Flash, e pronto: eis aí, um instante capturado - com o Senhor Tempo se rendendo - fixando cenas e mais cenas da vida real. Parece que cada cidadão desse planeta carrega um apetrecho digital capaz de fotografar os múltiplos instantes de uma realidade que, nem capturada, pode se dar ao luxo de dizer que é verdade. Sim, porque foto é tudo mentira! Uma vez fotografado e pronto, já era. É uma maneira fantástica de capturar passados. Portanto, meu caro, aquela sua foto preferida, com um sorriso de morte na boca (escancarada), não passa de um fantasma, ghost!
Já foi o tempo em que a imagem mais representativa do fotógrafo (um quase-ícone) era a cara de um japonês turista sorridente. Isso, agora, é coisa de gibi. Hoje em dia, qualquer um pode botar um sorriso idiota na cara e: click!
Fotografar profissionalmente é outra coisa. É trabalho.
A poesia, na fotografia, surge como um clarão, quando lembro da frase que nunca deixa de me causar um certo espanto: “-Nossa, essa foto parece uma pintura!” E vice-versa: “Nossa! Essa pintura parece uma fotografia de tão real.”
Ninguém, nem nada, supera a realidade com seus mais de mil momentos que passam diante de nossos olhos, olhos de hidra, olhos de mel, olhos de gueixa, melaço escorrendo dos seus doces olhos. Deixo a tarde escorrer no pôr-de-sol incendiário. Fico trançando as pernas de tanta luz. Bêbada luz que serpenteia sob meus pés.
Mas estava falando do sentimento poético que emana de uma bela fotografia: quase sempre somos tomados por uma sensação de êxtase ao ver uma paisagem bem registrada, o sentido ultrapassa a mera condição geográfica, tem uma harmonia que provoca prazer. Talvez, pela capacidade de redimensionar pedaços dessas paisagens, revelando outros equilíbrios, artificiais, recortados, emoldurados, reflexos da consciência humana, outros olhares possíveis, perceptíveis a partir de uma construção, de uma elaboração, de um conceito que não se restringe ao olhar passivo: existe uma consciência sobre os processos de construção da imagem, como. luz, enquadramento, tempo de exposição, velocidade das ranhuras, se for filme. é de um jeito, digital. é de outro e por aí vai.
Comecei esse artigo aqui com a idéia fixa de escrever sobre a fotografia em Mato Grosso e, cheguei à conclusão de que não dá para falar de uma história da fotografia matogrossense (primeiro porque não tem tradição), sem falar de um fotógrafo (absolutamente genial) sueco, sim, estou falando do cineasta e fotógrafo sueco, Arne Sukcsdorf. Cineasta fera - amigo de Ingmar Bergman, amigo de Stanley Kubrick, que o hospedava em seu castelo, quando Arne ia apara a Inglaterra - ganhador de um Oscar e um Palma de Ouro, em Cannes, com o curta-metragem “Os ritmos da cidade”, filme realizado em 1947. Veio ao Brasil, em 1963, para ministrar um curso de cinema no Rio de Janeiro, onde foi professor de: Cacá Diegues, Gláuber Rocha, Lauro Escorel, Joel Barcelos, Dib Lufti, Arnaldo Jabor e Joaquim Pedro de Andrade. Arne deu grande contribuição ao Cinema Novo.
Depois disso, se mudou para Mato Grosso, foi morar no Pantanal, casou-se com uma índia, com quem teve filhos e ali viveu por 12 anos – entre corixos e tuiuiús, jacarés, sucuris, araras, antas, garças, água – muita água; viveu como um Lord Greystoke pantaneiro, Tarzan para os menos íntimos. Experimentou, por esses 12 anos, uma completa intimidade com os elementos naturais, bichos ao vivo e totalmente a cores, com sol exuberante praticamente o tempo todo. Entre silêncios e silvos cortantes, homem e natureza num jogo lúdico e selvagem. Em nenhum momento, Arne deixou as lentes de lado, ou para trás, continuou fotografando e lutando pela vida do Pantanal. Ele era um intransigente defensor da causa ambiental. Lançou o livro “Pantanal: um paraíso perdido?”, editado pela Fundação Roberto Marinho, distribuído também na Suécia onde vendeu mais de 100 mil exemplares.
Um grande número de novos fotógrafos vem se revelando, em Cuiabá, nesse momento. O que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas novas, bastante jovens (na faixa dos 20 anos de idade), postando fotos incríveis aqui no Overmundo - alguns falarão da luminosidade, transparência, diversidade de paisagens... etc. Mas Mato Grosso tem tradição pictórica forte. Daí, talvez, essa onda visual, de valorização da imagem e das facilidades, é claro, que são oferecidas hoje pelo grande número de apetrechos capazes de registrar imagens.
Mário Vilela e Izan Petterle, estão tramando a criação de um núcleo de fotógrafos para consolidar essa tendência e promover uma integração criativa e produtiva. São dois dos melhores fotógrafos daqui. Izan hoje está trabalhando para a National Geographic e vive viajando. Mora entre Rio de Janeiro, São Paulo e Chapada dos Guimarães. Mário Vilela é free-lancer, já atua há um bom tempo no mercado matogrossense, com muita qualidade, diga-se de passagem e é outro que, recentemente, passou a ser colaborador do Overmundo. Mário é do time que já expôs seus trabalhos em galerias de arte. A idéia de Izan e Vilela é fortalecer as iniciativas associativas-coletivas para revelar autores fotográficos, animar e dar um rumo profissional aos novos talentos do Mato. A galera quer fortalecer o setor e conta muito com o Overmundo para alavancar esse movimento pela fotografia matogrossense. Talita Marimon, Sara Castilho (overmana Castália), Fochesatto, Dolores de Cheshire, Uirá, Cláudio Careca (2º lugar na categoria amador, de um concurso de fotografias promovido pelo Museu da Imagem e do Som de Cuiabá em 2006) são nomes que estão postando suas fotos com regularidade e conquistando uma posição muito legal no Overmundo.
Lembro agora, nesse exato instante, da qualidade fantástica dos clicks de Mário Friedlander, na minha modesta opinião um dos melhores fotógrafos que já conheci. Não conheci muitos, é verdade, mas o cara tem um olhar privilegiado e ao longo dos anos de carreira profissional desenvolveu um grande apuro técnico. É um cara criterioso, auto-crítico, minucioso, mas que trabalha com muita liberdade artística também. Já experimentamos algumas sessões de trabalho juntos. Sempre rolou legal. Muito talento tem o Mário, seu trabalho repercute bastante. É outro ambientalista intransigente, seu acervo é grande, de Chapada dos Guimarães a Vila Bela, onde reside atualmente, passando pelo Pantanal, por várias manisfestações culturais típicas de Mato Grosso, como a cavalhada em Poconé, os caretas em Guiratinga, tudo isso já passou diante de suas lentes, e muito mais.
Lembro do Foto Chao, nome do estúdio de Lázaro Papazian (não, não é um paparazzi!), um cara que fez uma história pessoal em Cuiabá como fotógrafo, em meados do século passado, circunstancial, creio, uma vez que tem algo de “oficial”, de padrão mediano, dessas pessoas comuns que fizeram a festa em milhares de municípios brasileiros. Quem não se lembra do fotógrafo “oficial” de sua cidade nesses interiores do Brasil? O Chao ficou famoso aqui em função de ter sido um dos raros casos em que fotografou, praticamente sozinho, uma infinidade de eventos da velha capital matogrossense: a arquitetura colonial, uma visita do presidente Getúlio Vargas a Cuiabá, eventos de governos, pessoas a passeio, com trajes das décadas de 40, 50, automóveis da época, enfim, seu acervo é valioso como registro histórico, memória de uma cidade que foi totalmente transformada.
Izan reflete sobre o trabalho do Foto Chao: “O trabalho de Lázaro Papazian, conheço só uma pequena parte, tem uma importância histórica para Mato Grosso. Parte dessa memória foi guardada por ele, a derrubada da antiga catedral de Cuiabá é um importante exemplo, quanto a relevância "artística" da obra tenho dúvidas, a mim parece um registro pouco expressivo dessa época”.
Então, aqui não tem tradição na fotografia, como disse o fotógrafo Izan Peterlle. O Izan é daquelas boas surpresas da vida que nos mostra como o talento está acima de qualquer suspeita, inclusive em relação ao tempo, o cara começou a fotografar por gosto, quando morava em Chapada dos Guimarães, desenvolveu o olhar, aprimorou a técnica, investiu com firmeza na carreira e aos 40 anos (um privilégio), conseguiu um lugar onde muita gente, nessa área, deve desejar trabalhar: na revista National Geographic.
Izan continua focando: “Diz-se que na modernidade a imagem acabou, já era, o que sobrou é o conceito. Uma imagem para ter um significado importante, deve ter uma forte carga conceitual, além da imagética. Talvez, esse seja o ponto de partida para podermos avaliar a produção atual, que é feita em Mato Grosso. A atividade fotográfica é muito ampla, desde as chamadas "reportagens sociais", produtos, especialidades médicas, fotojornalismo, até mesmo artes plásticas. Essa atividade pode ser uma profissão rentável desde que, além de um certo talento, você tenha capacidade de investimento financeiro, como em qualquer outra atividade empresarial.”
Laércio Miranda é outro fotógrafo de muito talento, em Cuiabá. Fotografou e escreveu para a revista Terra, trabalhou para a Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e publicou um livro temático , “Cuiabá – um olhar sobre a cidade”, com poemas de Aclyse de Matos. Marcos Vergueiro, também publicou suas fotos, um olhar pela causa ambiental, “Transpantaneira – passarela da fauna e da flora.” Enfim, existe um ambiente para o desenvolvimento da fotografia em Mato Grosso.
A maioria dos fotógrafos sobrevive de trabalhos no foto-jornalismo, publicidade, assessoria política e outros campos de atuação no mercado. É complicado um mercado de arte para a fotografia, agora cabe aqui uma pergunta: o que é, e o que não é, arte? Quais são os meios de sobrevivência para essa categoria de profissionais? Passo o olho por aí, e vejo fotos de alto impacto artístico, no jornalismo, nas revistas de moda, na publicidade, na internet, até mesmo nos acervos pessoais, que podem, ou não, alcançar esse tal estatuto: arte! Ir para museus e galerias mundo afora.
O Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MISC), está ligado nessa movimentação e criou um concurso de fotografias para profissionais e amadores, como estímulo ao desenvolvimento do segmento. Segundo, o produtor cultural e conselheiro de estado de cultura, Paulo Traven, diretor do MISC, o concurso foi criado como uma forma de “aproximar os fotógrafos, do Misc, criar uma efervescência, para viabilizar e desenvolver esse segmento. O concurso, que teve, em 2006, a cidade como tema, tem como objetivo, também, constituir um acervo contemporâneo de Cuiabá.” Segundo ele, o Museu trabalha para fomentar, formar e conservar o que já existe.
Izan conclui nossa panorâmica,com uma citação que traduz muito bem sua história de vida: “O Ansel Adams, famoso fotógrafo paisagista norte-americano, dizia: 'Alguns ganham a vida com a fotografia, para outros a fotografia lhes dá a vida'. Estou nessa!”
No princípio era o verbo. Ou foi a luz?
E que golaço, Eduardo. Sinceramente, o texto (um pouco longo, mas necessário) pedia mais e mais fotos.
Tom Damatta · Araguaína, TO 23/1/2007 00:06
Bom como tudo o que vocÊ faz, Edu.
Aliás, já foi lá no Viajante Imóvel ver o meu comentário sobre o eu nóia? ;-)
Abraço forte!
valeu tom, cara, tentei colocar algumas fotos aqui, do próprio Banco de Cultura, não deu certo...aí coloquei os links dos overmanos. não consegui também contactar alguns fotógrafos citados no texto. sei lá...final de semana...enfim, deu no que deu.
fábio, li sim, cara, será que é isso mesmo? você falando, a coisa é muito séria...pois sua credibilidade (ao menos para mim, é incontestável!) está acima de qualquer suspeita. quem quiser conferir a resenha sobre eunóia no blog "O Viajante Imóvel" clique aqui. obrigado fábio, vou espalhar esse texto aqui em cuiabá. valeu!
Legal. A fotografia entrou na minha vida de modo definitivo. Sempre amei a fotografia e tenho agora uma responsabilidade imensa com o curso de fotografia (introdução às técnicas fotográficas) na UFMT.
O acervo do Chao está na UFMT são milhares de imagens que se naum possuem um valor "artístico" tem documental, dado que ele era o único a registrar estes momentos.
Bom EF, realmente Kdê as fotos??
Caramba, Eduardo. Com um texto denso como esse, cheio de sacadas poéticas sobre fotografia, você me deixa babando de vontade de conhecer logo a tua terra. Estou, há alguns anos, viajando num motorhome (em etapas, claro), registrando peculiaridades de lugares e do povo brasileiros. Não vejo a hora de ganhar o rumo daí. Apesar da tua explicação nos comentários, concordo com o Tom: o texto é digno de mais e mais fotografias. Um abraço tocantinense, camarada!
Antonio Rezende · Palmas, TO 23/1/2007 18:37Ah, Eduardo. Você manja de contar espinhos em cacto? Tem visão apurada pra achar um intrépido grilo-falante-enrustido? Já viajou na prosa do Big Bosta Brasil? Hehe. Dá uma viajada nisso.
Antonio Rezende · Palmas, TO 23/1/2007 18:40
Ôpa! Na verdade, eu quis deixar um link com o "Dá uma viajada nisso" do comentário anterior.
E já que o assunto é fotografia, quero que veja esta galeria
Até!
Muito bom ver aqui seu texto sobre a fotografia no MT. Acho que falta mais reflexão sobre a fotografia (que é, sim, arte!) no Brasil. Principalmente agora, com a introdução do digital, que está revolucionando e democratizando a linguagem fotográfica. Valeu!
Ilhandarilha · Vitória, ES 23/1/2007 23:38
A fotografia em é fascinante, mais uma vez o Ferreira (se me permite a itimidade) nos surpreende.
Abraços
Valeu Eduardo, linda foto e parabéns pelo texto, poesia e informação!
Rodrigo Nogueira · Rio de Janeiro, RJ 26/1/2007 16:40valeu caros colegas. adelante. é o brasil que não conhecíamos, aqui é o lugar, continuemos revelando em fotos & fatos.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 26/1/2007 17:41Fala Eduardo! Ficou muito bom e corajoso o teu texto a respeito da história da fotografia matogrossense. Esse é um território escorregadio, pois como vc escreve e descreve, toda essa trajetória é feita por "paus-rodados". Todas as pessoas que vc cita, exceto talvez o mais jovens e que tb devem ser filhos de gente de fora, são pessoas que vieram de fora. Constatado isso, fica muito difícil falar de uma fotografia "matogrossense", o quee temos é uma descrição imagética baseada em um olhar estrangeiro, o que tem lá as suas vantagens, ou desvantagens. Quem sabe?
Izan Petterle · São Paulo, SP 13/3/2007 22:21
Muito legal. Brava e talentosa gente cuiabana. Quem se lembra do I Encontro de artistas visuais do Centro Oste ? Aconteceu em 88 na Casa de Cultura e em praça pública, promovido pela turma da AME, da UFMT com curadoria do Bené Fonteles.
Um encontro inesquecível.
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