Marisqueiras cap.4: Saindo da comunidade da Ponte

Raquel Gonçalves
Maria do Carmo e Ivo na casa nova
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
29/11/2006 · 75 · 4
 

Maicon é filho de Neguinha, que tem uma irmã, Do Carmo, que é mãe de Ivo, que tem uma tia Fernada que é mãe de Leandra, que tem uma tia Lucicleide que acha que está grávida. A grande família Tapeba não pára de crescer. Aqui é assim. Crescer e multiplicar.

Maria do Carmo acabou se mudando mesmo. Agora foi pra perto das irmãs, como já havia nos contado do seu desejo. Quem sabe agora ela não se sentiria mais livre. Deixou a casinha da mãe e foi morar só com Ivo, filho único, por enquanto. A vó Neide não gostou muito não, parece que o enlace afetivo com o “pretinho” estava agora sob a ameaça da saudade.

- Tou tão triste porque Do Carmo foi embora e principalmente porque levou o Ivinho. Mas é isso mesmo... Ela não ia ficar morando a vida toda comigo mesmo. Vocês precisam ver como Ivinho ‘decaiu’ foi muito....
- Decaiu?
- Sim, emagreceu. Quando ele morava aqui comigo era bem gordinho... Mulher eu tava tão acostumada com o ‘meu pretinho’, tou sentindo falta.

Agora vive lá do outro lado da Comunidade da Ponte. Atravessa a pista e logo aparecem as casinhas enfileiradas, uma a uma. À direita, avista-se de longe o Centro Cultural. Grande oca imponente, cheia de artefatos Tapeba que, muitas vezes, nem compõem toda matéria prima da região. Algumas sementes possuem o celo carimbado da cidade grande. Logo ao lado, o grande círculo de areia reservado especialmente para o Toré. Espaço esse bem diferente daquele narrado por Do Carmo onde eles dançavam infurnados pra dentro do mangue quando moravam longe da pista, na beira do rio, lá pra dentro do mato.

O sol escaldante da Caucaia parece não derreter a cuca das crianças de pele escura que brincam no meio da rua de areia sem notá-lo. Do outro lado da pista a miséria sobre saía nos olhares das crianças. Agora elas não vendiam colares nem acompanhavam as cantorias indígenas. Apenas corriam e bricavam sob o sol. O forró embala os rádios nas casas de reboco com o cimento esturricado e mal batido. A vila do outro lado da pista tem um cenário familiar. O Toré e as roupas artesanais indígenas parecem compor somente o Centro Cultural. A cachaça e a sinuca ficaram no bar da ‘comunidade da Ponte’, cheio de gente. O aluá fica a mostra pra vender no Centro Cultural.

Do Carmo não pensou duas vezes em sair de casa quando conseguiu aquele dinheirinho extra. Aquele que a FUNAI oferece como auxílio financeiro para cada índio que nasce cuja mãe tenha idade superior a 16 anos. Do Carmo se encaixava bem direitinho no perfil. “Eu tenho 17, fui lá com vovó na Bezerra de Menezes, onde fica a FUNAI, receber meu dinheiro do Ivo”.

Comprou a casinha e agora parecia satisfeita. Estava perto das duas irmãs, Fernanda e Lucicleide, e até de Elton, o outro irmão casado. “Essa casa já foi do meu irmão Elton, aquele que tem diabetes. Vendeu bem baratinha pro homem que me vendeu, só pra comprar drogas. Paguei R$900,00. O homem comprou por R$400,00 ou R$ 500,00 do meu irmão. Mas hoje ele mora aqui atrás com a mulher dele e os filhos.” Mais crianças amontoadas. Mais primos para Ivo brincar. Também tem a filha que sobreviveu de Fernanda, Leandra. Além de Lucicleide, que acha que está grávida. “Essa é minha irmã Fernanda. Só tem a Leandra, viva. Já teve 3 filhos que morreram com poucos meses ainda. Uma de 2 meses, outra de 3 e outra de 4. E era tudo mulher. Mas só Leandra sobreviveu.” Engravidar faz parte da rotina das adolescentes indígenas. “Lucicleide acha que está grávida. Abortou o último sem querer, mas já pegou outro.” “E porque você acha que está grávida, Lucicleide?” “Esse mês não veio ainda e também aah.... eu sinto mexer já”. “Mas como, já? É cedo mulher, se tu tiver mesmo, ainda não dá pra sentir não” “Só o coraçãozinho dando circuito de vida, eu sinto sim”.

A índia-menina-mulher-marisqueira é forte. O desempenho da atividade exigida no mangue ofusca o lado afetivo nas palavras de Do Carmo e o assunto é sempre colocado para escanteio ao longo das conversas. Uma vez, quando pescávamos, Do Carmo riu sem graça quando comentei que o mangue devia ser um ótimo lugar para ‘namorar’. Ela mesmo ficou muda e nada mais falou. Imediatamente mudei de assunto, para não constrangê-la. É difícil abertura, falta espaço, mas com naturalidade...

- Do Carmo, você não tem medo de dormir aqui sozinha com Ivo não?
- Faz medo não. Agora o pai de Ivo tá dormindo aqui comigo uma noite sim, outra não. Hoje ele vem dormir aqui.
- Ah.. agora tá dando pra namorar melhor neh...
(risos envergonhados)
- Tá dando pra viver, Do Carmo? Pra pagar as contas?
- Tá. Agora ele tá me ajudando mais também. Além dos R$ 50,00, ele paga a conta do mercantil, traz umas coisas também. Essa mesa de jantar aí que vocês tão vendo, foi ele quem me deu. A luz a gente faz uma gambiarra puxando da casa da minha irmã aqui do lado.
- Como é mesmo o nome dele Do Carmo?
- Valdenir... Valdenísio... Não sei nem o nome do pai dele direito. (risos)
- Como foi mesmo que vocês se conheceram?
- Ele é amigo do meu tio e eu ia pra casa dele e ele também ia. Nos conhecemos lá. Ele é vigia do Posto de Saúde, aí começamos a nos encontrar lá. Aí pronto, ele começou a me ligar. Quando eu ‘peguei’ o Ivo a mulher dele deixou ele.
- Ele já tinha filhos com ela?
- Tinha, quatro. Tem um que já tem quinze anos e outro que tem um filho também.
- E tu gosta dele, Do Carmo?
- Eu gosto só dele. A gente vai morar junto. Aí eu já tou pensando em vender essa casinha pra comprar uma perto da casa da mãe dele, porque é mais perto do trabalho dele. Sabia que ele não gosta que eu ande com Fernanda não?!?! Ele diz que é porque ela tem marido e gosta de mais dois. E é mesmo, minha irmã é assim.
- Você se previne pra não ficar grávida de novo, Do Carmo?
- Tomo pílula, mas eu quero ter uma menina. Agora não. Deixa Ivinho crescer mais. Quando ele tiver uns dois anos aí pronto. Eu pego outro.

A casa encheu de crianças novamente e impediu a continuidade do diálogo. E lá vem uma das sobrinhas de Do Carmo com um balde, um monte de planta, uma quenga de coco seca e uma faca cega para explicar como foi que Ivinho pegou uma conjuntivite. “Acho que ele pegou essa doença do pó da bucha, do ôi de paia. Quando você tira isso aqui pra fazer a bucha, ou os pêlos do pincel, ele solta um pozinho. Ele deixa o chão super escorregadio, deve ter sido isso que deixou ele doente dos ói.”
Puxa uma ponta da planta, apóia na quenga de coco seca e força a faca cega sobre ela. Logo os fios da planta surgem e, em movimentos repetidos, Do Carmo mostra sua prática a hábil atividade. Seguiu no trabalho por poucos minutos, só tempo de nos mostrar o ‘pozinho’ que saia. Ao final...

- Do Carmo você sabe que a gente tá fazendo um trabalho com essas nossas visitas aqui né? Estamos escrevendo sobre esse contato. Próxima vez que a gente vier, vamos te dar umas fotografias e os textos também.
- Tá certo, quero ver as fotos, mas eu não sei ler muito bem não.
- Qualquer coisa a gente ler pra você.
- Ta bom, tchau.
- Até mais, Do Carmo. A gente liga antes de vir de novo.

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Eduardo Martins - Grupo Tr.e.m.a.
 

Legal Raquel! ... talvez Do Carmo esteja fazendo o caminho que muito outros indios fazem: aos poucos se afastando de suas terras... não sei se é bom ou ruim...

Eduardo Martins - Grupo Tr.e.m.a. · Fortaleza, CE 30/11/2006 11:39
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Sisitematizando: capítulo 1 aqui capítulo 2 aqui e capítulo 3 aqui

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 1/12/2006 12:32
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Viji! Ficou meio trocado! Mas enfim, aih estão os outros três capítulos da série.

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 1/12/2006 12:34
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odracir sotnas
 

a história é ao mesmo tempo rica e triste. gostei do texto, fluente e irônico. menina, você me deu uma idéia! vou fazer uma "reportagem" parecida por aqui pela cidade onde moro.

odracir sotnas · Vitória da Conquista, BA 21/3/2007 16:17
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