A Companhia Teatral Zecora Ura Theatre ( www.zecoraura.com - uma parceria sustentável entre artistas e técnicos do Brasil e do Reino Unido) convida a imprensa, críticos, artistas, produtores e público em geral do Rio de Janeiro para assistirem ao processo da obra HOTEL MEDEA - 3 performances da meia-noite ao amanhecer ( www.medea.tv ), nos dias 8 e 9 de fevereiro, no Centro Popular de Conspiração GARGARULLO ( www.gargarullo.com ), na cidade serrana de Miguel Pereira/RJ – situada a duas horas da capital carioca.
O objetivo das apresentações, além de aquecer o espetáculo para a estréia na Europa, é expor o processo em fase de acabamento ao público convidado e interessado em contribuir com articulações práticas e crítico-reflexivas para a finalização e jornada de vida de Hotel Medea. O projeto conta com a parceria entre o Festival Internacional de Salisbury (Inglaterra), o renomado Teatro Aurora Nova (Escócia) e o CPC Gargarullo (Rio de Janeiro).
Vivendo a preparação para a turnê mundial agendada para iniciar em agosto, a Cia. Zecora Ura Theatre está instalada há 1 mês em Miguel Pereira – no CPC Gargarullo –, depois de um processo longo e intenso de visitas, treinamentos e seleção de elenco e equipe técnica, a partir de encontros e oficinas acontecidos nas cidades de Campinas/SP, Miguel Pereira/RJ, São Luís/MA, e pelo estado de Pernambuco. Assim, o espetáculo é composto por um grupo heterogêneo de naturezas, culturas e experiências cênicas. "Hotel Medea é o ponto médio entre a terra natal e o exílio. Nosso novo projeto reflete o próximo passo na releitura da identidade brasileira aos olhos do estrangeiro", explica o diretor do espetáculo e membro-fundador da Cia., o brasileiro residente em Londres, Jorge Lopes Ramos.
Além de Jorge, o coletivo de criação de Hotel Medea é formado pelo ator, diretor e aderecista Urias de Oliveira (da Cia. Tapete, Criações Cênicas , São Luís/MA); pela atriz, performer e preparadora psicofísica Jade Maravala (Cia. Para-Active, de Londres, www.para-active.com ), e conta ainda com o premiado e multi-gênero Dj Dolores (Sergipe/Pernambuco) na composição da trilha sonora. Do elenco fazem parte atores e atrizes do Brasil, Reino Unido, Nigéria e Yemen.
Baseado no mito grego de Medéia, a montagem da Cia. Zecora Ura divide-se em 3 capítulos, e apresentará os processos do capítulo 1, Mercado da Zero Hora, e do capítulo 3, Banquete do Amanhecer. As adaptações envolvem universos urbanos e tradicionais das raízes culturais presentes no trabalho (africanas, indígenas e européias), relendo elementos como o Boi do Maranhão e o Cavalo Marinho, as danças e os ritos afro-brasileiros sem perderem o laço contemporâneo com as tecnologias, as idéias e as situações globais que caracterizam este ambiente provável de junção e fluência entre idiomas, comportamentos e experiências, em torno dos arquétipos da lenda de Medéia.
Nas entrevistas abaixo, o diretor Jorge Lopes Ramos, o ator brasileiro Flávio Rabelo e a atriz inglesa Lisa Lapidge lançam mais detalhes sobre o provocante e articulado Hotel Medea, do processo ao futuro da obra.
(Entrevistas respondidas nos dias 04 e 05.02.08)
Jorge Lopes Ramos
.O que é a Cia. Zecora Ura Theatre?
Jorge_ É um ponto de encontro internacional para a colaboração multidisciplinar, usando o teatro como linguagem.
. Qual foi o ponto de partida do projeto Hotel Medea; como surgiu a idéia?
Jorge_ Foi uma reação contra o comodismo da fábrica londrina de entretenimento, prática que se espalha pelas capitais urbanas.
. Por que a escolha de Miguel Pereira/RJ como o lugar de acolhimento do processo?
Jorge_ Mais do que simplesmente Miguel Pereira, o Centro Popular de Conspiração GARGARULLO, na região serrana do Rio, vem se comprometendo desde 2004 com apoio integral aos projetos de pesquisa teatral no Brasil. O GARGARULLO nos oferece um abrigo ideal para os nossos encontros internacionais de criação, investigação e debate artístico.
. Quais têm sido as conquistas e os desafios encontrados no processo de preparação dos atores e montagem, tendo em vista as dimensões multiétnica, multicultural e multiterritorial do projeto?
Jorge_ Como uma das mais valiosas conquistas, vale lembrar como é engrandecedor ser surpreendido a cada dia por outros pontos de vista, e os desafios são o caminho para as conquistas.
. Pensando na mistura de arquétipos/estereótipos mitológicos, tradicionais e contemporâneos encontrados no espetáculo, qual é o foco de Hotel Medea?
Jorge_ A complexidade da identidade brasileira é um foco constante de questões a serem trabalhadas na sala de ensaio e treinamento. As dualidades mitológicas também oferecem uma linguagem interessante que o espetáculo aborda constantemente.
. O que serão as "apresentações em processo" dos dias 8 e 9 de fevereiro?
Jorge_ Um espaço para se espiar provocações de nosso processo.
. Vocês têm uma temporada de 3 meses pela Europa agendada para iniciar em agosto deste ano. Já estão com apoio fechado para a viagem?
Jorge_ Necessitamos de todo o apoio que pudermos. A embaixada do Brasil em Londres tem ajudado muito, mas estamos correndo contra o relógio para fechar a tempo todo o apoio necessário.
. Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Jorge_ ESTAMOS ABERTOS A PROPOSTAS ARTÍSTICAS E PROVOCAÇÕES.
Flávio Rabelo
. De qual/quais oficina/s você participou antes do encontro com o grupo definitivo em Miguel Pereira? Como foi a experiência?
Flávio_ Conheci o trabalho de Jorge e Jade em outro projeto de treinamento intensivo e de cooperação criativa chamado Drift, em dezembro de 2006, aqui no Gargarullo. Me parece que Hotel Medea surgiu em decorrência desta experiência deles no Drift. E fiz a oficina para Hotel Medea em Campinas/SP, no Lume ( www.lumeteatro.com.br ), e o intensivo aqui no Gargarullo, ambos em setembro do ano passado.
Talvez uma boa imagem para descrever a experiência seja uma jornada coletiva por um lugar perigoso, como a beira de um abismo, numa noite sem lua. Requer, entre muitos estados, atenção, sensibilidade, inteligência e coragem. E nem sempre é simples acessar estas qualidades, então estamos sempre próximos de nossos limites, e isto vale tanto para as questões mais abstratas e conceituais, filosóficas e políticas, como as mais concretas e físicas. Mas o mais interessante é que, como há muita generosidade na condução, e tudo se dá no coletivo, este abismo escuro é muito atraente e sedutor. Sempre estamos transitando por opostos, por lugares de co-existência, onde, por exemplo, dor e prazer podem se misturar e onde somos suscitados a administrar questões como disciplina e espontaneidade, indivíduo e coletivo.
. Quais têm sido as conquistas e os desafios que você tem encontrado, tendo em vista as dimensões multiétnica, multicultural e multiterritorial do projeto?
Flávio_ Quando penso nos desafios e conquistas, a primeira imagem que tenho é a do meu próprio corpo e dos outros atores envolvidos; é por este território que começamos o trabalho, e é nele que estão os princípios de todos os desafios e conquistas: o vazio entre os corpos performadores. É um trabalho de muita escuta e abertura, um processo muito cuidadoso e gratificante.
. Na sua opinião, qual é o foco de Hotel Medea?
Flávio_ Do ponto de vista bem pessoal, um dos focos que me interessa destacar deste grande “hotel multicultural” é a arte como um lugar possível de cooperação e agenciamento coletivo de nossas capacidades criativas.
. Quem é/são a/s personagem/ns interpretadas por você? Como está sendo construi-la/s?
Flávio_ Temos um treinamento intensivo, realizado em parceria entre o Urias e a Jade, direcionado para a construção da corporeidade que o espetáculo precisa. Não trabalhamos com a noção de personagem, pelo menos, não dentro do senso comum da personagem construída em bases psicológicas de um teatro mais tradicional. Estamos mais perto, ou pelo menos na busca, do corpo brincante dos ritos da tradição popular ou do corpo do performer, das manifestações mais contemporâneas das artes cênicas. O Urias trabalha na transmissão desta energia brincante através dos ritmos e figuras do Boi do Maranhão e das danças dos orixás; e Jade realiza um trabalho voltado para respiração, voz, ritmo e construção de partituras físicas. É um trabalho que requer muito tempo, ainda estamos em processo, ainda estamos construindo.
. Que novidades e impactos sobre a cultura e as artes cênicas dos outros países envolvidos o projeto Hotel Medea te trouxe?
Flávio_ Acho que ainda é muito cedo para falar sobre isto.
. Quais as suas expectativas para a apresentação do processo nos dias 8 e 9 de fevereiro? E para a temporada de estréia na Europa? FR_ Na nossa estrutura cênica, a presença da platéia é determinante na construção do acontecimento, já que estamos nos colocando dentro da perspectiva do rito, da brincadeira, da performance e não do teatro ou da representação do mito de Medea. Estas apresentações do dias 8 e 9 são de grande importância para o nosso processo de criação. A partir delas teremos as primeiras impressões sobre o que estamos construindo, e poderemos continuar nossa preparação para a estréia na temporada na Europa. Quanto a esta viagem, existem muitas expectativas, principalmente porque ainda estamos em fase de fechamento dos apoios financeiros para que ela aconteça. Somos seis atores brasileiros, de estados diferentes, e precisaremos passar de 3 a 5 meses fora, entre períodos de preparação e temporada, num lugar onde o custo financeiro diário é muito superior ao que temos aqui no Brasil. Acho uma boa oportunidade, inclusive, para divulgar que estamos mesmo precisando de parcerias, apoios e/ou financiamentos para que a ida dos artistas brasileiros envolvidos seja possível.
Lisa Lapidge
. De quais oficinas você participou antes do encontro com o grupo definitivo em Miguel Pereira? Como foi a experiência?Lisa_ Eu participei de várias oficinas relacionadas ao Hotel Medea no Reino Unido, na França e no Brasil. Minhas experiências foram sempre únicas, cheias de confrontamentos e recompensas.
. Quais têm sido as conquistas e os desafios que você tem encontrado, tendo em vista as dimensões multiétnica, multicultural e multiterritorial do projeto?
Lisa_ Não estou segura de que algo tenha sido definitivamente conquistado, talvez conquistas ocorreram em instantes passageiros. Há muitos desafios, alguns relacionados a momentos específicos e outros recorrentes. Já é um desafio simplesmente ser quem você é, no momento e espaço presentes, sem estar atuando. Quanto ao aspecto multiétnico, cultural e territorial do projeto, um desafio recorrente é a idéia de que as diferenças representam de alguma forma uma barreira, e isso de fato acontece, (a tradução utilizada em alguns momentos desacelera o processo e impede o fluxo do trabalho, lugares estranhos podem apresentar efeito inibidor e desestabilizador, o aprendizado de novas músicas/ações/danças, etc., pode ser difícil), mas tudo isso faz parte de uma escolha que fizemos. O que acontece então quando eu decido encarar esses aspectos de maneira diferente, rejeitando assumi-los como barreiras? Desta forma não os vejo tão mais como desafios, mas sim como oportunidades para atingir um campo comum, a essência da experiência, interação e condição humana, – tanto no reconhecimento das diferenças, trabalhando em seu favor ou contra estas, ou rompê-las para chegar no que está por trás da etnia, cultura e do território.
. Na sua opinião, qual é o foco de HOTEL MEDEA?
Lisa_ Para mim há muitos temas que permeiam o mito de Medeia e o que contamos por meio do Hotel Medea. Os temas com os quais mais me identifico são a representação feminina, o impacto da perda, a natureza amorosa em suas extremidades, a sombra e a luz, o prazer e a dor, o êxtase e a fúria, a experiência do estrangeiro, o conflito entre a vida humana regida pela fatalidade do destino e a autodeterminação dos indivíduos, o que tudo isso significa para todos nós em todos os aspectos de nossas vidas.
Hotel Medea também foca a relação entre ator e público. Busca momentos de contato real, de impacto, procurando por um ato teatral vivo que fale ao seu público no agora.
. Quem são as personagens interpretadas por você? Como foi construi-las?
Lisa_ Eu interpreto vários papéis no decorrer do espetáculo e o meu processo não busca criar personagens naturalistas e nem caricaturas ou maneirismos. Busco por algo que sirva à história, que faça uma conexão com o público, algo que me dispa mais do que se adicione ou se construa sobre mim, algo que seja honesto confrontante e verdadeiro.
O treino vocal e corporal é uma parte importante do nosso processo e nos fornece uma base sólida sobre a qual criamos, imaginamos e descobrimos momentos/elementos/ações que possam ser utilizadas em Hotel Medea. Estou arranhando a superfície do trabalho que é requerido para chegar ao momento em que o público se depara com o espetáculo. E, na verdade, esse trabalho não termina aí, é algo contínuo.
. Que novidades e impactos sobre a cultura e as artes cênicas brasileiras o projeto Hotel Medea te trouxe?
Lisa_ Creio que aspectos da cultura brasileira tiveram um nítido e definitivo impacto na forma e conteúdo da produção e dos atores. Nos inspiramos em muitas fontes da cultura brasileira. Eu me sinto muito privilegiada por estar aprendendo, ainda mais por meio da experiência, uma cultura distinta da minha. Isso só pode servir para expandir a minha visão do mundo, me conscientizando de suas diferenças, suas complexidades, universalidades, assim como para me ensinar a demonstrar empatia pelas coisas e a questionar o meu lugar nesse mundo.
. Quais são as suas expectativas para a apresentação do processo nos dias 8 e 9 de fevereiro? E para a temporada de estréia na Europa?
Lisa_ Eu espero que a apresentação tenha impacto, que permaneça na lembrança das pessoas, que intrigue e faça coçar as cabeças e entranhas do público. No entanto, ter esperança não é o bastante. O resultado virá de um duro trabalho e do deixar esse trabalho transparecer quase que para além de nós mesmos. As idéias, a história, o trabalho são todos maiores do que eu e são eles que importam. Minha expectativa é que eu nunca esteja satisfeita e que essa falta de satisfação crie uma espécie de desejo, de motivação capaz de deslocar o Hotel Medeia dos domínios do teatro comum e conduzi-lo a tudo que o teatro possa ser para nós mesmos enquanto atores e para o nosso público enquanto receptores do nosso trabalho.
. Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Lisa_ Apenas gostaria de dizer que não acreditem em minhas palavras, mas sim que experimentem vocês mesmos, que decidam vocês mesmos e que pensem vocês mesmos.
Será interessante que outras pessoas com algum vínculo no teatro, (não se dispensando o espectador), venham fazer mais intervensões postar mais coisa sobre teatro aqui no Over.
O nosso teatro (como de resto em qualquer parte) refle comparativamente seu estágio com o estagio (estado)_ da mesma sociedade. Nossa nacionalidade capenga, o teatro cachinga.
Muito boa materia e feliz intervensão,
abraço, andre.
Estou com Andre Pessego, vale voltar depois das apresentações na linda Miguel Pereira, RJ para um relato do que aconteceu.E sempre postar assuntos de Teatro que falta por aqui no Over.
Sucesso.
Obrigada, Andre e Cintia, pelos comentários. Certamente, retornarei com o projeto Hotel Medea aqui no Overmundo. :)
abraços
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