Matrix brasileira: niilistas,iludidos e psicopatas

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Tomazio Aguirre · Santo André, SP
7/12/2006 · 15 · 8
 

O decadente Brasil atual tem gerado tardiamente sua legião de niilistas pensadores.

Niilista, para quem não sabe, é o sujeito anti-humano. Mas “anti”, aqui, no sentido passivo, de oposto, invertido, não de ser contrário, inimigo; embora muitas vezes esses dois conceitos se misturem, e muitos niilistas criem inimigos com quem lutar.

Niilista é o sujeito que esvazia seu sentido para a vida dentro da visão de mundo e valores tipicamente humanos, da cultura ou ontologia da qual ele faz parte, e sem se apegar a novas fantasias utópicas que lhe tragam novos valores, como comunismos, variadas filosofias, novos cristianismos, neoliberalismos, nazismos, etc. Comumente é o resultado pensante da tragédia, do heroísmo que se debate contra o poder supra-humano. É o sujeito que, após compreender a essência irreal de seu ser, de suas crenças, de seus valores, não se apega a outras e se mantém, enquanto possível, ou inevitável, em um limbo existencial, em um vazio existencial, sem novas afiliações valorativas, religiosas, teóricas, ontológicas, etc. Praticamente toda a filosofia ocidental é resultado de momentos niilistas de algumas pessoas que se tornaram posteriormente consagradas como grandes filósofos. A maioria destes, no entanto, no momento seguinte à sua perplexidade diante do nada que lhe possibilitou colocar em palavras tudo que antes era inerente ao seu mundo de crenças anterior, torna-se algum ideólogo ou afiliado a alguma crença ou nova visão de mundo, a qual traria a possibilidade de salvar o mundo decadente que gerou sua desvalorização de tudo, construindo outro mundo em seu lugar. Portanto, geralmente, mas não sempre, o niilismo é pai das utopias racionalistas humanas. Assim nasceu a própria crença no conhecimento racional e nas ciências, o positivismo, a transcendência humana de Nietzsche, algumas elaborações mais complexas de algumas religiões (como o catolicismo), o marxismo, o comunismo, o nazismo, a psicanálise, etc. Nem sempre alcançam construções ontológicas de novos mundos, mas muitas vezes alcançam grupos de seguidores, às vezes maiores, às vezes menores, às vezes mais duráveis, às vezes muito passageiros. Praticamente a modernidade ocidental é uma mistura de várias criações racionalistas pós-niilistas, somadas a valores e visões de mundo mantidos tradicionalmente, geralmente trazidos por religiões e traços culturais tradicionais. É uma Torre de Babel, que só aparenta ser viável quando transformada em moralismos e utopias acadêmicas, na forma de “multiculturalismo” ou democracia racial, ou cultural; como era até bem pouco tempo festejado na Europa. Porém depois que as minorias africanas e árabes demonstraram, com revoltas e “terrorismos”, que não estavam muito contentes com o seu papel de subempregados e sub-humanos, o valor utópico atribuído ao multiculturalismo entrou em crise, de modo que os europeus estão novamente tentando ver se conseguem manter os árabes, africanos e latino-americanos do lado de fora – explorados apenas à distância.

A maioria dos niilistas brasileiros, ao contrário dos niilistas pensadores, são niilistas "práticos". Quer dizer, são niilistas de ação, não de introspecção e reflexão. O brasileiro não consegue pensar sobre o estado de coisas que o cerca. Assim, no Brasil, só existe o niilismo não-pensado, do sujeito que deixa de ter uma inserção real em uma cultura que lhe dê sentidos e valores coletivos, tornando-se um sujeito auto-centrado, tendo como único destino para sua vida a sobrevivência imediata e a busca de prazer, às vezes com tentativas desvairadas de tentar reconstruir um mundo dotado de sentido (geralmente por meio de religiões ou ideologias intelectuais).

Mas tudo isso de um modo sem reflexão, sem conseguir colocar seu esvaziamento cultural em palavras e idéias passíveis de serem compartilhadas com outras pessoas. Mesmo quando alguns niilistas brasileiros conseguem expressar publicamente o que percebem do caos nacional, como eu, neste blog, e como aqueles que vou mencionar logo abaixo, o fazem sem alcançar visibilidade, ou sendo muito mal recebidos pelos demais brasileiros, já que estão colocando em palavras aquilo de que o sujeito comum não quer saber: que o seu mundo de sonhos civilizatórios e burgueses está chegando ao fim, e em seu lugar não surgirá nada humanamente emancipador, apenas caos e destruição, todos lutando contra todos por migalhas - e isso de modo mais precoce do que os pensadores niilistas europeus anteviram para a própria derrocada da sociedade ocidental moderna.

Quase todos estes niilistas práticos brasileiros são pessoas que aderem de forma radical à vida do aqui-agora, do egoísmo extremo, do cinismo total, do matar ou morrer para realizar no momento imediato aquilo que lhe deixe com a sensação de estar vivo, de a vida lhe fazer sentido, em geral tendo prazeres intensos, ou correndo, mesmo sem saber por que, atrás de dinheiro e de poder sobre outras pessoas, com a expectativa de que isso lhe traga prazer e uma vida novamente dotada de sentido – embora o sentido real se torne, no máximo, a própria corrida. É o niilista que se afilia, mesmo sem conseguir explicar muito bem isso, ao hedonismo e a qualquer tipo de luta por poder. Usuários de drogas pesadas; os “deprimidos” suicidas; os traficantes que ascendem rápido demais ao poder no tráfico; grandes empresários que transitam entre o lícito e o ilícito (tráfico de influência, subornos, assassinatos, fazendo altas apostas por ter em mente que podem se matar se suas apostas derem errado); políticos profissionais que se arriscam pesadamente no tudo ou nada em busca do poder social ou de materializar suas fantasias de reformas sociais; muitas pessoas que vivem para a satisfação sexual total..., entre inúmeros outros perfis, são todos alguns exemplos mais óbvios deste niilismo prático brasileiro (embora não apenas brasileiro, mas que tem predominado neste país decadente).

Quer dizer: na ausência de reflexão sobre seu colapso, o Brasil tem se tornado precocemente um país em acelerada ruína, com sua população rapidamente tornando-se niilista prática. Esse niilismo prático, contudo, ainda se disfarça bem em cinismo e hipocrisia, para lidar com as enganações sobre os outros, no dia-a-dia na merda, e para preservar uma razoável imagem de país viável para o resto do mundo; de modo que o escancaramento do cinismo e da hipocrisia a disfarçarem o vale-tudo ainda está razoavelmente restrito aos subterrâneos do jogos institucionais (das empresas, associações e governos). Felizmente a maioria das pessoas continua acreditando em alcançar alguma coisa através do dinheiro; e quase ninguém concegue, no dia-a-dia, perceber as coisas como os raros niilistas pensantes brasileiros fazem. A alienação em torno da vida econômica diária, sustentada por ilusões variadas, inclusive a de que o dinheiro trará algo, é das poucas coisas que restou a sustentar o Brasil como povo. Embora pareça que mesmo isso não vai mais muito longe: esté se tornando muito grande o número de pessoas que não podem nem mesmo se apegar a esse fugaz sentido para as suas vidas.

Em suma, boa parte daqueles que seriam considerados “psicopatas” (ou sociopatas), pelas fantasias psicológicas, estariam reunidos nisto que estou explicando como sendo niilistas práticos. O Brasil, desse modo, está passando, gradualmente, ao longo da segunda metade do século XX, e deste que se inicia, de um povo predominantemente cordial a seus coronéis, padres e doutores, a um povo sociopata, não mais cordial aos seus novos políticos, pastores e lideres (a maior parte destes igualmente sociapatas, e o restante, profundamente iludido) - embora uma boa parte da população, que não é mais maioria, ainda persista vivendo cordialmente em ilusões.

O Brasil, como um acumulado de gente artificialmente reunida em um mesmo território, e se expandindo numericamente ao sabor do instinto e da sobrevivência, foi perdendo rapidamente, ao longo do século XX, os poucos alicerces tradicionais, aqueles vindos das culturas que o originaram, e que poderiam transformar esta massa humana em uma cultura razoavelmente viável, como o cristianismo católico e a hierarquização rural colonial, escravista ou pós-escravista, que não liquidaram totalmente as culturas que as estruturaram - como tem acontecido da segunda metade do século XX para cá, de modo mais acelerado.

Não surgiu, no Brasil, na esteira dessa decadência do tradicionalismo, os alicerces da racionalidade técnica que ajudaram a maioria dos países europeus e os Estados Unidos a prorrogarem por mais tempo a sua decadência cultural: uma ética utilitarista, um razoável controle de natalidade, um meio jurídico com razoável lógica, e uma vida empresarial com suficiente habilidade técnica para conseguir explorar outros povos e para produzir futilidades tecnológicas em escala mundial, levando para além de suas fronteiras a decadência predatória que esta vida mercantil desmesurada acarreta (algo no qual está presente um "que" de niilismo prático, de destrutividade, mas que estes países conseguiram jogar, em parte, para fora de seu território, para as sub-nações como a brasileira). Também os tradicionalismos que persistiram no Brasil até o século XX não estavam suficientemente arraigados como em nações européias, e até mesmo na norte-americana; para que o país conseguisse resistir por longo tempo à decadência ocidental.

Na esteira desta destrutividade, jogada, em grande parte, para fora de seus territórios, muitos países europeus geraram, no século XIX e XX, seus niilistas racionalistas, reflexivos, que antes de criarem salvações utópicas descreveram e nomearam o próprio niilismo pelo qual passavam. Foram pensadores que conseguiram colocar em palavras, em linguagem articuladamente lógica e acessível a outros racionalistas, a essência auto-destrutiva de sua própria cultura, a ocidental cristã-racionalista. Dois nomes famosos deste niilismo pensado foram Schopenhauer e Nietzsche.

Arthur Schopenhauer conseguiu, com clareza, explicar que a essência da visão de mundo da cultura ocidental não passa de criação intelectual do modo de pensar do homem ocidental, fundamentalmente baseada nas crenças que a ciência constrói como se fossem verdades lógicas e objetivas. Crenças, aliás, nas quais a maioria dos ocidentais e proto-ocidentais (como os brasileiros e a maioria dos asiáticos, africanos e latino-americanos) ainda acreditam, com uma futurologia baseada no avanço técnico da ciência a superar os atuais problemas humanos que estão levando este mundo, como ainda o vemos, às suas ruínas. Assim, enquanto o modo de pensar do ocidental criava, sobre as ruínas de misticismos variados (como o cristão), uma certa visão de passado, presente e futuro, um dado modo de conceber e se situar no mundo (é isto que estou aqui chamando de ontologia), sua vontade cega de seguir adiante, de procriar, de não morrer e de se expandir, o levavam a viver, na prática, de um modo não necessariamente concernente com seu modo de pensar. Ou seja: Schopenhauer, como tantos outros, teve que ser esquecido ou muito distorcido, quando lembrado no século XX, para que a filosofia acadêmica, e depois as psicologias, seguissem adiante com seus debates aprisionados num modo de pensar estéril.

Já Friedrich Nietzsche, em continuação a Schopenhauer, explicou, também de forma clara e de fácil acesso, que a ilusão na qual a maioria das pessoas viviam no século XIX (e vivem ainda hoje), esconde a realidade auto-destrutiva da cultura ocidental, da qual faz parte a própria possibilidade de pessoas se esvaziarem culturalmente, tornando-se niilistas. Na verdade, esta ilusão ocidental de acreditar em seu progresso contínuo, ou em sua estabilidade cultural, com persistência de seus modos de vida, nada mais é do que o último nível em que uma sociedade pode se ancorar para não acelerar ainda mais sua auto-destruição, quando as verdades do que está a ocorrer tornam-se insuportáveis, com potencialidade de acelerar a própria autodestruição, caso escancaradas - por isso a primeira atitude prática dos utópicos, quando chegam a algum poder, é calar os que continuam querendo pensar e falar sobre a realidade. A ilusão racionalista é um último lugar de vida para o ser humano: não por acaso o marxismo e as ciências humanas em geral, com seus humanismos racionalistas (incluindo os pretensamente "irracionalistas" e os primitivistas), prosperaram tanto no século XX. Porém, à medida que esta ilusão coletiva se restringia a produções intelectuais alienadas da realidade, toda ação humana passava a se orientar, cada vez com menos contenções morais, pelas lutas por poder, com satisfação e realização apenas vindas das sensações pessoais de empoderamento. Empoderamento que pode ser intelectual, como o próprio Nietzsche fez em relação a si próprio, e todo intelectual também faz; ou empoderamento político, social e econômico, ou mesmo o de poder causar a morte e a destruição. O deleite de causar destruição pela destruição também tornou-se humano, típico dos niilistas práticos.

Mas o Brasil, estes proto-país ocidental, que entrou em processo de acelerada autodestruição antes mesmo de ter alcançado um nível real de estado-nação, e de alguma estabilidade de seu povo enquanto cultura, jamais gerou, até onde tenho conhecimento, antes da década de 1990, niilistas pensantes, racionalistas. Existiram vários reprodutores do pensamento de Nietzsche dentro do alienado academicismo brasileiro, mas estes eram mais papagaios colonizados do que pensadores que uniam o que liam com a realidade que os cercava. Assim, pensadores que tenham conseguido ver com clareza e discorrer com razoável lógica como o Brasil está metido nesta auto-destruição da cultura ocidental não houve. Alguns escritores, como Lúcio Cardoso (não por acaso esquecido), tentaram expressar, literariamente, a inviabilidade do Brasil. E outros esquecidos também devem ter existido...

Fora estes esquecidos e ignorados pela bestialidade da vida intelectual brasileira, cheguei a ver, já nesse começo de século XXI, com razoável interesse, o nacionalista Hélio Jaguaribe tendo que reciclar sua visão esperançosa e militante acerca do Brasil, já depois dos 80 anos de idade, para entender que fim estava levando a pátria e o mundo com os quais um dia ele havia sonhado. O vi fazer isso apressadamente, no livro “Estudo Critico da Historia”, na correria dos poucos anos de vida lúcida que lhe restavam, para pelo menos não morrer tão enganado quanto vivera a maior parte de seus dias - é muito sofrido, para quem é "amigo da verdade", perceber-se iludido, principalmente intelectualmente iludido.

Uma excessiva síntese desse seu trabalho pode ser a seguinte: povos e civilizações desaparecem, tanto por fatores internos quanto externos, no embate com o meio ou no encontro com outros povos. Torna-se fácil, mesmo que indiretamente, perceber que o Brasil está em sua sobrevida. Daí a ilusão de Jaguaribe, ao longo de sua vida, de ter acreditado que governos brasileiros governavam, ou que poderiam fazê-lo. E pelo jeito, em parte, sua ilusão militante continua sendo a mesma: em 2006 ele ainda levou propostas, de como salvar o Brasil, aos candidatos a eleição presidencial (ww2.ie.ufrj.br/desenvolvimento/pdfs/o_desenvolvimento_do_brasil_prazos_e_requisitos.pdf). Mais uma vez para eles acharem muito bonito, sensato e aplaudirem; para depois voltarem aos seus atos cotidianos de governança e de disputas por cargos, o que nada tem a ver com o governo de um país que caminha previsivelmente para o colapso. As governanças políticas brasileiras fazem parte do colapso, não tendo nenhum poder real sobre ele.

Já de modo bem mais claro e direto do que Jaguaribe, e bem acessível a quem quiser ouvi-lo (http://www.archive.org/details/Bate_papo_com_Olavo_de_Carvalho), deparei-me, nos últimos anos, com Olavo de Carvalho; e, para minha surpresa, fiquei sabendo a pouco que ele tornara-se mais um refugiado brasileiro nos EUA. Olavo, contudo, pelo que vi e ouvi, parece um refugiado um tanto quanto diferente da maioria dos refugiados brasileiros naquele país. Ele não está lá, em princípio, apenas seduzido pela nova religião mundial, a do consumismo de futilidades tecnológicas, nem apenas fugindo do caos nacional que tem tornado a vida no Brasil insuportável. Embora também esteja fugindo da tragédia brasileira, está dito em uma carta em seu site (http://www.olavodecarvalho.org/) que ele está nos EUA com a missão (auto imposta) de finalizar um livro e de informar a intelectualidade política norte-americana de que eles, os americanos, estão agindo erroneamente em relação ao Brasil, por estarem sendo ativamente desinformados por ONGs políticas e jornalísticas brasileiras sobre o que se passa no país (as mesmas desinformações, aliás, veiculadas para os brasileiros). Estranhei essa sua carta, mas a compreendi apenas como o último suspiro de um brasileiro que alcançou consciência de que fim está levando o país onde nascera e se constituíra como pessoa. Talvez seja mais suportável abandonar o barco patrioticamente do que como um rato fugindo do caos que o afunda.

Mas apesar de tal provável mecanismo pessoal para se adaptar à sua nova condição de desistente da vida brasileira, e de ser mais um refugiado latino-americano nos EUA, Olavo de Carvalho tem observado o Brasil com um realismo ausente em todos os demais "pensadores" brasileiros que têm tido algum espaço na mídia ou no academiscismo.

Olavo de Carvalho vê o Brasil como uma cultura que não chegou a se formar (uma pseudomorfose), tornada ativamente miserável e ignorante para assim poder ser facilmente enganada por seus desvairados líderes populistas, que mais são quadrilhas de "psicopatas", como o PT e o PSDB de FHC, do que possibilidades de lideranças reais. E tudo isso em um cenário de degradação moral crescente e vertiginosa, fora de controle, e sem a mínima possibilidade de reversão, já que a população brasileira não tem a capacidade de aceitar ou formar elites que não sejam rapidamente amorais e suicidas.

Mais especificamente, o inimigo de momento de Olavo tornou-se o Partido dos Trabalhadores, que, juntamente com desvairados esquerdismos latino-americanos, como o de Evo Morales e de Hugo Chavez, (todos reunidos no, perigoso e censurado de ser discutido na mídia brasileira, Fórum de São Paulo), têm sido negligenciados pelas elites políticas, econômicas e militares norte-americanas. Ao contrário, as elites norte-americanas estariam mesmo apoiando economicamente estes “moderados” esquerdismos latinos (na crença de assim evitarem esquerdismos mais radicais), por não saberem que eles se transformaram em quadrilhas dispostas a qualquer tipo de atrocidades (já que têm como refém a população de seus países) para chegarem ao poder e tentarem materializar suas utopias comunistas ou suas sociopatias pessoais. Ou seja, na visão de Olavo, os membros do Fórum de São Paulo estão se organizando e agindo criminosamente para serem a nova geração de golpistas latino-amaricanos, as novas ditaduras genocídas que assolarão a América Latina nesta primeira metade de século XXI.

Sinceramente, pelo que já vi pessoalmente, e pelo que descreve e denuncia Olavo de Carvalho, não duvido que o PT e os demais “esquerdismos” latino-americanos estejam nesse caminho. Pelo menos tentando-o; e até agora de modo bastante exitoso. Como acredito que o Brasil está apressadamente caminhando para uma guerra de grupos desvairados contra grupos desvairados, por poder, e baseado em premissas muito fantasiosas (evangélicas, comunistas, humanistas, do “salve-se quem puder”, etc.), é possível, caso o PT tenha êxito em se perpetuar no poder, que seja ele, ou desmenbramentos futuros dele, que venha, após algum tempo de “democracia”, a ser o próximo grupo de ditadores brasileiros a tentar "salvar" o Brasil do caos. Se não for o PT, contudo, outro grupo a fazer o mesmo será apenas uma questão de tempo para se formar ou para emergir publicamente. E, a meu ver, para os que ficarem no Brasil, nesse resto de nação, será apenas uma questão de adesão ou aceitação, por falta de opção, ao que for menos pior, dentre estes ensandecidos grupos que transitoriamente ocuparão o falso trono de donos da carniça. Inicialmente todos surgirão como salvadores; depois, salve-se quem puder!... Como, aliás, já é.

Nesse tiroteio (literalmente), o brasileiro típico está afundado em um mar de lama tão profundo que não consegue ter mínima noção do que é real e do que é mentira midiática, quase todas para fins de marketing político e eleitoral; ou mentiras intelectuais vinda de suas messiânicas elites; todas se entrelaçando em debates bastante opiniáticos e apaixonados na defesa de pontos de vista irreais, sem a mínima capacidade de debater realisticamente o que está em jogo em eleições e na condução política do país.

Segundo Olavo, o Brasil hoje é apenas uma ficção jurídica internacional, um acumulado de 190 milhões de pessoas imbecilizadas, cuja convivência vai se deteriorando, se tornando insuportável, em decorrência da ausência de valores morais e de mecanismos institucionais que garantam uma razoável continuidade deste elefante branco. O que resultará, em algumas décadas, na fragmentação do país: a divisão de seu território em pequenas administrações regionais, seja a cargo de algum outro país ou instituição internacional (como a ONU), ou de grupos locais que organizem governos improvisados e sociopatas, semelhantes ás guerras tribais geridas por líderes psicopatas ou messiânicos que se tornaram o "day after day" do continente africano. Assim sucumbe um povo quase-nação...

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Leonardo André
 

Então, Tomazio, por algum tempo tb entrei nessa do Olavo de Carvalho de achar que o Brasil seria uma grande porcaria e tal. Mas aí, de tanto pensar na situação, de tanto ver e ler as notícias na grande mídia, cheguei a conclusão de que muitas coisas não batiam. Primeiro pq eu tb sou brasileiro e pra espanto do olavismo não me considero um proto-cidadão e, depois, pq onheço outros brasileiros q conheço tb não são. Desisti da grande mídia, por isso estou no Overmundo, inclusive. Mesmo assim, ainda não conseguia ver muito futuro pro Brasil. Realmente, muitos brasileiros não tem noção de respeito pelo próximo. Decidi, então, ir um pouco mais fundo. Na periferia aqui de São Paulo encontrei muita gente capaz e se virando pra melhorar a situação de seus bairros, de seus vizinhos. Por isso, deixei de ler textos do Olavo, pq de nada adianta atravessar o mundo pra atirar pedra em quem preferiu ficar por aqui fazendo coisas melhores (ou pelo menos tentando). Se os EUA é melhor pra ele, q fique por lá. Se ele não tem disposição de mostrar novos caminhos e opções pro povo da terra onde nasceu, q fique lá com os estadunidenses. Gostei do seu texto, porém as análises sobre o Brasil achei um tanto superficiais. Respeito seu ponto de vista, mas não concordo muito não. Abraço!

Leonardo André · São Paulo, SP 7/12/2006 15:30
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Tomazio Aguirre
 

É, Leonardo, infelizmente, a nova cara do "ame-o ou deixo-o" tá nascendo entre os que determinam que o Brasil precisa ser celebrado como é, enquanto piora e se finge que é possível ser diferente mesmo que nada se faça de efetivo para modificar as estruturas do país. É uma pena que a realidade brasileira seja discutida por pretensos intelectuais "alternativos" na base do estilo "torcida de futebol" ou questão de fé: eu torço para o Brasil, então o fulano, que descreve um Brasil que não é otimista, tá falando mal do meu time ou da minha fé, então sou contra ele. E depois vc critica algo chamando de superficial?! Superficial em relação a que, à mesma fé que vc tem? Nesse caso é superficial. Mas vc parece ter feito a sua "escolha", e escolheu a ilusão, pelo menos enquanto der. Boa sorte!

Tomazio Aguirre · Santo André, SP 8/12/2006 07:56
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Tomazio Aguirre
 

É, Leonardo, infelizmente, a nova cara do "ame-o ou deixo-o" tá nascendo entre os que determinam que o Brasil precisa ser celebrado como é, enquanto piora e se finge que é possível ser diferente mesmo que nada se faça de efetivo para modificar as estruturas do país. É uma pena que a realidade brasileira seja discutida por pretensos intelectuais "alternativos" na base do estilo "torcida de futebol" ou questão de fé: eu torço para o Brasil, então o fulano, que descreve um Brasil que não é otimista, tá falando mal do meu time ou da minha fé, então sou contra ele. E depois vc critica algo chamando de superficial?! Superficial em relação a que, à mesma fé que vc tem? Nesse caso é superficial. Mas vc parece ter feito a sua "escolha", e escolheu a ilusão, pelo menos enquanto der. Boa sorte!

Tomazio Aguirre · Santo André, SP 8/12/2006 08:07
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Tomazio Aguirre
 

É, Leonardo, infelizmente, a nova cara do "ame-o ou deixo-o" tá nascendo entre os que determinam que o Brasil precisa ser celebrado como é, enquanto piora e se finge que é possível ser diferente mesmo que nada se faça de efetivo para modificar as estruturas do país. É uma pena que a realidade brasileira seja discutida por pretensos intelectuais "alternativos" na base do estilo "torcida de futebol" ou questão de fé: eu torço para o Brasil, então o fulano, que descreve um Brasil que não é otimista, tá falando mal do meu time ou da minha fé, então sou contra ele. E depois vc critica algo chamando de superficial?! Superficial em relação a que, à mesma fé que vc tem? Nesse caso é superficial. Mas vc parece ter feito a sua "escolha", e escolheu a ilusão, pelo menos enquanto der. Boa sorte!

Tomazio Aguirre · Santo André, SP 8/12/2006 08:09
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Leonardo André
 

Tamazio, não é questão de ser otimista ou pessimista, de ame ou deixe o Brasil. Também não acho q o Brasil esteja mil maravilhas. A questão é deixar de ser chorão e achar q td está perdido e largar mão de vez. Se tá ruim, então vamos fazer alguma coisa e não fazer como o Olavo q saiu correndo daqui. Se ele acha tão ruim, pq não foi dar aula no ensino médio na periferia de São Paulo pra fazer a parte dele? Não, ele acho melhor ir pra mickeylândia e, de lá, fazer críticas generalizadas. A impressão q fiquei do seu texto, é q vc enveredou pelo mesmo caminho. A diferença é q Olavo tem muita competência na construção de textos o q lhe dá poder argumentativo. Quando eu digo q sua análise sobre Brasil é um pouco superficial é por uma simples razão. Por exemplo, tente explicar umpouco melhor esse parágrafo q vc escreveu:

"A maioria dos niilistas brasileiros, ao contrário dos niilistas pensadores, são niilistas "práticos". Quer dizer, são niilistas de ação, não de introspecção e reflexão. O brasileiro não consegue pensar sobre o estado de coisas que o cerca. Assim, no Brasil, só existe o niilismo não-pensado, do sujeito que deixa de ter uma inserção real em uma cultura que lhe dê sentidos e valores coletivos, tornando-se um sujeito auto-centrado, tendo como único destino para sua vida a sobrevivência imediata e a busca de prazer, às vezes com tentativas desvairadas de tentar reconstruir um mundo dotado de sentido (geralmente por meio de religiões ou ideologias intelectuais)."

Quem será q se apegou mais à uma ideologia? Eu ou vc?

Leonardo André · São Paulo, SP 8/12/2006 08:26
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Tomazio Aguirre
 

Leonardo, esse trecho apenas dá uma breve explicação sobre os brasileiros que se lançam no tudo ou nada do poder imediato, tipo grandes traficantes. Leia qualquer entrevista do Marcola, e vc talvez entenda a existência desse tipo de pessoa. Embora eu ache pouco provável que vc entenda isso... Se vc entendesse, seria dfícil vc acreditar que alguém dar aula na "periferia" faria alguma diferença para a situação da sociedade brasileira.
Vc acredita nisso e isso encerra qualquer possibilidade de vc perceber algo diferente, independentemente de qualquer argumentação. Argumentação pra vc tem carátr apenas retórico, e o que importa numa conversa ou texto são seus valores morais serem expressos e defendidos. Argumentar com pessoas como vc é inútil, do mesmo modo que seria dar aulas na periferia. Com pessoas esquerdistas ou humanistas (pessoas morais, e não pensadores capazes de pensar logicamente a realidade - e isso não é defeito, apenas característica) só é possível concordar ou discordar, como vc está fazendo com o texto que vc leu, usando uma aparente argumentação pra justificar a discordância moral. Argumentar mesmo vc não argumenta.
Aqui vc pode dizer que não há espaço pra argumentar, então tente no seu blog, desconstrua argumentativamente o meu texto. Mostre que eu estou errado de maneira lógica, num texto longo e analítico. Descontrua vc a argumentação do texto, já que vc é um bom racionalista argumentador, no lugar de só dizer, à distância, que não faz sentido. Vc acabou sendo um bom modo de eu mostrar a quem não entendeu o texto, mas pode vir a entendê-lo, porque a intelectualidade brasileira, em termos racionalistas, é uma fraude: porque são apenas ideólogos, pensadores morais, nos quais as crenças determinam as idéias; e como precisam, moralmente, acreditarem em suas ilusões, pra continuarem vivos e com suas vidas fazendo sentido, não podem "pensar" sem dissociar seu pensamento da realidade.
É por essas coisas que é inútil dar aulas na periferia, a não ser aulas que ensinem mais religião do que razão (pensamento lógico sobre a realidade). O brasileiro não suporta pensar sobre sua realidade, porque essa depõe radicalmente contra seus sonhos e esperanças; de modo que ele apenas pode ter fé de que sua realidade é viável ou é passível de se tornar viável de acordo com a sua intervenção humanista (como vc acredita).
Alias, esse é um dos motivos que não dá pra ser filósofo de verdade no Brasil; se nós dois estivéssemos tendo um debate diante de uma platéia, a platéia brasileira o ovacionaria, como faz com os jogadores de futebol ou "artistas" que admira, por uma questão de fé, por vc estar sendo moralmente "bom", falando em favor dos coitadinhos que vc acha que pode salvar e do Brasil que é viável - o mesmo motivo de o brasileiro ter gostado da ditadura militar, já que está vendia o sonho do Brasil, país do futuro. E eu logo estaria sendo visto como "demônio", o mal caráter que não tem solidariedade para com os milhões de brasileiros que estão se fodendo. Mas de qualquer modo, vá fundo; o Brasil real é o seu, no qual vc faz parte, embora não consiga pensá-lo.

Tomazio Aguirre · Santo André, SP 8/12/2006 10:27
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Leonardo André
 

Quando vc diz q o brasileiro não suporta pensar sobre sua realidade, porque essa depõe radicalmente contra seus sonhos e esperanças, de q brasileiros vc está falando? Vc acredita em algum tipo de intervenção? Vc já teve contato com algum desses "coitadinhos"? Em q momento vc acredita q o ser humano deixa de ser ideólogo e moralista? Vc não tem nenhuma crença? E por último, o q vc pensa sobre a Educação?
Veja, faço as perguntas não como provocação, mas para tentar compreendê-lo melhor, afinal é pelo diálogo q estou nesse site.Se não quiser responder nesse espaço, vc teria textos q clareassem essas questões? Além disso, asseguro q lerei outros textos seus. E não se preocupe, não desconstruirei seus escritos, pq não é essa a intenção do Blog.

Leonardo André · São Paulo, SP 8/12/2006 11:13
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Tomazio Aguirre
 

A intenção com que coloco alguns textos para divulgação na net é para que mais pessoas como eu, que têem uma concepção de mundo niilista (o que às vezes dá para ser entendido como pós-moderna, embora de um jeito mais simplificado), possam encontrar textos em que esta concepção de mundo foi colocada em palavras, com razoável capacidade de serem entendidas por outras pessoas predispostas. Aqui no overmundo, pelo que já observei em muitas pessoas que escrevem, é um lugar em que se reuniram pessoas que têm certa capacidade de crítica sobre o que as cerca, mas somente fazendo tais críticas mantendo a sua visão de mundo racionalista moderna, na qual se acredita que, com a união de valores humanistas (quaisquer que sejam eles, mas atualmente no Brasil predomina uma certa e estranha mistura de marxismo com cristianismo católico, apesar destes termos serem negados) aos quais é acrescido a crença no pensamento racionalista crítico, como capaz de alcançar verdades e de orientar as ações das pessoas. A pirtir disso, se crê que seja possível intervir na realidade para modificá-la, alterando-a para o que se imagina que seja emancipador da humanidade, ou de segmentos dela.
O motivo de eu ter dito que vc fazia críticas sem entender os textos, apenas por motivos morais, é este, de que vc não se dispõe a entender que as pessoas pensam dentro de suas próprias cosmoviões, atacando cosmovisões diferentes por não suportarem perceberem que a sua não é a única. Quanto a descontruir os textos, se vc tentatesse, pelo menos vc estaria fazendo um esforço para entender aquilo que aprioristicamente vc não tem disposição moral de fazer. É claro que vc ainda tem mais disposição pra entender o que é ontologicamente diferente de vc do que a maioria dessas pessoas do Overmundo, talvez por já ter lido Olavo de Carvalho, que tb é (ou foi) um pensador niilista, ou por ser uma pessoa que tem seus momentos de percepção de que suas crenças racionalistas e humanistas no ser humano não fazem mais muito sentido para a sua vida.
Já trabalhei e ainda trabalho com gente muito pobre e muito sofrida. Ainda me solidarizo muito com a miséria desse país, e ainda queria que fosse diferente. Moralmente ainda sou nacionalista e cristão, mesmo que não goste, racionalmente, desse valores, mas foram esses que me fizeram ser quem eu sou. Já fui militante de causas sociais, com emvolvimento com partidos de esquerda.
O povo brasileiro, a quase totalidade dos brasileiros, é apenas gente que adere rapidamente a qualquer tipo de messianismo, de líderes que lhes prometem o irreal e utópico, para que eles possom sonhar com o que não conseguem ter em realidade - e mesmo ao contrário, com aquilo que estão rapidamente perdendo. Não me identifico com a visão de mundo de Olavo de Carvalho, já que ele tornou-se um ideólogo cristão fundamentalista, em termos ontológicos e morais. Mas acredito que seja bem verídico o que ele diz sobre a publicação de livros no Brasil, por exemplo, de que existe uma censura moral em relação ao que se publica ou não, de modo que bons textos liberais e conservadores não chegam ao leitor que lê apenas português - e digo bons não no sentido de que estes textos tragam verdades sobre o ser humano ou sobre as sociedades atuais, mas que trazem pensamentos divergentes do humanismo e das visões de mundo que têm predominado no alienado academicismo brasileiro.
Na intenet tenho colocado apenas textos curtos no http://desacocheiodessepais.blogspot.com/.

Tomazio Aguirre · Santo André, SP 10/12/2006 20:20
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