MARINALVA: VIDA E OBRA

Filipe Mamede
Marinalva
1
Iva Kareninna · Natal, RN
20/5/2007 · 151 · 11
 

O endereço é a praça André de Albuquerque – centro de Natal.Várias meninas circulam, uma em especial. Morena, cabelos cacheados. Ela tem apenas 8 anos. Pede esmolas, conta o dinheiro, acha pouco. A menina faz amigas, já se passou um ano, ela agora tem 9. Descobre que não precisa mais pedir esmolas. Um homem que poderia ser seu avô se aproxima. Conversam. Os dois saem de cena.

É mais ou menos assim que a história de Marinalva Ferreira da Silva (39) e de muitas garotas começa. Impulsionadas pela necessidade ou pelo deslumbramento do dinheiro fácil, elas são iniciadas numa atividade ilegal difícil de ser combatida, a prostituição infantil.

Os destinos a partir daí são os mais variados possíveis. Marinalva diz que apesar das dificuldades sua vida foi melhor que a de suas colegas. Umas estão presas, algumas entraram para o tráfico, umas são dependentes químicas e outras até morreram. Marinalva acabou transformando sua profissão numa prática política e social.

Da inocência à maturidade prematura

Durante a infância foi uma vítima da pobreza, da privação. Alimentava-se - quando tinha - do que a mãe tirava do lixo: “Às vezes a gente não tinha nada para comer, só coco ‘rapado’... não morri de fome porque comi até areia”. Morava em Mangabeira, município próximo à Macaíba. Nas raras vindas para Natal, observou outras pessoas e aprendeu a pedir comida e dinheiro. Julgou ter encontrado condições melhores na rua. Fugiu de casa aos 8 anos.

Em um ano de idas e vindas das ruas para casa, fez amizades nas praças da vida. Começaram a surgir propostas não mais tão inocentes. A mais velha de suas amigas, que tinha apenas 12 anos, a convidou para também começar sair com idosos. Após relutar um pouco, avaliou: “Era um dinheiro que em um dia todinho eu não ganhava pedindo esmola...e eu precisava ajudar a minha mãe” - e continua - “Acabei sendo mulher cinco anos antes de ser moça”.

Aos 10 anos já fazia programas freqüentemente pelas ruas de Natal, mas perseguida pelo Juizado de Menores foi morar em um bordel em Parnamirim. Hoje reconhece a gravidade de suas práticas precoces e é contra a prostituição infantil: “As crianças devem estar numa sala de aula... a maioria que se prostitui hoje não é porque precisa...há muitos projetos do governo que dão ajuda a quem estuda, há muito mais oportunidade.”

Marinalva parece não ter tido chance. Aos 14 anos tinha uma média de 40 relações diárias. O ritmo de sua profissão lhe deixou seqüelas. Contraiu todas as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) menos AIDS, seu útero ficou atrofiado, adquiriu uma inflamação crônica e nunca pôde gerar filhos.

A vaidade não esconde os sinais de sua vida. Sua aparência hoje é de uma mulher muito mais velha que a sua idade biológica. Além das marcas de expressão, carrega outras. Cicatrizes de doenças, tiros e de objetos cortantes estão espalhadas pelo seu corpo. Quando perguntada, desconversa, diz apenas: “Isso tudo é acidente de trabalho”.

De como a gente se torna o que a gente é

O primeiro passo que Marinalva deu para se tornar líder da sua categoria foi em 2000, no Centro Reprodutivo Leide Morais, hospital-maternidade do Alecrim. Na intenção de conseguir melhores condições de atendimento, acabou ajudando a si e às suas companheiras. Graças a sua mobilização, hoje nas quintas-feiras as profissionais do sexo podem ser atendidas sem precisar esperar dias ou tirar fichas: “Em um ano e três meses eu levei 148 companheiras”, se orgulha Marinalva.

Seu desempenho em seminários promovidos em parceria com o hospital chamou a atenção de entidades públicas e de associações de prostitutas de outros estados. Em 2002, foi convidada para um congresso de profissionais da área em Fortaleza. Depois de muito relutar, assumiu a representação do Estado. Foi criada a ASPRORN, Associação dos e das Profissionais do Sexo e Congêneres do Rio Grande do Norte.

Além das conquistas na área da saúde, a presidente da ASPRORN também conseguiu salas onde são ministradas aulas para as suas companheiras. Foi inclusive por meio desse projeto que ela mesma se alfabetizou há apenas três anos.

Na Associação seu trabalho é corrido, durante a semana comparece a eventos da área e visita, na capital e no interior, diversas casas de prostituição, chamadas por ela de “casas vida”. Ministra aulas de educação sexual, distribui preservativos masculinos e femininos, folhetos educativos e faz levantamentos do número de beneficiadas com o trabalho.

Desde que assumiu o cargo, Marinalva tem lutado por uma causa que começou em 1975. Há trinta anos, 150 prostitutas francesas ocuparam uma igreja na cidade de Lyon. Protestavam contra a repressão policial, multas, prisões e até assassinatos de colegas que não eram investigados.

Houve greve de sexo comercial e o movimento se espalhou. A repressão foi violenta e várias partes do mundo tomaram conhecimento. O resultado foi a criação da primeira associação de prostitutas e do dia internacional de luta por melhores condições de trabalho e de vida, o dia 2 de junho.

Faz tempo...

As primeiras manifestações da prostituição datadas desde as civilizações de romanas só chegaram a ser oficializadas na Europa no período da Idade Média, mas sua consolidação veio no século XVIII com a Revolução Industrial, período que com o êxodo rural propiciou a formação de aglomerações urbanas e redutos de pobreza.

Por ter apresentado uma industrialização tardia, o Brasil concretizou essa atividade somente em 1930. No Rio Grande do Norte, a prostituição ganhou grande repercussão nas décadas de 1940 e 1950, naturalmente impulsionadas pela Segunda Guerra Mundial. Na época, a profissão não fazia parte do gueto social a que pertence hoje, a elite local figurava entre a clientela assídua das casas de meretrizes, como é o caso do mitificado e requintado “Cabaré de Maria Boa”.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Egeu Laus
 

Obrigado pelo post necessário, Iva.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 20/5/2007 13:37
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Iva Kareninna
 

Não tem de quê Egeu. Apesar dos erros da vida, Marinalva tem feito de sua história um exemplo de luta e amor ao próximo.

Iva Kareninna · Natal, RN 20/5/2007 13:45
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Iva,
Do mesmo modo agradeço, mesmo cansado de ver o quanto fazemos de ruim para pessoas como Marinalva, terem ser boas, além da conta, além de qualquer necessidade. Este lado over do Brasil me cansa, sabia?

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/5/2007 16:16
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
FILIPE MAMEDE
 

Parabéns à Marinalva pela iniciativa tão bacana. Quanto à prostituição, eis aí um problema muito complexo. Existe a oferta, porque existe a procura; isso é fator cultural. De qualquer maneira, todo trabalho que vise mudar um pouco as cores desse quadro, deve ser bem-vindo.

Um ABRAÇO.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 21/5/2007 08:01
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Gabi Olivar
 

Muito legal falar dela, Iva. Tá de parabéns!
Como Filipe disse, o problema da prostituição não é tão simples de "resolver", muito menos de analisar. Boa abordagem!

Beijos!

Gabi Olivar · Natal, RN 21/5/2007 09:56
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Fê Pavanello
 

Excelente, Iva!
Acredito realmente que a melhor maneira de resolver os problemas é encarando-os de frente. Não que a prostituição será resolvida assim, já são poucas as instituições tão antigas na humanidade, mas ao menos as condições pelas quais elas/eles passam...
Adorei a sua abordagem séria e sem preconceitos!
Parabéns!

Fê Pavanello · Brasília, DF 21/5/2007 12:56
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Natacha Maranhão
 

Muito bom o seu texto, Iva. E a história da Marinalva é pungente, nossa. Dá uma dor no coração ver a quantidade de meninas que ainda hoje passam pelo que ela passou, que vão sofrer o que ela sofreu. Aqui em Teresina a gente vê isso a qualquer hora do dia...Dá vontade de ir lá, pegar pela mão e pedir por favor pra elas irem procurar outro rumo na vida...
Seu texto me lembrou de um poema da Elisa Lucinda, "Lua Nova Demais", você conhece?
um beijo e parabéns

Natacha Maranhão · Teresina, PI 21/5/2007 13:46
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Muito bom texto, Iva. E o exemplo de vida da Marinalva é melhor ainda.
Triste é constatar que existem muitas "Marinalvas meninas" pelo nosso país. E nem precisam fugir de casa, em busca de uma vida melhor. Muitos pais "oferecem" ou "vendem" suas filhas, principalmente nos rincões do Brasil, onde a miséria é predominante. Pior ainda são aqueles que "compram".

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 21/5/2007 21:53
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Daniel Duende
 

Um texto bom e, como disseram os colegas, necessário. A história de Marinalva é o retrato de uma realidade constante, mas também um retrato de uma luta muito bonita por parte de uma pessoa que percebeu que, mais do que precisar de ajuda, fazia parte de uma classe de pessoas que precisava muito de ajuda.

Consciência social é o que há!

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 26/5/2007 01:17
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Vinícius Menna
 

Massa o tema! O pessoal da minha sala fez um documentário com ela, se não me engano...

Sim! Gostei muito da forma como você contou a história dela. Profissa!

Vinícius Menna · Natal, RN 28/5/2007 19:58
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Wilson Palá
 

Que bom que você compôs um texto tão forte com palavras tão mansas. Parabéns! conheci Marinalva e foi uma perda muito grande para nossa sociedade. Pois trabalho com crianças em situação de rua e afirmo que a prostituição infantil ainda está longe de ser páginas passadas. Valeu!!!

Wilson Palá · Natal, RN 21/7/2007 00:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Marinalva na sede da ASPRORN zoom
Marinalva na sede da ASPRORN
Marinalva, história de luta e liderança zoom
Marinalva, história de luta e liderança
Congressos e seminários na vida de Marinalva zoom
Congressos e seminários na vida de Marinalva
Contra a homofobia. zoom
Contra a homofobia.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados