Mariscando Sonhos...

Raquel Gonçalves
o sorriso de Ivo nos braços da tia Guga, 10 anos.
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
10/10/2006 · 84 · 2
 

Capítulo Dois - Num Quintal Indígena

Mais uma sábado se segue e o sacrifício da labuta às 8 da manhã se mistura com o tesão de estar ali, simplesmente ouvindo. A casa cheia de meninos parece me convidar para entrar até o quintal, onde Do Carmo e Neide, sua mãe, lavavam roupas. “Bom Dia!”. “Hoje Do Carmo não pode sair não, porque tem que me ajudar aqui”. “Fique tranqüila, hoje eu vim só pra conversar com vocês mesmo, não foi para pescar no mangue não”. “Ah, finalmente consertamos o barco, só de ‘picha’ foi 60 reais, ainda teve 20 do serviço do homi, semana que vem a gente vai pescar de barco.” Picha é o material que eles usam para remendar as fendas nos barcos de madeira, segundo Neide, é tipo o mesmo material que se usa pra fazer asfalto.

Aquele quintal me remetia a um cenário recorrente. Um fogãozinho artesanal a lenha com uma panela de feijão em cima; um tanque/caixa-d’água, de onde se enchia as duas únicas bacias para lavar a roupa; uma tábua de madeira se fazia de banco, onde sentei e ninei o pequeno Ivo. A banheira de plástico de Ivo agora era bacia de lavar roupa também. E assim se seguiu o bate papo naquela manhã nublada.

Objetivo? Simplesmente ouvir e tentar sentir um pouquinho do ser humano naquelas pessoas. “Ontem a Liduína, que é uma moça que sempre ajuda a gente, deu um fogão para Neguinha e uma cama de casal pra mim. Ela mora longe, lá no Araturi, perto do Metrópole, mas a gente foi buscar. Foi eu, Neguinha, Ivo e meu cunhado pra ajudar a trazer a carroça com as coisas. Saímos 11 horas da manhã e só chegamos de noite” Do Carmo estava entusiasmada com sua cama nova. “Aí eu dei minha cama de solteira para Neguinha. Minha cama nova é grande, quase não cabe no quarto.” Espírito de luta.

Do Carmo contou do dia anterior longo e cansativo. Em suas palavras o que predominava não era o cansaço, mas sim a alegria de seus novos pertences. Mesmo quando falamos de carroça humana. Lavava roupa, intercalava com os cuidados do filho Ivo, olhava o feijão.Tudo ao mesmo tempo.

“Do Carmo, passa aí a escova na minha chinela nova que a mulher me deu”. Gritou Neide lá de dentro. As árvores do quintal sombreava o lugar onde conversávamos, já que o sol esquentava e despontava lentamente entre as nuvens. Neide foi lá dentro fazer alguma coisa e ficamos só. Do Carmo e eu.

- Eu tou querendo comprar um terreninho pra morar eu e Ivo, mas mamãe não quer não. Quando eu disse que ia ela começou a chorar, pedindo para eu ficar. Ela é muito apegada ao meu menino.
- Tu não gosta daqui não, de morar com tua mãe?
- Gosto, a gente se dá bem, mas mamãe não deixa eu sair de casa às vezes. Ela não deixa eu ir pro Icaraí, por exemplo, tem medo que eu vá, diz que é perigoso. Eu nunca conheci a praia, queria ir. Nunca fui lá. Às vezes quero ir na casa das minhas irmãs também.
- Quanto é um terreninho?
- Eu vou receber um dinheiro aí por causa do Ivo, aí dá pra comprar uma casinha já pronta lá perto do Centro Cultural. Sempre que nasce uma criança, vovó assina uns papéis lá, aí gente ganha um dinheirinho.

Histórias e mais histórias iam se seguindo entre roupas, crianças e feijão. Ivo fez xixi em cima de mim. Peguei a caneca, afundei no tanque e me lavei. “Sua calça é desse tecido aí, seca rápido” disse a irmã de Do Carmo, Guga, 10 anos. “Você não sabe o que aconteceu ontem. Veio um velho aqui em casa querendo comprar um sapo que ele tinha visto aqui no quintal. Sapo grande, enorme. Queria pagar cinco reais no sapo. Aí eu peguei e fui procurar o sapo, mas ele tinha ido embora, sumiu. Mamãe acha que é pra fazer macumba. Eles colocam o nome de alguém dentro da boca do sapo e costuram” “Credo, vocês não ficaram com medo não?” “Não, eu queria era vender o sapo.”

Lá vem Neide com linha, agulha e umas roupas na mão para costurar no quintal, batendo papo com a gente. “Como é que foi a pesca essa semana, Neide?” “Pesquei de segunda a quinta, agora que meu filho saiu do hospital. Aquele lá que eu te contei semana passada, da diabetes. Peguei quarenta cordas de caranguejo. Fui vender no sábado e no domingo lá no Conjunto Ceará. Cada corda a dois reais. Deu um dinheirinho, mas a gente cansa muito. Antes era de monte. A gente entrava no rio, aqui mesmo na beira, pegava facinho de 5 a 6 kg de camarão, os caranguejo eram grande, agora, a gente passa o dia e a noite pescando para pegar 2kg de camarão.” Do Carmo entrou na conversa falando do calote do homem do Mercado Central. “Ah mãe, o Rogério, o homem lá dos colares não pagou tudo não. Ele só pagou a metade, 30 reais pelos colares da gente.” A venda de colar é a atividade que atualmente compete com a pesca. Catar semente para realizar o trabalho artesanal da construção dos colares ficou mais rentável do que afundar o pé na lama, mas nessas condições de desonestidade...

Sobrinho Igor veio correndo lá de dentro com um chapéu de palha cheio de santinhos políticos. “Nossa quantos santinhos... você vai votar em quem Do Carmo?” sem pestanejar, “eu vou votar no Lula, porque se não a gente perde o bolsa escola. Pra deputado nas eleições passada a gente daqui de casa votou no Dourado, índio Tapeba daqui mesmo, mas ele não ganhou. Esse ano a gente vai votar no Cláudio, que é também índio, vamos ver se ele ganha”. No quintal, Igor e Guga oras brincavam com a pilha de santinhos de vários candidatos, oras brigavam. Coisas de criança. “Eu já tirei todos os meus documentos. Eu que escrevi em tudinho: CPF, título, RG. Neguinha não tem nenhum, só o registro de nascimento.” A educação é meio precária na escola da região. “Na escola, a professora passa de 3 a 4 dias sem vir dá aula.” Do Carmo está na 5º série, mas não parece muito empolgada com os estudos não. Sua mãe mesmo disse “Do Carmo não vai pra aula porque não quer”.

Ao mesmo tempo que parece Deus ter esquecido aquele lugar, há uma serenidade incrível na vida cotidiana daquelas pessoas que só pode existir pela presença dele mesmo. Apesar das dificuldades, a simplicidade transmite muitas alegrias nas pequenas coisas. “Você acredita em Deus, Do Carmo?” “Acredito, eu rezo todo dia quando vou dormir. Eu peço um bocado de coisas. Aqui na comunidade de 15 em 15 dias vem um padre celebrar uma missa pra batizar as crianças e pra rezar. Geralmente é dia de sábado. Passa uma mulher aqui nas casas chamando pra gente ir lá.”

No curto caminho da casa de Do Carmo até a casa da mulher onde tem a missa, o bar está sempre cheio de gente jogando sinuca, bebendo cachaça e escutando forró. Em frente ao orelhão da vila, lá está. Algumas cadeiras de plástico, um altar improvisado e umas 20 pessoas, talvez esperando a bênção de Deus.

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Pedro Rocha
 

Acho que o problema do texto Raquel é você dizer que "Ao mesmo tempo que parece Deus ter esquecido aquele lugar, há uma serenidade incrível na vida cotidiana daquelas pessoas que só pode existir pela presença dele mesmo".

Você está relatando algumas dificuldades como de educação no local. Isso não tem nada a ver com Deus ou outra entidade divina ter esquecido aquilo, mas sim o Estado ou mesmo dificuldades de ornização dos próprios indios (ai entra uma porrada de coisa).

Segundo que a serenidade do lugar não só poder existir pela presença de Deus eu acho, mas pela própria questão da cultura indígena talvez, da vida perto da natureza. Se é que realmente tem essa serenidade... Eu não consigo captar isso.

Não sei Raquel... não gosto desse final por achar que ele traz suposições muito fortes sobre coisas que você ainda não mergulhou profundamente como a frase "talvez esperando a benção de Deus".

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 7/10/2006 18:02
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Moysés Lopes
 

Gostei. Não sei se deveria ter feito algum tipo de julgamento, acheimais gostoso ler e me deliciar com a narrativa. A mim me pareceu um filme, uma certa ambiência de "Meu Pé de Laranja-Lima"... Seil lá... curti mesmo. Obrigado por dividi-lo conosco. Um abraço,

Moysés Lopes · Porto Alegre, RS 9/10/2006 17:04
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