sobre cultura popular?
caso possaa enviar email
rcm84@ig.com.br

rosi matos · Belo Horizonte, MG 28/7/2008 15:58
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Rodrigo Teixeira
 

Oi Rosi, pode simmmm! abração

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 28/7/2008 16:17
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Multiplicador Mariano zoom
Multiplicador Mariano
Conceição trabalhando • Reprodução de foto de Roberto Higa zoom
Conceição trabalhando • Reprodução de foto de Roberto Higa
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