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MATAR SEM CAIR NO CLICHÊ

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ANIBAL BEÇA · Manaus, AM
6/5/2008 · 147 · 17
 

MATAR SEM CAIR NO CLICHÊ

Aníbal Beça

Aníbal.beca@vivax.com.br

Matar está tão banalizado que eu vou me ater às mortes sim, mas na ficção dos folhetins de televisão. Até porque o brasileiro não fala em outra coisa. Não sei se sou eu que estou ficando rabugento, mas não sei como se dá tanta importância a essa manjada e gasta fórmula dos autores de novela.

Leitor, amigo, veja se não tenho razão. Faça um exercício, puxe pelos neurônios, cascavilhe a memória visual e auditiva e veja quantas novelas já se utilizaram desse mesmo gancho, desse bordão: “Quem matou a tal da Odete Hoitman?” Para não dizer que não falei do terceiro mandato do Lula, dou aqui o meu palpite: “Foi a falta de criatividade do autor”.

E não me venham com a história de que se faz isso em nome de audiência. O pior disso tudo é o espaço que ainda ganham das mídias impressas. Tudo bem que as revistas de fofoca, que correm atrás do “fiquei” da Ivete Sangalo com o ‘cara da hora’ se debrucem com toda
força sobre o assunto. Como dizia outra personalidade da obviedade border line: “Faz parte”. Agora, jornais de respeito e de responsabilidade, no máximo, deviam dar, com generosidade, apenas dez linhas.

Pois bem, a estética do déjà vu é mais pródiga do que se imagina. Os textos e situações criadas são de uma inverossimilidade bestial. Quem já viu magistrado, delegado, advogado e médico de novela, mesmo não sendo dessas profissões, sabe que esses profissionais na vida real não têm nada a ver com aqueloutros.

Aumentando as linhas do lugar comum, proponho ao leitor fazer um teste rápido aos que assistem novela. Quantas novelas já assistiram com trama de gêmeos, DNA, seqüestro, rapto, prisão do herói sem nenhum motivo?
Mas a campeã é a internação fajuta em hospitais psiquiátricos. E não sei como a ABP Associação Brasileira de Psiquiatria não representa contra a emissora. Todos os psiquiatras são venais e corruptos. Donos de clínica, nem falar.

Será que já não está em tempo de se fazer uma revisão crítica desse produto? Por que confiar nos achólogos do “time que está ganhando não se mexe”? E é claro que sabemos muito bem do prestígio de nossas novelas mundo afora. Mas as que mais ganharam audiência foram aquelas de adaptações de romances como “A escrava Isaura” . (La esclava que ha dejado el comandante Fidel de rodillas...) E as minisséries? “Grande sertão: veredas”, “O primo Basílio”, as adaptadas de romances de Érico Veríssimo,
de Machado de Assis. Mesmo nas novelas há casos de sucesso sem essas fórmulas anacrônicas e corocas: “Gabriela” e todas as de Jorge Amado;
“O bem amado”, “Saramandaia” e todas de Dias Gomes e as de sua imbatível mulher, Janete Clair, no gênero.

Parece que se perdeu também a presença de compositores contratados para as trilhas sonoras. Tempos de “Irmãos coragem”, “Verão vermelho” que revelaram o meu amigo maranhense Nonato Buzar. Dori Caymi, sem opção de trabalho hoje, vai muito bem obrigado, fazendo trilhas para Hollywood. Os irmãos Marcos e Paulo César Valle, Ivan Lins, Nelson Mota, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Chico Buarque no ora veja, dando sopa de primeira e, nada...

E o que se ouve? O som ralinho dos apaniguados do diretor. Aí nos impingem músicas já ouvidas e consumidas como as do Fábio Junior, por exemplo. Por essas e outras é que a nossa MPB anda no ostracismo. Apesar de pequenos sinais como a volta do “Som Brasil”. (Que bom foi ver o velho Ivan Lins cantado por vozes femininas novas).Tomara que nessa onda benfazeja, mesmo mensal, voltem também os musicais como aqueles da dupla Miele & Bóscoli.
Livre é sonhar!

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Regina Lyra
 

Aníbal,
Texto de uma clareza e reflexão
bastante pertinente e atualizadíssima.
Parabens!
"Concordo em gênero, múmero e grau".
Beijos,
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 3/5/2008 20:07
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graça grauna
 

oh, meu Anibal, você não está rabijento não. É que a programação televisiva foi colocada lá pra tirar a gente do sério. Bons tempos sim de festivais com Miele e Bóscoli, e bom sinal com a volta do Som Brasil. Saudades de Edu Lobo, Chico Buarque pra gente sonhar livre. Meu querido, seu artigo aguça a nossa memória. Vo(l)tarei. Abraços, Graça Graúna

graça grauna · Recife, PE 4/5/2008 06:15
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Tita Coelho
 

Aníbal,
teu texto está fantástico! Sabe, não assisto novelas. Acho que o trabalho da novela não é politizar nem nada, detesto "as lições" de moral nas novelas. Acho que foram feitas para divertir as pessoas e só! As fórmulas estão gastas como tu dissestes, sempre tem uma morte que ninguém sabe quem é o assassino, sempre tem um muito mais muito bonzinho e outro que é mal por completo! Tu vê um capítulo e já sabe o que vai acontecer no final, não vale a pena assistir!
Isso que tu falas das adaptações é incrível, não temos mais novelas assim e esse tipo faz muita falta!
Adorei mesmo teu texto!!!
beijos

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 4/5/2008 14:31
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ANIBAL BEÇA
 

Rergina, Graúna e Tita queridas, sempre:
Muito obrigado pela leitura e pelos comentários. Esse artigo, não tem a presunção acadêmica. É apenas a opinião de quem, passant, assiste nossas emissoras de TV e quer discutir a sua linha de programação.
E olha que nem falei da espetacularização dos noticiários com o 'caso Isabela". Uma vergonha sr. Boris Casoy e todos os outros âncoras. Não se salva nenhum.

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 4/5/2008 15:22
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graça grauna
 

Anibal:ainda bem que você nos poupou dos comentários sobre o terrivel caso Isabela. Um horror o que a midia está fazendo; ninguém merece, mas é como você diz: a midia televisiva, sobretudo, apela muito.

graça grauna · Recife, PE 4/5/2008 15:39
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Thiago Camelo
 

Anibal, vc já viu o uso dos manicômios no cinema também?
Todo mundo sempre é corrupto, o lugar é sujo, sempre tem um "maluco do bem" e um "maluco do mal", o personagem principal geralmente sofre uma tentativa de homicídio e, no final, lidera uma mobilização que muda a cara do lugar. O pior é que, por nunca ter estado em um hospital psiquiátrico, acabo tendo inevitavelmente uma imagem distorcida desses lugares... Um abraço!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 5/5/2008 12:52
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ANIBAL BEÇA
 

Thiago, eu sei como são esses estereótipos. Trabalhei como voluntário em Terapêutica Ocupacional, fiz até curso no Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Hoje há campanhas para que a comunidade e as famílias assumam também o tratamento. Eu sou a favor. Sou radicalmente contra o hospitalismo porque é muito cômodo vc. jogar lá pessoas com distúrbio e nunca mais aparecer. Hoje com drogas mais novas os psicóticos são tratados sem problema.A luta agora é 'antinosocomial'. Obrigado pela sua visita e pela leitura.

Abraço amazônico

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 5/5/2008 13:38
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Tita Coelho
 

Anibal, voltando e relendo teu texto que está perfeito e votando!
beijos

Tita Coelho · Porto Alegre, RS 5/5/2008 18:32
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Cristiano Melo
 

Existe até um termo alemão para essa "sede" por violência dos consumidores de mídia em geral, mas não recordo agora, acho que um alimenta o outro, a mídia e o que a consome....Muito bem escrito, votado novamente, caro overmano.

Cristiano Melo · Brasília, DF 5/5/2008 19:11
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Cintia Thome
 

Anibal, Hoje não há mais finais "felizes para sempre", há assassinatos em massa de personagens e aí a vida atrás das telas prateadas ficam
com assassinatos banais e nada mais. A linguagem é a mesma:destruição.
Esta semana fiquei a ouvir as letras de Raul Seixas, algumas já antevendo futuros, mas a base era o Amor, amor a si próprio e ao próximo.Hoje celebridades (avacalharam com a palavra) são os filhos do BBB, ou dançarinas da garrafa e outras idiotices.
Tempos dos festivais, dos bons shows de Nara Leão, Bethania, Ivan Lins, Toquinho...se estivessem começando hoje seriam esmagados pela mídia dos idiotas que dão "selinhos e beijos na boca"...
As novelas tinham um recado, mostrava educação, interpretação, sentimentos ilibados...
Esta geração terá vida curta,pois só de ouvir Música tecno já está a perder o raciocínio.
Uma vergonha...Prefiro o Maluco Beleza aos Malucos sem beleza...(rs)
Boa sua análise, muito vasto em conceitos e onde está o direito de ser são e feliz.

Cintia Thome · São Paulo, SP 6/5/2008 10:17
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ANIBAL BEÇA
 

Cíntia querida, ´e isso aí mesmo. Mas a garotada está sendo salva por aqui pela Internet, creio eu. É o que eu tenho visto. Estou fazendo, a pedido de uma revista, um artigo sobre a Bossa-Nova, que este ano completa 50 anos. Só que eu dou maior atenção à música feita na Amazônia, que é completamente desconhecida do outro Brasil. Proximamente vou postá-lo aqui.

Um cheiro da floresta

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 6/5/2008 11:09
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alcanu
 

Publicado !

alcanu · São Paulo, SP 6/5/2008 19:10
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Benny Franklin
 

Querido, Parceiro de Over e Veropoema, Anibal Beça!

Ter a possibilidade (diária) de ler teus amazônicos escritos,
é qualquer coisa fantástica e inesplicável...

Parabéns, grande Mestre!

Abçs.

Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 6/5/2008 19:45
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Karimatra
 

Caríssimo Aníbal,
Gostei do texto; penso, contudo, que a nossa indiferença é o melhor antídoto.

Karimatra · Salvador, BA 6/5/2008 20:41
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Rute Frare
 

Sabe de uma coisa? Os humanos constroem seus caminhos de forma muito peculiar... Não sou contra nem a favor... é a nossa maneira de evoluir.
Gosto dos teus questionamentos
Beijão

Rute Frare · São Paulo, SP 6/5/2008 21:56
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ANIBAL BEÇA
 

Karimata e Rute, muito obrigado pela leitura e pelas palavras opinativas. A indiferença a que vcs, se referem é muito questionável. Como dizia aquele personagem: "Há controvérsias!
No meu ideário de vida nunca estacionei 'em cima do muro'. Sem estive em discussões polêmicas e atuantes. Bati com os costados por duass vezes nas celas da Polícia Federal.. Por participação em festivais de MPB. Tive muitas músicas censuradas e otras cositas más. Quando a coisa apertou me mandei para o Rio de Janeiro. Foi pior a emenda do que o soneto. Mas isso é assunto de memória, não sei nem se a escreverei. De qualquer maneira, sempre fui combativo.Por mais que não aconteça nada de mudança, pelo menos exercitei um pouco de catarse ao "cair no redemoinho pra dizer e denunciar". É isso, amigos.

Abraço com cheiro de patchuli

deixo um haicai:

ABRO O ARMÁRIO E VEJO
NOS SAPATOS MEUS CAMINHOS.
QUAL VIRÁ COMIGO?


ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 7/5/2008 12:33
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Lili_Beth*
 

Olá Anibal!

Arregaçando as mangas e correndo atrás dos sonhos ... Eles dificilmente correrão atrás de ti.
Belo texto!

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2008 17:18
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