Marisqueiras capítulo 3: Mexeram com a cria

Raquel Gonçalves
Dona Neide picando coetro pro feijão
1
Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
16/11/2006 · 255 · 8
 

Vindo lá das bandas do Antônio Bezerra, com o sol quente torrando o juízo, o homem pergunta: "Onde é a casa da mãe da Neguinha?". Da comunidade indígena Tapeba, em Caucaia, todo mundo sabe dizer. "Na rua do orelhão, segue em frete, depois do bar. Uma casa sem reboco com a parede cinza do chalpisco das britas". "Ô de casa!". Maria de Lurdes arregala os olhos. "Ô, mãe, tem um homem aqui com um recado da Neguinha". Dona Neide vem às pressas. "Valha-me Deus, o que foi?".

Mais cedo, Neguinha deixou o filho Maicon em casa. É uma peleja ter que deixar o menino aos cuidados da sogra pra ir comprar sementes embaixo do viaduto da Mister Hall. Nunca o deixa só. Temem que levem o garoto. Não que não confie na sogra, ao contrário... A índia tem medo é do lendário ser Tupi. A Caipora, uma diabinha que tem como travessura esconder menino novo. Tira-o da mãe até quando ainda dentro da barriga. Que dirá sozinho num canto. O medo piorou quando uma vez escutou o assobio. Tremeu, caçou o menino e nada. Minutos depois, lá estava Maicon, tranqüilo na rede, mas na hora parece que a Caipora bota-lhe um venda no olhos. E nada de menino.

Mil recomendações depois, um beijo na criança que dormia ao balanço da rede. Pegou a bicicleta novinha da mãe e o corpo franzino e anêmico da menina de 16 anos pedalou alguns quilômetros até o lugar dos negócios. São as sementes coloridas, que não dão em terras Tapeba, para fazer os colares, que são uma das principais fontes de renda dos indígenas de Caucaia. Vai pegar as sementes que não dão em terras Tapeba e depois dos colares prontos, não é o Centro Cultural que encontra o principal comprador. Nada, lá já tem colar demais. E ainda mais porque tem um dos que estão à frente do Centro que não deixa todo mundo colocar colar lá não, porque se não superlota. Neguinha também nem faz mais questão. Vai pro Mercado Central, pro Centro e ainda tem uns compradores certos, que compram o cordão de três voltas de semente por R$ 2,00 vende por R$ 10,00.

Dona Neide se aperreia com a notícia. Junto a Do Carmo, pega o primeiro ônibus que vai bater naquelas bandas. À sombra do viaduto, encontra Neguinha branca como tivesse visto alma. "Como era o caba?". O tremor e os soluços não deixa ela responder. Engolido o choro, a menina aponta pro beco. "Ele foi pra banda de lá". Neide, então, se embrenha na ruela em busca do rapaz loiro da descrição da filha. Com a boca de quem vai muito além de Roma, bate palmas em frente ao casebre. Um rapaz vem. "Foi esse?". Soluços. "Foi esse, neguinha?". A cabeça afirma. Dona Neide agarra o rapaz pelo colarinho. "Homi, você me dê minha bicicleta". "Fui eu não, fui eu não". "Ande, ande, me dê logo". Sem saber com que forças, Neide lança o loiro no meio da pista, quando uma viatura da polícia pára e vê a cena. "Esse malandro aqui roubou a bicicleta da minha filha", diz dona Neide, sem esperar a possível pergunta das autoridades. "Ele tava com as mãos debaixo da blusa, não sei se tava armado", emenda a vítima. Acusado levado, cria protegida. "Mas quêde minha bicicleta?".

No outro dia, bem cedo, alguém grita que tem ligação do orelhão para ela. Na linha, a mãe do possível ladrão. "Olha, eu dou 50 conto na sua bicicleta". "Como é que é? Seu filho me rouba a bicicleta e tu ainda quer que eu te venda? Vendo de jeito nenhum! Vou é aí buscar".

E numa manhã de sábado, em mais um dia de visita na casa da família de marisqueiras que Maria Lucineide Teixeira Rodrigues, a Dona Neide, mostra o seu troféu. Embora tenha voltado incompleto. Depenada. Tiraram-lhe os pára-lamas e a garupa. "Tava bem novinha, a minha bichinha". "Mas inda bem que a senhora recuperou, né?". "Pois é. Pior tivesse perdido tudo".

Na beira da fumaça

Maria do Carmo, filha de Dona Neide tinha saído para vender os pescados colhidos no decorrer da semana na mangue. Juntou várias cordas do caranguejo e foi pelas bandas da Jurema, distrito de Caucaia. Saiu cedo para pegar a feira ainda em organização. As duas, mãe e filha, pescam no mangue, mas só Do Carmo vai vender os mariscos. É que Neide fica em casa com o filhinho da Do Carmo, o neto de sete meses Ivo e ainda tem que fazer o almoço. Flaviana, a filha mais nova de Neide, ajuda nos afazeres, na maior parte do tempo tomando conta do Ivo, o menino gordo e sorridente.

"Ô, Guga, dê um baizim no menino que ele ta todo mijado". Guga? É, na casa de Maria Lucineide Teixeira Rodrigues só Do Carmo é chamada pelo nome. Um costume Tapeba? "Todo mundo aqui tem apelido, tem minha a Lucicleide que eu chamo Sinhá, o nome da Neguinha é Francisca."

Os cabelos presos sem muito cuidado deixam à mostra o rosto redondo de Neide. Os olhos puxados e as bochechas salientes, Do Carmo puxou dela. A índia Tapeba se atrapalha ao falar da idade, mas garante que é pouco mais de quarenta. Da beira do fogão a lenha, de onde sai o cheirinho do feijão mulatinho e do coentro, dona Neide desembesta a falar de si. O sorriso largo mostra os fios de ouro entre os dentes da chapa. "Era moda quando eu fiz a minha". Os dedos, qual cigana, mas banhados de micheline. "A senhora está sempre com todos esses anéis, dona Neide?". "Nunca tiro não". Os anéis se misturam com o tempero que prepara. E a refeição é assim, com muito condimento. Corta coentro e cheiro verde, amassa o alho, mistura no feijão.

A fumaça impregna nos cabelos, na pele, nas roupas, mas é mais barato que usar o gás. O fogão de quatro bocas só é usado quando vai preparar um mingau pro Ivo ou esquentar uma água. "Mulher, gás é muito caro. E na lenha eu acho que fica mais gostoso", diz Neide, que, a um metro de nós, fala pra quem está do outro lado da rua, com a voz gasguita, animada de receber visita.

Oito filhos e 40 e poucos anos. Oito que vingaram. A primeira menina veio quando Neide ainda despontava na adolescência, estava perto dos catorze. Na época, morava com a mãe, dona Raimunda, e os irmãos bem à beira do mangue, numa casinha de barro construída pelas mãos dos pais. Nesse tempo, a vila onde hoje mora a família de Neide nem tinha sido construída por um dos prefeitos de Caucaia. Gostava muito mais da antiga casa. Mesmo sendo longe de tudo? É, mesmo assim. Tava perto do rio mais limpo, catava pichuletas na areia do seu quintal. Fresquinho, o bicho que vem em duas conchas compridas era aberto e jogado na água quente. A carninha que saía de dentro era misturada com farinha, feito o capitão e metida na goela.

Neide aprendeu cedo a mariscar. Raimunda, a mãe, hoje líder comunitária dos Tapeba, levava Neide novinha e os irmãos pra tomar banho de rio e já ensinava como armava o fojo e ficar na espreita da armadilha. Antes, era muito mais fácil os caranguejos entrarem na lata de óleo sustentada por uma liga de borracha e um pau. Hoje, são menos e menores e os índios e os "brancos" os pescam de todo tamanho.

As saudades são muitas do tempo em que morava no meio da vegetação do mangue. Na croa, lugar onde o rio seca no final de todas as tardes, os tapeba se reuniam. Enfeitados de palha, com cocá, saiotes e dos cordões feitos das sementes do próprio lugar. Só eles e Deus faziam o círculo e a menina Neide no meio, já sabendo todas as músicas do ritual, mesmo sem saber ler uma palavra. Os chocalhos e os tambores anunciavam o início do toré, a dança da guerra, mas também de oferenda religiosa indígena. A menina não sabia direito o que significava, talvez até hoje não a compreenda bem, só lembra que gostava. A meninada seguia os mais velhos que comandava as letras, ora batendo palma, ora com as mãos nas costas. Na canção, a menina moça que quer se casar, o índio guerreiro pronto pra batalha, os pássaros do céu do Ceará.

De vez em quando, perto do Centro Cultural, tem Toré. Na visita de um grupo, no lançamento de um livro, na chegada de uma autoridade. Dona Neide vai às vezes, mas se pudesse, voltava pra casinha de barro e dançava o toré todo dia, não somente para turista ver.

Foi ainda à beira do mangue que conheceu o primeiro companheiro, um pedreiro na construção da ponte do rio, à beira da pista que leva às praias de Caucaia. Ele já tinha família quando conheceu a menina-mulher com os seus treze anos recém feitos. Apaixonado, ficava nas idas e vindas, até que ficou de vez. "Casar, assim, casada mesmo, eu nunca fui não". A primeira filha veio quando Neide ainda era menina, ainda mais nova que Neguinha, tinha quase 14. "Mas eu converso com minhas filhas, para que elas não fiquem de barriga muito novas". As três mais velhas lhe deram netos antes dos 18, costume comum na comunidade.

A cirrose levou o primeiro companheiro. Dos 10 anos de vida de Flaviana, a Guga, só um foi com o pai biológico. O pai que conheceu pelos outros nove foi o Francisco Honorato, que foi para nos Tapeba também pela construção civil. Dos enteados, só as duas mais velhas, Do Carmo e Lucicleide, a Sinhá, o chamam o padrasto de seu Chico. Dos outros, saiu o sufixo e ficou apenas pai.

Apegada ao mangue, apegada aos filhos e ao Neto Ivo, Neide não sabe como é viver sem esses três. A sorridente índia se transfigura quando lembra que Do Carmo promete que, ganhando um dinheirinho pelo nascimento do filho, compra uma casa pra ela e para o filho. A Funai (Fundação Nacional de Apoio ao índio) garante uma ajuda de custo às mães de cerca de R$ 1,3 mil para cada filho nascido. Neide num quer nem saber dessa conversa de ficar longe do menino. "Sei como ia ser não. Porque a gente se apega, né?". Ivo retribui o sorriso da avó. Parece entender as palavras daquela que também é sua mãe. Com o Maicon, o filho da Neguinha, nem é tão apegada, porque não o vê todo dia. Mas a nenhuma falta os mimos da avó.

O trabalho no mangue é cansativo, desgasta. Se Neide pudesse, faria outra coisa, um trabalho menos pesado, e ia pescar de vez em quando. Abandonar os mariscos, ah, isso não ia fazer não. Mas se questão de escolha fosse, ficaria com o toré sempre e o mangue de vez em quando.

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dMart
 

que beleza de reportagem, hein?!

o Overmundo me brindado com belas histórias, humanas, de pessoas simples. que bonito isso.

baita abraço, dMart.

dMart · Porto Alegre, RS 17/11/2006 15:17
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Obrigada, dMart! Que bom que você gostou!

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 17/11/2006 20:38
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Natacha Maranhão
 

ô Angélica! Que coisa mais linda que você encontrou e contou aqui! Adorei a história, adorei o jeito que você escreveu! Parabéns!
Muito bom começar meu dia lendo coisas boas assim.

Natacha Maranhão · Teresina, PI 18/11/2006 07:37
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Ô, Natasha, pode ter certeza que tb foi mto bom "colher" essa reportagem. Você leu o capítulo 1? Esta publicado aqui tb, pode ajudar a entender um pouco o que é a série.
Obrigada!

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 18/11/2006 13:32
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Pedro Rocha
 

Salve Angélica, um retrato feminino muito bonito e sincero.

Sistematizando: Cap 1 e 2

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 20/11/2006 00:38
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Caio Barretto
 

Sim, é uma reportagem, mas de um jeito muito especial, repleta de lirismo e poesia. É também um retrato do nordestino, povo tão cheia de vida, de coração tão imenso. Deu saudade de minha avó, velhinha de Mossoró, lá no Rio Grande do Norte, terrinha abençoada desse mundão de meu deus. Angélica, um abraço!

Caio Barretto · Rio de Janeiro, RJ 20/11/2006 01:17
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Mariana Reis
 

Que texto tão interessante! Não tinha lido os dois primeiros, li "de trás para frente" e gostei do ciclo. Parabéns a Angélica e ao Grupo T.R.E.M.A!

Mariana Reis · Olinda, PE 20/11/2006 10:27
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Obrigada, Mariana! O "ciclo" foi feito através de visitas realizadas durante seis sábados na comunidade Tapeba. Falta ainda um texto de conclusão. Abraço!

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 21/11/2006 10:06
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